{"id":20219,"date":"2015-12-15T12:10:55","date_gmt":"2015-12-15T12:10:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=204316"},"modified":"2015-12-15T12:10:55","modified_gmt":"2015-12-15T12:10:55","slug":"sonhos-e-pesadelos-nos-portos-amazonicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/12\/ultimas-noticias\/sonhos-e-pesadelos-nos-portos-amazonicos\/","title":{"rendered":"Sonhos e pesadelos nos portos amaz\u00f4nicos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_204317\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/porto.jpg\"><img class=\"wp-image-204317\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/porto.jpg\" alt=\"Parte do terminal portu\u00e1rio e log\u00edstico da companhia norte-americana Cargill, na cidade de Santar\u00e9m,que diminui os barcos tradicionais da bacia amaz\u00f4nica, nas margens do rio Tapaj\u00f3s, no norte do Brasil. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Parte do terminal portu\u00e1rio e log\u00edstico da companhia norte-americana Cargill, na cidade de Santar\u00e9m,que diminui os barcos tradicionais da bacia amaz\u00f4nica, nas margens do rio Tapaj\u00f3s, no norte do Brasil. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Fabiana Frayssinet, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Santar\u00e9m, Brasil, 15\/12\/2015 \u2013 Na cidade de Santar\u00e9m, no norte do Brasil, confluem complexos portu\u00e1rios considerados estrat\u00e9gicos pelo governo. Mas, o que para alguns \u00e9 uma oportunidade de desenvolvimento, para outros \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o irremedi\u00e1vel dessa preservada regi\u00e3o da bacia amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Durante o entardecer em frente ao rio Tapaj\u00f3s, onde suas \u00e1guas azuladas se encontram, em Santar\u00e9m, com as escuras e barrentas do Amazonas, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ignorar os silos que marcam o que antes era uma praia p\u00fablica com t\u00edpicas embarca\u00e7\u00f5es de passageiros e barcos de pescadores dessa regi\u00e3o do Estado do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Inaugurado em 2003 como centro de armazenamento, transbordo e embarque de soja e milho, o porto da companhia agroindustrial norte-americana Cargill agora \u00e9 o principal cart\u00e3o postal desse munic\u00edpio de quase 300 mil habitantes.Os navios cargueiros e os comboios de barca\u00e7as transportando gr\u00e3os t\u00eam como destino o rio Amazonas e depois o Oceano Atl\u00e2ntico rumo \u00e0 Europa ou \u00e0China, os maiores mercados para esses produtos b\u00e1sicos do agroneg\u00f3cio exportador brasileiro.<\/p>\n<p>As autoridades municipais argumentam que esses complexos portu\u00e1rios fluviais geram emprego e renda por meio de impostos, e tamb\u00e9m impulsionam a constru\u00e7\u00e3o, os servi\u00e7os, a hotelaria e o abastecimento de combust\u00edvel. Mas o sacerdote Edilberto Sena, presidente do Movimento Tapaj\u00f3s Vivo, discorda.<\/p>\n<p>\u201cA Cargill, para Santar\u00e9m, chegou como uma desgra\u00e7a. Quando eles come\u00e7aram a construir o porto afirmavam que traria emprego, e de fato durante sua constru\u00e7\u00e3o geraram 800 empregos. Mas t\u00e3o logo terminaram as obras retiraram todos e agora h\u00e1, no m\u00e1ximo, 115 ou 160 empregados\u201d, contouSena \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Com capacidade exportadora de cinco milh\u00f5es de toneladas de gr\u00e3os em sua etapa atual, o porto de Santar\u00e9m foi uma resposta \u00e0 satura\u00e7\u00e3o dos portos do sul do pa\u00eds, como o de Santos, no Estado de S\u00e3o Paulo, e o de Paranagu\u00e1, no Estado do Paran\u00e1.Esse porto e o terminal de transbordo em Mirituba (300 quil\u00f4metros ao sul de Santar\u00e9m) tamb\u00e9m encurtaram dist\u00e2ncias terrestres e mar\u00edtimas para a soja do vizinho Estado do Mato Grosso, o maior produtor do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o coube \u00e0 companhia norte-americana Bunge, \u00e0 qual se somaram Cargill e outras transnacionais.\u201cEsses portos tornam o Brasil mais competitivo\u201d, argumentou \u00e0 IPS o diretor de Planejamento da Prefeitura de Santar\u00e9m, Jos\u00e9 de Lima. Como exemplo, disse que, em rela\u00e7\u00e3o ao porto de Santos, desde Santar\u00e9m at\u00e9 o porto chin\u00eas de Xangai,\u201ca dist\u00e2ncia diminui de 24 mil quil\u00f4metros para 19.500 quil\u00f4metros, e com o trajeto atrav\u00e9s do Canal do Panam\u00e1 o custo cairia de US$ 159 para US$ 147 por tonelada transportada\u201d.<\/p>\n<p>A partir de 2020, com investimento de aproximadamente US$ 800 milh\u00f5es, as transnacionais projetam exportar 20 milh\u00f5es de toneladas por ano de gr\u00e3os atrav\u00e9s da bacia amaz\u00f4nica.Nelio Aguiar, secret\u00e1rio de Planejamento de Santar\u00e9m, destacou a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica desses portos para o setor agroexportador. \u201cO Brasil est\u00e1 aumentando seu produto interno bruto com base no agroneg\u00f3cio, que est\u00e1 sustentando nossa economia\u201d, apontou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>A maior parte da carga chega por caminh\u00f5es, pela estrada amaz\u00f4nica BR-163, que est\u00e1 sendo reconstru\u00edda e que termina nas instala\u00e7\u00f5es portu\u00e1rias da Cargill. Atualmente, nos per\u00edodos de colheita de soja e milho, chegam cerca de 350 caminh\u00f5es por dia, e Lima calcula que esse n\u00famero subir\u00e1 para dois mil quando estiverem operacionais outros terminais portu\u00e1rios que est\u00e3o sendo projetados para constru\u00e7\u00e3o no munic\u00edpio.<\/p>\n<p>E \u00e9 isso justamente o que preocupa as organiza\u00e7\u00f5es sociais e acad\u00eamicas que lutaram contra a constru\u00e7\u00e3o do porto. \u201cComo n\u00e3o houve adapta\u00e7\u00e3o da cidade para receber esse fluxo de carga, hoje vemos uma perturba\u00e7\u00e3o e um aumento de acidentes pela intensifica\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fego de caminh\u00f5es\u201d, explicou \u00e0 IPS a reitora da Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1, Raimunda Monteiro.<\/p>\n<div id=\"attachment_204318\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/pescador.jpg\"><img class=\"wp-image-204318\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/pescador.jpg\" alt=\"Pescador carrega sua captura do dia no mercado da cidade de Santar\u00e9m, na praia fluvial onde agora dominam os silos do porto, na conflu\u00eancia dos rios Tajap\u00f3s e Amazonas, no Estado do Par\u00e1, norte do Brasil. Foto: Gonzalo Gaudenzi\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Pescador carrega sua captura do dia no mercado da cidade de Santar\u00e9m, na praia fluvial onde agora dominam os silos do porto, na conflu\u00eancia dos rios Tajap\u00f3s e Amazonas, no Estado do Par\u00e1, norte do Brasil. Foto: Gonzalo Gaudenzi\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Apesar das sucessivas demandas na justi\u00e7a por uma alegada ilegalidade, o porto da Cargill foi constru\u00eddo com apoio das autoridades locais. \u201cDestruiu uma praia fluvial de Santar\u00e9m e tamb\u00e9m houve um conjunto de impactos indiretos, porque serviu como eixo de atra\u00e7\u00e3o para o cultivo de soja, que se expandiu pela plan\u00edcie de Santar\u00e9m. Todos esses impactos n\u00e3o foram previstos por um estudo ambiental\u201d, pontuou \u00e0 IPS o advogado de movimentos sociais Ibis Tapaj\u00f3s.<\/p>\n<p>Para descongestionar o tr\u00e1fego terrestre, o governo municipal projeta a constru\u00e7\u00e3o de novos acessos vi\u00e1rios e estacionamentos de pr\u00e9-embarque, longe da cidade. Mas outros efeitos ambientais tamb\u00e9m preocupam,como a contamina\u00e7\u00e3o do rio pelas emiss\u00f5es dos ve\u00edculos e pelos fertilizantes qu\u00edmicos que tamb\u00e9m s\u00e3o transportados por embarca\u00e7\u00f5es. \u201cO porto da Cargill \u00e9 um exemplo de viola\u00e7\u00e3o dos direitos socioambientais por parte de grandes empresas\u201d, afirmou Tapaj\u00f3s<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o de pelo menos seis novos terminais portu\u00e1rios em Santar\u00e9m est\u00e1 em estudo. Dois ao lado da Cargill e quatro na regi\u00e3o do lago Maic\u00e1. O projeto mais avan\u00e7ado nesse lago \u2013 atualmente na fase de obter as autoriza\u00e7\u00f5es ambientais \u2013 \u00e9 o da privada Empresa Brasileira de Portos em Santar\u00e9m (Embraps).\u201cO lago Maic\u00e1 \u00e9 uma \u00e1rea de extrema fragilidade ecol\u00f3gica. Nele come\u00e7a uma regi\u00e3o de 50 quil\u00f4metros de um complexo de lagos (ou canais) que \u00e9 caracter\u00edstico da desembocadura do rio Tapaj\u00f3s e sua conflu\u00eancia com o rio Amazonas\u201d, destacou Monteiro.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do porto da Embraps \u00e9 projetada parao bairro \u00c1rea Verde e chegar\u00e1 at\u00e9 o lago, em uma zona que inunda durante a esta\u00e7\u00e3o chuvosa e fica sem \u00e1gua na seca. Enquanto cartazes j\u00e1 antecipam um \u201cproibido passar, propriedade particular\u201d, os 480 pescadores do lago temem os impactos para sua atividade, devido \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de navios de carga e porque essa \u00e1rea seria coberta de terra.<\/p>\n<p>\u201cPraticamente estar\u00e3o privatizando o lago\u201d, ressaltou \u00e0 IPS o presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Moradores do Bairro P\u00e9rola de Maic\u00e1, Ronaldo Souza Costa. Dessa regi\u00e3o sai 30% do pescado que abastece Santar\u00e9m. \u201cPelo que sabemos, haver\u00e1 um impacto muito grande em nossa pesca, principalmente nessa \u00e1rea onde pescamos no inverno. Eles determinar\u00e3o as \u00e1reas onde n\u00e3o se poder\u00e1 pescar\u201d, detalhou Raimundo Nonato, administrador do mercado de Maic\u00e1.<\/p>\n<p>A prefeitura de Santar\u00e9m garante que as instala\u00e7\u00f5es ser\u00e3o em terra firme e que o interesse das empresas n\u00e3o \u00e9 o lago, mas o rio Amazonas, onde existe a profundidade necess\u00e1ria para navios de grande calado. \u201cToda a opera\u00e7\u00e3o dos caminh\u00f5es ser\u00e1 feita por esteiras. N\u00e3o afetar\u00e1 em nada as \u00e1guas do lago\u201d, prometeu Aguiar.<\/p>\n<p>Mas, como at\u00e9 agora as comunidades locais n\u00e3o foram consultadas formalmente sobre este e outros projetos portu\u00e1rios, os temores multiplicam. \u201cPelo que sabemos, se os navios se aproximarem da gente, ser\u00e1 complicado para nossos barcos, porque causam ondas muito grandes, e como temos embarca\u00e7\u00f5es pequenas, \u00e9 perigoso\u201d, enfatizou \u00e0 IPS a pescadora Telma Almeida.<\/p>\n<p>Depois de descarregar seus pescados, Almeida desamarra seu barco e se afasta novamente pelas \u00e1guas do rio Amazonas. Sua silhueta vai diminuindo quando um grande navio cargueiro faz sombra sobre sua pequena embarca\u00e7\u00e3o. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Fabiana Frayssinet, da IPS &ndash;&nbsp; Santar&eacute;m, Brasil, 15\/12\/2015 &ndash; Na cidade de Santar&eacute;m, no norte do Brasil, confluem complexos portu&aacute;rios considerados estrat&eacute;gicos pelo governo. Mas, o que para alguns &eacute; uma oportunidade de desenvolvimento, para outros &eacute; a transforma&ccedil;&atilde;o irremedi&aacute;vel dessa preservada regi&atilde;o da bacia amaz&ocirc;nica. 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