{"id":20446,"date":"2016-01-26T12:52:19","date_gmt":"2016-01-26T12:52:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=205151"},"modified":"2016-01-26T12:52:19","modified_gmt":"2016-01-26T12:52:19","slug":"energia-no-brasil-quase-um-jogo-de-azar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/01\/ultimas-noticias\/energia-no-brasil-quase-um-jogo-de-azar\/","title":{"rendered":"Energia no Brasil, quase um jogo de azar"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_205152\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-205152\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/CANA-RibPreto-034-629x472.jpg\" alt=\"Uma usina de a\u00e7\u00facar e etanol na cidade de Sert\u00e3ozinho, no Estado de S\u00e3o Paulo. A ind\u00fastria da cana retrocedeu no Brasil durante o governo de Dilma Rousseff, por seu subs\u00eddio \u00e0 gasolina, golpeando seu competidor direto, o etanol. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/CANA-RibPreto-034-629x472-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/CANA-RibPreto-034-629x472.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Uma usina de a\u00e7\u00facar e etanol na cidade de Sert\u00e3ozinho, no Estado de S\u00e3o Paulo. A ind\u00fastria da cana retrocedeu no Brasil durante o governo de Dilma Rousseff, por seu subs\u00eddio \u00e0 gasolina, golpeando seu competidor direto, o etanol. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 26\/1\/2016 \u2013 O Brasil, que se vangloria de ter uma matriz energ\u00e9tica das mais limpas do mundo, agora tem suas grandes apostas nessa \u00e1rea castigadas por corrup\u00e7\u00e3o, mercado adverso e decis\u00f5es desastradas, uma maldi\u00e7\u00e3o quase fatal.Com 42% de fontes renov\u00e1veis, o triplo da m\u00e9dia mundial, o pa\u00eds pretende tamb\u00e9m se converter em grande exportador de petr\u00f3leo, desde que descobriu, em 2006, gigantescas jazidas de \u00f3leo sob a camada de sal em bacias mar\u00edtimas situadas a 300 quil\u00f4metros da costa, o chamado pr\u00e9-sal.<\/p>\n<p>Megaprojetos de refinarias e petroqu\u00edmicas, dezenas de estaleiros distribu\u00eddos por toda a costa e o sonho de converter a nova riqueza em melhor educa\u00e7\u00e3o futura perderam o encanto diante do esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o que estourou em 2014, revelando o desvio de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares dos neg\u00f3cios da Petrobras.Quase duas centenas de pessoas s\u00e3o acusadas, pela Pol\u00edcia Federal e pela Procuradoria Geral da Rep\u00fablica, de pagar ou receber subornos nos contratos da empresa petroleira. Meia centena \u00e9 de pol\u00edticos, a maioria ainda em seus cargos legislativos.<\/p>\n<p>Dirigentes das maiores construtoras do Brasil foram detidos, afetando o mercado imobili\u00e1rio e grandes obras de infraestrutura. As investiga\u00e7\u00f5es ganharam grande for\u00e7a ao conseguirem, de mais de 30 acusados, a chamada \u201cdela\u00e7\u00e3o premiada\u201d, a disposi\u00e7\u00e3o de contar o que sabem para reduzir suas penas.O esc\u00e2ndalo \u00e9 um dos fatores da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica que afeta o pa\u00eds, com a queda do produto interno bruto estimada em mais de 3% em 2015, uma infla\u00e7\u00e3o em alta, um perigoso d\u00e9ficit fiscal, a amea\u00e7a de impeachment da presidente Dilma Rousseff e o caos no parlamento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da corrup\u00e7\u00e3o que alimentou as campanhas eleitorais de v\u00e1rios partidos, a Petrobras sobre os efeitos somados da queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, que amea\u00e7a seus investimentos no pr\u00e9-sal, e das perdas que acumulou durante anos de congelamento dos pre\u00e7os dos derivados de petr\u00f3leo.O governo aproveitou o monop\u00f3lio do refino nas m\u00e3os da empresa para conter a infla\u00e7\u00e3o por meio do controle de pre\u00e7os, principalmente da gasolina. O destape, depois das elei\u00e7\u00f5es nas quais Dilma foi reeleita, em outubro de 2014, acelerou a infla\u00e7\u00e3o, cuja taxa j\u00e1 \u00e9 superior a 10% ao ano.<\/p>\n<p>Com a Petrobras em crise financeira e tendo que vender muitos de seus ativos para reduzir sua imensa d\u00edvida, nenhuma de suas quatro refinarias planejadas foi conclu\u00edda. Duas ficaram na terraplenagem, outra est\u00e1 inacabada, com mais de 80% das obras realizadas, e a \u00fanica inaugurada, opera com apenas metade de sua capacidade prevista.A quebra dos estaleiros, que esperam fornecer as sondas de perfura\u00e7\u00e3o, plataformas e navios petroleiros para a produ\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal, \u00e9 quase generalizada, frustrando os planos governamentais de construir uma forte ind\u00fastria naval.<\/p>\n<p>A prioridade concedida ao petr\u00f3leo, em desprezo ao combate \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, e os baixos pre\u00e7os subsidiados da gasolina atropelaram o etanol, que vivia um novo auge desde o surgimento, em 2003, do autom\u00f3vel com motor flex\u00edvel, que permite o uso de etanol ou gasolina, ou a mistura dos dois em qualquer propor\u00e7\u00e3o.A inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica teve total \u00eaxito ao resgatar a confian\u00e7a dos consumidores no etanol, destru\u00edda na d\u00e9cada anterior pelo desabastecimento.<\/p>\n<p>Com o motor flex\u00edvel, o consumidor n\u00e3o depende de um \u00fanico combust\u00edvel e pode escolher o mais barato em cada momento.O uso do etanol, atualmente quase no mesmo volume nacional da gasolina, quebrou o monop\u00f3lio dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, contribuindo decisivamente para o alto \u00edndice de energia renov\u00e1vel no Brasil.Mas o pre\u00e7o subsidiado da gasolina quebrou muitas destilarias de etanol e provocou a desnacionaliza\u00e7\u00e3o de um ter\u00e7o da agroind\u00fastria da cana. Muitas empresas do setor, em dificuldades financeiras, venderam suas centrais a\u00e7ucareiras e destilarias a transnacionais agr\u00edcolas, como Bunge, Cargill, Louis Dreyfus e Tereos.<\/p>\n<p>O Brasil praticamente desistiu de sua inten\u00e7\u00e3o de criar um mercado internacional de etanol, promovendo o consumo e a produ\u00e7\u00e3o do biocombust\u00edvel derivado da cana-de-a\u00e7\u00facar em outros pa\u00edses. O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2010) foi muito ativo nessa campanha, mas o mesmo n\u00e3o aconteceu com sua sucessora.Outro fator decisivo para a matriz renov\u00e1vel \u00e9 o predom\u00ednio da fonte h\u00eddrica no setor el\u00e9trico. Nos \u00faltimos anos, cresceu aceleradamente a gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica e um pouco menos a da biomassa, com o aproveitamento do baga\u00e7o da cana.<\/p>\n<div id=\"attachment_205153\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-205153\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/centralhidreletrica.jpg\" alt=\"Parte do que seria a sala de turbinas da hidrel\u00e9trica de Belo Monte, no Estado do Par\u00e1, uma megaobra que j\u00e1 tem 80% de suas estruturas constru\u00eddas e estar\u00e1 finalizada em 2019. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/centralhidreletrica-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/centralhidreletrica.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Parte do que seria a sala de turbinas da hidrel\u00e9trica de Belo Monte, no Estado do Par\u00e1, uma megaobra que j\u00e1 tem 80% de suas estruturas constru\u00eddas e estar\u00e1 finalizada em 2019. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Mas a op\u00e7\u00e3o por gigantescas hidrel\u00e9tricas na Amaz\u00f4nia, como Belo Monte, no rio Xingu, colocou em xeque essa fonte. Uma forte resist\u00eancia ind\u00edgena e ambientalista, mais a a\u00e7\u00e3o da Procuradoria paralisaram sua constru\u00e7\u00e3o dezenas de vezes. O consequente atraso das obras j\u00e1 passa de um ano. Atualmente, uma senten\u00e7a judicial suspendeu a licen\u00e7a de opera\u00e7\u00e3o da central e pode impedir o enchimento das represas necess\u00e1rio para a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade, uma fase prevista para come\u00e7ar em mar\u00e7o deste ano.<\/p>\n<p>Quando atingir sua opera\u00e7\u00e3o plena em 2019, Belo Monte ter\u00e1 capacidade instalada de 11.233 megawatts (MW), mas sua gera\u00e7\u00e3o efetiva ser\u00e1 quase nula nos meses de estiagem. O rio Xingu apresenta uma extrema varia\u00e7\u00e3o em seu caudal e sua represa n\u00e3o armazena \u00e1gua suficiente para mover as turbinas nos meses secos.Da\u00ed ser alvo de duras cr\u00edticas, inclusive dos partid\u00e1rios da hidroeletricidade, como o f\u00edsico Jos\u00e9 Goldemberg, especialista em energia.<\/p>\n<p>As controv\u00e9rsias sobre Belo Monte amea\u00e7am os planos oficiais para o rio Tapaj\u00f3s, a oeste do Xingu, nova fronteira hidrel\u00e9trica na Amaz\u00f4nia. H\u00e1 dois anos, o governo tenta leiloar a constru\u00e7\u00e3o e concess\u00e3o de S\u00e3o Luiz do Tapaj\u00f3s, uma central para 8.040 MW de pot\u00eancia. A presen\u00e7a de ind\u00edgenas do povo munduruku ao longo do rio, inclusive na \u00e1rea da represa de S\u00e3o Luiz, dificulta a licen\u00e7a ambiental para a constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A diversidade de fontes relevantes na matriz el\u00e9trica brasileira, as experi\u00eancias negativas anteriores e a complexidade do sistema nacional integrado convertem quase em um jogo de azar as decis\u00f5es sobre energia no pa\u00eds. Centrais hidrel\u00e9tricas constru\u00eddas na Amaz\u00f4nia durante a d\u00e9cada de 1980, como Tucuru\u00ed e Balbina, provocaram desastres ambientais e sociais que ensombrecem as fontes h\u00eddricas. Belo Monte acrescentou novos obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>Alternativas como a energia nuclear tamb\u00e9m acrescentam experi\u00eancias negativas. A terceira central, atualmente em constru\u00e7\u00e3o em Angra dos Reis, a 170 quil\u00f4metros da cidade do Rio de Janeiro, est\u00e1 atrasada em mais de 30 anos. Integrava um pacote de oito centrais que os militares decidiram construir durante as duas d\u00e9cadas de ditadura (1964-1985), e para isso assinaram, em 1975, um acordo com a Alemanha para fornecimento de tecnologia e equipamentos.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica interrompeu o programa nos anos 1980. Uma foi conclu\u00edda em 2000 e a outra segue em constru\u00e7\u00e3o, porque seus equipamentos j\u00e1 haviam sido importados h\u00e1 mais de 30 anos. Os custos finais ser\u00e3o elevad\u00edssimos.<\/p>\n<p>O governo e os setores que decidem a pol\u00edtica energ\u00e9tica no Brasil consideram inimagin\u00e1vel renunciar \u00e0 hidroeletricidade.Mas, os avan\u00e7os da energia e\u00f3lica, as novas tecnologias de armazenamento energ\u00e9tico, e especialmente o barateamento da gera\u00e7\u00e3o solar ampliam o risco de deixar obsoletas as centrais hidrel\u00e9tricas constru\u00eddas para operarem mais de um s\u00e9culo. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 26\/1\/2016 &ndash; O Brasil, que se vangloria de ter uma matriz energ&eacute;tica das mais limpas do mundo, agora tem suas grandes apostas nessa &aacute;rea castigadas por corrup&ccedil;&atilde;o, mercado adverso e decis&otilde;es desastradas, uma maldi&ccedil;&atilde;o quase fatal.Com 42% de fontes renov&aacute;veis, o triplo da m&eacute;dia mundial, o [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/01\/ultimas-noticias\/energia-no-brasil-quase-um-jogo-de-azar\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10,1],"tags":[2843,27,2458,3179,2782],"class_list":["post-20446","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-energia","category-ultimas-noticias","tag-1-opiniao","tag-brasil","tag-inter-press-service","tag-mario-osava","tag-news2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20446","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20446"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20446\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20449,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20446\/revisions\/20449"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20446"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20446"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20446"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}