{"id":20233,"date":"2015-12-17T12:08:17","date_gmt":"2015-12-17T12:08:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=204409"},"modified":"2015-12-17T12:08:17","modified_gmt":"2015-12-17T12:08:17","slug":"ferrugem-do-cafe-ameaca-com-mais-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2015\/12\/ultimas-noticias\/ferrugem-do-cafe-ameaca-com-mais-pobreza\/","title":{"rendered":"Ferrugem do caf\u00e9 amea\u00e7a com mais pobreza"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_204410\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/cafe.jpg\"><img class=\"wp-image-204410\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/cafe.jpg\" alt=\"Isly Membre\u00f1o separa os gr\u00e3os de caf\u00e9 verdes dos vermelhos, parte de suas tarefas como coletora na fazenda Montebelo em El Salvador. Foto: Edgardo Ayala\/IPS\" width=\"340\" height=\"226\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Isly Membre\u00f1o separa os gr\u00e3os de caf\u00e9 verdes dos vermelhos, parte de suas tarefas como coletora na fazenda Montebelo em El Salvador. Foto: Edgardo Ayala\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Edgardo Ayala, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>El Congo, El Salvador, 17\/12\/2015 \u2013 Sentada diante de um promont\u00f3rio de gr\u00e3os de caf\u00e9 que acaba de colher, Isly Membre\u00f1o separa desesperan\u00e7ada os verdes dos maduros (vermelhos), lamentando a m\u00e1 colheita e o magro sal\u00e1rio que recebe por dia. A ferrugem do caf\u00e9 (<em>Hemileiavastatrix<\/em>) infectou a fazenda onde trabalha, assim como contaminou o resto do pa\u00eds e da regi\u00e3o centro-americana.<\/p>\n<p>\u201cTem menos caf\u00e9 para colher, e no fim h\u00e1 menos dinheiro para n\u00f3s\u201d, lamentou Membren\u00f5, uma das 30 pessoas que trabalham na colheita na fazenda Montebelo, no cant\u00e3o de mesmo nome, jurisdi\u00e7\u00e3o de El Congo, no departamento de Santa Ana. Esse fungo ataca as folhas do caf\u00e9, as deixa amarelas e secas at\u00e9 ca\u00edrem, e o fruto n\u00e3o amadurece.<\/p>\n<p>A cafeicultura gera cerca de 150 mil empregos diretos e 500 mil indiretos, segundo o informe <em>O Cultivo do Caf\u00e9 em El Salvador 2013<\/em>, elaborado pelo governamental Conselho Salvadorenho do Caf\u00e9 (CSC). Entre 1995 e 2012, o setor representou 7,5% das exporta\u00e7\u00f5es totais do pa\u00eds. O impacto direto da ferrugem do caf\u00e9 amea\u00e7a empobrecer ainda mais a zona rural, onde 36% das fam\u00edlias j\u00e1 vivem na pobreza, segundo a oficial Pesquisa de Fam\u00edlias de Prop\u00f3sitos M\u00faltiplos, de 2013.<\/p>\n<p>Membre\u00f1ocontou\u00e0 IPS que, antes de a fazenda ser infectada, conseguia colher dois quintais (um quintal equivale a 92 quilos), e receber cerca de US$ 4 por cada um, conseguindo uns US$ 8 no final do dia durante os tr\u00eas meses de colheita.\u201cMas agora n\u00e3o consigo colher nem um quintal, ganho apenas US$ 3\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A maioria dos diaristas contaram situa\u00e7\u00e3o semelhante quando a reportagem da IPS visitou o terreno de propriedade privadacom 116 <em>manzanas<\/em>(uma <em>manzana<\/em> varia de seis mil a dez mil metros quadrados na Am\u00e9rica Latina). O clima tamb\u00e9m ficou ruim, com as prolongadas secas no inverno e chuvas no ver\u00e3o. \u201cA chuva derrubou o caf\u00e9, e perdemos tempo recolhendo\u201d, disse \u00e0 IPS Sonia Hern\u00e1ndez, m\u00e3e de tr\u00eas filhos e tamb\u00e9m diarista na fazenda.<\/p>\n<p>Dados oficiais que o CSC publica em sua p\u00e1gina na internet revelam que, na colheita 2013-2014, quando o fungo atingiu com viol\u00eancia, a produ\u00e7\u00e3o caiu de 1,7 milh\u00e3o de quintais, conseguida na safra anterior, para apenas 700 mil quintais. Nesse per\u00edodo, o pagamento dos diaristas caiu de US$ 21,6 milh\u00f5es para US$ 8,7 milh\u00f5es.A colheita 2014-2015 melhorou um pouco e chegou a 925 mil quintais. A proje\u00e7\u00e3o do CSC para a safra 2015-2016 \u00e9 de 998 mil quintais, ainda abaixo dos n\u00edveis anteriores ao ataque da ferrugem.<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o tem colheita essa pobre gente n\u00e3o trabalha\u201d, pontuou \u00e0 IPS Manuel Mor\u00e1n, um organizador das tarefas, ou \u201cmandador\u201d, como tradicionalmente \u00e9 conhecido nas fazendas.<\/p>\n<p>O cant\u00e3o Montebelo fica na cordilheira Apaneca-Lamatepec, e \u00e9 prop\u00edcia para o cultivo do gr\u00e3o, mas na regi\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o de milho nem de feij\u00f5es, base da alimenta\u00e7\u00e3o dos salvadorenhos. Assim, sem terra para colher nem dinheiro para comprar esses produtos, a seguran\u00e7a alimentar dessa comunidade est\u00e1 em risco. \u201cN\u00e3o temos onde plantar feij\u00e3o ou milho, e nos mantemos com o que tem aqui, na fazenda\u201d, destacouMembre\u00f1o.<\/p>\n<p>No pa\u00eds existem cerca de 19.500 cafeicultores, dos quais 86% s\u00e3o pequenos agricultores com propriedades inferiores a dez<em>manzanas<\/em>,que representam 21% do total da produ\u00e7\u00e3o nacional, segundo o informe do CSC. \u201cQuando n\u00e3o \u00e9 \u00e9poca de colher, nos dedicamos a coletar lenha, para nos mantermos, porque n\u00e3o h\u00e1 outra coisa aqui\u201d, explicouMembre\u00f1o, m\u00e3e de um menino de oito anos. Seu marido tamb\u00e9m se dedica \u00e0s mesmas atividades.<\/p>\n<p>Presente em El Salvador desde o final dos anos 1970, a ferrugem do caf\u00e9 irrompeu agressivamente em 2012, mas os estragos foram evidentes no ano seguinte, sem que o governo ou os produtores estivessem preparados. \u201cA doen\u00e7a nos pegou de cal\u00e7a curta\u201d afirmou \u00e0 IPS o pesquisador do governamental Centro Nacional de Tecnologia Agropecu\u00e1ria e Florestal (Centa), Julio Grande. Na fazenda Montebelo, ele estuda a biologia do parasita, a epidemiologia da doen\u00e7a e os fungicidas que melhor podem enfrent\u00e1-la.<\/p>\n<p>Aposta-se em um tratamento integral da enfermidade, enfatizando a fertiliza\u00e7\u00e3o da planta, as podas e tamb\u00e9m o uso de fungicidas, explicou Grande. A conjuga\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas elementos pode dar bons resultados, completou.De fato, \u00e9 poss\u00edvel verificar que, nas \u00e1reas onde foram aplicados os fungicidas, os cafezais se mant\u00eam relativamente fora de perigo. \u201cOs fungicidas funcionam, mas, se descuidarmos dos outros aspectos da equa\u00e7\u00e3o, o efeito ser\u00e1 limitado\u201d, observou.<\/p>\n<p>A renova\u00e7\u00e3o dos cafezais apresenta-se como uma resposta efetiva, porque as \u00e1rvores mais velhas est\u00e3o mais suscet\u00edveis ao cont\u00e1gio, disse o pesquisador. Os cafezais de El Salvador s\u00e3o considerados velhos, com vida \u00fatil superior a 30 anos.Al\u00e9m de assist\u00eancia t\u00e9cnica, fungicidas e outros insumos, o governo distribuiu,para 4.200 cafeicultores, aproximadamente oito milh\u00f5es de mudas resistentes ao fungo, para iniciar um processo de renova\u00e7\u00e3o, afirmou \u00e0 IPS Ad\u00e1n Hern\u00e1ndez, gerente da divis\u00e3o de caf\u00e9 do Centa. Os produtores semearam por conta pr\u00f3pria outros oito milh\u00f5es, acrescentou.<\/p>\n<p>Mas uma renova\u00e7\u00e3o em grande escala exigiria um forte investimento governamental para adquirir de viveiros privados os 300 milh\u00f5es de mudas necess\u00e1rios para semear as 216 <em>manzanas<\/em> de cafezais de El Salvador, por\u00e9m, de todo modo, n\u00e3o existe essa quantidade de semente \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Em meio a essa situa\u00e7\u00e3o, sentada diante dos gr\u00e3os de caf\u00e9, IslyMembre\u00f1o s\u00f3 tem uma coisa em mente: como sobreviver com US$ 3 por dia.Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Edgardo Ayala, da IPS &ndash;&nbsp; El Congo, El Salvador, 17\/12\/2015 &ndash; Sentada diante de um promont&oacute;rio de gr&atilde;os de caf&eacute; que acaba de colher, Isly Membre&ntilde;o separa desesperan&ccedil;ada os verdes dos maduros (vermelhos), lamentando a m&aacute; colheita e o magro sal&aacute;rio que recebe por dia. 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