{"id":2031,"date":"2006-10-08T00:00:00","date_gmt":"2006-10-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2031"},"modified":"2006-10-08T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-08T00:00:00","slug":"chile-mulheres-sob-o-signo-do-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/america-latina\/chile-mulheres-sob-o-signo-do-medo\/","title":{"rendered":"Chile: Mulheres sob o signo do medo"},"content":{"rendered":"<p>Santiago, 08\/10\/2006 &ndash; Carolina &eacute; uma chilena de 26 anos que sofre constantes pesadelos nos quais &eacute; atacada por seu ex-noivo, que a assediou por v&aacute;rios meses ap&oacute;s o fim da rela&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o se conformava com isso, o que, inclusive, fez com que ela o denunciasse na pol&iacute;cia. <!--more--> Por outro lado, para sua compatriota Patricia Encina, de 28 anos, um de seus maiores medos &eacute; que ladr&otilde;es entrem em sua casa. Por isso decidiu, com seu marido, mudar para um condom&iacute;nio fechado nos arredores de Santiago, protegido por guardas nas 24 horas por dia. O que temem as mulheres nas cidades? Seus medos s&atilde;o irracionais? Quais conseq&uuml;&ecirc;ncias sociais est&aacute; causando o aumento da sensa&ccedil;&atilde;o de medo? Quais a&ccedil;&otilde;es podem ser feitas pelas mulheres, e popula&ccedil;&atilde;o em geral, para enfrentar a extrema preocupa&ccedil;&atilde;o que sentem em rela&ccedil;&atilde;o aos criminosos?<\/p>\n<p>Estas e outras perguntas foram respondidas por pesquisadoras e ativistas de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais no semin&aacute;rio internacional \u201cCidades sem Viol&ecirc;ncia para as Mulheres. Cidades Seguras para Tod@s\u201d, que aconteceu nestas segunda-feira e ter&ccedil;a-feira em Santiago. A inseguran&ccedil;a p&uacute;blica &eacute; um tema que ressurgiu com muita for&ccedil;a nas cidades da Am&eacute;rica Latina, especialmente nas capitais. Nesse contexto, os temores das mulheres s&atilde;o m&uacute;ltiplos e dependem de uma s&eacute;rie de fatores, entre eles a da idade, n&iacute;vel s&oacute;cio-econ&ocirc;mico, zona geogr&aacute;fica onde vivem e a ra&ccedil;a, especialmente em pa&iacute;ses pluri&eacute;tnicos.<\/p>\n<p>\u201cNa Col&ocirc;mbia, as mulheres t&ecirc;m medo de serem assaltadas nas ruas e da viol&ecirc;ncia sexual, que pode ser um ass&eacute;dio, uma viola&ccedil;&atilde;o ou um manuseio, que acontece muito no transporte p&uacute;blico\u201d, disse &agrave; IPS Marisol Dalmazzo, da n&atilde;o-governamental Associa&ccedil;&atilde;o Moradia Popular, que integra a Rede Mulher e Habitat Am&eacute;rica Latina (HIC). A pesquisadora explicou que muitas mulheres de &aacute;reas pobres s&atilde;o abordadas agressivamente por pessoas que pedem esmolas nas ruas. \u201cExiste a percep&ccedil;&atilde;o de que o espa&ccedil;o p&uacute;blico n&atilde;o est&aacute; suficientemente dotado ou seguro para evitar agress&otilde;es\u201d, acrescentou. \u201cTamb&eacute;m h&aacute; a viol&ecirc;ncia pol&iacute;tica pelos efeitos do conflito armado (que vive esse pa&iacute;s h&aacute; mais de 40 anos). A maioria das pessoas que abandonaram suas casas por causa da guerra civil &eacute; de mulheres, que vivem com uma carga emocional muito grande e que recrudesce na cidade\u201d, disse Dalmazzo.<\/p>\n<p>A viol&ecirc;ncia f&iacute;sica e sexual aumenta entre as fam&iacute;lias refugiadas, assim como a gravidez de adolescentes e os problemas de sa&uacute;de, destacou a especialista colombiana. Dalmazzo foi uma das assistentes, junto com outras pesquisadoras e ativistas, do f&oacute;rum realizado na capital chilena com parte do Programa Regional \u201cCidades Seguras: Viol&ecirc;ncia contra as mulheres e pol&iacute;ticas p&uacute;blicas\u201d, executado pelo Fundo de Desenvolvimento das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Mulher (Unifem) e financiado pela Ag&ecirc;ncia Espanhola de Coopera&ccedil;&atilde;o Internacional (AECI). \u201cAs teorias criminol&oacute;gicas dos anos 80 desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa diziam que as mulheres tinham medos irracionais e contagiosos\u201d, explicou Luc&iacute;a Dammert, da Faculdade Latino-Americana de Ci&ecirc;ncias Sociais (Flacso), j&aacute; que, em geral, o grau de vitimiza&ccedil;&atilde;o das mulheres &eacute; menor do que o dos homens.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, estes fundamentos se desvirtuaram nos estudos realizados na &uacute;ltima d&eacute;cada, os quais legitimaram o medo das mulheres em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; criminalidade, analisando o fen&ocirc;meno da viol&ecirc;ncia a partir de diferentes perspectivas. Esta realidade representa um grande desafio para os pa&iacute;ses e seus governos, j&aacute; que \u201co temor cada vez mais molda a vida urbana\u201d, impactando gravemente na popula&ccedil;&atilde;o, que viu reduzir drasticamente seu espa&ccedil;o e tempo. As mulheres se fecham em suas casas, evitam sair muito cedo e &agrave; noite, deixam de usar j&oacute;ias e visitar parentes, n&atilde;o usam transporte p&uacute;blico e, como transmitem a sensa&ccedil;&atilde;o de medo para seus filhos, est&aacute; se formando uma gera&ccedil;&atilde;o de pessoas que n&atilde;o se socializam publicamente, afirmou Dammert.<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres se fecham em suas casas e se dedicam a ver televis&atilde;o, que transmite mais criminalidade\u201d, alertou a especialista, assegurando que por tr&aacute;s do medo exacerbado estaria \u201ca sombra do abuso sexual e da agress&atilde;o f&iacute;sica\u201d. S&oacute; a possibilidade de ser violada na rua aterrorizaria a popula&ccedil;&atilde;o feminina. Entretanto, Ivonne Fern&aacute;ndez, psic&oacute;loga do Centro de Desenvolvimento da Mulher (Domos), do Chile, acredita que a viol&ecirc;ncia contra a mulher deve ser entendida como um \u201ccont&iacute;nuo\u201d. A viol&ecirc;ncia \u201ccome&ccedil;a em casa e termina na rua e volta &agrave; casa e, assim, sucessivamente\u201d, por isso, distinguir entre viol&ecirc;ncia p&uacute;blica e privada s&oacute; faz impedir que se compreenda o fen&ocirc;meno em sua complexidade, disse &agrave; IPS.<\/p>\n<p>\u201cEm geral, quando falamos de viol&ecirc;ncia na cidade nos centramos principalmente no crime que as mulheres enfrentam na rua e n&atilde;o nos integramos no discurso, nem nas pol&iacute;ticas e nem nas pesquisas a viol&ecirc;ncia que vivem dentro de casa\u201d, acrescentou Fern&aacute;ndez. Nesse sentido, a pesquisadora trabalhou uma hip&oacute;tese psicol&oacute;gica sobre esta aparentemente desmedida sensa&ccedil;&atilde;o de temor das mulheres em rela&ccedil;&atilde;o ao p&uacute;blico. \u201cElas dizem ter medo da rua, ma, se forem perguntadas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; casa jamais dir&atilde;o o mesmo, apesar de o principal temor radicar precisamente no lar\u201d, afirmou Fern&aacute;ndez, para quem haveria uma esp&eacute;cie de \u201cdissocia&ccedil;&atilde;o\u201d na popula&ccedil;&atilde;o feminina, a qual se nega a reconhecer a vulnerabilidade que vive na intimidade, projetando-a para o p&uacute;blico. Diversas pesquisas feitas com mulheres de bairros pobres de Santiago a levaram a essa conclus&atilde;o.<\/p>\n<p>Para Claudia Laub, diretora da ONG argentina El Agora, a sociedade civil tem muito a contribuir nesta mat&eacute;ria. As institui&ccedil;&otilde;es civis t&ecirc;m de se reunir, debater sobre o que lhes causa inseguran&ccedil;a e gerar propostas espec&iacute;ficas, porque neste momento o medo est&aacute; encerrando as mulheres em suas casas, disse &agrave; IPS. Nesse sentido, &eacute; muito importante a apropria&ccedil;&atilde;o da cidade, a realiza&ccedil;&atilde;o de festivais e atividades ao ar livre, como montagens teatrais ou proje&ccedil;&atilde;o de filmes. \u201cNossos estudos revelam que as mulheres j&aacute; n&atilde;o querem mais ser vigilantes, mas que est&atilde;o se tornando pr&oacute;-ativas. Querem um sistema de seguran&ccedil;a cidad&atilde;o mais solid&aacute;rio, constru&iacute;do socialmente\u201d, disse a pesquisadora da Flacso.<\/p>\n<p>Por sua vez, Nieves Rico, representante da Comiss&atilde;o Econ&ocirc;mica para a Am&eacute;rica Latina e o caribe, prop&ocirc;s que os governos trabalhem em pol&iacute;ticas de desenvolvimento urbano com perspectivas de g&ecirc;nero, entre elas de transporte, ilumina&ccedil;&atilde;o e localiza&ccedil;&atilde;o ou re-localiza&ccedil;&atilde;o de povoa&ccedil;&otilde;es, planos reguladores, entre outros. Algumas das tarefas pendentes s&atilde;o come&ccedil;ar a desagregar por g&ecirc;nero a informa&ccedil;&atilde;o recolhida pelos governos em suas diversas pesquisas e incluir os homens, que exercem majoritariamente a viol&ecirc;ncia nas pol&iacute;ticas de preven&ccedil;&atilde;o. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santiago, 08\/10\/2006 &ndash; Carolina &eacute; uma chilena de 26 anos que sofre constantes pesadelos nos quais &eacute; atacada por seu ex-noivo, que a assediou por v&aacute;rios meses ap&oacute;s o fim da rela&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o se conformava com isso, o que, inclusive, fez com que ela o denunciasse na pol&iacute;cia. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/america-latina\/chile-mulheres-sob-o-signo-do-medo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6],"tags":[],"class_list":["post-2031","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2031","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2031"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2031\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2031"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2031"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2031"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}