{"id":20293,"date":"2016-01-05T12:43:11","date_gmt":"2016-01-05T12:43:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=204586"},"modified":"2016-01-05T12:43:11","modified_gmt":"2016-01-05T12:43:11","slug":"indigenas-resistem-ao-espirito-do-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/01\/ultimas-noticias\/indigenas-resistem-ao-espirito-do-mal\/","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas resistem ao \u201cesp\u00edrito do mal\u201d"},"content":{"rendered":"<p><a class=\"a2a_button_facebook\" href=\"http:\/\/www.addtoany.com\/add_to\/facebook?linkurl=http%3A%2F%2Fwww.envolverde.com.br%2Frede%2Fips-rede%2Findigenas-resistem-ao-espirito-do-mal%2F&amp;linkname=Ind%C3%ADgenas%20resistem%20ao%20%E2%80%9Cesp%C3%ADrito%20do%20mal%E2%80%9D\" title=\"Facebook\" rel=\"nofollow\" ><\/a><a class=\"a2a_button_twitter\" href=\"http:\/\/www.addtoany.com\/add_to\/twitter?linkurl=http%3A%2F%2Fwww.envolverde.com.br%2Frede%2Fips-rede%2Findigenas-resistem-ao-espirito-do-mal%2F&amp;linkname=Ind%C3%ADgenas%20resistem%20ao%20%E2%80%9Cesp%C3%ADrito%20do%20mal%E2%80%9D\" title=\"Twitter\" rel=\"nofollow\" ><\/a><a class=\"a2a_button_google_plus\" href=\"http:\/\/www.addtoany.com\/add_to\/google_plus?linkurl=http%3A%2F%2Fwww.envolverde.com.br%2Frede%2Fips-rede%2Findigenas-resistem-ao-espirito-do-mal%2F&amp;linkname=Ind%C3%ADgenas%20resistem%20ao%20%E2%80%9Cesp%C3%ADrito%20do%20mal%E2%80%9D\" title=\"Google+\" rel=\"nofollow\" ><\/a><a class=\"a2a_button_whatsapp\" href=\"http:\/\/www.addtoany.com\/add_to\/whatsapp?linkurl=http%3A%2F%2Fwww.envolverde.com.br%2Frede%2Fips-rede%2Findigenas-resistem-ao-espirito-do-mal%2F&amp;linkname=Ind%C3%ADgenas%20resistem%20ao%20%E2%80%9Cesp%C3%ADrito%20do%20mal%E2%80%9D\" title=\"WhatsApp\" rel=\"nofollow\" ><\/a><a class=\"a2a_dd a2a_target addtoany_share_save\" href=\"https:\/\/www.addtoany.com\/share#url=http%3A%2F%2Fwww.envolverde.com.br%2Frede%2Fips-rede%2Findigenas-resistem-ao-espirito-do-mal%2F&amp;title=Ind%C3%ADgenas%20resistem%20ao%20%E2%80%9Cesp%C3%ADrito%20do%20mal%E2%80%9D\" id=\"wpa2a_2\"><\/a><\/p><div id=\"attachment_204587\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-204587\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/tapaijos1-629x420.jpg\" alt=\"Juarez Saw, cacique da aldeia Sawr\u00e9Muybu, localizada no curso m\u00e9dio do rio Tapaj\u00f3s, entre os munic\u00edpios de Itaituba e Trair\u00e3o, no Par\u00e1. Foto: Gonzalo H. Gaudenzi\/IPS \" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/tapaijos1-629x420-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/tapaijos1-629x420.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Juarez Saw, cacique da aldeia Sawr\u00e9Muybu, localizada no curso m\u00e9dio do rio Tapaj\u00f3s, entre os munic\u00edpios de Itaituba e Trair\u00e3o, no Par\u00e1. Foto: Gonzalo H. Gaudenzi\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Fabiana Frayssinet, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sawr\u00e9Muybu, Brasil, 5\/1\/2016 \u2013 Ao entardecer no rio Tapaj\u00f3s, um dos principais afluentes do Amazonas, os ind\u00edgenas munduruku reiniciam o ritual da pesca nessa bacia rica em peixes, seu alimento tradicional. Mas o \u201cesp\u00edrito do mal\u201d, como eles denominam a hidrel\u00e9trica S\u00e3o Luiz do Tapaj\u00f3s, pode deix\u00e1-los \u00f3rf\u00e3os.\u201cO rio \u00e9 como nossa m\u00e3e. Nos d\u00e1 alimentos e dele tiramos o pescado. Uma m\u00e3e alimenta com leite materno, o mesmo ocorre com o rio\u201d, afirmou DelsianoSaw, professor na aldeia Sawr\u00e9Muybu, localizada entre os munic\u00edpios de Itaituba e Trair\u00e3o, no Estado do Par\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e3o encher o rio, e os animais, os peixes, acabar\u00e3o. As plantas que os peixes comem, as tartarugas, tamb\u00e9m acabar\u00e3o. Tudo desaparecer\u00e1 quando fizerem a inunda\u00e7\u00e3o por causa da hidrel\u00e9trica\u201d, destacouSaw\u00e0 IPS.Com uma represa de 722 quil\u00f4metros quadrados e queda de 35,9 metros, a hidrel\u00e9trica inundaria uma \u00e1rea de 330 quil\u00f4metros quadrados, incluindo essa aldeia de 178 habitantes.<\/p>\n<p>Segundo os planos do governo, S\u00e3o Luiz do Tapaj\u00f3s ter\u00e1 potencial de 8.040 megawatts (MW), sendo a principal de um complexo de sete hidrel\u00e9tricas, projetadas para essa bacia hidrogr\u00e1fica para serem constru\u00eddas at\u00e9 2024. Mas a licita\u00e7\u00e3o da obra, calculada em US$ 7,7 bilh\u00f5es, foi adiada novamente por questionamentos ao processo de licenciamento ambiental.<\/p>\n<p>\u201cO efeito acumulativo \u00e9 incomensur\u00e1vel. Especialistas da \u00e1rea ambiental afirmam que isso causaria a morte de um rio. Nenhum rio sobrevive a um complexo de sete represas\u201d,opinou \u00e0 IPS Maur\u00edcio Torres, soci\u00f3logo da Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1 (Ufopa).<\/p>\n<p>O Tapaj\u00f3s, que desemboca no rio Amazonas, percorre 871 quil\u00f4metros em uma das \u00e1reas mais preservadas da selva subtropical \u00famida, onde o governo reduziu \u00e1reas protegidas para construir essas hidrel\u00e9tricas, proibidas em unidades de conserva\u00e7\u00e3o.Ali vivem 12 mil ind\u00edgenas munduruku e 2.500 habitantes ribeirinhos que resistem ao \u201cmegaprojeto\u201d, outra palavra que, nesse caso, os munduruku incorporaram da l\u00edngua portuguesa, para utilizar em seus reiterados protestos.<\/p>\n<p>Este \u00e9 historicamente um povo guerreiro e, embora cotidianamente incorporem costumes brasileiros, pintam o rosto quando t\u00eam que ir \u00e0s grandes cidades expressar sua resist\u00eancia ao projeto.O cacique Juarez Saw denuncia que n\u00e3o foram consultados, como obriga o Conv\u00eanio 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, ratificado pelo Brasil. O processo de legaliza\u00e7\u00e3o dessas terras ind\u00edgenas foi interrompido. \u201cN\u00e3o vamos sair dessa terra. Existe uma lei que diz que uma pessoa n\u00e3o pode ser trasladada, a n\u00e3o ser em caso de uma doen\u00e7a que esteja matando os povos ind\u00edgenas\u201d, pontuou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>A aldeia fica em um lugar sagrado para os munduruku, onde, segundo sua hist\u00f3ria, nasceram e foram enterrados seus antepassados. \u201c\u00c9 algo que vai nos prejudicar, n\u00e3o s\u00f3 o povo munduruku que vive h\u00e1 tantos anos ao longo do Tapaj\u00f3s, mas a floresta, o rio. \u00c9 de doer o cora\u00e7\u00e3o\u201d, disse o xam\u00e3 Fabiano Karo.A entrevista acontece na cabana cerimonial onde o sacerdote cura \u201cmales do corpo e do esp\u00edrito\u201d, para os quais teme ficar sem ant\u00eddotos quando a \u00e1gua avan\u00e7ar sobre a aldeia e extinguir, entre outras, suas ervas de cura.<\/p>\n<p>Estudiosos dessa bacia hidrogr\u00e1fica alertam que a inunda\u00e7\u00e3o provocaria uma perda significativa da cobertura vegetal, al\u00e9m de um aumento na emiss\u00e3o de gases-estufa, devido \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o de plantas e \u00e1rvores debaixo da \u00e1gua. A bacia abriga uma rica diversidade de ecossistemas, com esp\u00e9cies \u00fanicas de plantas, aves, peixes e mam\u00edferos, muitas em extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPode ocorrer um impacto muito grande, especialmente na fauna aqu\u00e1tica, porque muitos peixes amaz\u00f4nicos t\u00eam ciclos reprodutivos com migra\u00e7\u00f5es das partes baixas para as altas dos rios\u201d, explicou \u00e0 IPS o ecologista Ricardo Scuole, da Ufopa. \u201cGrandes estruturas, como diques e barreiras artificiais, geralmente dificultam, quando n\u00e3o impedem, a imigra\u00e7\u00e3o reprodutiva dessas esp\u00e9cies\u201d, acrescentou.<\/p>\n<div id=\"attachment_204588\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-204588\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/indigenasTapajosmenina.jpg\" alt=\"Menina da aldeia ind\u00edgena Sawr\u00e9Muybu, localizada no curso m\u00e9dio do rio Tapaj\u00f3s, entre os munic\u00edpios de Itaituba e Trair\u00e3o, no Par\u00e1. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS \" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/indigenasTapajosmenina-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/indigenasTapajosmenina.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Menina da aldeia ind\u00edgena Sawr\u00e9Muybu, localizada no curso m\u00e9dio do rio Tapaj\u00f3s, entre os munic\u00edpios de Itaituba e Trair\u00e3o, no Par\u00e1. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>A aldeia tem 300 hectares e estima-se que a hidrel\u00e9trica a reduzir\u00e1 a uma ilha. Maria Paraw\u00e1 n\u00e3o sabe quantos anos tem, mas n\u00e3o tem d\u00favidas de que todos eles foram vividos junto ao rio. \u201cTenho medo da inunda\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o sei para onde ir. Tenho muitos filhos e netos para criar e n\u00e3o sei como os manterei\u201d, disse a ind\u00edgena \u00e0 IPS com ajuda de um tradutor, porque, como muitas mulheres da aldeia, n\u00e3o fala portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A poucas horas de Sawr\u00e9Muybu fica Pimental, com cerca de 800 habitantes, \u00e0s margens do rio Tajap\u00f3s, que vive da lavoura e da pesca artesanal. Em suas ruas ressoam os passos dos imigrantes nordestinos que povoaram essa regi\u00e3o no final do s\u00e9culo 19, na \u00e9poca dourada da extra\u00e7\u00e3o de borracha. O povoado poderia desaparecer do mapa, literalmente, com a inunda\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica. \u201cCom o impacto da represa, toda nossa hist\u00f3ria pode ir por \u00e1gua abaixo\u201d, lamentou Ailton Nogueira, que preside a Associa\u00e7\u00e3o de Moradores de Pimental.<\/p>\n<p>O cons\u00f3rcio respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o da usina, encabe\u00e7ado pela Empresa Brasileira de Eletricidade, oferece transferir seus moradores para 20 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Mas, como para os munduruku, o rio e a pesca representam \u201cum saber patrimonial\u201d para esses povos, segundo o soci\u00f3logo Maur\u00edcio Torres.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um saber constru\u00eddo durante mil\u00eanios, passando de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o. Um saber que tem pelo menos dez mil anos. Quando se represa um rio e ele se transforma em um lago, se est\u00e1 transformando vertiginosamente esse meio e invalidando esse saber patrimonial respons\u00e1vel pela sobreviv\u00eancia dessa regi\u00e3o\u201d, ressaltou Torres \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>As hidrel\u00e9tricas do Tapaj\u00f3s s\u00e3o estrat\u00e9gicas para o governo porque abasteceriam de energia a zona Centro-Oeste e Sudeste, a mais rica e industrializada do Brasil. \u201cS\u00e3o uma necessidade para o pa\u00eds. Sem elas, daqui em diante teremos um apag\u00e3o\u201d, afirmou Jos\u00e9 de Lima, diretor de Planejamento do munic\u00edpio de Santar\u00e9m, no Par\u00e1.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o Movimento Tapaj\u00f3s Vivo, presidido pelo sacerdote cat\u00f3lico Edilberto Sena, questiona a necessidade de energia. \u201cPor que tantas hidrel\u00e9tricas no rio Tapaj\u00f3s? \u00c9 a grande pergunta porque n\u00f3s n\u00e3o precisamos dela. S\u00e3o as grandes mineradoras que necessitam dessa energia, s\u00e3o os mercados de S\u00e3o Paulo e do Rio de Janeiro que precisam dela\u201d, enfatizou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Cai a tarde em Sawr\u00e9Muybu e as fam\u00edlias se re\u00fanem no igarap\u00e9 (riacho). Entre banhos, as mulheres lavam roupas e utens\u00edlios dom\u00e9sticos. Desde crian\u00e7as, os homens aprendem a pescar, ca\u00e7ar e obter \u00e1gua para sua aldeia. Para a comunidade, \u00e9 da \u00e1gua que surge a vida. E \u201cningu\u00e9m tem direito de mudar\u201d o curso da vida, afirmou o xam\u00e3 Karo. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Fabiana Frayssinet, da IPS &ndash;&nbsp; Sawr&eacute;Muybu, Brasil, 5\/1\/2016 &ndash; Ao entardecer no rio Tapaj&oacute;s, um dos principais afluentes do Amazonas, os ind&iacute;genas munduruku reiniciam o ritual da pesca nessa bacia rica em peixes, seu alimento tradicional. 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