{"id":20390,"date":"2016-01-18T12:22:40","date_gmt":"2016-01-18T12:22:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=204814"},"modified":"2016-01-18T12:22:40","modified_gmt":"2016-01-18T12:22:40","slug":"crise-no-brasil-e-principalmente-industrial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/01\/ultimas-noticias\/crise-no-brasil-e-principalmente-industrial\/","title":{"rendered":"Crise no Brasil \u00e9 principalmente industrial"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_204815\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-204815\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/BeloMonte.jpg\" alt=\"Oper\u00e1rios trabalham na instala\u00e7\u00e3o de uma das turbinas da hidrel\u00e9trica de Belo Monte, na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, no norte do Brasil. Megaprojetos como este deixar\u00e3o de ser comuns, como consequ\u00eancia da crise econ\u00f4mica e do processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Foto: Mario Osava\/IPS \" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/BeloMonte-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/BeloMonte.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Oper\u00e1rios trabalham na instala\u00e7\u00e3o de uma das turbinas da hidrel\u00e9trica de Belo Monte, na regi\u00e3o amaz\u00f4nica, no norte do Brasil. Megaprojetos como este deixar\u00e3o de ser comuns, como consequ\u00eancia da crise econ\u00f4mica e do processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 18\/1\/2016 \u2013 A economia no Brasil atravessa uma recess\u00e3o vista como um ciclo que, embora mais prolongado do que outros, ser\u00e1 superado em um ou dois anos. Entretanto, sua ind\u00fastria parece viver uma crise que coloca em d\u00favida seu destino. H\u00e1 praticamente dois anos que diminui sua produ\u00e7\u00e3o, em uma tend\u00eancia que se agrava, sem perspectivas de revers\u00e3o.<\/p>\n<p>Em novembro de 2015, a queda foi de 12,4% em compara\u00e7\u00e3o com novembro de 2014, segundo os \u00faltimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).A compara\u00e7\u00e3o mais ampla, de janeiro a novembro de 2015 com rela\u00e7\u00e3o a igual per\u00edodo de 2014, mostra retrocesso de 8,1% em todo o setor e de 9,7% na ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, fundamental para o desenvolvimento de um pa\u00eds e para a gera\u00e7\u00e3o de melhores empregos.<\/p>\n<p>A queda da ind\u00fastria brasileira vem de muitos anos, mas seus indicadores negativos eram \u201camortizados\u201d pela atividade extrativista, mineral e petroleira, cujo crescimento \u201ccompensava\u201d a retra\u00e7\u00e3o da manufatura, apontou Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).Com a queda dos pre\u00e7os internacionais das mat\u00e9rias-primas, desde 2014, e a desacelera\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f4mico da China, o setor industrial do Brasil perdeu o \u201ccolch\u00e3o\u201d do setor extrativista que atenuava suas perdas, acrescentou.<\/p>\n<p>Em novembro de 2015, houve uma queda adicional da produ\u00e7\u00e3o extrativista por causa do rompimento da represa de dejetos da mineradora Samarco, uma associa\u00e7\u00e3o entre a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton. Os efluentes provocaram uma trag\u00e9dia ambiental ao cobrir de lama cerca de 600 quil\u00f4metros do rio Doce, um eixo da minera\u00e7\u00e3o nos Estados de Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo, afetando a atividade durante aquele e os meses seguintes, acentuando, assim, os \u00edndices depressivos da ind\u00fastria.<\/p>\n<p>\u201cMas o n\u00facleo duro do setor (bens de capital e bens de consumo dur\u00e1veis) sofre, de fato, uma crise aguda\u201d, destacou Cagnin. Nos primeiros 11 meses de 2015, m\u00e1quinas e equipamentos produtivos amargaram a queda de 25,1% em sua atividade com rela\u00e7\u00e3o a igual per\u00edodo de 2014. Os bens dur\u00e1veis ca\u00edram 18,3%, encabe\u00e7ados por autom\u00f3veis e aparelhos el\u00e9tricos e de uso dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>H\u00e1 setores em que os dados s\u00e3o mais desanimadores. Os equipamentos para constru\u00e7\u00e3o sofreram queda recorde de 57,8%, lamenta a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Tecnologia para Constru\u00e7\u00e3o e Minera\u00e7\u00e3o (Sobratema). Al\u00e9m da recess\u00e3o, do desemprego e da infla\u00e7\u00e3o, que afastam os brasileiros do mercado imobili\u00e1rio e reduzem os investimentos em grandes projetos de minera\u00e7\u00e3o e infraestrutura, o esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobrascontribuiu para isso.<\/p>\n<p>As maiores construtoras brasileiras foram envolvidas nas investiga\u00e7\u00f5es policiais sobre o pagamento de propinas, a pol\u00edticos e diretores da Petrobras, para a obten\u00e7\u00e3o de contratos milion\u00e1rios. Alguns dirigentes da empresa foram detidos. A constru\u00e7\u00e3o, cuja ativa\u00e7\u00e3o normalmente serve para tirar economias da paralisia, n\u00e3o pode, no momento, cumprir essa fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, se transformou em uma m\u00e1quina de desemprego. Demitiu cerca de 514 mil pessoas em 2015, segundo o Sindicato da Ind\u00fastria da Constru\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo. Segundo seus dados, o total de trabalhadores na atividade no pa\u00eds voltou ao n\u00edvel de 2010, aproximadamente 2,9 milh\u00f5es de empregados formais.<\/p>\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o do real \u00e9 apontada como uma porta para a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. A moeda perdeu 46% de seu valor em rela\u00e7\u00e3o ao d\u00f3lar no ano passado. \u201cO c\u00e2mbio, que esteve fora do lugar muito tempo, agora restabelece a competitividade da ind\u00fastria nacional, amplia possibilidades de exporta\u00e7\u00e3o e abre mercados, mas somente como potencialidade\u201d, alertou Cagnin.<\/p>\n<div id=\"attachment_204816\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-204816\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/porto.jpg\" alt=\"O porto de Pecem, no Cear\u00e1, um dos maiores complexos portu\u00e1rios e industriais do norte do Brasil, perdeu v\u00e1rios projetos pautados em seu plano original, devido \u00e0 crise da Petrobras e \u00e0 recess\u00e3o econ\u00f4mica. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/porto-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/porto.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">O porto de Pecem, no Cear\u00e1, um dos maiores complexos portu\u00e1rios e industriais do norte do Brasil, perdeu v\u00e1rios projetos pautados em seu plano original, devido \u00e0 crise da Petrobras e \u00e0 recess\u00e3o econ\u00f4mica. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Os efeitos positivos da desvaloriza\u00e7\u00e3o do real \u201crequerem muito tempo\u201d, porque exigem um esfor\u00e7o para \u201cbuscar antigos clientes, refazer contratos, ampliar a oferta. Muitas empresas que sa\u00edram do mercado internacional, perderam compradores, agora t\u00eam que reiniciar os contatos, voltar a mostrar seus produtos\u201d, afirmou o economista.<\/p>\n<p>Segundo Cagnin, \u201ctudo isso exige recursos financeiros, viagens, escrit\u00f3rios no exterior, mais pessoal voltado \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es\u201d. Mas o c\u00e2mbio desvalorizado \u201ctamb\u00e9m favorece a reconquista do mercado interno que, no Brasil \u00e9 o principal, por seu tamanho. Exportar \u00e9 uma alternativa\u201d,ressaltou. E, \u201cal\u00e9m disso, o mercado internacional n\u00e3o est\u00e1 bom para se pescar, com o com\u00e9rcio exterior crescendo menos do que o produto bruto internacional, ao contr\u00e1rio do passado, e por isso intensificando a competi\u00e7\u00e3o\u201d, pontuou.<\/p>\n<p>Somam-se a isso as incertezas sobre a China, que tende ser mais agressiva para vender mais, desvalorizando sua moeda.A instabilidade na recupera\u00e7\u00e3o norte-americana e a paralisa\u00e7\u00e3o em outros mercados ricos s\u00e3o travas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de produtos industriais brasileiros.<\/p>\n<p>Por outro lado, a \u201cdesvaloriza\u00e7\u00e3o cambi\u00e1ria aumenta custos\u201d. A desvaloriza\u00e7\u00e3o do real nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas \u201cestimulou as empresas brasileiras a substitu\u00edrem insumos nacionais pelos importados, dolarizando parte de seus custos, que agora subiram com a moeda desvalorizada\u201d, explicou Cagnin. \u201cNo longo prazo, a desvaloriza\u00e7\u00e3o \u00e9 positiva, mas no curto imp\u00f5e muitos desafios, como revis\u00e3o da estrat\u00e9gia, substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es se poss\u00edvel, mas produzindo similares no pa\u00eds com a mesma qualidade do importado\u201d, disse.<\/p>\n<p>As perdas acumuladas da ind\u00fastria s\u00e3o \u201co epicentro da crise econ\u00f4mica\u201d brasileira, segundo o Iedi, criado em 1989 por um grupo de empres\u00e1rios de S\u00e3o Paulo, o Estado mais industrializado do pa\u00eds. A produ\u00e7\u00e3o industrial voltou ao n\u00edvel de 2009, pelos seguidos retrocessos no setor, cuja utiliza\u00e7\u00e3o da capacidade instalada caiu para 74,6% em novembro, 5,7 pontos percentuais a menos do que um ano antes.<\/p>\n<p>Grande parte do retrocesso se deve \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o cambial que se fez permanente, inclusive como instrumento para conter a infla\u00e7\u00e3o, desde 1994, quando o Brasil conseguiu controlar a hiperinfla\u00e7\u00e3o com o Plano Real. S\u00f3 houve um intervalo de quatro anos a partir de 2002, quando a elei\u00e7\u00e3o de Luis In\u00e1cio Lula da Silva \u00e0 Presid\u00eancia do Brasil gerou temores que depreciaram a moeda.<\/p>\n<p>Um c\u00e2mbio que fomentava as importa\u00e7\u00f5es para pressionar as empresas locais a baixarem seus pre\u00e7os e juros altos conseguiu superar d\u00e9cadas de infla\u00e7\u00e3o de dois, tr\u00eas e at\u00e9 quatro d\u00edgitos que tumultuavam a economia, travando seu crescimento e agravando as desigualdades.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 conhecido o efeito destrutivo, especialmente para a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, exercido pela supervaloriza\u00e7\u00e3o que muitos denominam de \u201cpopulismo cambi\u00e1rio\u201d, por elevar artificialmente a renda nacional e favorecer viagens ao exterior e a importa\u00e7\u00e3o de bens sofisticados.<\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 consenso de que a falta de competitividade da ind\u00fastria brasileira n\u00e3o se deve apenas ao c\u00e2mbio, mas tamb\u00e9m \u00e0 falta de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, baixa escolaridade, infraestrutura prec\u00e1ria e um sistema tribut\u00e1rio enredado.A crise atual n\u00e3o parece representar um ciclo de baixa, mas a necessidade de se revisar o desenvolvimento econ\u00f4mico do Brasil. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 18\/1\/2016 &ndash; A economia no Brasil atravessa uma recess&atilde;o vista como um ciclo que, embora mais prolongado do que outros, ser&aacute; superado em um ou dois anos. Entretanto, sua ind&uacute;stria parece viver uma crise que coloca em d&uacute;vida seu destino. 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