{"id":2024,"date":"2006-10-07T00:00:00","date_gmt":"2006-10-07T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2024"},"modified":"2006-10-07T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-07T00:00:00","slug":"lbano-as-duas-faces-de-beirute","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/direitos-humanos\/lbano-as-duas-faces-de-beirute\/","title":{"rendered":"L&iacute;bano: As duas faces de Beirute"},"content":{"rendered":"<p>Beirute, 07\/10\/2006 &ndash; Um famoso cartaz perto da Universidade Norte-Americana de Beirute mostra uma mulher vestida com a tradicional t&uacute;nica isl&acirc;mica negra ao lado de outra usando biqu&iacute;ni. <!--more--> Juntas, representam o rosto da capital do L&iacute;bano. Uma vez mais, os avi&otilde;es de combate israelenses bombardeiam as zonas mu&ccedil;ulmanas ao sul de Beirute por consider&aacute;-las reduto do Hezbollah (Partido de Deus), de tend&ecirc;ncia isl&acirc;mica, xiita e pr&oacute;-S&iacute;ria. Antes haviam bombardeado uma ponte na zona crist&atilde; da cidade, o que n&atilde;o &eacute; habitual. A capital n&atilde;o &eacute; bombardeada por igual.<\/p>\n<p>Beirute &eacute; uma cidade de duas faces, uma crist&atilde; e outra mu&ccedil;ulmana. O mais encantador desta capital &eacute; a combina&ccedil;&atilde;o das duas tradi&ccedil;&otilde;es. Nem sempre a diferen&ccedil;a entre ambas foi t&atilde;o evidente. A dualidade esteve na raiz dos problemas e, tamb&eacute;m, na origem das solu&ccedil;&otilde;es. O conflito entre crist&atilde;os e mu&ccedil;ulmanos desatou uma guerra civil, na d&eacute;cada de 70, que destruiu Beirute. A fagulha que acendeu a chama foi o massacre de 27 passageiros palestinos em um &ocirc;nibus pelas mil&iacute;cias da direita crist&atilde;, no dia 13 de abril de 1975. Imediatamente houve repres&aacute;lias que aumentaram a espiral de viol&ecirc;ncia durante 17 anos.<\/p>\n<p>Antes disso, na capital libanesa conflu&iacute;am dois mundos. As na&ccedil;&otilde;es ocidentais a batizaram de \u201cParis do oriente\u201d. Nas grandes casas brancas com telhados vermelhos viviam os ricos que lotavam os elegantes com&eacute;rcios do centro. Vivia-se um ambiente festivo. Beirute atra&iacute;a os ocidentais, que durante o dia esquivavam no monte L&iacute;bano, de onde se avista toda a cidade, e &agrave; noite degustavam pratos de marisco em restaurantes &agrave; beira das praias banhadas pelo cristalino e azul mar Mediterr&acirc;neo. &Eacute; estranha a forma como este pa&iacute;s com menos de quatro milh&otilde;es de habitantes abrigou tantos contrastes.<\/p>\n<p>A influ&ecirc;ncia ocidental era forte na classe m&eacute;dia. Muitos pais costumavam enviar seus filhos para estudos universit&aacute;rios no Ocidente. Muitos jovens libaneses casaram-se no estrangeiro e adquiriram dupla nacionalidade. Seus filhos, conseq&uuml;entemente, foram criados em duas culturas. Com o tempo, esse costume predominou mais entre crist&atilde;os do que entre mu&ccedil;ulmanos. Entre os isl&acirc;micos, a comunidade xiita, que &eacute; majorit&aacute;ria no Ir&atilde; e no Iraque e constitui a minoria no mundo &aacute;rabe frente aos sunitas, cresceu at&eacute; constituir 60% da atual popula&ccedil;&atilde;o libanesa. Ao mesmo tempo, surgia o Hezbollah, com o objetivo de contrapor-se &agrave; amea&ccedil;a israelense no sul.<\/p>\n<p>No in&iacute;cio dos anos 70, as comunidades religiosas do pa&iacute;s come&ccedil;aram a distanciar-se. Mu&ccedil;ulmanos xiitas e sunitas, refugiados palestinos, maronitas crist&atilde;os, drusos, todos seguiram seu pr&oacute;prio caminho. Freq&uuml;entemente atravessavam uns os caminhos dos outros. O massacre do &ocirc;nibus simplesmente acendeu a chama dessa explosiva mistura. A interven&ccedil;&atilde;o s&iacute;ria, seguida da invas&atilde;o israelense em mar&ccedil;o de 1978, somente causou mais mortes. O conflito chegou a ponto de v&aacute;rios pa&iacute;ses, inclu&iacute;dos Estados Unidos e Fran&ccedil;a, enviarem tropas para impor a paz. Mas elas tamb&eacute;m passaram e ser alvos de ataques.<\/p>\n<p>Em 1983, 220 fuzileiros navais e outros 21 soldados norte-americanos foram mortos em atentados terroristas em seus quart&eacute;is de Beirute, depois dos quais se retiraram. A guerra civil que ent&atilde;o se desatou provocou, somente na capital libanesa, 18 mil mortes. O Acordo de Taif, de 22 de outubro de 1989, patrocinado pela Ar&aacute;bia Saudita, deu por encerrada a guerra civil no L&iacute;bano em 1990 e reduziu o enorme poder que detinham os maronitas, ao estabelecer a forma&ccedil;&atilde;o de um gabinete integrado igualmente por crist&atilde;os e mu&ccedil;ulmanos. Por&eacute;m, o acordo n&atilde;o contemplou o crescente poder dos xiitas. Ao mesmo tempo, o governo n&atilde;o p&ocirc;de se contrapor &agrave; amea&ccedil;a israelense.<\/p>\n<p>O Hezbollah, que surgiu na d&eacute;cada de 80, se converteu em uma for&ccedil;a de combate com mais poder do que o ex&eacute;rcito liban&ecirc;s. O partido xiita se formou para enfrentar Israel. Ainda assim, nos primeiros anos de vig&ecirc;ncia do Acordo de Thaif, houve certa estabilidade. O com&eacute;rcio ressurgiu e o turismo retomou a din&acirc;mica que teve no per&iacute;odo entre o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945 e o come&ccedil;o da guerra civil da d&eacute;cada de 70. Israel continuou ocupando algumas regi&otilde;es do sul do L&iacute;bano, mas a popula&ccedil;&atilde;o de Beirute come&ccedil;ou a limpar os destro&ccedil;os e a renascer. Essa foi a hist&oacute;ria at&eacute; o &uacute;ltimo dia 12 de julho, quando come&ccedil;ou o conflito atual. Desde ent&atilde;o, um ter&ccedil;o da popula&ccedil;&atilde;o libanesa foi obrigada a abandonar suas casas por causa da viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O acampamento de Shatila voltou a abrigar refugiados. Foi ali, e no vizinho acampamento de Sabra, que, em 1982, milicianos crist&atilde;os apoiados por Israel assassinaram mil palestinos. O pa&iacute;s afunda novamente, justamente quando estava se levantando. Antes de come&ccedil;arem, h&aacute; mais de tr&ecirc;s semanas, o atual bombardeio sobre Beirute, junto a um edif&iacute;cio com rastros de explosivos da &eacute;poca da guerra civil em suas paredes se erguia um luxuoso centro comercial, cujos empregados limpavam os vidros at&eacute; que estes reluzissem. O novo bombardeio agrava o contraste. Ainda s&atilde;o vistas mans&otilde;es de telhados vermelhos e os luxuosos restaurantes, n&atilde;o muito longe de Shatila.<\/p>\n<p>Por uma das ruas pelas quais ainda se pode transitar, um t&aacute;xi Mercedes Benz de mais de 30 anos expele fuma&ccedil;a negra enquanto &eacute; ultrapassado por um moderno carro da mesma marca alem&atilde;, guiado por um jovem liban&ecirc;s. Beirute sempre viveu com esse contraste. Mas, ser&aacute; muito dif&iacute;cil apagar a nova brecha que separa o destru&iacute;do sul da elegante e a reconstru&iacute;da &aacute;rea central, habitada por crist&atilde;os. A cidade ainda se orgulha de seus finos restaurantes na costa do Mediterr&acirc;neo e de exportar pratos tradicionais para todo o mundo. No entanto, muitos esquecem que 20% da for&ccedil;a de trabalho n&atilde;o tem emprego.<\/p>\n<p>A guerra civil afastou os investidores da capital. O novo conflito, provavelmente, desestimule muitos dos que retornaram a Beirute depois do Acordo de Taif. A popula&ccedil;&atilde;o xiita &eacute; a mais atingida. Nestes dias, os moradores da zona crist&atilde; de Hamra, a 10 minutos dos destru&iacute;dos distritos do sul onde predominam os xiitas, procuram seguir suas rotinas com se n&atilde;o fossem bombardeados. Muitos fazem exerc&iacute;cios na praia. O com&eacute;rcio permanece aberto. As ruas continuam congestionadas. Israel escolhe cuidadosamente a face do L&iacute;bano que vai bombardear.<\/p>\n<p>Hamra continua sendo agrad&aacute;vel, embora sobre as cabe&ccedil;as de seus moradores paire uma negra nuvem de guerra. A onda de turistas foi substitu&iacute;da por uma onda de jornalistas. O fornecimento de energia el&eacute;trica &eacute; espor&aacute;dico e aumentam as filas em busca de combust&iacute;vel. Beirute, e tamb&eacute;m Hamra, est&atilde;o &agrave; beira do precip&iacute;cio. Desta vez, a visita aos pontos tur&iacute;sticos pode n&atilde;o terminar em um prato de mariscos na costa mediterr&acirc;nea. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beirute, 07\/10\/2006 &ndash; Um famoso cartaz perto da Universidade Norte-Americana de Beirute mostra uma mulher vestida com a tradicional t&uacute;nica isl&acirc;mica negra ao lado de outra usando biqu&iacute;ni. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/direitos-humanos\/lbano-as-duas-faces-de-beirute\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":46,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,11],"tags":[16],"class_list":["post-2024","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-politica","tag-oriente-medio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2024","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/46"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2024"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2024\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2024"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2024"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2024"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}