{"id":2008,"date":"2006-10-06T00:00:00","date_gmt":"2006-10-06T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2008"},"modified":"2006-10-06T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-06T00:00:00","slug":"ruanda-justia-lenta-para-sobreviventes-de-genocdio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/africa\/ruanda-justia-lenta-para-sobreviventes-de-genocdio\/","title":{"rendered":"Ruanda: Justi&ccedil;a lenta para sobreviventes de genoc&iacute;dio"},"content":{"rendered":"<p>Kigali, 06\/10\/2006 &ndash; O medo e a intimida&ccedil;&atilde;o deixaram lento o processo judicial de reconcilia&ccedil;&atilde;o para os sobreviventes do genoc&iacute;dio de Ruanda, que fez mais de 800 mil v&iacute;timas em 1994. <!--more--> Quatro anos depois que os tribunais populares chamados \u201cgacaca\u201d (\u201cjusti&ccedil;a na grama\u201d, em l&iacute;ngua Kinyaruanda) foram criados para realizar 63 mil julgamentos antes do final de 2007, somente foram dadas senten&ccedil;as em 6.267 casos. O sistema gacaca se baseia nas confiss&otilde;es e nas desculpas p&uacute;blicas dos infratores. O governo transferiu o processo para estes tribunais tradicionais para aliviar a carga sobre o sistema judici&aacute;rio convencional, onde demoraria d&eacute;cadas para os suspeitos serem julgados.Por&eacute;m, tanto sobreviventes quanto magistrados nacionais e internacionais expressaram d&uacute;vidas sobre a capacidade desses tribunais para fazer justi&ccedil;a e conseguir a reconcilia&ccedil;&atilde;o. Organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais que representam os sobreviventes disseram que as testemunhas temem represarias de familiares dos acusados. \u201cV&aacute;rias dezenas de sobreviventes foram assassinados por quererem testemunhar para a defesa nos tribunais gacaca. &Eacute; triste e escandaloso ver que continua existindo a mesma situa&ccedil;&atilde;o\u201d, disse Benoit Kaboyi, secret&aacute;rio-executivo de \u201cIbuka\u201d (\u201cRecorda\u201d), uma das v&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es de v&iacute;timas do massacre.<\/p>\n<p>Charlotte Murebwayire, origin&aacute;ria da localidade de Buhanda, &eacute; uma vi&uacute;va que perdeu cinco filhos no genoc&iacute;dio e que foi humilhada e amea&ccedil;ada de morte por ter testemunhado nos gacaca. \u201cN&atilde;o &eacute; suficiente ficar de boca fechada. Apenas sua exist&ecirc;ncia j&aacute; &eacute; um perigo para n&oacute;s\u201d, dizia uma carta an&ocirc;nima que recebeu certa manh&atilde; em sua casa. Murebwayire vive em uma aldeia constru&iacute;da para vi&uacute;vas e fam&iacute;lias que cuidam de crian&ccedil;as &oacute;rf&atilde;s da guerra de 1994. \u201cPosso imaginar o que poderia me acontecer\u201d, disse, resignada.<\/p>\n<p>Em 1994, membros da minorit&aacute;ria etnia tutsi e hutus moderados foram alvo de sangrentos ataques cometidos por extremistas deste &uacute;ltimo grupo. Os massacres come&ccedil;aram depois que o avi&atilde;o em que viajavam os presidentes Juvenal Habyarimana, da Ruanda, e Sylvestre Ntibantunganya, do Burundi, foi derrubado em Kigali, no dia 6 de abril desse ano. Os ataques duraram tr&ecirc;s meses. \u201cA estrutura social do pa&iacute;s ficou destro&ccedil;ada com a perda de milhares de vidas. Houve pais que mataram seus filhos e vice-versa. Algumas pessoas mataram seus vizinhos\u201d, recordou Domitille Mukantaganzwa, secret&aacute;ria-executiva da autoridade nacional encarregada dos gacaca.<\/p>\n<p>Mukantaganzwa, que redigiu um informe a respeito desses tribunais, divulgado no dia 30 de junho, calcula que as decis&otilde;es dos gacaca foram recusadas em 1.371 casos. Destes, apenas 675 continuam sendo investigados. Al&eacute;m disso, 436 pessoas foram transferidas para uma lista de suspeitos importantes que se presume participaram diretamente do planejamento e da execu&ccedil;&atilde;o do genoc&iacute;dio. \u201cOs principais respons&aacute;veis ser&atilde;o julgados nos tribunais convencionais\u201d, explicou Mukantaganzwa. Ela tamb&eacute;m deu a entender ser prov&aacute;vel que o mandato dos gacaca se estenda depois da data-limite, de final de 2007, especialmente se forem apresentados novos casos que impliquem novos suspeitos.<\/p>\n<p>Depois de uma investiga&ccedil;&atilde;o conjunta realizada em junho por v&aacute;rios advogados, Mukatanganzwa anunciou que mais de 761 mil pessoas poderiam comparecer perante os gacaca. \u201cEste tipo de justi&ccedil;a de reconcilia&ccedil;&atilde;o &eacute; uma etapa importante na erradica&ccedil;&atilde;o da cultura da impunidade. Tamb&eacute;m contribuir&aacute; para acabar com o clima de suspeita e vai permitir que as pessoas voltem a coexistir em paz e harmonia\u201d, acrescentou. Por sua vez, Doe Kalinda, um dos respons&aacute;veis pelo genoc&iacute;dio e que foi libertado provisoriamente ap&oacute;s se arrepender publicamente de seus crimes, considera que os gacaca fomentam uma verdadeira justi&ccedil;a de reconcilia&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\u201cEra dif&iacute;cil acreditar que algu&eacute;m poderia se beneficiar do perd&atilde;o presidencial para este tipo de ato\u201d, afirmou um agricultor da etnia hutu origin&aacute;rio da localidade de Ntongwe e que deseja testemunhar nos gacaca. A organiza&ccedil;&atilde;o Anistia Internacional afirmou em um relat&oacute;rio de 2002 sobre os gacaca que as autoridades de Ruanda devem garantir que estes trbiunais cumpram \u201cos padr&otilde;es internacionais b&aacute;sicos de equidade se querem que seus esfor&ccedil;os para acabar com a impunidade tenham &ecirc;xito\u201d.<\/p>\n<p>Ao permitir que os sobreviventes do genoc&iacute;dio, os acusados e as testemunhas falem sobre seus casos em um ambiente aberto, baseado na participa&ccedil;&atilde;o de todos, os tribunais populares gacaca podem fazer com que Ruanda d&ecirc; um passo importante para \u201ca reconcilia&ccedil;&atilde;o nacional e a resolu&ccedil;&atilde;o da crise carcer&aacute;ria\u201d, destacou a Anistia. Entretanto, \u201cjusti&ccedil;a e reconcilia&ccedil;&atilde;o nacional nunca ser&atilde;o realidade se o governo ruand&ecirc;s n&atilde;o insistir nos padr&otilde;es de equidade nos tribunais gacaca\u201d, acrescentou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kigali, 06\/10\/2006 &ndash; O medo e a intimida&ccedil;&atilde;o deixaram lento o processo judicial de reconcilia&ccedil;&atilde;o para os sobreviventes do genoc&iacute;dio de Ruanda, que fez mais de 800 mil v&iacute;timas em 1994. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/africa\/ruanda-justia-lenta-para-sobreviventes-de-genocdio\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6,11],"tags":[],"class_list":["post-2008","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-direitos-humanos","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2008","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2008"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2008\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2008"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2008"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2008"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}