{"id":20503,"date":"2016-02-11T13:30:57","date_gmt":"2016-02-11T13:30:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=205716"},"modified":"2016-02-11T13:30:57","modified_gmt":"2016-02-11T13:30:57","slug":"alegria-brasileira-legado-contraditorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/02\/ultimas-noticias\/alegria-brasileira-legado-contraditorio\/","title":{"rendered":"Alegria brasileira, legado contradit\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_205717\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-205717\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/DG_Olinda_Foto_Doiego_Galba.jpg\" alt=\"Os carnavais fazem transbordar a alegria e a festa nas cidades brasileiras, como ocorreu este ano em Olinda, no nordeste do pa\u00eds. Foto: Diego Galba\/Prefeitura de Olinda\" width=\"340\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/DG_Olinda_Foto_Doiego_Galba-300x199.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/DG_Olinda_Foto_Doiego_Galba.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Os carnavais fazem transbordar a alegria e a festa nas cidades brasileiras, como ocorreu este ano em Olinda, no nordeste do pa\u00eds. Foto: Diego Galba\/Prefeitura de Olinda<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 11\/2\/2016 \u2013 A alegria, um reconhecido patrim\u00f4nio do Brasil que tem sua manifesta\u00e7\u00e3o mais explosiva no Carnaval, contradiz qualquer l\u00f3gica. Provem da chaga hist\u00f3rica da escravid\u00e3o e nega a crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica que deprime o pa\u00eds. O Carnaval deste ano seguiu a tend\u00eancia de se prolongar por duas semanas, e foi t\u00e3o festejado como os anteriores \u2013 ou mais \u2013, com as ruas tomadas por multid\u00f5es, apesar da economia em queda desde o ano passado, da epidemia do v\u00edrus zika e de esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o envolvendo crescente quantidade de pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A \u00c1frica est\u00e1 na raiz desse entusiasmo que faz dan\u00e7ar e cantar dias inteiros. Essa origem, se percebe, por exemplo, ao se visitar Angola e comprovar que 27 anos de guerra civil, com meio milh\u00e3o de mortos e cem mil mutilados, segundo estimativas considerada parciais, n\u00e3o sacrificaram o riso f\u00e1cil e o h\u00e1bito de viver dan\u00e7ando. Na \u00c1frica do Sul, juntar tr\u00eas ou quatro pessoas \u00e9 o suficiente para que elas comecem a cantar, dan\u00e7ar e rir, observou o veterano e premiado jornalista brasileiro Washington Novaes, em um artigo de junho de 2010, no qual recorda sua experi\u00eancia de 2002, quando cobriu a C\u00fapula Mundial do Desenvolvimento, em Johannesburgo.<\/p>\n<p>Surpreso, perguntou a um taxista jovem sobre o fen\u00f4meno de seu povo, t\u00e3o sofrido, onde encontrava tanta alegria\u201d. A resposta foi que \u201co sofrimento nos ensinou que nossa alegria tem de ser apenas nossa, vir de dentro, nada pode tirar nossa alegria\u201d.Do outro lado do Atl\u00e2ntico algo semelhante acontece em pa\u00edses e regi\u00f5es que receberam grande quantidade de africanos escravizados, como Cuba e outras na\u00e7\u00f5es do Caribe, al\u00e9m do Brasil. Fora dos tr\u00f3picos, tamb\u00e9m no sul dos Estados Unidos, povoado por muitos afrodescendentes, h\u00e1 testemunhos desse fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais semelhan\u00e7as entre o Brasil e o sul norte-americano \u201cdo que se imagina, inclusive nas momentos ruins, ambos t\u00eam um passado escravagista, de viol\u00eancia contra o povo negro, e somos povos alegres\u201d, destacou o c\u00f4nsul geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, James Story, em uma entrevista ao jornal <em>O Globo<\/em>, no dia 1\u00ba de janeiro.A dan\u00e7a, a m\u00fasica e o futebol s\u00e3o \u00e1reas onde a alegria aportada pelos descendentes de escravos \u00e9 mais vis\u00edvel no Brasil, mas \u00e9 uma influ\u00eancia difusa na vida nacional, ainda que seja mais dif\u00edcil comprovar como ocorre o cont\u00e1gio em geral.<\/p>\n<p>No Carnaval fica clara sua participa\u00e7\u00e3o decisiva na populariza\u00e7\u00e3o da festa, nas ruas, no papel fundamental da percuss\u00e3o, j\u00e1 que os negros s\u00e3o reis do ritmo. Mas essa participa\u00e7\u00e3o diminuiu em momentos de maior controle oficial da festa e por sua expans\u00e3o como neg\u00f3cio, restrito aos que podem pagar melhor pelo entretenimento.O momento atual \u00e9 de populariza\u00e7\u00e3o. Os blocos resgataram o carnaval de rua, se multiplicando pelo Brasil.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia anterior, acentuada nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, fazia predominar o espet\u00e1culo comercial. As escolas de samba atra\u00edam a aten\u00e7\u00e3o, desfilando suas gigantescas alegorias e milhares de figurantes em \u00e1reas fechadas, os samb\u00f3dromos. Suas apresenta\u00e7\u00f5es se destinavam mais aos espectadores da classe m\u00e9dia e \u00e0s emissoras de televis\u00e3o, um mercado milion\u00e1rio, tur\u00edstico e audiovisual, a cada ano excluindo mais os negros.<\/p>\n<p>Na pr\u00e9-hist\u00f3ria do Carnaval,houve outras tentativas de enquadr\u00e1-lo \u00e0 religi\u00e3o ou aos bons modos da elite, afastando-o dos pobres. O catolicismo, que lhe deu o nome, procurou fazer da festa um \u201cadeus \u00e0 carne\u201d antes da quaresma de reflex\u00e3o e jejum, conciliando com suas origens pag\u00e3s, como as bacanais gregas e romanas.No Brasil, os governantes tentaram proibir o precursor do carnaval, conhecido como entrudo \u2013ca\u00f3ticas brincadeiras de rua portuguesas que ganharam grande ades\u00e3o entre os escravos negros \u2013, e confinar a celebra\u00e7\u00e3o aos bailes de gala.<\/p>\n<div id=\"attachment_205718\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-205718\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/blocodecarnaval.jpg\" alt=\"Integrantes de um bloco de mulheres dan\u00e7am portando instrumentos de ra\u00edzes africanas, em desfile em um bairro do Rio de Janeiro durante o carnaval deste ano, que confirmou o resgate popular da festa. Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\" width=\"340\" height=\"226\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/blocodecarnaval-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/blocodecarnaval.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Integrantes de um bloco de mulheres dan\u00e7am portando instrumentos de ra\u00edzes africanas, em desfile em um bairro do Rio de Janeiro durante o carnaval deste ano, que confirmou o resgate popular da festa. Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/p><\/div>\n<p>Mas o Carnaval, como baile de rua e com suas can\u00e7\u00f5es t\u00edpicas, s\u00f3 ganhou forma no final do s\u00e9culo 19, com forte e crescente participa\u00e7\u00e3o negra. O samba, que depois se converteria em seu ritmo oficial, surgiu em 1917, como express\u00e3o musical de moradores pobres do Rio de Janeiro, de maioria negra.Esse g\u00eanero de m\u00fasica permaneceu exclusivo das favelas (com maioria de popula\u00e7\u00e3o negra) at\u00e9 que, d\u00e9cadas depois, as classes m\u00e9dias e brancas o incorporaram aos seus repert\u00f3rios, se assenhorando do ritmo e suavizando-o como bossa nova.<\/p>\n<p>Uma diversidade de ritmos e g\u00eaneros musicais foi criada pelos negros, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, como forma de contagiar de alegria variados povos do mundo. O jazz nos Estados Unidos, o reggae jamaicano, a c\u00fambia colombiana, o merengue dominicano e o mambo cubano, entre outros.O futebol brasileiro deve sua fase ascendente e mais alegre principalmente aos negros. Nesse caso, o processo foi inverso ao do Carnaval e do samba, come\u00e7ou em 1894 como esporte da elite, proibido aos negros e pobres, at\u00e9 que algumas equipes desafiaram essa regra e incorporaram os exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>O Brasil vive, ent\u00e3o, uma populariza\u00e7\u00e3o do futebol, com her\u00f3is como Pel\u00e9, um negro, e Garrincha, um mulato justamente apelidado de \u201calegria do povo\u201d. Com eles o Brasil venceu as Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970, conquistando admiradores em todo o mundo.Houve outros \u00eddolos negros, antes e depois desse apogeu, que ajudaram a fazer do futebol uma fonte de alegria para os brasileiros, mas tamb\u00e9m exemplos que desnudaram e talvez aumentaram o persistente racismo no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Tr\u00eas negros da sele\u00e7\u00e3o de 1950 foram considerados pela popula\u00e7\u00e3o os principais culpados da derrota diante do Uruguai, consideradauma trag\u00e9dia nacional, que impediu o Brasil de ganhar o primeiro mundial em seu pr\u00f3prio templo do futebol, o Maracan\u00e3 no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>De todo modo \u00e9 uma ironia da hist\u00f3ria que os negros, trazidos da \u00c1frica \u00e0 for\u00e7a, tenham aportado ao pa\u00eds, que os escravizou e continua tratando-os com racismo, esse dom da alegria, que apaixona visitantes, imigrantes e inclusive pesquisadores internacionais de hist\u00f3ria e sociologia.S\u00e3o numerosos os \u201cbrasilianistas\u201d norte-americanos, que adotaram o Brasil como objeto de seus estudos, e o soci\u00f3logo italiano Domenico de Masi, autor de <em>O \u00d3cio Recreativo<\/em>, aponta o pa\u00eds como modelo para o futuro.<\/p>\n<p>O Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds a abolir a escravid\u00e3o, em 1888, e nunca aprovou nenhum tipo de repara\u00e7\u00e3o pelos mais de tr\u00eas s\u00e9culos de explora\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o, maus-tratos e matan\u00e7as praticadas contra os afrodescendentes.A popula\u00e7\u00e3o negra diminuiu no pa\u00eds nas d\u00e9cadas seguintes. Sem medidas para lhes garantir a sobreviv\u00eancia em liberdade, os antigos escravizados afundaram na mis\u00e9ria e na consequente alta mortalidade. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 11\/2\/2016 &ndash; A alegria, um reconhecido patrim&ocirc;nio do Brasil que tem sua manifesta&ccedil;&atilde;o mais explosiva no Carnaval, contradiz qualquer l&oacute;gica. Provem da chaga hist&oacute;rica da escravid&atilde;o e nega a crise econ&ocirc;mica e pol&iacute;tica que deprime o pa&iacute;s. 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