{"id":20321,"date":"2016-01-07T12:03:32","date_gmt":"2016-01-07T12:03:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=204687"},"modified":"2016-01-07T12:03:32","modified_gmt":"2016-01-07T12:03:32","slug":"siriauma-luz-para-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/01\/ultimas-noticias\/siriauma-luz-para-o-mundo\/","title":{"rendered":"S\u00edria,uma luz para o mundo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_204688\" style=\"width: 387px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-204688 size-full\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mairead-377x472.jpg\" alt=\"mairead-377x472\" width=\"377\" height=\"472\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mairead-377x472-240x300.jpg 240w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mairead-377x472.jpg 377w\" sizes=\"(max-width: 377px) 100vw, 377px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Mairead Maguire<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mairead Maguire*<\/em><\/p>\n<p>Belfast, Irlanda do Norte, 7\/1\/2016 \u2013 Em novembro de 2015 visitei a S\u00edria junto com uma delega\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Internacional do Conselho pela Paz. Foi minha terceira visita ao pa\u00eds nos \u00faltimos tr\u00eas anos. Como em ocasi\u00f5es anteriores, me comoveu o esp\u00edrito de resist\u00eancia e coragem do povo s\u00edrio.<\/p>\n<p>Apesar de nos \u00faltimos cinco anos esse pa\u00eds do Oriente M\u00e9dio ter afundado na guerra por for\u00e7as externas, a grande maioria do seu povo segue adiante com suas vidas cotidianas e muitos se dedicam a trabalhar pela paz, a reconcilia\u00e7\u00e3o e a unidade de sua amada S\u00edria.<\/p>\n<p>Lutam para superar o temor de que a interfer\u00eancia externa e as for\u00e7as destrutivas no interior da S\u00edria os levem a sofrer o mesmo destino terr\u00edvel de Afeganist\u00e3o, Iraque, Ucr\u00e2nia, I\u00eamen e muito outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Muitos s\u00edrios est\u00e3o traumatizados e em estado de choque e se perguntam \u201ccomo isso aconteceu em nosso pa\u00eds?\u201d. Pensavam que as guerras por terceiros eram algo que ocorria em outros pa\u00edses, mas agora a S\u00edria tamb\u00e9m se converteu em uma zona de combate,em um cen\u00e1rio geopol\u00edtico controlado pela elite ocidental internacional e seus aliados no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Muitos com os quais nos encontramos n\u00e3o demoraram em nos dizer que a S\u00edria n\u00e3o vive uma guerra civil, mas uma invas\u00e3o estrangeira. E tamb\u00e9m que isso n\u00e3o \u00e9 um conflito religioso entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Nas palavras do patriarca Gregorios III Laham, \u201cos mu\u00e7ulmanos e os crist\u00e3os n\u00e3o s\u00f3 dialogam entre si, mas suas ra\u00edzes est\u00e3o entrela\u00e7adas j\u00e1 que convivem h\u00e1 mais de 1.436 anos sem guerras, apesar de desacordos e conflitos&#8230; com os anos a paz e a conviv\u00eancia superaram a controv\u00e9rsia\u201d.<\/p>\n<p>Na S\u00edria nossa delega\u00e7\u00e3o viu que as rela\u00e7\u00f5es entre crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos podem transcender a toler\u00e2ncia m\u00fatua e podem ser profundamente afetuosas.<\/p>\n<p>Durante nossa visita nos encontramos com centenas de pessoas, dirigentes pol\u00edticos locais e nacionais, figuras do governo e da oposi\u00e7\u00e3o, l\u00edderes mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os, membros dos comit\u00eas de reconcilia\u00e7\u00e3o e refugiados internos. Tamb\u00e9m conhecemos muitas pessoas nas ruas de cidades e povoados, sunitas, xiitas, crist\u00e3os, alau\u00edtas, que sentem que suas vozes s\u00e3o ignoradas e pouco representadas no Ocidente.<\/p>\n<p>Os jovens manifestaram seu desejo de ver um Estado novo que garanta a igualdade social, a liberdade de todos os grupos religiosos e \u00e9tnicos e a prote\u00e7\u00e3o das minorias, e que essa fosse obra do povo s\u00edrio, n\u00e3o de for\u00e7as externas, e que se fa\u00e7a a paz. Conhecemos muitos s\u00edrios que recha\u00e7am a viol\u00eancia e trabalham para resolver o conflito mediante a negocia\u00e7\u00e3o e a coloca\u00e7\u00e3o em pr\u00e1tica do processo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Poucos dos s\u00edrios que conhecemos tinham a ilus\u00e3o de que seu presidente, Bashar al Assad, eleito por 70% dos votos, seja perfeito, mas muitos o admiram e o preferem \u00e0 alternativa de o governo cair em m\u00e3os dos combatentes jihadistas, extremistas fundamentalistas com uma ideologia que obrigaria as minorias \u2013 e os sunitas moderados \u2013 a fugirem da S\u00edria, ou morrer.<\/p>\n<p>J\u00e1 viveram isso com o \u00eaxodo de milhares de s\u00edrios que fugiram por medo de serem assassinados ou de terem suas casas destru\u00eddas pelos combatentes estrangeiros jihadistas e pelos supostos moderados, treinados, financiados e alojados por for\u00e7as externas.<\/p>\n<p>Na antiga cidade de Homs, testemunhamos casas bombardeadas depois que milhares de moradores fugiram quando rebeldes atacaram as for\u00e7as s\u00edrias desde zonas residenciais (em uma estrat\u00e9gia de escudos humanos) e os militares responderam com for\u00e7a letal contra a popula\u00e7\u00e3o civil e os edif\u00edcios, algo que tamb\u00e9m foi feito com os locais culturais, tamb\u00e9m usados como escudos.<\/p>\n<p>Em Homs nos reunimos com membros do comit\u00ea de reconcilia\u00e7\u00e3o, dirigido por um sacerdote e um xeque. Tamb\u00e9m visitamos o t\u00famulo de um sacerdote jesu\u00edta assassinado pelos combatentes do extremista Estado Isl\u00e2mico, e a igreja cat\u00f3lica reconstru\u00edda, j\u00e1 que a original foi queimada.<\/p>\n<p>Durante as reuni\u00f5es \u00e0 luz de velas, devido aos apag\u00f5es, ouvimos como crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos na cidade foram fundamentais para a reabilita\u00e7\u00e3o dos combatentes que decidiram largar as armas e aceitar a oferta de anistia do governo.<\/p>\n<p>Nos pediram que solicit\u00e1ssemos \u00e0 comunidade internacional que ponha fim \u00e0 guerra na S\u00edria e apoie a paz, e para nossa delega\u00e7\u00e3o foi particularmente triste e decepcionante que, nesse mesmo dia, o arcebispo anglicano de Canterbury anunciasse seu apoio ao voto favor\u00e1vel da Gr\u00e3-Bretanha ao bombardeio contra a S\u00edria.<\/p>\n<p>Posteriormente, o governo brit\u00e2nico votou a favor da guerra na S\u00edria. Se Estados Unidos, Gr\u00e3-Bretanha e Uni\u00e3o Europeia, entre outros, desejam ajudar o povo s\u00edrio, podem levantar imediatamente as san\u00e7\u00f5es que est\u00e3o lhes causando grandes pen\u00farias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m visitamos a cidade crist\u00e3 de Maalula \u2013 onde ainda se fala aramaico, a l\u00edngua de Jesus \u2013, uma das localidades crist\u00e3s mais antigas do Oriente M\u00e9dio. Na igreja de S\u00e3o Jorge, o sacerdote explicou como depois de a igreja ser queimada at\u00e9 o concreto pelos rebeldes com apoio ocidental, e muitos crist\u00e3os serem mortos, o povo de Maalula levou uma mesa at\u00e9 as ru\u00ednas da igreja e, depois de rezar, come\u00e7ou a reconstru\u00ed-la, bem como suas casas.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, tamb\u00e9m nesse lugar alguns moradores mu\u00e7ulmanos destru\u00edram as casas de seus vizinhos crist\u00e3os, e isso nos recordou as complexidades do conflito s\u00edrio e a necessidade de ensinar a n\u00e3o viol\u00eancia e construir a paz e a resili\u00eancia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nos sensibilizou mais profundamente a dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o que padecem n\u00e3o apenas os sunitas moderados diante dos extremistas, mas a grande quantidade de crist\u00e3os que foge do Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se estabilizar na S\u00edria e no resto da regi\u00e3o, restar\u00e3o poucos crist\u00e3os no chamado ber\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o, onde surgiu o cristianismo, onde os seguidores das tr\u00eas religi\u00f5es <em>abra\u00e2micas<\/em> vivem e trabalham como irm\u00e3os na unidade.<\/p>\n<p>O Oriente M\u00e9dio j\u00e1 testemunha, praticamente, o tr\u00e1gico desaparecimento do juda\u00edsmo, e essa trag\u00e9dia est\u00e1 acontecendo a um ritmo alarmante com os crist\u00e3os do Levante.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 esperan\u00e7a e a S\u00edria \u00e9 uma luz para o mundo, j\u00e1 que h\u00e1 muitas pessoas que trabalham pela paz e a reconcilia\u00e7\u00e3o, o di\u00e1logo e a negocia\u00e7\u00e3o. \u00c9 aqui onde resta a esperan\u00e7a e o que todos podemos apoiar ao recha\u00e7ar a viol\u00eancia e a guerra na S\u00edria, no Oriente M\u00e9dio e em nosso planeta. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>*<strong>Mairead Maguire <\/strong>\u00e9 ativista da Irlanda do Norte e ganhadora do pr\u00eamio Nobel da Paz em 1976.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mairead Maguire* Belfast, Irlanda do Norte, 7\/1\/2016 &ndash; Em novembro de 2015 visitei a S&iacute;ria junto com uma delega&ccedil;&atilde;o do Comit&ecirc; Internacional do Conselho pela Paz. Foi minha terceira visita ao pa&iacute;s nos &uacute;ltimos tr&ecirc;s anos. Como em ocasi&otilde;es anteriores, me comoveu o esp&iacute;rito de resist&ecirc;ncia e coragem do povo s&iacute;rio. 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