{"id":2057,"date":"2006-10-08T00:00:00","date_gmt":"2006-10-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2057"},"modified":"2006-10-08T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-08T00:00:00","slug":"indgenas-petroleira-pode-ser-processada-por-contaminao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/america-latina\/indgenas-petroleira-pode-ser-processada-por-contaminao\/","title":{"rendered":"Ind&iacute;genas: Petroleira pode ser processada por contamina&ccedil;&atilde;o"},"content":{"rendered":"<p>Lima, 08\/10\/2006 &ndash; Arankartuktaram! Nos respeitem\u201d, exclamam em sua l&iacute;ngua as comunidades ind&iacute;genas achuar desde o cora&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia do Peru. <!--more--> O grito se dirige ao Estado e &agrave;s empresas multinacionais que fazem prospec&ccedil;&atilde;o e exploram de hidrocarbonetos. Ap&oacute;s mais de 30 anos sofrendo contamina&ccedil;&atilde;o ambiental em seus territ&oacute;rios, o povo achuar da bacia do Rio Corrientes, na selva peruana, estuda iniciar a&ccedil;&otilde;es legais contra as empresas respons&aacute;veis pelos danos. Este seria o primeiro caso levado &agrave;s inst&acirc;ncias judiciais pelos povos ind&iacute;genas neste pa&iacute;s. As atividades de explora&ccedil;&atilde;o petrol&iacute;fera em territ&oacute;rios ind&iacute;genas come&ccedil;aram com a presen&ccedil;a da norte-americana Occidental Petroleum Corporation (Oxy), na d&eacute;cada de 70.<\/p>\n<p>A partir de 1996, a companhia de capital argentino Pluspetrol Norte vem operando nas bacias altas dos Rios Pastaza, Corrientes e Tigre, e desde 2000 ampliou sua &aacute;rea de interven&ccedil;&atilde;o. Na &uacute;ltima assembl&eacute;ia ind&iacute;gena, realizada nos dias 5 e 6 deste m&ecirc;s, os apus (chefes) dos ind&iacute;genas acusaram novamente as companhias de petr&oacute;leo de atentarem contra a sa&uacute;de e o meio ambiente do povo achuar, da bacia do Rio Corrientes. Essa etnia se encontra localizada no departamento de Loreto, norte do pa&iacute;s, e conta com 31 comunidades que agrupam cerca de oito mil pessoas, das quais entre tr&ecirc;s mil e quatro mil s&atilde;o v&iacute;timas diretas da explora&ccedil;&atilde;o petrol&iacute;fera, segundo a organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental Racimos de Ungurahui, que trabalha na defesa dos direitos do povo achuar.<\/p>\n<p>\u201cExiste uma viola&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica de nossos direitos por parte do Estado em cumplicidade com as companhias. O governo n&atilde;o &eacute; capaz de punir os que contaminam nossos rios e territ&oacute;rios. Por isso, pensamos em tomar a&ccedil;&otilde;es\u201d, disse &agrave; IPS Robert Guimar&atilde;es, vice-presidente da Associa&ccedil;&atilde;o Inter&eacute;tnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep), que re&uacute;ne 47 federa&ccedil;&otilde;es e seis organiza&ccedil;&otilde;es regionais ind&iacute;genas. Guimar&atilde;es, junto com a Federa&ccedil;&atilde;o de Comunidades Nativas do Rio Corrientes (Feconaco), reiterou sua den&uacute;ncia desde um sal&atilde;o do Poder Legislativo, onde compareceu no &uacute;ltimo dia 9 para participar de um encontro por ocasi&atilde;o do Dia Internacional dos Povos Ind&iacute;genas.<\/p>\n<p>A dire&ccedil;&atilde;o da Aidesep considera que h&aacute; suficientes elementos probat&oacute;rios para processar as empresas. Um dos informes mais reveladores &eacute; do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, no qual se alerta, pela primeira vez por parte do Estado, sobre as altas concentra&ccedil;&otilde;es de c&aacute;dmio e chumbo no sangue dos achuar. A pesquisa governamental \u201cVisita de reconhecimento para a avalia&ccedil;&atilde;o da qualidade sanit&aacute;ria dos recursos h&iacute;dricos e mostra biol&oacute;gica nas comunidades da bacia do Rio Corrientes\u201d, divulgada em maio deste ano, cont&eacute;m um relat&oacute;rio cient&iacute;fico sobre a presen&ccedil;a de metais pesados na popula&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena, que foi elaborado com resposta a uma solicita&ccedil;&atilde;o da Feconaco. Neste estudo foram analisadas amostras de 199 pessoas, 74 delas crian&ccedil;as entre 2 e 17 anos.<\/p>\n<p>O informe revelou que 98,6% dos menores da &aacute;rea da bacia do Rio Corrientes que foram examinados superavam os limites de c&aacute;dmio, de 0,1 miligrama por litro de sangue, enquanto 97,3% ultrapassavam inclusive a concentra&ccedil;&atilde;o habitual deste metal em fumantes, de 9,2 miligramas, embora as pessoas analisadas n&atilde;o tivessem o h&aacute;bito de fumar. Al&eacute;m disso, 37,8% dos menores apresentavam n&iacute;veis de risco, isto &eacute;, com concentra&ccedil;&otilde;es de 0,21 a 0,5 miligramas de c&aacute;dmio por litro de sangue, e 59,4% ultrapassavam o limite de toler&acirc;ncia (LTB) de c&aacute;dmio, superior a 0,5 miligramas. O cen&aacute;rio foi semelhante nas amostras da popula&ccedil;&atilde;o adulta.<\/p>\n<p>Os resultados sobre detec&ccedil;&atilde;o de chumbo entre os menores de idade foram preocupantes: em 66,2% do casos \u201csupera o limite estabelecido para o chumbo em popula&ccedil;&atilde;o infantil (at&eacute; 10 miligramas por litro de sangue)\u201d, enquanto entre os maiores de 18 anos verificou-se que as concentra&ccedil;&otilde;es deste metal estavam abaixo dos limites aceitos, de 20 miligramas por litro de sangue.<\/p>\n<p>Segundo o informe La Oroya n&atilde;o Espera, elaborado pela Associa&ccedil;&atilde;o Interamericana para a Defesa do Ambiente e pela Sociedade Peruana de Direito Ambiental, a alta concentra&ccedil;&atilde;o de c&aacute;dmio no sangue pode provocar dano e c&acirc;ncer pulmonar, doen&ccedil;as dos rins, enfraquecimento dos ossos, enfisema, bronquite cr&ocirc;nica, doen&ccedil;as do cora&ccedil;&atilde;o e depress&atilde;o do sistema imunol&oacute;gico. J&aacute; a concentra&ccedil;&atilde;o de chumbo afeta o sistema nervoso, com risco para o c&eacute;rebro e os rins.<\/p>\n<p>Entretanto, os representantes da Pluspetrol Norte n&atilde;o admitem a responsabilidade do cons&oacute;rcio na contamina&ccedil;&atilde;o dos moradores porque afirmam, que, com verificou o pr&oacute;prio relat&oacute;rio governamental, a concentra&ccedil;&atilde;o de chumbo nas &aacute;guas est&aacute; abaixo dos limites permitidos. Entretanto, o documento esclarece que n&atilde;o existem dados sobre a presen&ccedil;a de outros metais pesados no rio, como c&aacute;dmio e cobre, porque n&atilde;o foi poss&iacute;vel fazer uma avalia&ccedil;&atilde;o por raz&otilde;es metodol&oacute;gicas.<\/p>\n<p>A Pluspetrol Norte &eacute; uma das filiais peruanas da argentina Pluspetrol e tem desde 2004 a estatal chinesa National Petroleum Corporation \u2013 principal produtora de petr&oacute;leo da China \u2013 como co-propriet&aacute;ria em 45% de participa&ccedil;&atilde;o. Em 2004, a Pluspetrol Norte era respons&aacute;vel por 54% da produ&ccedil;&atilde;o nacional de petr&oacute;leo. \u201cA empresa segue os par&acirc;metros exigidos por lei. Cremos que o informe do minist&eacute;rio &eacute; s&eacute;rio, mas n&atilde;o se pode assegurar que os n&iacute;veis de contamina&ccedil;&atilde;o no sangue se devam &agrave; presen&ccedil;a de metais pesados nos rios. N&atilde;o se pode estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o direta entre uma e outra coisa\u201d, disse &agrave; IPS um funcion&aacute;rio da companhia.<\/p>\n<p>Racimos de Ungurahui, entretanto, afirma que para determinar o grau de contamina&ccedil;&atilde;o dos rios se deveria analisar a composi&ccedil;&atilde;o dos sedimentos. Mas isto &eacute; dif&iacute;cil, pois como esclarece a avalia&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, \u201cno Peru n&atilde;o existe uma norma t&eacute;cnica estabelecendo valores-limites para avaliar metais pesados, hidrocarbonetos totais de petr&oacute;leo e outros par&acirc;metros em sedimentos\u201d. A observa&ccedil;&atilde;o se baseia no fato de o n&iacute;vel das &aacute;guas dos rios da selva subir e baixar r&aacute;pida e constantemente, e, portanto, os restos dos metais pesados se perdem no caudal e acabem se sedimentando de maneira r&aacute;pida.<\/p>\n<p>A ONG assegura que h&aacute; contamina&ccedil;&atilde;o nas lagoas e nos lagos, onde as comunidades se abasteciam de pescado, e que foram afastados os animais selvagens, que eram alimento dos moradores. Trata-se, de acordo com um documento da Racimos de Ungurahui, de uma cadeia de danos originada pela atividade petrol&iacute;fera que se converte \u201cem um instrumento de viola&ccedil;&atilde;o de um dos direitos fundamentais dos moradores: a alimenta&ccedil;&atilde;o\u201d. Como resultado de um congresso dos povos ind&iacute;genas de Loreto, realizado entre 20 e 24 de julho, a Organiza&ccedil;&atilde;o Regional Aidesep Iquitos (Orai) exigiu a cria&ccedil;&atilde;o de \u201cmecanismos de controle sanit&aacute;rio permanente para prevenir futuros problemas de sa&uacute;de nos povos ind&iacute;genas em &aacute;reas de explora&ccedil;&atilde;o petrol&iacute;fera\u201d e que se declare a bacia do Rio Corrientes em estado de emerg&ecirc;ncia ambiental.<\/p>\n<p>No pronunciamento da Orai, os ind&iacute;genas tamb&eacute;m exigem do Estado e da Pluspetrol Norte a descontamina&ccedil;&atilde;o do territ&oacute;rio achuar e a aplica&ccedil;&atilde;o de tecnologia de ponta (limpa) na regi&atilde;o em que opera, durante toda a explora&ccedil;&atilde;o. Guimar&atilde;es, em nome das comunidades afetadas, disse que &eacute; urgente a reinje&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas de produ&ccedil;&atilde;o, atender os passivos ambientais e evitar as atividades de novas companhias petrol&iacute;feras em territ&oacute;rio achuar. A este respeito, o ministro de Minas e Energia, o arquiteto Juan Valdivia Romero, disse &agrave; IPS que funcion&aacute;rios do minist&eacute;rio mant&ecirc;m reuni&otilde;es com os diretores da Pluspetrol Norte para que acelerem os trabalhos de reinje&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas residuais de produ&ccedil;&atilde;o no subsolo, com m&eacute;todo de disposi&ccedil;&atilde;o ambiental aceit&aacute;vel.<\/p>\n<p>Sobre o conjunto dos danos ambientais produzidos pelas companhias de petr&oacute;leo, Romero afirmou que \u201creconhecemos a import&acirc;ncia que tem para as comunidades a r&aacute;pida redu&ccedil;&atilde;o dos passivos ambientais. Desde a dire&ccedil;&atilde;o de fiscaliza&ccedil;&atilde;o, exigimos da empresa o r&iacute;gido cumprimento das normas\u201d. Por sua parte, a Pluspetrol Norte informou que at&eacute; agora j&aacute; reinjetou cerca de 210 mil barris di&aacute;rios de &aacute;gua de produ&ccedil;&atilde;o, o que supera seu plano inicial de 80 mil barris\/dia. Estima-se que este trabalho terminar&aacute; em 2009. Entretanto, para a Racimos de Ungurahui, a empresa n&atilde;o s&oacute; avan&ccedil;a a passos lentos como tamb&eacute;m planeja a reinje&ccedil;&atilde;o de apenas 15% do total das &aacute;guas residuais.<\/p>\n<p>O gerente-geral da Pluspetrol Norte, Roberto Ramallo, disse atrav&eacute;s de uma nota que \u201cestamos conscientes da exist&ecirc;ncia de um impacto ambiental hist&oacute;rico na regi&atilde;o, e por isso desenvolvemos planos para melhorar a qualidade de vida das comunidades\u201d. O executivo destacou que a companhia d&aacute; assist&ecirc;ncia m&eacute;dica a 18 mil pessoas de forma gratuita e constr&oacute;i e reforma escolas para quatro mil alunos nativos na regi&atilde;o. Mas Guimar&atilde;es insistiu em que essa ajuda n&atilde;o passa de um paliativo. \u201cQueremos nosso pr&oacute;prio n&iacute;vel de desenvolvimento com identidade e harmonia com a natureza sem renunciar &agrave; nossa l&iacute;ngua, cultura e territ&oacute;rios. Exigimos um Estado pluricultural ou multil&iacute;ng&uuml;e\u201d, disse &agrave; IPS.<\/p>\n<p>A origem da contamina&ccedil;&atilde;o deve ser procurada na vis&atilde;o de desenvolvimento do Estado peruano, baseada em um modelo de explora&ccedil;&atilde;o de recursos naturais que n&atilde;o respeita as popula&ccedil;&otilde;es afetadas, disse Jos&eacute; De Echave, da ONG Coopera&ccedil;&atilde;o, especializada em temas mineiros e sociais. As comunidades ind&iacute;genas tamb&eacute;m recorreram a inst&acirc;ncias parlamentares. O novo presidente da Comiss&atilde;o de Amaz&ocirc;nia e Assuntos Ind&iacute;genas do Congresso, Carlos Arana, disse que no 15 passado este &oacute;rg&atilde;o analisou as preocupa&ccedil;&otilde;es das comunidades.<\/p>\n<p>\u201cVeremos a possibilidade de apresentar projetos de lei que ajudem a entender as reclama&ccedil;&otilde;es destes povos e que tamb&eacute;m incorporem o que exigem os tratados internacionais sobre o assunto\u201d, disse Arana &agrave; IPS. Nos pr&oacute;ximos dias ser&aacute; feito an&uacute;ncio das organiza&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas sobre as medidas que adotar&atilde;o. Embora os porta-vozes das etnias estejam muito sigilosos, prev&ecirc;-se que uma primeira medida ser&aacute; iniciar a&ccedil;&otilde;es legais, e, em seguida, como tantas outras vezes, um processo de negocia&ccedil;&atilde;o com as companhias de petr&oacute;leo. (IPS\/Envolverde)                          Legenda: xaman achuar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima, 08\/10\/2006 &ndash; Arankartuktaram! 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