{"id":2064,"date":"2006-10-08T00:00:00","date_gmt":"2006-10-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2064"},"modified":"2006-10-08T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-08T00:00:00","slug":"populao-o-infame-trafco-ilegal-de-pessoas-na-amrica-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/america-latina\/populao-o-infame-trafco-ilegal-de-pessoas-na-amrica-latina\/","title":{"rendered":"Popula&ccedil;&atilde;o: O infame traf&iacute;co ilegal de pessoas na Am&eacute;rica Latina"},"content":{"rendered":"<p>Bogot&aacute;, 08\/10\/2006 &ndash; Recebeu uma oferta de trabalho? De ganhar muito dinheiro? De casamento ou vida nova no exterior? Informe-se antes de aceitar. <!--more--> Cl&aacute;udia, colombiana de 28 anos, dois filhos, t&eacute;cnica em sistemas, foi enganada. Ofereceram-lhe trabalho em uma companhia de petr&oacute;leo na Venezuela e acabou surrada, violentada e na prostitui&ccedil;&atilde;o, segundo a Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional para as Migra&ccedil;&otilde;es (OIM), que combate o tr&aacute;fico de pessoas h&aacute; mais de meio s&eacute;culo e trabalha em mais de 120 pa&iacute;ses, inclusive na Am&eacute;rica Latina. Juan, engenheiro de 30 anos, recebeu proposta para ganhar 200 euros por dia na Espanha, mas ao chegar a esse pa&iacute;s, teve os documentos retidos e foi obrigado a cuidar de ovelhas, trabalhando de gra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Paula, de 40 anos, separada, dois filhos, profissional com p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o, foi explorada sexual e profissionalmente, apanhou e recebeu amea&ccedil;a de viola&ccedil;&atilde;o contra sua filha, depois de conhecer Jorge pela Internet, viajar para a Am&eacute;rica Central e se casar. Por n&atilde;o se informar corretamente, n&atilde;o averiguar sobre pessoas, empresas, leis, obriga&ccedil;&otilde;es e direitos, por entregar seus documentos particulares ou por n&atilde;o buscar ajuda a tempo, outras mulheres perderam at&eacute; os filhos. Isso aconteceu com uma secret&aacute;ria colombiana, que conheceu na Internet um austr&iacute;aco, com quem se casou e foi viver na &Aacute;ustria. \u201cTive meu primeiro filho e ele me tirou. Consegui fugir, mas apesar de terem feito buscas, ainda n&atilde;o o encontraram\u201d, contou &agrave; Funda&ccedil;&atilde;o Esperan&ccedil;a, uma organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental colombiana que combate o tr&aacute;fico de pessoas.<\/p>\n<p>Na Col&ocirc;mbia e no restante da Am&eacute;rica Latina s&atilde;o in&uacute;meras hist&oacute;rias como essas. Milhares de homens, mulheres, meninas e meninos s&atilde;o v&iacute;timas desse mercado da inf&acirc;mia, que afeta, pelo menos, 20 milh&otilde;es de pessoas no mundo e rende para as m&aacute;fias muito dinheiro, s&oacute; ficando atr&aacute;s do tr&aacute;fico de drogas e de armas, segundo a Anti-Slavery (Antiescravagismo), a ONG brit&acirc;nica fundada em 1839. Muitos latino-americanos vivem em situa&ccedil;&atilde;o de explora&ccedil;&atilde;o, sob viol&ecirc;ncia, amea&ccedil;as, c&aacute;rcere privado ou trabalham sem remunera&ccedil;&atilde;o. \u201c Outros s&atilde;o vendidos ou explorados com fins de prostitui&ccedil;&atilde;o, trabalho ou casamento servil, turismo sexual ou tr&aacute;fico de &oacute;rg&atilde;os\u201d, diz Adriana Ruiz-Restrepo, coordenadora nacional anti-tr&aacute;fico de pessoas do Escrit&oacute;rio das Na&ccedil;&otilde;es Unidas contra as Drogas e o Crime, em Bogot&aacute;.<\/p>\n<p>Pelo menos, dez mil pessoas de aproximadamente 39 pa&iacute;ses, principalmente da Am&eacute;rica Latina, s&atilde;o escravizadas atualmente em mais de 90 cidades dos Estados Unidos, denunciou Jolene Smith, da ONG Free the Slaves (Libertar os Escravos), durante uma confer&ecirc;ncia internacional sobre tr&aacute;fico humano realizada este ano em Bogot&aacute;. \u201cQuarenta e seis por cento s&atilde;o exploradas em prostitui&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada, 27% no servi&ccedil;o dom&eacute;stico, 10% na agricultura, 5% no setor de manufatura e o restante em outras atividades\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A Escravid&atilde;o Moderna<\/p>\n<p>A aboli&ccedil;&atilde;o da escravid&atilde;o no s&eacute;culo XIX se produziu apenas no papel, pois n&atilde;o acabou somente com a servid&atilde;o de negros e &iacute;ndios, como tamb&eacute;m ampliou e produziu outros males, como o tr&aacute;fico de &oacute;rg&atilde;os. No s&eacute;culo XX, a humanidade conquistou todos seus direitos e criou todas as regras de conviv&ecirc;ncia, mas, por outro lado, consolidou delitos t&atilde;o infames como o tr&aacute;fico de pessoas, qualificada hoje de escravid&atilde;o moderna. Anualmente, entre 600 mil e 800 mil pessoas s&atilde;o v&iacute;timas desse tipo de tr&aacute;fico, e 80% delas s&atilde;o crian&ccedil;as e mulheres, a metade menor de idade e a maioria v&iacute;tima da explora&ccedil;&atilde;o sexual, segundo o VI Informe sobre Tr&aacute;fico de Pessoas divulgado em julho pelo Departamento de Estado.<\/p>\n<p>Mas a situa&ccedil;&atilde;o pode ser pior, porque \u201cas v&iacute;timas n&atilde;o denunciam, ao n&atilde;o se assumirem como tal, temendo repres&aacute;lias contra si ou suas fam&iacute;lias, temem ser julgadas pelos amigos e parentes ou que as autoridades as considerem criminosas e n&atilde;o v&iacute;timas\u201d, diz M&ocirc;nica Peruffo, oficial do Programa de Tr&aacute;fico de Pessoas da OIM, na Col&ocirc;mbia. A maioria dos pa&iacute;ses latino-americanos \u201cacusa fen&ocirc;menos de tr&aacute;fico interno, regional ou para outros pa&iacute;ses, mas muitos n&atilde;o disp&otilde;em de uma legisla&ccedil;&atilde;o para enfrent&aacute;-la, apesar do problema n&atilde;o parar de crescer\u201d, afirma Ruiz-Restrepo. \u201cPortanto, n&atilde;o existem estat&iacute;sticas precisas. &Eacute; dif&iacute;cil quantificar os casos e complexo fazer seu acompanhamento. N&atilde;o h&aacute; um estudo regional detalhado, por&eacute;m sabemos que o problema &eacute; grave e que nenhum pa&iacute;s est&aacute; livre dele\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A Col&ocirc;mbia ocupa o terceiro lugar, depois do Brasil e da Rep&uacute;blica Dominicana em n&uacute;mero de casos registrados de tr&aacute;fico internacional de pessoas, apesar de desenvolver numerosas campanhas de informa&ccedil;&atilde;o, dispor de diversas linhas de consulta gratuita para o emigrante e contar com uma das legisla&ccedil;&otilde;es mais avan&ccedil;adas da Am&eacute;rica Latina. Neste pa&iacute;s o tr&aacute;fico de pessoas &eacute; castigado com penas de 13 a 23 anos de pris&atilde;o e multas entre 800 e mil sal&aacute;rios m&iacute;nimos, equivalentes a US$ 140 mil e US$ 175 mil, em m&eacute;dia, enquanto no Brasil, Paraguai, Bol&iacute;via e em outros pa&iacute;ses n&atilde;o existe uma legisla&ccedil;&atilde;o precisa para combater e castigar este crime.<\/p>\n<p>A Col&ocirc;mbia, mais do que qualquer outra na&ccedil;&atilde;o latino-americana, permite uma vis&atilde;o mais ampla deste tr&aacute;fico. \u201c&Eacute; o caso mais complexo na regi&atilde;o porque re&uacute;ne todas as caracter&iacute;sticas que a propiciam: conflito armado, crise econ&ocirc;mica, refugiados, recrutamento for&ccedil;ado e narcotr&aacute;fico, entre outras\u201d, diz Ruiz-Restrepo. Al&eacute;m disso, como &uacute;nico pa&iacute;s em guerra, &eacute; mais vulner&aacute;vel porque \u201cos traficantes de pessoas se alimentam, sobretudo, das crises humanit&aacute;rias\u201d, diz a pesquisadora Judith Kumin, ex-chefe de informa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica do Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados, com sede em Genebra.<\/p>\n<p>Na Am&eacute;rica Latina<\/p>\n<p>A Am&eacute;rica Latina &eacute; hoje uma das regi&otilde;es do mundo onde mais se comercializa pessoas e onde este tr&aacute;fico encontra um caldo de cultivo favor&aacute;vel. A mentalidade de emigrante do latino-americano e a convic&ccedil;&atilde;o generalizada de que o mundo pode ser melhor em outro lugar tamb&eacute;m influem. No caso da Col&ocirc;mbia, quase quatro milh&otilde;es de cidad&atilde;os residem no exterior, e estima-se que entre dois e dez deixam diariamente o pa&iacute;s como potenciais v&iacute;timas de tr&aacute;fico, segundo o Departamento Administrativo de Seguran&ccedil;a (DAS), o servi&ccedil;o secreto colombiano, e a Interpol (Pol&iacute;cia Internacional). \u201cUma novidade recente &eacute; que existem den&uacute;ncias de tr&aacute;fico de colombianos em pa&iacute;ses vizinhos como Equador e Panam&aacute;\u201d, diz Peruffo, da OIM.<\/p>\n<p>No Brasil, onde ainda n&atilde;o existe uma legisla&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica, n&atilde;o s&oacute; se obriga homens a trabalhar como escravos em fazendas. Em Feira de Santana, na Bahia, meninas s&atilde;o leiloadas. \u201cElas s&atilde;o colocadas sobre um caminh&atilde;o e vendidas. As virgens custam mais\u201d, disse em uma entrevista em Bogot&aacute; a pesquisadora Jacqueline Leite, durante um encontro regional sobre tr&aacute;fico de pessoas e direitos humanos. O M&eacute;xico, em quinto lugar na lista de tr&aacute;fico de pessoas e onde tamb&eacute;m proliferam os cart&eacute;is da droga, &eacute; um pa&iacute;s de origem, tr&acirc;nsito e destino final de pessoas com fins de explora&ccedil;&atilde;o sexual e profissional, segundo o documento do Departamento de Estado. Nesse pa&iacute;s \u201co fen&ocirc;meno est&aacute; estreitamente ligado a redes e grupos criminosos organizados em n&iacute;vel transnacional. Muitos imigrantes ilegais se convertem em v&iacute;timas dos traficantes e s&atilde;o explorados durante sua viagem desde a fronteira sul com a Guatemala at&eacute; fronteira norte com os Estados Unidos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A Argentina, por sua vez, passou a integrar o circuito mundial de tr&aacute;fico de pessoas, sobretudo para explora&ccedil;&atilde;o sexual e profissional, especialmente de crian&ccedil;as e adolescentes, segundo o &uacute;ltimo relat&oacute;rio da Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho (OIT). Na Venezuela, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico anunciou a deten&ccedil;&atilde;o de dois membros da Guarda Nacional por suposto envolvimento com um grupo internacional de tr&aacute;fico de cidad&atilde;os chineses, no come&ccedil;o de junho. Washington incluiu a Venezuela na lista de pa&iacute;ses que poderiam sofrer san&ccedil;&otilde;es por n&atilde;o enfrentar o tr&aacute;fico.<\/p>\n<p>Para complicar mais a situa&ccedil;&atilde;o, os latino-americanos tamb&eacute;m s&atilde;o v&iacute;timas do tr&aacute;fico de &oacute;rg&atilde;os. Hoje n&atilde;o &eacute; novidade encontrar corpos \u201csaqueados\u201d. Na Col&ocirc;mbia h&aacute; v&aacute;rios exemplos. Em Bogot&aacute;, um jovem de 18 anos saiu certa manh&atilde; de sua casa rumo &agrave; universidade e, no caminho, come&ccedil;ou a conversar com dois desconhecidos no &ocirc;nibus. Ele s&oacute; se lembra de que jogaram algo em seu rosto. Cinco dias depois, quando acordou no Parque El Tunal, ao sul da cidade, tinha uma enorme cicatriz e lhe faltava um dos rins, segundo contou &agrave; Funda&ccedil;&atilde;o Esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Em Bucaramanga, no departamento de Santander, foi encontrado o cad&aacute;ver da jovem Johana Maritza Pinto, de 17 anos. Seu corpo estava lavado, vestido, sem manchas de sangue, mas com uma sutura desde o pesco&ccedil;o at&eacute; o umbigo. \u201cEla teve retirados desde os pulm&otilde;es at&eacute; a bexiga\u201d, informou a pol&iacute;cia. \u201cFicamos sabendo de mulheres gr&aacute;vidas que t&ecirc;m os beb&ecirc;s roubados, ou de cad&aacute;veres de jovens sem c&oacute;rneas, mas &eacute; muito dif&iacute;cil fazer a apura&ccedil;&atilde;o destes casos\u201d, disse Diana Cano, coordenadora nacional da Funda&ccedil;&atilde;o Esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>O que fazer para combater estes crimes? Especialistas recomendam informar-se bem sobre os direitos e deveres antes de viajar, n&atilde;o acreditar em propostas milagrosas, afetivas ou econ&ocirc;micas, e nem em contos de fadas, porque a emigra&ccedil;&atilde;o hoje em dia &eacute; uma op&ccedil;&atilde;o que exige informa&ccedil;&atilde;o, e o tr&aacute;fico de &oacute;rg&atilde;os &eacute; uma realidade que enluta a regi&atilde;o. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>(*) Gl&oacute;ria Helena Rey trabalha h&aacute; 25 anos como correspondente estrangeira na Am&eacute;rica Latina e Europa. Recebeu v&aacute;rios pr&ecirc;mios nacionais e internacionais. Atualmente, colabora com o El Peri&oacute;dico, da Catalu&ntilde;a, e Leituras Fin de Semana, do jornal El Tiempo, de Bogot&aacute;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bogot&aacute;, 08\/10\/2006 &ndash; Recebeu uma oferta de trabalho? De ganhar muito dinheiro? De casamento ou vida nova no exterior? 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