{"id":20373,"date":"2016-01-14T12:47:24","date_gmt":"2016-01-14T12:47:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=204737"},"modified":"2016-01-14T12:47:24","modified_gmt":"2016-01-14T12:47:24","slug":"leilao-humanitario-com-refugiados-sirios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/01\/ultimas-noticias\/leilao-humanitario-com-refugiados-sirios\/","title":{"rendered":"Leil\u00e3o humanit\u00e1rio com refugiados s\u00edrios"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_204738\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-204738\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/Siria.jpg\" alt=\"Menina s\u00edria diante de sua barraca de campanha, em Faida 3, um assentamento informal de barracas para refugiados s\u00edrios no Vale de Beka, no L\u00edbano. Foto: AlessioRomenz\/Unicef\" width=\"340\" height=\"226\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/Siria-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/Siria.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Menina s\u00edria diante de sua barraca de campanha, em Faida 3, um assentamento informal de barracas para refugiados s\u00edrios no Vale de Beka, no L\u00edbano. Foto: AlessioRomenz\/Unicef<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0BaherKamal, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Madri, Espanha, 14\/1\/2016 \u2013 H\u00e1 alguns meses, um incomum \u201cleil\u00e3o humanit\u00e1rio\u201d aconteceu nos escrit\u00f3rios da Comiss\u00e3o Europeia, em Bruxelas, ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3oda imagem do cad\u00e1ver de um menino s\u00edrio de tr\u00eas anos que o mar lan\u00e7ou nas costas turcas. O \u201cleil\u00e3o\u201d era para decidir o n\u00famero de refugiados s\u00edrios destinado a cada pa\u00eds da Uni\u00e3o Europeia (UE). A Alemanha ficou com o maior lote.<\/p>\n<p>Mas, antes da decis\u00e3o final, alguns dos pa\u00edses europeus menos ricos se apressaram em se mostrar reticentes. \u201cEstamos procurando sair da crise. Temos uma porcentagem muito alta de desempregados e um enorme d\u00e9ficit p\u00fablico&#8230;\u201d, tentavam explicar as autoridades espanholas por exemplo, com f\u00f3rmulas diplom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o da UE tamb\u00e9m desatou uma onda de controv\u00e9rsias pol\u00edticas. Alguns l\u00edderes conservadores, como o primeiro-ministro h\u00fangaro, Viktor Orban, argumentaram contra esse \u201ctsunami\u201d de mu\u00e7ulmanos amea\u00e7ando atacar \u201cnossa civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d. Outros, como o multimilion\u00e1rio norte-americano e pr\u00e9-candidato presidencial republicano, Donald Trump, se apressaram em reclamar a proibi\u00e7\u00e3o de entrada em seu pa\u00eds de todos os mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Por sua vez, os especialistas em mercado de trabalho argumentariam que o chamado processo de \u201csele\u00e7\u00e3o natural\u201d resolveria o problema, isto \u00e9, os mercados de trabalho contratariam aqueles refugiados qualificados como m\u00e3o de obra n\u00e3o custosa, enquanto os n\u00e3o qualificados acabariam sendo imigrantes ilegais sem documentos e, portanto, f\u00e1ceis de serem repatriados. Mas esse argumento n\u00e3o foi suficiente para acalmar o p\u00e2nico que v\u00e1rios pol\u00edticos e muitos meios de informa\u00e7\u00e3o introduziram entre cidad\u00e3os europeus.<\/p>\n<p>Outro argumento esgrimido por esses especialistas \u00e9 o fato de que a popula\u00e7\u00e3o europeia continua envelhecendo sem a substitui\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica necess\u00e1ria, o que se traduz em mais receptores de pens\u00f5es e menos contribuintes para repor o or\u00e7amento para aposentadorias. Tudo isso, naturalmente, \u00e0 margem das convic\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Quando a UE, encabe\u00e7ada pela Alemanha, decidiu oferecer ajuda econ\u00f4mica aos pa\u00edses de \u201cacolhida\u201d menos ricos (seis mil euros por refugiado), os mais recalcitrantes aceitaram o acordo. Assim, a Espanha, que concordou em receber entre 14 mil e 16 mil refugiados, foi animada h\u00e1 algumas semanas com a chegada dos primeiros 14.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os meios de comunica\u00e7\u00e3o difundiam dezenas de imagens dram\u00e1ticas e relatos tr\u00e1gicos sobre as quilom\u00e9tricas barreiras de arame farpado e barreiras constru\u00eddas por alguns Estados da Europa do Leste; a chamada \u201cselva de Calais\u201d na Fran\u00e7a; as centenas de refugiados presos nas fronteiras; a chegada do inverno; ou a morte di\u00e1ria de dezenas de seres humanos nas costas gregas.<\/p>\n<p>Depois vieram a matan\u00e7a brutal, desumana, execr\u00e1vel de civis franceses, no dia 13 de novembro, por parte de terroristas jihadistas, os ataques imediatamente anteriores contra a popula\u00e7\u00e3o desarmada no L\u00edbano, bem como os precedentes na Tun\u00edsia e, mais tarde, os da v\u00e9spera de Ano Novo na cidade alem\u00e3 de Col\u00f4nia, para n\u00e3o falar do assassinato di\u00e1rio de inocentes no Egito, Iraque, S\u00edria e Turquia, entre outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Tudo isso criou problemas internos para v\u00e1rios governantes europeus, como a chanceler alem\u00e3, Angela Merkel, al\u00e9m de alimentar ainda mais o p\u00e2nico induzido entre os cidad\u00e3os europeus. Dessa forma, as convic\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias europeias foram aos poucos se desfazendo.<\/p>\n<p>De repente, encontrou-se uma \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d. A UE pediu \u00e0 Turquia para manter os refugiados s\u00edrios em seu territ\u00f3rio ou em suas fronteiras, impedindo sua passagem para a Europa, em troca do pagamento de tr\u00eas bilh\u00f5es de euros e a promessa de descongelar o bloqueado processo de negocia\u00e7\u00f5es com Ancara para sua poss\u00edvel integra\u00e7\u00e3o ao clube europeu.Em outras palavras, transformar a Turquia em um \u201carmaz\u00e9m\u201d de refugiados s\u00edrios, at\u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, alguns fatos:<\/p>\n<p>&#8211; o n\u00famero total de refugiados s\u00edrios supera os 4,5 milh\u00f5es (segundo o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados \u2013 Acnur). Esse n\u00famero n\u00e3o inclui os cerca de 7,5 milh\u00f5es deslocados em seu pr\u00f3prio pa\u00eds. O total representaria mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o s\u00edria de 23 milh\u00f5es de habitantes;<\/p>\n<p>&#8211; o n\u00famero de refugiados s\u00edrios \u201cleiloados\u201d na Europa representaria apenas um quinto desses 4,5 milh\u00f5es errantes em solo europeu;<\/p>\n<p>&#8211; o n\u00famero de refugiados s\u00edrios que efetivamente poderiam permanecer na Europa cairia para menos de 15% desses 4,5 milh\u00f5es, segundo estimativas;<\/p>\n<p>&#8211; os restantes, ou 85% dos 4,5 milh\u00f5es de refugiados s\u00edrios, se distribuem atualmente no Oriente M\u00e9dio, em pa\u00edses \u00e1rabes pobres e\/ou inst\u00e1veis, como o L\u00edbano (com mais de um milh\u00e3o de refugiados, ou um quinto de sua popula\u00e7\u00e3o total), o turbulento Iraque, e a Jord\u00e2nia, onde o acampamento Za&#8217;atri representa a quarta \u201ccidade\u201d mais povoada do pa\u00eds;<\/p>\n<p>&#8211; a maior parte da ajuda e da assist\u00eancia humanit\u00e1rias procede dos deficit\u00e1rios recursos da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) ou de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil;<\/p>\n<p>&#8211; os pr\u00f3prios europeus tamb\u00e9m foram refugiados durante e depois da Segunda Guerra Mundial, com n\u00fameros que superam os de refugiados s\u00edrios;<\/p>\n<p>&#8211; o trabalho humanit\u00e1rio do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef) come\u00e7ou no final da Segunda Guerra Mundial e, em meados dos anos 1950, milh\u00f5es de crian\u00e7as europeias recebiam ajuda humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O que fazer agora com estes 4,5 milh\u00f5es de refugiados s\u00edrios?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s quase cinco anos de guerra que j\u00e1 custou a vida de mais de 300 mil pessoas, de intensos bombardeios a cargo de Estados Unidos, Fran\u00e7a, Gr\u00e3-Bretanha e R\u00fassia, da experimenta\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos modelos de drones (avi\u00f5es n\u00e3o tripulados) sobre o terreno, e de trag\u00e9dias humanas para mais da metade da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU de repente reagiu.<\/p>\n<p>Assim, as cinco maiores pot\u00eancias militares do mundo (Estados Unidos, Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a, R\u00fassia e China) adotaram, no dia 18 de dezembro, a Resolu\u00e7\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a 2254 (2015) estabelecendo um \u201cmapa do caminho\u201d para o processo de paz na S\u00edria, e um calend\u00e1rio de conversa\u00e7\u00f5es facilitadas pela ONU entre o regime de Bashar al Assad e os grupos da \u201coposi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Tudo se moveu muito rapidamente, tanto que o enviado especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a S\u00edria, Staffan de Mistura, j\u00e1 fixou o dia 25 deste m\u00eas como data limite para iniciar em Genebra as negocia\u00e7\u00f5es entre as partes. O \u201cmapa do caminho\u201d fala de muitas coisas, inclusive de elei\u00e7\u00f5es \u201clivres\u201d no prazo de 18 meses. Entretanto, n\u00e3o faz nenhuma men\u00e7\u00e3o expl\u00edcita ao destino dos 12 milh\u00f5es de refugiados em seu pr\u00f3prio pa\u00eds ou nas terras e mares do mundo, nenhum deles sabendo o que fazer ou para onde ir. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;BaherKamal, da IPS &ndash;&nbsp; Madri, Espanha, 14\/1\/2016 &ndash; H&aacute; alguns meses, um incomum &ldquo;leil&atilde;o humanit&aacute;rio&rdquo; aconteceu nos escrit&oacute;rios da Comiss&atilde;o Europeia, em Bruxelas, ap&oacute;s a divulga&ccedil;&atilde;oda imagem do cad&aacute;ver de um menino s&iacute;rio de tr&ecirc;s anos que o mar lan&ccedil;ou nas costas turcas. 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