{"id":20077,"date":"2015-11-10T11:50:15","date_gmt":"2015-11-10T11:50:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=202634"},"modified":"2015-11-10T11:50:15","modified_gmt":"2015-11-10T11:50:15","slug":"a-luta-de-orfaos-atormentados-e-deprimidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/11\/ultimas-noticias\/a-luta-de-orfaos-atormentados-e-deprimidos\/","title":{"rendered":"A luta de \u00f3rf\u00e3os atormentados e deprimidos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_202635\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/nepal-629x420.jpg\"><img class=\"wp-image-202635\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/nepal-629x420.jpg\" alt=\"Meninas e meninos comendo, em um dos maiores orfanatos da Caxemira. Foto: Umer Asif\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Meninas e meninos comendo, em um dos maiores orfanatos da Caxemira. Foto: Umer Asif\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Umar Shah, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Srinagar, \u00cdndia, 10\/11\/2015 \u2013 Em uma sala de aula lotada dessa capital da prov\u00edncia indiana de Jammu e Caxemira, Sahil Majeed se esfor\u00e7a para copiar em seu caderno o que a professora escreve no quadro negro. O adolescente vive em um orfanato desde que seu pai desapareceu e sua m\u00e3e n\u00e3o p\u00f4de enfrentar o custo de seus estudos.<\/p>\n<p>Cada vez que lembra do desaparecimento de seu pai, sua voz treme e cenho fica franzido. Ele tinha sete anos quando o ex\u00e9rcito da Caxemira o levou. \u201cEstava dormindo, \u00e0 noite, quando invadiram nossa casa. Levaram meu pai e depois n\u00e3o tivemos mais not\u00edcias\u201d, contou o menino de 13 anos.<\/p>\n<p>Sahil tem duas irm\u00e3s mais novas e uma m\u00e3e meio vi\u00fava, que busca seu marido, sem sorte, por todo lado. \u201cTenho saudades das minhas irm\u00e3s. H\u00e1 tr\u00eas meses que n\u00e3o as vejo. Quero fugir desse lugar, mas logo me dou conta de que n\u00e3o tenho para onde ir\u201d, lamentou o rapaz. Os funcion\u00e1rios do orfanato disseram que \u00e0s vezes Sahil fica agressivo e come\u00e7a a gritar alto. Durante os exames m\u00e9dicos de rotina do ano passado, foi diagnosticado com depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Hasib tem 12 anos e tinha oito quando soube que seu pai, um ativista, havia sido assassinado na zona de Baramulla, norte dessa prov\u00edncia indiana. Sua m\u00e3e o enviou para o orfanato porque tamb\u00e9m n\u00e3o podia custear sua educa\u00e7\u00e3o. Cada vez que pode visitar sua fam\u00edlia, ele se nega a voltar \u00e0 institui\u00e7\u00e3o. \u201cChora sempre que volta. Tentamos acalm\u00e1-lo, mas fica com raiva e come\u00e7a a destruir seus livros\u201d, contou Asif, tamb\u00e9m interno. Para Hasib, seu lar \u00e9 tudo. \u201cQuero viver como as outras crian\u00e7as do meu bairro. Quero minha m\u00e3e o tempo todo\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A insurg\u00eancia armada, que eclodiu nesta regi\u00e3o em 1989, teve consequ\u00eancias devastadoras na vida cotidiana da popula\u00e7\u00e3o da Caxemira. Os ativistas reclamavam a separa\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o da \u00cdndia e defendiam a independ\u00eancia da regi\u00e3o ou sua incorpora\u00e7\u00e3o ao vizinho Paquist\u00e3o. A partir desse ano, o governo aumentou significativamente o n\u00famero de soldados na Caxemira para erradicar a insurg\u00eancia. A vasta presen\u00e7a do ex\u00e9rcito derivou em cruenta guerra com graves consequ\u00eancias: as estimativas variam entre 40 mil e cem mil pessoas assassinadas.<\/p>\n<p>Um estudo da organiza\u00e7\u00e3o Save the Children, com sede em Londres, afirma que, em 2014, havia cerca de 215 mil crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s em Jammu e Caxemira, 15% delas vivendo em orfanatos. Al\u00e9m disso, 37% delas perderam um ou os dois pais devido ao conflito, 55% por causas de morte natural e os restantes 8% por outras raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Um estudo da <em>Ijepr<\/em>, revista m\u00e9dica de pesquisa em psicologia e educa\u00e7\u00e3o, concluiu que mais de 26% dos \u00f3rf\u00e3os mostram elevado grau de depress\u00e3o, e 46% apresentam grau m\u00e9dio. \u201cA guerra, o medo, a morte e a destrui\u00e7\u00e3o causaram estragos na sa\u00fade mental dos \u00f3rf\u00e3os da Caxemira\u201d, indica o informe.<\/p>\n<p>Outra pesquisa, do departamento de educa\u00e7\u00e3o da Universidade da Caxemira, revela que os \u00f3rf\u00e3os com idades entre zero e 14 vivem em um estado de depress\u00e3o e tristeza. Al\u00e9m disso, um estudo do Instituto de Assuntos de Jammu e Caxemira concluiu que 57,3% dos \u00f3rf\u00e3os da regi\u00e3o eram temerosos, 53,3% sofriam depress\u00e3o e 54,25% tinham problemas para dormir.<\/p>\n<p>O reconhecido soci\u00f3logo da Caxemira, Bashir Ahmad Dabla, fez um estudo com 300 \u00f3rf\u00e3os e concluiu que 48% sofreram dificuldades econ\u00f4micas depois da morte do pai. Mais de 13% disseram n\u00e3o receber amor nem afeto e 22% experimentaram retrocessos psicol\u00f3gicos. Essa pesquisa tamb\u00e9m revelou que 86 dos 300 \u00f3rf\u00e3os recebiam apoio econ\u00f4mico de familiares, 67 do governo, 36 de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais e 24 de outras fontes, como vizinhos e benfeitores. Mas os restantes 87 n\u00e3o recebiam nenhum tipo de ajuda.<\/p>\n<p>Jameel Ahmad, de 15 anos, disse que o orfanato \u00e9 como uma pris\u00e3o para ele. Seu pai morreu h\u00e1 cinco anos, ao pisar em uma mina em seu povoado, colocada pelo ex\u00e9rcito na \u00e1rea onde ele trabalhava como agricultor. \u201cSinto saudades dele, sempre sonho com ele. Quero ir embora para minha casa\u201d, pediu Jameel. Depois da morte de seu pai, sua m\u00e3e ficou sem dinheiro e teve que deix\u00e1-lo no orfanato. \u201cAqui tenho amigos e brinco com eles, mas quero ir para casa. Quero estar com minha m\u00e3e\u201d, acrescentou, sem sinais de autocompaix\u00e3o.<\/p>\n<p>In\u00fameros estudos atribuem aos orfanatos os problemas psicol\u00f3gicos dos internos, assegurou o psiquiatra Arshid Hussain, pois n\u00e3o s\u00e3o capazes de atender as necessidades emocionais dos internos. \u201cEssas crian\u00e7as estariam melhor com suas fam\u00edlias do que internadas\u201d, afirmou. H\u00e1 um grande n\u00famero de menores que ter\u00e3o a sorte de serem adotados e n\u00e3o seria bom eliminar os orfanatos. \u201cMas creio que devemos pensar em estruturas alternativas, em lugar de continuar com as existentes\u201d, sugeriu.<\/p>\n<p>O psiquiatra Mushtaq Margoob realizou, este ano, um estudo nos orfanatos da Caxemira e concluiu que quase 41% dos internos sofriam de estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico e um quarto dos casos apresentava transtorno depressivo maior. \u201cAs crian\u00e7as da Caxemira s\u00e3o emocionalmente vulner\u00e1veis. A perda de um pai as exp\u00f5em a uma grande perturba\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica que, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m deriva em tend\u00eancias criminosas\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>Esse psiquiatra tamb\u00e9m explicou que os problemas mais comuns enfrentados pelos internos nos orfanatos \u00e9 que sofrem a perda do lar, dos pais e de outros familiares. Al\u00e9m disso, h\u00e1 abandono escolar, falta de aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica adequada, dificuldades com a imuniza\u00e7\u00e3o, decad\u00eancia social, trabalho infantil e abuso de drogas.<\/p>\n<p>Por sua vez, o professor e psic\u00f3logo infantil A. G. Madhoosh afirmou que os \u00f3rf\u00e3os institucionalizados da Caxemira perdem sua individualidade e sua confian\u00e7a. Segundo ele, o estigma social de viver em um orfanato se soma ao estresse que j\u00e1 sofrem pela perda de um ou dos dois pais. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Umar Shah, da IPS &ndash;&nbsp; Srinagar, &Iacute;ndia, 10\/11\/2015 &ndash; Em uma sala de aula lotada dessa capital da prov&iacute;ncia indiana de Jammu e Caxemira, Sahil Majeed se esfor&ccedil;a para copiar em seu caderno o que a professora escreve no quadro negro. 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