{"id":2047,"date":"2006-10-08T00:00:00","date_gmt":"2006-10-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2047"},"modified":"2006-10-08T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-08T00:00:00","slug":"cuba-os-80-anos-de-fidel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/america-latina\/cuba-os-80-anos-de-fidel\/","title":{"rendered":"Cuba: Os 80 anos de Fidel"},"content":{"rendered":"<p>Havana, 08\/10\/2006 &ndash; Embora tenha dito que n&atilde;o chegar&aacute; aos cem anos no poder, Fidel Castro poderia desafiar as piores previs&otilde;es que circulam sobre sua vida, comemorar no domingo seus 80 anos em p&eacute; e voltar o quanto antes a governar Cuba apenas pelo prazer de ganhar. <!--more--> Tudo indica que, com sua mania de transformar reveses em vit&oacute;rias, o mandat&aacute;rio cubano parece estar decidido a sentir o gosto de reaparecer diante das c&acirc;meras de televis&atilde;o, s&atilde;o e orgulhoso, falar por v&aacute;rias horas seguidas e demonstrar ao mundo que, al&eacute;m de \u201cestar inteiro\u201d, continua no comando. Enquanto muitos fora de Cuba se perguntam por que n&atilde;o procura provar que continua vivo, ao contr&aacute;rio do que afirmam setores do ex&iacute;lio cubano nos Estados Unidos, seus seguidores durante d&eacute;cadas est&atilde;o convencidos de que estar&aacute; de volta somente quando estiver suficientemente bem para poder demonstr&aacute;-lo.<\/p>\n<p>\u201cEsteja onde estiver, com estiver e com quem estiver, Fidel Castro est&aacute; ali para ganhar\u201d, escreveu, em 1988, o colombiano e pr&ecirc;mio Nobel de Literatura Gabriel Garc&iacute;a M&aacute;rquez. Para o novelista e velho amigo de Castro, \u201csua atitude diante da derrota, mesmo nos atos m&iacute;nimos da vida cotidiana, parece obedecer a uma l&oacute;gica privada: nem mesmo a admite, e n&atilde;o tem um minuto de sossego enquanto n&atilde;o consegue inverter os termos e convert&ecirc;-la em vit&oacute;ria\u201d. Assim o demonstrou desde o primeiro momento, quando como advogado transformou sua defesa por liderar o ataque ao Quartel Moncada, em 1953, em uma den&uacute;ncia das condi&ccedil;&otilde;es s&oacute;cio-econ&ocirc;micas de Cuba e das atrocidades cometidas pela ditadura de Fulg&ecirc;ncio Batista desde seu golpe de Estado, um ano antes.<\/p>\n<p>\u201cAgora, sim, ganhamos a guerra!\u201d, exclamava tr&ecirc;s anos depois ao descobrir que, ap&oacute;s desembarcar na ilha junto com 81 homens armados, restava apenas um pequeno grupo e sete fuzis. \u201cFicou louco\u201d, reconheceu ter pensado na oportunidades seu irm&atilde;o Ra&uacute;l, atual ministro das For&ccedil;as Armadas e substituto do presidente em todos os cargos. Nascido no dia 13 de agosto de 1926 em um ponto do oriente de Cuba conhecido como Bir&aacute;n, o terceiro filho da fam&iacute;lia Castro Ruz estudou na escola jesu&iacute;ta, se formou advogado, questionou Fulg&ecirc;ncio Batista por seu golpe de Estado militar e em 1959 desceu triunfante das montanhas de Sierra Maestra para tomar o poder e mant&ecirc;-lo at&eacute; os dias atuais.<\/p>\n<p>\u201cSempre soube transformar qualquer acusa&ccedil;&atilde;o. Quando acusado de algo primeiro se mostra em sil&ecirc;ncio. Mas passados os dias, aparece com uma resposta que ningu&eacute;m espera. N&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m como ele para o contra-ataque. E n&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m que diga aos Estados Unidos o que ele diz\u201d, afirmou um professor aposentado cubano de 66 anos. Seu papel no cen&aacute;rio internacional, especialmente a oposi&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica e sistem&aacute;tica &agrave;s decis&otilde;es de Washington e suas den&uacute;ncias em c&uacute;pulas mundiais cimentaram durante anos sua influ&ecirc;ncia e lhe renderam o respeito de n&atilde;o poucas pessoas dentro e fora de Cuba.<\/p>\n<p>Enquanto seus partid&aacute;rios tentam coloc&aacute;-lo a salva dos erros cometidos por seu governo nos &uacute;ltimos 47 anos, afirmando que ele \u201cn&atilde;o sabia\u201d e que quando soube \u201cos enfrentou\u201d, outros pensam que o comandante est&aacute; a par de tudo, dirige tudo e &eacute; o respons&aacute;vel final pelo que ocorre na ilha, seja de bom ou de ruim. Na lista de acusa&ccedil;&otilde;es figuram os fuzilamentos que se sucederam &agrave; vit&oacute;ria da Revolu&ccedil;&atilde;o, em 1&ordm; de janeiro de 1959, a deten&ccedil;&atilde;o de homossexuais e crentes religiosos em campos militares de trabalho na d&eacute;cada de 60 e a pris&atilde;o de dezenas de opositores pol&iacute;ticos, acusados de servirem aos interesses dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>No entanto, seus defensores mencionam os benef&iacute;cios sociais que seu governou trouxe para amplas camadas da popula&ccedil;&atilde;o, como o direito &agrave; sa&uacute;de, &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e ao emprego seguro, em um pa&iacute;s submetido ao bloqueio econ&ocirc;mico de Washington h&aacute; mais de 40 anos. Quando no dia 31 de julho uma perigosa cirurgia o obrigo a ceder \u201cprovisoriamente\u201d toda suas responsabilidades, Castro fez o an&uacute;ncio em \u201cum proclama ao povo\u201d, assinada e escrita de pr&oacute;prio punho, transformando um dos piores momentos de sua vida em um novo desafio aos progn&oacute;sticos.<\/p>\n<p>A informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o circulou primeiro fora de Cuba, nenhum boato correu pela ilha, nem as ruas foram ocupadas pelo ex&eacute;rcito para evitar rea&ccedil;&otilde;es sociais. \u201cQuando morrer, seremos informados quando o governo desejar\u201d, disse um jornalista reconhecendo estar \u201ccansado de receber telefonemas do exterior para confirmar a morte de Castro\u201d. Observadores consideram que a forma como foi divulgada a doen&ccedil;a de Fidel Castro e a designa&ccedil;&atilde;o tempor&aacute;ria de seu irm&atilde;o Ra&uacute;l &agrave; frente do Partido Comunista, do Conselho de Estado e do comando do ex&eacute;rcito tamb&eacute;m demonstra o controle que as autoridades exercem.<\/p>\n<p>\u201cN&atilde;o posso inventar not&iacute;cias boas, porque n&atilde;o seria &eacute;tico, e se as not&iacute;cias forem ruins apenas os inimigos tirar&atilde;o proveito\u201d, dizia um segundo comunicado assinado por Castro no dia 1&ordm; deste m&ecirc;s e dirigido &agrave; popula&ccedil;&atilde;o e aos amigos que, desde outros pa&iacute;ses, se interessavam por sua sa&uacute;de. A refer&ecirc;ncia a \u201cuma crise intestinal aguda com sangramento (sic) sustentado\u201d, reconhecida por Castro como causa da cirurgia de urg&ecirc;ncia, despertou muitas d&uacute;vidas sobre suas raz&otilde;es (esgotamento, excesso de trabalho). \u201cMais al&eacute;m do estresse a que pode estar submetido por excesso de trabalho, alguma coisa n&atilde;o est&aacute; bem nesse organismo\u201d, disse &agrave; IPS uma m&eacute;dica cubana que n&atilde;o quis se identificar.<\/p>\n<p>Passados os primeiros momentos de incerteza sobre o que vir&aacute;, a rotina voltou &agrave; Cuba, matizada pelos cartazes desejando ao presidente \u201cmais 80 anos\u201d, pelo an&uacute;ncio de uma \u201cCantata pela P&aacute;tria\u201d e pelos esfor&ccedil;os do jornal oficial Granma dar not&iacute;cias, sem d&aacute;-las. Uma breve cr&ocirc;nica, sem assinatura, afirmou no s&aacute;bado que \u201cum amigo\u201d havia visitado Castro \u201ch&aacute; apenas algumas horas\u201d para \u201cdespachar brevemente certos assuntos\u201d e que o vira dar \u201cpassos no quarto\u201d ap&oacute;s sess&atilde;o de fisioterapia, e conversar animadamente \u201csentado em uma cadeira\u201d. Horas antes, meios de comunica&ccedil;&atilde;o dos Estados Unidos asseguravam que babala&ocirc;s cubanos (sacerdotes da religi&atilde;o afro-cubana Regra de Ocha ou Santeria) radicados nesse pa&iacute;s haviam consultado seus or&aacute;culos e podiam assegurar que Castro estava morto desde 1&ordm; de agosto, dia em que foi divulgada sua segunda mensagem.<\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos dias, a Ag&ecirc;ncia Cat&oacute;lica de Informa&ccedil;&atilde;o (ACI) divulgava desde o Vaticano uma profecia pouco conhecida em Cuba: a Virgem da Caridade do Cobre, Padroeira de Cuba, havia revelado a Santo Ant&ocirc;nio Maria Claret que a ilha sofreria uma ditadura de mais de 40 anos, que acabaria com a morte do l&iacute;der em sua cama e o \u201cderramamento de sangue\u201d. Em Cuba, a Igreja Cat&oacute;lica, grupos ecum&ecirc;nicos e praticantes de religi&otilde;es afro-cubanas limitaram-se a orar, pedir aos seus deuses e fazer soar bem alto os atabaques para que o presidente cubano se restabele&ccedil;a e o pa&iacute;s possa superar este momento em paz.<\/p>\n<p>Ao contr&aacute;rio do que ocorreu na cidade de Miami, onde muitas pessoas foram &agrave;s ruas comemorar o que consideravam a morte segura de Castro, em Cuba nem mesmo setores radicais da oposi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica tornaram p&uacute;blicos seus maus desejos para o comandante. \u201cAch&eacute; pa\u2019ti Fidel\u201d, foi a mensagem de boa sorte de uma anci&atilde;, negra e santeira. Convencida, com tantas pessoas na ilha, de que Castro tem a prote&ccedil;&atilde;o dos orix&aacute;s (deuses da Regra de Ocha), a mulher de 72 anos assegurou que o presidente \u201csair&aacute; desta\u201d. Isso \u201c&eacute; o que dizem os b&uacute;zios\u201d, afirmou. O chefe da diplomacia norte-americana para a Am&eacute;rica Latina, Tom Shannon, reconheceu na sexta-feira que \u201cn&atilde;o h&aacute; nenhuma figura pol&iacute;tica em Cuba equivalente a Fidel Castro\u201d e previu que a ilha poderia estar diante de um momento de mudan&ccedil;as, mas tamb&eacute;m de \u201cendurecimento do regime\u201d. (IPS\/Envolverde) (Envolverde\/ IPS)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, 08\/10\/2006 &ndash; Embora tenha dito que n&atilde;o chegar&aacute; aos cem anos no poder, Fidel Castro poderia desafiar as piores previs&otilde;es que circulam sobre sua vida, comemorar no domingo seus 80 anos em p&eacute; e voltar o quanto antes a governar Cuba apenas pelo prazer de ganhar. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/america-latina\/cuba-os-80-anos-de-fidel\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":47,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,11],"tags":[15],"class_list":["post-2047","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-politica","tag-caribe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2047","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/47"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2047"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2047\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2047"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2047"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2047"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}