{"id":20714,"date":"2016-04-06T13:36:53","date_gmt":"2016-04-06T13:36:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=207869"},"modified":"2016-04-06T13:36:53","modified_gmt":"2016-04-06T13:36:53","slug":"o-caminho-para-a-esperanca-dos-indigenas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/04\/ultimas-noticias\/o-caminho-para-a-esperanca-dos-indigenas\/","title":{"rendered":"O caminho para a esperan\u00e7a dos ind\u00edgenas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_207870\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-207870\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/camino_esperanza_principal-629x420.jpg\" alt=\"Integrantes do Conselho C\u00edvico de Organiza\u00e7\u00f5es Populares e Ind\u00edgenas de Honduras (Copinh) recebem a Caravana pela Paz, a Vida e a Justi\u00e7a em Utopia, em La Esperanza, o lugar onde foi morta a l\u00edder ind\u00edgena e ambientalista Berta C\u00e1ceres. Foto: Ximena Natera e Daniela Pastrana\/Pie de P\u00e1gina\" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/camino_esperanza_principal-629x420-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/camino_esperanza_principal-629x420.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Integrantes do Conselho C\u00edvico de Organiza\u00e7\u00f5es Populares e Ind\u00edgenas de Honduras (Copinh) recebem a Caravana pela Paz, a Vida e a Justi\u00e7a em Utopia, em La Esperanza, o lugar onde foi morta a l\u00edder ind\u00edgena e ambientalista Berta C\u00e1ceres. Foto: Ximena Natera e Daniela Pastrana\/Pie de P\u00e1gina<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Daniela Pastrana e Ximena Natera, da IPS &#8211;<\/em><\/p>\n<p>La Esperanza, Honduras, 6\/4\/2016 \u2013 A terra onde viveu e morreu Berta C\u00e1ceres \u00e9 um mundo onde as palavras se enchem de significado: esperan\u00e7a, utopia, casa de cura. S\u00e3o nomes que ganham sentido nessa montanha do departamento de Intibuc\u00e1, a 1.700 metros de altitude, onde os lencas colocaram seus corpos como escudo contra os projetos hidrel\u00e9tricos em Honduras.<\/p>\n<p>\u201cO que vivemos \u00e9 uma recoloniza\u00e7\u00e3o institucional. Uma guerra declarada ao povo lenca disfar\u00e7ada de desenvolvimento, mas \u00e9 um desenvolvimento para os privados e para o poder, e um genoc\u00eddio para as comunidades ind\u00edgenas\u201d, afirmou Tom\u00e1s G\u00f3mez, do Conselho C\u00edvico de Organiza\u00e7\u00f5es Populares e Ind\u00edgenas de Honduras (Copinh). OCopinh \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o criada, h\u00e1 23 anos, por Berta C\u00e1ceres, l\u00edder ind\u00edgena e reconhecida defensora dos direitos humanos, que foi assassinada no dia 3 de mar\u00e7o em sua casa, por sic\u00e1rios n\u00e3o identificados e por motivos ainda n\u00e3o esclarecidos.<\/p>\n<p>Seu assassinato comoveu o mundo. Mas aqui em Utopia, como \u00e9 chamado o centro de trabalho do Copinh, n\u00e3o h\u00e1 l\u00e1grimas nem lamento. H\u00e1 altares, mem\u00f3ria e uma convic\u00e7\u00e3o \u00e0 toda prova, inclu\u00eddos os sete assassinatos de ativistas da organiza\u00e7\u00e3o.\u201cN\u00e3o podemos ficar parados\u201d, disse, imperturb\u00e1vel, Laura Z\u00fa\u00f1igaC\u00e1ceres. A jovem de 23 anos teve que suspender seus estudos de obstetr\u00edcia em outro pa\u00eds e voltar a essa terra depois do assassinato de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Nesses dias, ela transformou a Casa de Cura de Mulheres em seu lar. \u201cA casa era um sonho de Berta\u201d, contou Marleny Reyes Castillo, tamb\u00e9m dirigente do Copinh. A casa est\u00e1 concebida como um lugar onde as mulheres que sofrem viol\u00eancia possam ser atendidas, curadas f\u00edsica e emocionalmente, e assessoradas juridicamente.O local fica a dez minutos de Utopia, no centro de La Esperanza, uma vila de casas com teto de telhas, que parecem modelos dos desenhos do ensino prim\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 um povoado onde n\u00e3o se ouve falar da viol\u00eancia que h\u00e1 em outras regi\u00f5es do pa\u00eds pelas guerras de gangues ou do crime organizado. Por isso, nesse lugar ningu\u00e9m tem d\u00favidas de que Berta foi morta por sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica na Represa de \u00c1gua Zarca, no rio Galcarque, vital para a sobreviv\u00eancia dos lencas de R\u00edo Blanco.O povo lenca se estende por sete departamentos de Honduras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da casa de cura, e de Utopia, o Copinh tem, em La Esperanza, a r\u00e1dio comunit\u00e1ria La Voz Lenca, e outras quatro em regi\u00f5es de influ\u00eancia.Em 2015, Berta C\u00e1ceres recebeu o Pr\u00eamio Goldman, m\u00e1ximo reconhecimento mundial para ativistas ambientais. Sua campanha contra a Represa \u00c1gua Zarca conseguiu deter a companhia estatal chinesa Sinohydro, a maior construtora de represas do mundo.<\/p>\n<p>No entanto, essa n\u00e3o era a \u00fanica batalha dos povos origin\u00e1rios. A partir do golpe de Estado de 2009, houve uma explos\u00e3o de permiss\u00f5es para megaprojetos, sobretudo dos que geram provis\u00e3o de energia para concess\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o.\u201cS\u00f3 o Copinh enfrentou 50 hidrel\u00e9tricas. Mais as mineradoras e as e\u00f3licas. A luta est\u00e1 apenas come\u00e7ando\u201d, pontuou G\u00f3mez.<\/p>\n<div id=\"attachment_207871\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-207871\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/camino_esperanza_texto_4.jpg\" alt=\"O projetado Corredor Tur\u00edstico de Honduras, uma das formas de despojo de terras ind\u00edgenas do povo lenca no pa\u00eds. Foto Ximena Natera e Daniela Pastrana\/Pie de P\u00e1gina\" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/camino_esperanza_texto_4-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/camino_esperanza_texto_4.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">O projetado Corredor Tur\u00edstico de Honduras, uma das formas de despojo de terras ind\u00edgenas do povo lenca no pa\u00eds. Foto Ximena Natera e Daniela Pastrana\/Pie de P\u00e1gina<\/p><\/div>\n<p>O governo de Juan Orlando Hern\u00e1ndez tem uma solu\u00e7\u00e3o para os ind\u00edgenas do pa\u00eds: que n\u00e3o existam, segundo ativistas. E vem tentando, desde que iniciou seu governo, em janeiro de 2014, com a explos\u00e3o de concess\u00f5es de megaprojetos. Mesmo antes, quando presidia o Congresso Nacional que aprovou a proposta de criar Cidades-Modelo, j\u00e1 tentava.<\/p>\n<p>Trata-se de um esquema parecido ao impulsionado no M\u00e9xico, pelo ex-presidente Ernesto Zedillo, para criar polos urbanos de desenvolvimento que, segundo o plano, acabariam com a pobreza dos ind\u00edgenas em comunidades mais afastadas. Mas o programa fracassou porque os ind\u00edgenas, arraigados \u00e0s suas terras, regressaram a elas todas as vezes que foram reassentados.<\/p>\n<p>As Cidades-Modelo forma declaradas inconstitucionais pelo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a em 2012.Ent\u00e3o, no que foi considerado um \u201cgolpe de Estado t\u00e9cnico\u201d, Hern\u00e1ndez destituiu os magistrados da sala constitucional (com o argumento de que n\u00e3o deram seu parecer a tempo). O \u00fanico juiz que n\u00e3o declarou a lei inconstitucional, e que n\u00e3o foi despachado pelo ent\u00e3o presidente do Congresso, foi \u00d3scar Chinchilla, que depois passou a ser procurador-geral do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A proposta das Cidades-Modelo foi retomada em 2013, com a lei de Zonas de Emprego de Desenvolvimento Econ\u00f4mico, que tem alcances ainda maiores, pois permite criar zonas com autonomia financeira e policial. Isto \u00e9, d\u00e1 aos investidores a autonomia que os governos da regi\u00e3o negam aos povos origin\u00e1rios.\u201cH\u00e1 mais de 23 \u00e1reas em projeto. Se todo o capital esperado n\u00e3o chegou, foi por causa da inseguran\u00e7a jur\u00eddica que h\u00e1 no pa\u00eds. \u00c9 preciso um pouco de institucionalidade\u201d, destacou Ana Ortega, acad\u00eamica e feminista que preside a junta diretora do Comit\u00ea pela Livre Express\u00e3o (C-Libre).<\/p>\n<p>Entretanto, o principal problema do governo \u00e9 a resist\u00eancia dos grupos ind\u00edgenas e camponeses. Segundo a organiza\u00e7\u00e3o Global Witness, tr\u00eas em cada quatro assassinatos de ambientalistas ocorridos em 2014 foram registradosna Am\u00e9rica Latina. No informe <em>Quantos Mais?<\/em>, Honduras aparece como o pa\u00eds mais perigoso para os ambientalistas, com 111 assassinatos de ativistas. Deles, 80 ocorreram nos \u00faltimos tr\u00eas anos na regi\u00e3o do Bajo Aguan, onde est\u00e3o as melhores terras de cultivode Honduras.<\/p>\n<p>Outros que lutam por suas terras s\u00e3o os afrodescendentes do povo gar\u00edfuna, assentados na costa caribenha do pa\u00eds, onde empres\u00e1rios, pol\u00edticos e militares se apropriaram das terras para implantar complexos tur\u00edsticos. O caso mais emblem\u00e1tico \u00e9 o dosgarinagus da comunidade de Barra Vieja, que lutam nos tribunais contra o despojo do complexo Indura Resort e que foram desalojados tr\u00eas vezes e tr\u00eas vezes voltaram.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma criminaliza\u00e7\u00e3o das comunidades. Os tambores s\u00e3o vistos como armas de guerra. Temos deslocamentos de comunidades inteiras e h\u00e1 uma perda de territ\u00f3rio para a cria\u00e7\u00e3o de bases militares, com o pretexto da guerra contra o narcotr\u00e1fico\u201d, apontou Miriam Miranda, dirigente da Organiza\u00e7\u00e3o Fraternal Negra Hondurenha (Ofraneh), durante a passagem da Caravana pela Paz, a Vida e a Justi\u00e7apor La Ceiba, que busca abrir um debate sobre a pol\u00edtica antidrogas na regi\u00e3o e que, no dia 1\u00ba, deixou o territ\u00f3rio hondurenho para entrar em El Salvador.<\/p>\n<p>A Caravana come\u00e7ou sua caminhada em Tegucigalpa, no dia 28 de mar\u00e7o, e a terminar\u00e1 no dia 21, em Nova York.\u201cOl\u00e1, compadre, venha comer, dizia Berta, embora n\u00e3o tivesse muito, de uma tortilha que comemos todos\u201d, contou Daniel Valladares, membro do Centro de Pesquisa e Promo\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos (Ciprodeh), uma das organiza\u00e7\u00f5es-sede da Caravana em Honduras.<\/p>\n<p>Karla Lara, cantora e ativista feminista, testemunhou que Berta conseguia integrar muitas e diferentes causas, e \u201cfazia a gente sentir cada luta como sendo especial, porque para ela eram especiais\u201d. As lutas dos povos origin\u00e1rios em Honduras sempre foram pac\u00edficas, explicou uma jornalista que conheceu Berta em 1994, quando os lencas iniciaram sua peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 capital. Por\u00e9m, ser ind\u00edgena, mulher e ambientalista \u00e9 a pior combina\u00e7\u00e3o que pode haver na Honduras p\u00f3s-golpe. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>*Este artigo foi originalmente publicado no portal Pie de P\u00e1gina, um projeto da organiza\u00e7\u00e3o Periodistas de a Pie financiado pela Open Society Fundations. A IPS-Inter Press Service tem um acordo especial com essa entidade para a difus\u00e3o de seu material. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Daniela Pastrana e Ximena Natera, da IPS &ndash; La Esperanza, Honduras, 6\/4\/2016 &ndash; A terra onde viveu e morreu Berta C&aacute;ceres &eacute; um mundo onde as palavras se enchem de significado: esperan&ccedil;a, utopia, casa de cura. 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