{"id":20229,"date":"2015-12-16T12:45:27","date_gmt":"2015-12-16T12:45:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=204359"},"modified":"2015-12-16T12:45:27","modified_gmt":"2015-12-16T12:45:27","slug":"soja-fruto-exotico-da-amazonia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/12\/ultimas-noticias\/soja-fruto-exotico-da-amazonia-brasileira\/","title":{"rendered":"Soja, fruto ex\u00f3tico da Amaz\u00f4nia brasileira"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_204360\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/mandioca.jpg\"><img class=\"wp-image-204360\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/mandioca.jpg\" alt=\"Alguns s\u00f3cios e s\u00f3cias da cooperativa S\u00e3o Raimundo da F\u00e9 em Deus, no munic\u00edpio rural de Belterra, na Amaz\u00f4nia brasileira, descascam mandioca para preparar farinha. As associa\u00e7\u00f5es dos pequenos produtores os ajudam a se defender dos efeitos negativos da expans\u00e3o do cultivo da soja nessa regi\u00e3o \u00e0s margens do rio Tapaj\u00f3s. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Alguns s\u00f3cios e s\u00f3cias da cooperativa S\u00e3o Raimundo da F\u00e9 em Deus, no munic\u00edpio rural de Belterra, na Amaz\u00f4nia brasileira, descascam mandioca para preparar farinha. As associa\u00e7\u00f5es dos pequenos produtores os ajudam a se defender dos efeitos negativos da expans\u00e3o do cultivo da soja nessa regi\u00e3o \u00e0s margens do rio Tapaj\u00f3s. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Fabiana Frayssinet, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Belterra, Brasil, 16\/12\/2015 \u2013 No oeste do Par\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de um complexo log\u00edstico portu\u00e1rio, destinado a exportar soja atrav\u00e9s da bacia amaz\u00f4nica, expulsou milhares de camponeses de suas terras, que agora s\u00e3o dedicadas a essa monocultura.O trajeto de Santar\u00e9m at\u00e9 Belterra, a 100 quil\u00f4metros pela rodovia BR 163, transcorre entre campos de terra removida e s\u00f3 alguns espa\u00e7os com florestas exuberantes caracter\u00edsticas dessa regi\u00e3o amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p>Tratores e m\u00e1quinas de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, muito diferentes das toscas ferramentas dos pequenos agricultores vizinhos, est\u00e3o arando a terra neste m\u00eas de dezembro para plantar soja em janeiro.<\/p>\n<p>O campon\u00eas Jos\u00e9 de Souza, que tem nove hectares no munic\u00edpio rural de Belterra, suspira. \u201cA soja beneficia o grande produtor, mas prejudica o pequeno, porque a seca acontece por causa do desmatamento. Antes, a temperatura era agrad\u00e1velaqui, mas agora est\u00e1 muito quente. N\u00e3o se aguenta\u201d, disse \u00e0 IPS. Os efeitos s\u00e3o not\u00f3rios em sua planta\u00e7\u00e3o de bananas, queimadas pelo intenso sol.<\/p>\n<p>Resignado, Souza rega uns tristes sulcos com algumas couves e cebolinhas. Como outros, ficou cercado pela expans\u00e3o da soja em Santar\u00e9m e nos munic\u00edpios vizinhos de Belterra e Moju\u00ed dos Campos, que integram sua regi\u00e3o metropolitana. Segundo a prefeitura de Santar\u00e9m, dos 740 mil hectares cultiv\u00e1veis na regi\u00e3o, a soja j\u00e1 ocupa 60 mil.<\/p>\n<p>Raimunda Nogueira, reitora da Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1, apresentou n\u00fameros muito superiores. \u201cA mudan\u00e7a do uso da terra foide aproximadamente 112 mil a 120 mil hectares convertidos em planta\u00e7\u00f5es de soja\u201d, destacou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>E com a soja chegaram as fumiga\u00e7\u00f5es. \u201cOs campos de soja trazem muitas pragas, porque o veneno que usam para combat\u00ea-las as afastam e elas v\u00eam para as nossas pequenas planta\u00e7\u00f5es\u201d, lamentou Souza. \u201cOs cultivos morrem e \u00e9 justamente por isso que a propriedade se torna totalmente antiprodutiva e a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 vender\u201d, explicou \u00e0 IPS o representante da n\u00e3o governamental Fase Amaz\u00f4nia, Jefferson Correa.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 registros epidemiol\u00f3gicos, mas nesses munic\u00edpios a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 que aumentaram doen\u00e7as como as respirat\u00f3rias e cut\u00e2neas. Segundo Selma da Costa, do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Belterra, essa situa\u00e7\u00e3o insalubre e a tenta\u00e7\u00e3o de vender suas terras provocaram a migra\u00e7\u00e3o de 65% dos camponeses do munic\u00edpio, de aproximadamente 16.500 habitantes<\/p>\n<p>\u201cAcabam partindo. Quem vai aguentar ficar com o cheiro dos pesticidas? Ningu\u00e9m. As pessoas adoecem. Muitas vezes as gr\u00e1vidas se sentem mal e n\u00e3o sabem a raz\u00e3o\u201d, apontou Selma \u00e0 IPS. \u201cVenderam suas terras por uma mis\u00e9ria. Costumamos dizer que deram de presente. Praticamente entregaram suas terras aos grandes produtores, pensando que melhorariam, que iriam construir uma casinha bonita em Santar\u00e9m, mas n\u00e3o conseguem se manter economicamente porque n\u00e3o podem produzir\u201d, acrescentou.<\/p>\n<div id=\"attachment_204361\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Jose.jpg\"><img class=\"wp-image-204361\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/Jose.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 de Souza rega sua horta em seu lote de nove hectares no munic\u00edpio de Belterra, no Estado do Par\u00e1, onde seus vegetais crescem ralos devido \u00e0s consequ\u00eancias da irrup\u00e7\u00e3o da monocultura da soja. A nova monocultura prejudica a agricultura familiar da regi\u00e3o, da qual depende a alimenta\u00e7\u00e3o de 70% de sua popula\u00e7\u00e3o. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 de Souza rega sua horta em seu lote de nove hectares no munic\u00edpio de Belterra, no Estado do Par\u00e1, onde seus vegetais crescem ralos devido \u00e0s consequ\u00eancias da irrup\u00e7\u00e3o da monocultura da soja. A nova monocultura prejudica a agricultura familiar da regi\u00e3o, da qual depende a alimenta\u00e7\u00e3o de 70% de sua popula\u00e7\u00e3o. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Correa recordou que, at\u00e9 2000, a terra era muito barata. Houve quem vendeu 100 hectares por US$ 1 mil a US$ 2 mil e depois se arrependeu. \u201cForam para a cidade, gastaram todo o dinheiro e, sem estudos nem cursos, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o foi voltar a trabalhar no campo, como pe\u00f5es dos que compraram suas terras\u201d, afirmou. Outros sobrevivem na periferia urbana de Santar\u00e9m como vendedores ambulantes e em outros trabalhos informais.<\/p>\n<p>\u201cOs agricultores tinham sua propriedade, seu pr\u00f3prio alimento, como feij\u00e3o, arroz, farinha, pesca e ca\u00e7a, e deixaram de t\u00ea-lo na cidade\u201d, detalhou Claudionor Carvalho, da Federa\u00e7\u00e3o de Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura do Estado do Par\u00e1. Ele afirmou \u00e0 IPS que a mudan\u00e7a fez crescer a prostitui\u00e7\u00e3o na periferia urbana,\u201cporque as fam\u00edlias n\u00e3o estavam preparadas para viver essa realidade\u201d.<\/p>\n<p>O processo se intensificou h\u00e1 15 anos, com a constru\u00e7\u00e3o em Santar\u00e9m, pela transnacional norte-americana Cargill, de um porto para a exporta\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os. Santar\u00e9m fica \u00e0 margem do rio Tapaj\u00f3s, em sua conflu\u00eancia com o rio Amazonas, o que permite transportar soja e outros gr\u00e3os por rios at\u00e9 o Oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>O objetivo foi reduzir a dist\u00e2ncia e os custos de transporte da soja do Estado do Mato Grosso, seu produtor do pa\u00eds. O Brasil \u00e9 o segundo produtor e primeiro exportador de soja do mundo, vendendo para China, Europa e outros mercados.Portos como esse na bacia amaz\u00f4nica reduziram quase pela metade a dist\u00e2ncia, de aproximadamente dois mil quil\u00f4metros,entre Mato Grossoe os congestionados terminais do sudeste do pa\u00eds, como o porto de Santos, no Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O novo porto amaz\u00f4nico, com silos com capacidade para 120 mil toneladas (o dobro do in\u00edcio) atraiu centenas de produtores de soja do sul do pa\u00eds, provocando um <em>boom<\/em> de compra de t\u00e9rreas agr\u00edcolas pr\u00f3ximas e disparando seus pre\u00e7os. Foi o caso de Luiz Machado e sua fam\u00edlia, chegados do Mato Grosso.<\/p>\n<p>\u201cT\u00ednhamos 90 hectares, que vendemos para comprar uma propriedade maior aqui, porque as terras estavam mais baratas. Al\u00e9m disso, estar\u00edamos mais perto do porto, o que melhoraria o pre\u00e7o de nosso produto\u201d, explicou Machado \u00e0 IPS. Ele garante que a compra foi legal e que conserva intacta a floresta que rodeia seu terreno, que em grande parte j\u00e1 estava desmatado.<\/p>\n<p>Entretanto, muitos outros n\u00e3o agiram dessa forma e o cultivo de soja devastou \u00e1reas selvagens, segundo afirmou \u00e0 IPS C\u00e2ndido Cunha, do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra). Em 2006, mediante a chamada \u201cmorat\u00f3ria da soja\u201d, associa\u00e7\u00f5es de produtores, muitos vinculados \u00e0 Cargill, se comprometeram a n\u00e3o comercializar, a partir daquele ano, soja de \u00e1reas desmatadas.<\/p>\n<p>O corte diminuiu temporariamente, mas depois se reativou porque os agricultores que haviam vendido suas terras se estabeleceram em outras virgens. \u201cGerou-se o processo de grilagem de t\u00e9rreas, que s\u00e3o falsifica\u00e7\u00f5es de documentos ou apropria\u00e7\u00f5es ilegais de terras p\u00fablicas\u201d, complicando a j\u00e1 muito irregular situa\u00e7\u00e3o de posse da terra amaz\u00f4nica, disse Cunha<\/p>\n<p>Dos dois milh\u00f5es e meio de toneladas de gr\u00e3os exportados anualmente por Santar\u00e9m, apenas 6% s\u00e3o locais, o restante procede do Mato Grosso. Mas Nelio Aguiar, secret\u00e1rio de Planejamento de Santar\u00e9m, considera que serviu para modernizar sua economia, evoluindo de uma agricultura familiar para outra \u201cmecanizada\u201d. \u201cHoje temos uma agricultura maior, dolarizada, e cada colheita produz realmente grandes riquezas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Enquanto alguns comemoram esse avan\u00e7o agroindustrial, outros temem pelo futuro da seguran\u00e7a alimentar local. A popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o metropolitana, cerca de 370 mil habitantes, depende em 70% de alimentos procedentes da agricultura familiar. \u201cAgora, \u00e9 preciso comprar tudo no mercado, arroz, feij\u00e3o, tudo o que antes ningu\u00e9m comprava porque produz\u00edamos tudo. E tamb\u00e9m vend\u00edamos\u201d, lamentou Souza.<\/p>\n<p>\u201cPor que estamos comprando? Porque n\u00e3o temos mais terra, e o que plantamos est\u00e1 sendo envenenado?\u201d, perguntou Costa.Para Correa, uma sa\u00edda \u00e9 ampliar os planos governamentais de apoio aos pequenos agricultores. Souza j\u00e1 \u00e9 benefici\u00e1rio de um deles. Tamb\u00e9m se beneficia por integrar-se a associa\u00e7\u00f5es ou cooperativas camponesas.<\/p>\n<p>Souza, orgulhoso, levou a IPS \u00e0 sua cooperativa, chamada S\u00e3o Raimundo da F\u00e9 em Deus, onde um festivo grupo de mulheres e homens dividia a tarefa de descascar, triturar e cozinhar a mandioca (<em>Manihot esculenta<\/em>) para preparar a farinha, um alimento tradicional no pa\u00eds. \u201cN\u00f3s temos que nos ajudarmos, porque a situa\u00e7\u00e3o do pequeno produtor est\u00e1 dif\u00edcil hoje em dia\u201d, enfatizou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Fabiana Frayssinet, da IPS &ndash;&nbsp; Belterra, Brasil, 16\/12\/2015 &ndash; No oeste do Par&aacute; a constru&ccedil;&atilde;o de um complexo log&iacute;stico portu&aacute;rio, destinado a exportar soja atrav&eacute;s da bacia amaz&ocirc;nica, expulsou milhares de camponeses de suas terras, que agora s&atilde;o dedicadas a essa monocultura.O trajeto de Santar&eacute;m at&eacute; Belterra, a 100 quil&ocirc;metros pela rodovia BR 163, transcorre [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/12\/ultimas-noticias\/soja-fruto-exotico-da-amazonia-brasileira\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1109,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1005,2458,1243],"class_list":["post-20229","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-amazonia","tag-inter-press-service","tag-soja"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20229","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1109"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20229"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20229\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20254,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20229\/revisions\/20254"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}