{"id":20319,"date":"2016-01-07T13:40:46","date_gmt":"2016-01-07T13:40:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=204660"},"modified":"2016-01-07T13:40:46","modified_gmt":"2016-01-07T13:40:46","slug":"soja-faz-renascer-estrada-amazonica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/01\/ultimas-noticias\/soja-faz-renascer-estrada-amazonica\/","title":{"rendered":"Soja faz renascer estrada amaz\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_204661\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-204661\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/carretera_br2-629x420.jpg\" alt=\"A camponesa Rosineide Maciel contempla a reconstru\u00e7\u00e3o da rodovia BR-163, no munic\u00edpio de Itaituba, no Estado do Par\u00e1. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/carretera_br2-629x420-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/carretera_br2-629x420.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">A camponesa Rosineide Maciel contempla a reconstru\u00e7\u00e3o da rodovia BR-163, no munic\u00edpio de Itaituba, no Estado do Par\u00e1. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Fabiana Frayssinet, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miritituba, Brasil, 7\/1\/2016 \u2013 A rodovia BR-163, antigo sonho colonizador da Amaz\u00f4nia dos militares brasileiros, foi ressuscitada pelos agroexportadores, dentro de um plano para reduzir custos atrav\u00e9s de suas hidrovias. Mas sua reconstru\u00e7\u00e3o acentuou problemas hist\u00f3ricos de desmatamento e posse da terra, e anuncia novos conflitos sociais.A imagem da Amaz\u00f4nia, uma floresta tropical \u00famida que abriga a maior diversidade do planeta, pouco se assemelha \u00e0 dos 350 quil\u00f4metros que unem os munic\u00edpios de Santar\u00e9me Itaituba, ambos no Estado do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Entre os atuais terminais portu\u00e1rios, o de Santar\u00e9m, onde confluem os rios Amazonas e seu grande afluente Tapaj\u00f3s, e o distrito de Miritituba, \u00e0s margens deste \u00faltimo, em Itaituba,se vislumbra pequenos arvoredos salpicados por grandes planta\u00e7\u00f5es de soja. O gado bovino pastando mansamente ou descansando \u00e0 sombra das escassas \u00e1rvores, se abrigando das altas temperaturas acentuadas pelo desmatamento, \u00e9 a \u00fanica esp\u00e9cie vis\u00edvel de mam\u00edfero.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 30 anos, quando viemos para c\u00e1, era s\u00f3 floresta\u201d, contou \u00e0 IPS a camponesa Rosineide Maciel, que junto com sua fam\u00edlia observa uma m\u00e1quina nivelando um trecho da estrada em frente ao seu rancho. Ela n\u00e3o esquece aquele tempo quando, junto a milhares de migrantes brasileiros, chegou atra\u00edda pela oferta de terras dos planos de ocupa\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica, oferecidos pelos governos militares da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 pavimenta\u00e7\u00e3o da estrada, desde 2009, demora menos para transportar sua mandioca, o arroz e os corantes at\u00e9 Rur\u00f3polis, a 200 quil\u00f4metros de sua propriedade. \u201cDepois que a estrada melhorou, ficou mais f\u00e1cil. Antes, para chegar a Rur\u00f3polis havia muitos altos e baixos. Se tinha lama, demor\u00e1vamos tr\u00eas dias\u201d, recordou Maciel.<\/p>\n<p>A BR-163, constru\u00edda na d\u00e9cada de 1970 e que chegou a ficar praticamente intransit\u00e1vel, une Cuiab\u00e1, capital do Estado do Mato Grosso \u2013 principal produtor e exportador nacional de soja \u2013, a Santar\u00e9m. Dos seus 1.400 quil\u00f4metros, onde \u00e9 intenso o tr\u00e1fego de caminh\u00f5es carregados com toneladas de soja e milho, ainda faltam cerca de 200 para serem asfaltados e outros tantos est\u00e3o cheios de lombadas.<\/p>\n<p>No inverno, a baixa visibilidade provocada pela poeira vermelha amaz\u00f4nica, e, no ver\u00e3o, a lama geradapelas intensas chuvas causam acidentes di\u00e1rios. Ainda assim, comparada com o passado, \u00e9 um para\u00edso para os caminhoneiros que em \u00e9poca de colheita a percorrem pelo menos cinco vezespor m\u00eas. \u201cQuando come\u00e7ou a vir a soja para Santar\u00e9m, h\u00e1 tr\u00eas anos, \u00e0s vezes eu demorava de dez a 15 dias. Hoje fazemos o percurso em tr\u00eas, se n\u00e3o chove\u201d, detalhou \u00e0 IPS o caminhoneiro Pedro Gomes, do norte do Mato Grosso.<\/p>\n<div id=\"attachment_204662\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-204662\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/carretera_br.jpg\" alt=\"Obras de reconstru\u00e7\u00e3o da rodovia BR-163 no munic\u00edpio de Itaituba, no Par\u00e1. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS \" width=\"340\" height=\"218\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Obras de reconstru\u00e7\u00e3o da rodovia BR-163 no munic\u00edpio de Itaituba, no Par\u00e1. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>A BR-163 termina em Santar\u00e9m, na entrada de um porto da empresa norte-americana Cargill, onde embarca seus gr\u00e3os e os transporta pelo rio Amazonas para o Oceano Atl\u00e2ntico, e dali para os principais mercados mundiais, como China e Europa.Esse e outros portos constru\u00eddos ou planejados por outras companhias em Santar\u00e9m, Mirititubae Barcarena (em Bel\u00e9m, capital do Par\u00e1, na desembocadura do Amazonas) s\u00e3o parte de uma infraestrutura log\u00edstica que, somada \u00e0 pavimenta\u00e7\u00e3o da estrada, busca economizar custos com frete terrestre e mar\u00edtimo.<\/p>\n<p>Dessa maneira, foram reduzidos,a partirdo Mato Grosso, os dois mil quil\u00f4metros que os caminh\u00f5es percorriam at\u00e9 os saturados portos das regi\u00f5esSul e Sudeste do pa\u00eds, como Santos, no Estado de S\u00e3o Paulo, ou Paranagu\u00e1, no Estado do Paran\u00e1. A Associa\u00e7\u00e3o de Produtores de Soja do Mato Grosso calcula em US$ 40 a economia do frete por tonelada.<\/p>\n<p>\u201cA sa\u00edda por portos do Norte, como Santar\u00e9m, d\u00e1 competitividade. A BR-163 \u00e9 fundamental, um corredor de exporta\u00e7\u00e3o e uma necessidade para o pa\u00eds e a regi\u00e3o\u201d, ressaltou Jos\u00e9 de Lima, diretor de Planejamento de Santar\u00e9m. Por\u00e9m, o modelo agroexportador \u00e9 questionado por outros. Com a consequente explos\u00e3o da soja no Par\u00e1, aumentou a ocupa\u00e7\u00e3o ilegal e subiu o pre\u00e7o da terra.<\/p>\n<p>\u201cA pavimenta\u00e7\u00e3o da BR-163 aqueceu o mercado de terras. Em uma regi\u00e3o onde impera a posse ilegal de terras e n\u00e3o existe ordenamento territorial, issogera uma s\u00e9rie de conflitos sociais e ambientais\u201d, explicou \u00e0 IPS Maur\u00edcio Torres, da Universidade Federal do Oeste do Par\u00e1 (Ufopa). \u201cSe desmata n\u00e3o para produzir, mas para a apropria\u00e7\u00e3o fraudulenta da terra. Uma frase comum usada na regi\u00e3o da BR-163 \u00e9 que \u2018dono \u00e9 quem desmata\u2019, ou seja, o desmatamento ilegal passa a ser um instrumento de apropria\u00e7\u00e3o de terras p\u00fablicas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Em 2006, o governo lan\u00e7ou um programa de desenvolvimento sustent\u00e1vel para a \u00e1rea de influ\u00eancia da BR-163, para reduzir os impactos socioambientais provocados pela sua reconstru\u00e7\u00e3o, mediante projetos autossustent\u00e1veis para as comunidades locais. Mas foi \u201cum pouco abandonado\u201d, disse \u00e0 IPS a reitora da Ufopa, Raimunda Nogueira.\u201cSe as comunidades ao redor da BR-163 n\u00e3o forem fortalecidas, a tend\u00eancia \u00e9 que passem por um processo de transforma\u00e7\u00e3o incr\u00edvel, por exemplo, que o pre\u00e7o da terra aumente e os pequenos vendam, aumentando os latif\u00fandios\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O desmatamento em grande escala teve lugar na d\u00e9cada de 1980, com a explora\u00e7\u00e3o da madeira. Por\u00e9m, isso n\u00e3o deixou \u00e1reas \u201cdesnudas\u201d, segundo a reitora, porque a agricultura de subsist\u00eancia \u201cmanteve diversas escalas de regenera\u00e7\u00e3o florestal\u201d. Mas, \u201cquando os grandes produtores chegaram, cortaram todas essas \u00e1reas em fase de regenera\u00e7\u00e3o que mantinham certo equil\u00edbrio\u201d, pontuou Nogueira, que estima que cerca de 120 mil hectares foram transformados em planta\u00e7\u00f5es de soja.<\/p>\n<p>Por sua vez, Torres se refere ao surgimento de outros problemas sociais, como a prostitui\u00e7\u00e3o, inclusive de menores de idade. \u201cH\u00e1 cidades centen\u00e1rias do Par\u00e1que poderiam se converter em grandes bord\u00e9is de caminhoneiros\u201d, ressaltou.Os moradores de Campo Verde, povoado de seis mil habitantes a 30 quil\u00f4metros de Miritituba, que vivem da produ\u00e7\u00e3o de palmito e de serrarias, j\u00e1 antecipam esses efeitos nos canteiros de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O povoado ficar\u00e1 na jun\u00e7\u00e3o da BR-163 e com a Transamaz\u00f4nica, estrada com mais de quatro mil quil\u00f4metros que cruza todo o norte brasileiro.\u201cPor aqui v\u00e3o passar apenas os transportadores de soja. Calcula-se que ser\u00e3o, em m\u00e9dia, 1.500 caminh\u00f5es por dia. Calcule os acidentes que teremos com todos esses caminhoneiros que v\u00eam como loucos e nem freiam\u201d, questionou \u00e0 IPS a l\u00edder comunit\u00e1ria do povoado, Celeste Ghizone, que tamb\u00e9m teme a chegada da criminalidade e das drogas.<\/p>\n<p>A nova log\u00edstica permitir\u00e1 exportar, a partir de 2020, 20 milh\u00f5es de toneladas de gr\u00e3os, dos 42 milh\u00f5es que Mato Grosso produz atualmente. O sonho das empresas agr\u00edcolas \u00e9 continuar ampliando o corredor da soja, construindo uma ferrovia at\u00e9 Miritituba.\u201c\u00c9 importante destacar que a BR-163 asfaltada n\u00e3o \u00e9 uma infraestrutura local, mas serve para os grandes produtores de soja do Mato Grosso. O Estado do Par\u00e1 se converter\u00e1 em um mero corredor de transporte de soja\u201d, lamentou Torres. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Fabiana Frayssinet, da IPS &ndash;&nbsp; &nbsp; Miritituba, Brasil, 7\/1\/2016 &ndash; A rodovia BR-163, antigo sonho colonizador da Amaz&ocirc;nia dos militares brasileiros, foi ressuscitada pelos agroexportadores, dentro de um plano para reduzir custos atrav&eacute;s de suas hidrovias. 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