{"id":20349,"date":"2016-01-15T13:30:18","date_gmt":"2016-01-15T13:30:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=204751"},"modified":"2016-01-15T13:30:18","modified_gmt":"2016-01-15T13:30:18","slug":"saber-tradicional-contra-a-mudanca-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/01\/ultimas-noticias\/saber-tradicional-contra-a-mudanca-climatica\/","title":{"rendered":"Saber tradicional contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_204752\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-204752\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/EL-SALVADOR-05_o_1000_Adolfo-629x418.jpg\" alt=\"O salvadorenho Adolfo \u00e9 um exemplo dos benef\u00edcios da agroecologia camponesa. Foto: Jason Taylor\/Amigos da Terra Internacional \" width=\"340\" height=\"226\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/EL-SALVADOR-05_o_1000_Adolfo-629x418-300x199.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/EL-SALVADOR-05_o_1000_Adolfo-629x418.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">O salvadorenho Adolfo \u00e9 um exemplo dos benef\u00edcios da agroecologia camponesa. Foto: Jason Taylor\/Amigos da Terra Internacional<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Frederic Mousseau*<\/em><\/p>\n<p>Oakland, Estados Unidos, 15\/1\/2016 \u2013 Milh\u00f5es de agricultores africanos n\u00e3o precisam se adaptar \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, j\u00e1 que o fizeram gra\u00e7as \u00e0 agroecologia, baseada em pr\u00e1ticas e saberes tradicionais, que tamb\u00e9m permitem garantir a seguran\u00e7a alimentar.Como muitas comunidades na \u00c1frica, as das Terras Altas de Gamo, na Eti\u00f3pia, est\u00e3o bem preparadas para as varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A grande biodiversidade da \u00e1rea, a base de seu sistema agr\u00edcola, permite adaptar suas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas com facilidade \u00e0s varia\u00e7\u00f5es do clima.Essa comunidade tamb\u00e9m est\u00e1 acostumada a administrar o ambiente e os recursos naturais de forma adequada e sustent\u00e1vel, arraigada em seus costumes e conhecimentos tradicionais, o que as torna resilientes a inunda\u00e7\u00f5es e secas.<\/p>\n<p>Os sistemas agr\u00edcolas ancestrais costumam ser considerados muito arcaicos pelos governos centrais, mas t\u00eam muito a ensinar ao mundo, especialmente diante dos desafios apresentados pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a inseguran\u00e7a alimentar.A partir dos conhecimentos ind\u00edgenas, agricultores de todo o continente conseguiram acumular muita experi\u00eancia e inova\u00e7\u00e3o de sucesso em mat\u00e9ria agr\u00edcola.<\/p>\n<p>Esses esfor\u00e7os se desenvolveram de forma consistente nas \u00faltimas d\u00e9cadas, ap\u00f3s as secas que atingiram muitos pa\u00edses nos anos 1970 e 1980.No Qu\u00eania, o sistema de agricultura biointensiva foi desenhado nos \u00faltimos 30 anos para ajudar os pequenos agricultores a cultivarem maior quantidade de alimentos nas terras mais pobres e com um m\u00ednimo de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Cerca de 200 mil agricultores quenianos, que alimentam aproximadamente um milh\u00e3o de pessoas, adotaram a agricultura biointensiva, que utiliza at\u00e9 90% menos \u00e1gua do que com a alternativa convencional, al\u00e9mde reduzir entre 50% e 100% a compra de fertilizantes, gra\u00e7as a um conjunto de pr\u00e1ticas agroecol\u00f3gicas que fornecem mais material org\u00e2nico ao solo, a quase continuidade da cobertura de terras cultivadas e uma fertilidade adequada para a boa sa\u00fade das plantas e ra\u00edzes.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o do Sahel, na fronteira do deserto do Saara, \u00e9 conhecida por suas duras condi\u00e7\u00f5es ambientais e pela amea\u00e7a da desertifica\u00e7\u00e3o. O que n\u00e3o se sabe muito \u00e9 a respeito do enorme \u00eaxito das a\u00e7\u00f5es adotadas para deter o avan\u00e7o das terras \u00e1ridas.Lan\u00e7ado nos anos 1980, o Projeto de Desenvolvimento Rural Keita, em N\u00edger, demorou 20 anos para recuperar o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico e melhorar drasticamente a economia agr\u00e1ria na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, foram plantadas cerca de 18 milh\u00f5es de \u00e1rvores, a superf\u00edcie florestal aumentou 300%, enquanto a estepe com arbustos e dunas diminu\u00edram 30%. Al\u00e9m disso, as terras cultiv\u00e1veis se expandiram em cerca de 80%.Em toda a regi\u00e3o, um grande n\u00famero de projetos utilizou solu\u00e7\u00f5es agroecol\u00f3gicas para restabelecer as terras degradadas e poupar os escassos recursos h\u00eddricos, ao mesmo tempo aumentando a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e melhorando a resili\u00eancia e o sustento dos agricultores.<\/p>\n<div id=\"attachment_204753\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"size-full wp-image-204753\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/Frederic.jpg\" alt=\"Frederic Mousseau. Foto: Cortesia do autor\" width=\"300\" height=\"241\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Frederic Mousseau. Foto: Cortesia do autor<\/p><\/div>\n<p>Em Tombuctu, norte de Mali, o Sistema de Intensifica\u00e7\u00e3o do Arroz conseguiu resultados surpreendentes com produ\u00e7\u00e3o de nove toneladas desse cereal por hectare, mais que o dobro do que permitem os m\u00e9todos convencionais, ao mesmo tempo em que foi poss\u00edvel economizar \u00e1gua e outros insumos.Em Burkina Faso, as t\u00e9cnicas de conserva\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e do solo, inclu\u00edda uma vers\u00e3o modernizada da tradicional forma de plantar com po\u00e7os, teve muito \u00eaxito na recupera\u00e7\u00e3o das terras degradadas e melhoria da produ\u00e7\u00e3o de alimentos e da renda.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses da \u00c1frica austral lidam com cont\u00ednuas secas, que geram grandes perdas nos cultivos de milho, o principal cereal da regi\u00e3o. H\u00e1 v\u00e1rios anos, agricultores e governos criaram uma variedade de solu\u00e7\u00f5es agroecol\u00f3gicas para evitar as crises alimentares e impulsionar a resili\u00eancia frente aos impactos clim\u00e1ticos.O enfoque comum foi abandonar o cultivo exclusivo de milho, que \u00e9 altamente vulner\u00e1vel \u00e0s varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, al\u00e9m de muito custoso e de exigir a compra de insumos, como sementes h\u00edbridas e fertilizantes.<\/p>\n<p>As solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis e acess\u00edveis de sucesso incluem gest\u00e3o e coleta de \u00e1gua da chuva, amplia\u00e7\u00e3o da agricultura de conserva\u00e7\u00e3o e regenerativa, promo\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do consumo de mandioca e outros tub\u00e9rculos, diversifica\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o de cultivos com \u00e1rvores fertilizantes e plantas leguminosas que fixam o nitrog\u00eanio.<\/p>\n<p>Os exemplos anteriores procedem de uma s\u00e9rie de 33 estudos de caso, divulgados pelo Instituto Oakland, que ilustram o enorme sucesso da agricultura agroecol\u00f3gica em todo o continente africano diante da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, da fome e da pobreza. Um dos aspectos que todos apresentam em comum \u00e9 que os agricultores, entre os quais h\u00e1 muitas mulheres, est\u00e3o \u00e0 frente de seus pr\u00f3prios projetos de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Outro elemento comum \u00e9 que n\u00e3o se baseiam em insumos agr\u00edcolas externos, como as sementes comerciais, os fertilizantes sint\u00e9ticos e os pesticidas qu\u00edmicos, a base da agricultura chamada convencional.Os principais insumos para a agroecologia s\u00e3o a pr\u00f3pria energia das pessoas e o senso comum, conhecimentos compartilhados e, naturalmente, o respeito pelos recursos naturais e seu uso adequado.<\/p>\n<p>A pergunta sobre a raz\u00e3o de esses casos de sucesso n\u00e3o serem conhecidos \u00e9 pertinente; ficam enterrados sob a ret\u00f3rica do discurso favor\u00e1vel a um desenvolvimento baseado em um coquetel destrutivo de ignor\u00e2ncia, cobi\u00e7a e neocolonialismo.<\/p>\n<p>Desde a crise dos pre\u00e7os dos alimentos em 2008, ouviu-se uma e outra vez o argumento de que a \u00c1frica necessitava do investimento estrangeiro na agricultura para \u201cdesenvolver\u201d o continente, de uma revolu\u00e7\u00e3o verde, de mais fertilizantes sint\u00e9ticos e de cultivos transg\u00eanicos para combater a fome e a pobreza. Pois bem, os estudos de caso da agroecologia jogam por terra esses mitos<\/p>\n<p>A evid\u00eancia, fatos e dados irrefut\u00e1veis, est\u00e3o ali: milh\u00f5es de africanos j\u00e1 desenharam suas pr\u00f3prias solu\u00e7\u00f5es para seu pr\u00f3prio beneficio e conseguiram se adaptar tanto aos sistemas agr\u00edcolas insustent\u00e1veis herdados da \u00e9poca colonial com aos atuais desafios que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a degrada\u00e7\u00e3o ambientalapresentam.<\/p>\n<p>Outra boa not\u00edcia \u00e9 que a transi\u00e7\u00e3o para a agroecologia \u00e9 acess\u00edvel para os governos africanos, que j\u00e1 gastam milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano em subs\u00eddios para fertilizantes e pesticidas. No Malawi, os subs\u00eddios \u00e0 agricultura chegam a cerca de 10% do or\u00e7amento nacional anual.<\/p>\n<p>A evid\u00eancia existente, baseada na experi\u00eancia de milh\u00f5es de agricultores, deveria impulsionar os governos africanos a optarem pela \u00fanica alternativa razo\u00e1vel: que o continente seja o protagonista na supera\u00e7\u00e3o da fome e na explora\u00e7\u00e3o corporativa e avan\u00e7o para uma forma sustent\u00e1vel e adaptada ao clima para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos para todos. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>*<strong>Frederic Mousseau <\/strong>\u00e9 diretor de pol\u00edticas do Instituto Oakland e coordenador da pesquisa do projeto de agroecologia.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Frederic Mousseau* Oakland, Estados Unidos, 15\/1\/2016 &ndash; Milh&otilde;es de agricultores africanos n&atilde;o precisam se adaptar &agrave; mudan&ccedil;a clim&aacute;tica, j&aacute; que o fizeram gra&ccedil;as &agrave; agroecologia, baseada em pr&aacute;ticas e saberes tradicionais, que tamb&eacute;m permitem garantir a seguran&ccedil;a alimentar.Como muitas comunidades na &Aacute;frica, as das Terras Altas de Gamo, na Eti&oacute;pia, est&atilde;o bem preparadas para as [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/01\/ultimas-noticias\/saber-tradicional-contra-a-mudanca-climatica\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1125,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1274,2501,2781,2458,983,2783],"class_list":["post-20349","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-agricultores","tag-agroecologia","tag-featured","tag-inter-press-service","tag-mudancas-climaticas","tag-news3"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20349","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1125"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20349"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20349\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20352,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20349\/revisions\/20352"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20349"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20349"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20349"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}