{"id":20629,"date":"2016-03-10T13:37:15","date_gmt":"2016-03-10T13:37:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=206958"},"modified":"2016-03-10T13:37:15","modified_gmt":"2016-03-10T13:37:15","slug":"roupa-limpa-moda-sem-trabalho-escravo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/03\/ultimas-noticias\/roupa-limpa-moda-sem-trabalho-escravo\/","title":{"rendered":"Roupa Limpa, moda sem trabalho escravo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_206959\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-206959\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/modalimpa.jpg\" alt=\"Fidel Daza e Susana Chiura, na sede da Cooperativa 20 de Dezembro, em Buenos Aires, onde imigrantes bolivianos trabalham ap\u00f3s serem libertados do trabalho escravo a que estavam submetidos em oficinas clandestinas de confec\u00e7\u00f5es. \" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/modalimpa-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/modalimpa.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Fidel Daza e Susana Chiura, na sede da Cooperativa 20 de Dezembro, em Buenos Aires, onde imigrantes bolivianos trabalham ap\u00f3s serem libertados do trabalho escravo a que estavam submetidos em oficinas clandestinas de confec\u00e7\u00f5es.<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Fabiana Frayssinet, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Buenos Aires, Argentina, 10\/3\/2016 \u2013 Na Argentina, j\u00e1 s\u00e3o 20 as marcas de confec\u00e7\u00e3o que garantem que seus produtos s\u00e3o fabricados em condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho, gra\u00e7as \u00e0 rede Roupa Limpa, que pretende tirar da moda as manchas do trabalho escravo, em um setor que emprega ilegalmente cerca de 30 mil pessoas no pa\u00eds. Os membros da Cooperativa 20 de Dezembro param o trabalho para almo\u00e7ar e, ap\u00f3s uma jornada de sete horas, saem do emprego para buscar os filhos na escola.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o direitos inclu\u00eddos nas leis locais, mas que n\u00e3o s\u00e3o cumpridos por cerca de tr\u00eas mil confec\u00e7\u00f5es que funcionam irregularmente em Buenos Aires e arredores, abastecendo 80% da ind\u00fastria da moda local, segundo dados da funda\u00e7\u00e3o La Alameda, promotora da Cooperativa.\u201cNos davam apenas um prato de comida, que t\u00ednhamos que dividir com nossos filhos. E a comida n\u00e3o era boa\u201d, contou \u00e0 IPS a boliviana Susana Chiura, integrante da Cooperativa que chegou a este pa\u00eds h\u00e1 sete anos.<\/p>\n<p>Como muitos outros imigrantes sul-americanos na Argentina, a maioria de bolivianos, Chiura foi trazida pelo propriet\u00e1rio de uma oficina de costura, neste caso peruano.\u201cEleprometeu um bom trabalho e moradia, mas quando chegamos aqui n\u00e3o era assim. S\u00f3 nos deixava sair no s\u00e1bado \u00e0 tarde. At\u00e9 para compras no supermercado, nos levava e trazia de volta para casa\u201d, contou. Ela dividia um pequeno quarto sem ventila\u00e7\u00e3o com o primeiro de seus filhos, ganhava cinco vezes menos do que o salario m\u00ednimo legal, trabalhando das 6h at\u00e9 meia-noite, e tinha descontados a passagem de vindada Bol\u00edvia, a comida e o alojamento.<\/p>\n<p>\u201cEu trabalhava das 7h \u00e0s 21h e descansava meia hora. Havia fam\u00edlias inteiras que trabalhavam at\u00e9 mais tarde, porque precisavam para poderem comer\u201d, contou Fidel Daza, outro imigrante boliviano da Cooperativa. \u201cAgora tenho um pouquinho mais de tempo para brincar com meus filhos. Antes os deixava dormindo e quando regressava estavam dormindo\u201d, destacou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Segundo a La Alameda, trabalhadores como Chiura e Daza s\u00e3o o \u00faltimo elo de uma cadeia que come\u00e7a com grandes, m\u00e9dias e pequenas empresas de vestu\u00e1rio, que, por omiss\u00e3o, cumplicidade ou ignor\u00e2ncia, utilizam essas oficinas de costura para confeccionarem suas pe\u00e7as.\u201cEu queria conhecer a oficina, mas me diziam que era muito dif\u00edcil que me deixassem entrar. Isso me preocupou, porque atr\u00e1s de uma porta fechada se esconde algo\u201d, testemunhou Ver\u00f3nica Virasoro, propriet\u00e1ria da Vero Vira, uma marca de confec\u00e7\u00e3o feminina, cliente da Cooperativa.<\/p>\n<p>A Vero Vira faz parte da rede Roupa Limpa, que tamb\u00e9m \u00e9 integrada por oficinas de costura e consumidores.Para Virasoro, muitos estilistas contratam oficinas ilegais para baratear custos ou por desinforma\u00e7\u00e3o. \u201cAl\u00e9m disso, nem todos s\u00e3o clandestinos escravizados. H\u00e1 outro tipo de oficinas familiares com essa din\u00e2mica de cobrar mais barato, mas para isso trabalham muit\u00edssimas horas, dormem nas instala\u00e7\u00f5es. E n\u00e3o s\u00e3o conscientes de que, com m\u00e1s instala\u00e7\u00f5es, podem gerar acidentes\u201d, destacou.<\/p>\n<div id=\"attachment_206960\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-206960\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/oficina.jpg\" alt=\"Esta oficinal t\u00eaxtil clandestina de Buenos Aires ficou totalmente destru\u00edda, ap\u00f3s um inc\u00eandio, em abril de 2015, no qual morreram duas crian\u00e7as bolivianas que viviam no local. A rede Roupa Limpa surgiu pela indigna\u00e7\u00e3o diante daquela trag\u00e9dia na Argentina, pa\u00eds onde 30 mil pessoas trabalham em oficinas ilegais de confec\u00e7\u00e3o. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/oficina-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/03\/oficina.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Esta oficinal t\u00eaxtil clandestina de Buenos Aires ficou totalmente destru\u00edda, ap\u00f3s um inc\u00eandio, em abril de 2015, no qual morreram duas crian\u00e7as bolivianas que viviam no local. A rede Roupa Limpa surgiu pela indigna\u00e7\u00e3o diante daquela trag\u00e9dia na Argentina, pa\u00eds onde 30 mil pessoas trabalham em oficinas ilegais de confec\u00e7\u00e3o. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>A rede Roupa Limpa surgiu em 2015 com um desfile de sucesso, para demonstrar \u201cque \u00e9 poss\u00edvel confeccionar roupa de maneira limpa\u201d, livre do trabalho escravo e infantil. Antes, no dia 27 de abril, duas crian\u00e7as bolivianas morreram em um inc\u00eandio em uma oficina clandestina.\u201cCome\u00e7amos a receber muitas liga\u00e7\u00f5es de pessoas indignadas com o que havia ocorrido e preocupadas porque, embora denunci\u00e1ssemosmuitas marcas por utilizarem essas oficinas em nossa p\u00e1gina na internet, nos perguntavam: o que fazer?\u201d, recordou Tamara Rosenberg, uma das respons\u00e1veisda Cooperativa.<\/p>\n<p>\u201cFoi quando surgiu a ideia de mostrar aos nossos clientes que \u00e9 poss\u00edvel produzir em condi\u00e7\u00f5es dignas. N\u00e3o \u00e9 o mesmo mostrar que existe uma cooperativa, e que h\u00e1 v\u00e1rios estilistas que t\u00eam esses valores de respeitar os direitos da pessoa, e com os pre\u00e7os justos\u201d, disse Rosenberg\u00e0 IPS. A roupa dessas oficinas, vendida barata em mercados de rua, em certas ocasi\u00f5es \u00e9 a mesma oferecida a pre\u00e7os altos por marcas famosas.<\/p>\n<p>A rede foi inspirada no movimento mundial Campanha Roupa Limpa, cujo objetivo \u00e9 melhorar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho no setor t\u00eaxtil e de material esportivo. \u201cA ideia \u00e9 nos aproximarmos dessas oficinas para conscientiz\u00e1-las dos riscos de n\u00e3o terem instala\u00e7\u00f5es em dia ou terem crian\u00e7as correndo pelo local, porque h\u00e1 muito p\u00f3 de tecido que faz mal ao seu sistema respirat\u00f3rio\u201d, explicouVirasoro. Tamb\u00e9m os assessoram para garantir volume de trabalho e orientam os estilistas \u201cque querem fazer as coisas de maneira respons\u00e1vel\u201d, apontou.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, porque h\u00e1 muito medo de serem denunciados. O problema \u00e9 que, embora n\u00e3o se trate de uma oficina clandestina ou com trabalho escravo, talvez n\u00e3o pague algum tributo ou n\u00e3o tenha as instala\u00e7\u00f5es em ordem\u201d, segundo Virasoro.\u201cUma pessoa tem consci\u00eancia quando \u00e9 maltratada, mas o dono da oficina diz\u2018olha, se voc\u00ea for embora, temos outros dez que querem trabalhar\u2019. Como \u00e9 dif\u00edcil conseguir emprego, tinham que baixar a cabe\u00e7a e continuar\u201d, ressaltou Daza. Outros temem denunciar, porque com frequ\u00eancia a mesma pol\u00edcia \u201cavisa o empregador, que os bota para fora\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>Laura M\u00e9ndez, da marca Clara A, decidiu confeccionar seus acess\u00f3rios na Cooperativa,ap\u00f3s presenciar, em uma f\u00e1brica de cal\u00e7ados, entre outras irregularidades, como \u201ctodos trabalhavam amontoados, em um lugar sem sa\u00edda\u201d. Ela enfatizou \u00e0 IPS que \u201co mais importante para mim \u00e9 tornar vis\u00edvel para os clientes a forma de produ\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Me interessa que por tr\u00e1s do produto haja um conte\u00fado, um impacto social\u201d.<\/p>\n<p>A Cooperativa 20 de Dezembro emprega 12 pessoas. H\u00e1 iniciativas semelhantes, embora ainda insuficientes.\u201cEm uma oficina de confec\u00e7\u00e3o clandestina, as pessoas trabalham 16 horas e ganham entre cinco mil e seis mil pesos (US$ 312 e US$ 375) e, aqui, a maioria trabalha, em m\u00e9dia, sete horas, com sal\u00e1rio m\u00e9dio de sete mil a oito mil pesos (US$ 437 a US$ 500), inclusive acima do conv\u00eanio da ind\u00fastria\u201d, ressaltou Rosenberg.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Mar\u00eda Reina \u00e9 dram\u00e1tica, como a de muitos de seus companheiros. H\u00e1 seis anos, quando viajava da Bol\u00edvia para a Argentina, \u201ccontratada por uma oficina de costura\u201d, seu \u00f4nibus capotou e no acidente perdeu seu companheiro, o cunhado e uma perna. \u201cQuando sa\u00ed do hospital me levaram \u00e0 oficina. Estava em cadeira de rodas e exigiram que trabalhasse. Eu dizia que n\u00e3o podia porque precisava me curar, ficar de repouso. N\u00e3o entendiam e por fim me jogaram na rua\u201d, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Agora faz um terapia de reabilita\u00e7\u00e3o e sabe que imigrantes sul-americanos como ela t\u00eam direitos trabalhistas, direito a um documento de identidade, al\u00e9m de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o gratuitas.\u201cA La Alameda h\u00e1 muito tempo denuncia todas essas pr\u00e1ticas de oficinas de costura clandestinas, que tamb\u00e9m est\u00e3o vinculadas a outros crimes\u201d, afirmou Rosenberg. \u201cChegamos inclusive a falar de crime organizado, porque muitas das marcas que terceirizam oficinas clandestinas est\u00e3o ligadas a outros crimes, como lavagem de dinheiro, contrabando de carros, tr\u00e1fico de drogas e narcoprostitui\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O desafio \u00e9 aprovar leis que garantam auditorias da cadeia de confec\u00e7\u00e3o, e que sejam registradas as oficinas particulares. \u201cUm de nossos grupos de trabalho est\u00e1 voltado a buscar lugares de produ\u00e7\u00e3o que, embora n\u00e3o estejam nas melhores condi\u00e7\u00f5es, se aproximem disso ou queiram melhor\u00e1-las. N\u00e3o queremos que fechem sem oferecermos op\u00e7\u00f5es, como agrupar-se entre si em um espa\u00e7o adequado\u201d, destacou Rosenberg.<\/p>\n<p>Uma alternativa \u00e9 o Polo T\u00eaxtil Barracas, que abriga, entre outros, trabalhadores sa\u00eddos de oficinas clandestinas, com m\u00e1quinas, em muitos casos, confiscadas. Mas sonham mais, como um selo que identifique a origem da roupa e um sistema de venda livre de trabalho escravo, para garantir que a roupa que usamos n\u00e3o esteja \u201cmanchada de sangue\u201d, pontuou Rosenberg. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Fabiana Frayssinet, da IPS &ndash;&nbsp; Buenos Aires, Argentina, 10\/3\/2016 &ndash; Na Argentina, j&aacute; s&atilde;o 20 as marcas de confec&ccedil;&atilde;o que garantem que seus produtos s&atilde;o fabricados em condi&ccedil;&otilde;es dignas de trabalho, gra&ccedil;as &agrave; rede Roupa Limpa, que pretende tirar da moda as manchas do trabalho escravo, em um setor que emprega ilegalmente cerca de 30 [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/03\/ultimas-noticias\/roupa-limpa-moda-sem-trabalho-escravo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1109,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[2830,1136,2458,3001,2783,2273],"class_list":["post-20629","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-1-1-canais","tag-industria-textil","tag-inter-press-service","tag-moda-limpa","tag-news3","tag-trabalho-escravo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20629","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1109"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20629"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20629\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20630,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20629\/revisions\/20630"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20629"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20629"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20629"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}