{"id":20716,"date":"2016-04-07T13:06:44","date_gmt":"2016-04-07T13:06:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=207932"},"modified":"2016-04-07T13:06:44","modified_gmt":"2016-04-07T13:06:44","slug":"viagem-a-cidade-mais-violenta-do-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/04\/ultimas-noticias\/viagem-a-cidade-mais-violenta-do-planeta\/","title":{"rendered":"Viagem \u00e0 cidade mais violenta do planeta"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_207933\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-207933\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Honduras-ximena-Natera-01-629x420.jpg\" alt=\"San Pedro Sula, em Honduras, que tem o t\u00edtulo de cidade mais violenta durante a noite. Foto: Ximena Natera\/Pie de P\u00e1gina\" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Honduras-ximena-Natera-01-629x420-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Honduras-ximena-Natera-01-629x420.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">San Pedro Sula, em Honduras, que tem o t\u00edtulo de cidade mais violenta durante a noite. Foto: Ximena Natera\/Pie de P\u00e1gina<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Ximena Natera e Daniela Pastrana, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>San Pedro Sula, Honduras, 7\/4\/2016 \u2013 A contr\u00e1rio da capital, Tegucigalpa, constru\u00edda como uma inc\u00f4moda manta cinza que cobre meia d\u00fazia de montes (\u00e9 chamada de Cerrocigalpa), San Pedro Sula se estende sobre um vale de quase 800 quil\u00f4metros quadrados. A zona mais alta fica sobre a cordilheira do Merend\u00f3n. A vista do alto \u00e9 propriedade das fam\u00edlias mais endinheiradas do pa\u00eds, donas de bancos, emissoras de televis\u00e3o, equipes de futebol, lojas de roupa, produtoras de banana e dezenas de maquiadoras (produtoras para exporta\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Essas pessoas vivem em palacetes cercados por muro com cabos de alta tens\u00e3o e guardas de seguran\u00e7a privada que vigiam do alto em jaulas de seguran\u00e7a.\u201cPara eles, San Pedro Sula n\u00e3o existe\u201d, contou uma volunt\u00e1ria da R\u00e1dio Progresso, a emblem\u00e1tica emissora da comunidade de mesmo nome, a 28 quil\u00f4metros da cidade e onde a Caravana pela Paz, a Vida e a Justi\u00e7a, que iniciou sua marcha em Honduras no dia 28 de mar\u00e7o, fez uma parada antes de seguir para Intibuc\u00e1, tendo como destino final Nova York, aonde chegar\u00e1 no dia 21 deste m\u00eas.<\/p>\n<p>Dados da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) indicam que na Am\u00e9rica Latina \u00e9 cometido um ter\u00e7o dos assassinatos no mundo, mesmo com esta regi\u00e3o concentrando pouco mais de 8% da popula\u00e7\u00e3o mundial. Nessa regi\u00e3o violenta, San Pedro Sula \u00e9 um caso aparte. Sua taxa de homic\u00eddios, de 171 para cada cem mil habitantes, dificilmente pode ser superada por qualquer outro lugar do planeta.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) considera como epidemia taxas acima de dez mortes violentas pra cada cem mil habitantes. Isso significa que, em uma cidade de pouco mais de um milh\u00e3o de habitantes, quase seis mil pessoas s\u00e3o assassinadas a cada ano.San Pedro Sula \u00e9 uma cidade de contrastes. \u00c0 primeira vista, parece uma pequena Tijuana, a cidade mexicana na fronteira com os Estados Unidos e famosa por sua viol\u00eancia e grande atividade de com\u00e9rcio ilegal. Mas, vista de perto, \u00e9 como Acapulco, a cidade mexicana mais violenta em 2015, mas sem o mar.<\/p>\n<p>Possui bairros nos quais n\u00e3o se pode entrar sem salvo-conduto e guetos milion\u00e1rios constru\u00eddos para manter a morte do outro lado do muro. Os de fora a temem e recomendam aos estrangeiros n\u00e3o irem at\u00e9 ela. Mas os que vivem aqui perguntam com cautela se n\u00e3o \u00e9 muito perigoso ir de f\u00e9rias ao porto de Veracruz.\u201cTegucigalpa \u00e9 a cara pol\u00edtica de Honduras, San Pedro Sula \u00e9 o motor industrial\u201d, repete a volunt\u00e1ria da R\u00e1dio Progresso.<\/p>\n<p>E ela n\u00e3o est\u00e1 errada: desde 2011, San Pedro Sula contribui com quase dois ter\u00e7os do produto interno bruto hondurenho.At\u00e9 o s\u00e9culo 19, o Vale de Sula foi o grande armaz\u00e9m da Am\u00e9rica Central, onde todos os produtos da regi\u00e3o se concentravam e eram armazenados antes de serem embarcados em Puerto Cort\u00e9s. Tudo mudou no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, com a chegada de uma onda de imigrantes palestinos que transformaram a \u00e1rea no centro de com\u00e9rcio mais importante da rota oriente.<\/p>\n<div id=\"attachment_207934\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-207934\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Honduras-ximena-Natera-03.jpg\" alt=\"Pol\u00edcia Militar em uma rua de San Pedro Sula durante patrulhamento noturno. Foto: Ximena Natera\/Pie de P\u00e1gina\" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Honduras-ximena-Natera-03-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Honduras-ximena-Natera-03.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Pol\u00edcia Militar em uma rua de San Pedro Sula durante patrulhamento noturno. Foto: Ximena Natera\/Pie de P\u00e1gina<\/p><\/div>\n<p>Cem anos depois, s\u00e3o essas mesmas fam\u00edlias \u2013 Rosental, Andal, Rafati \u2013 e alguns novos empres\u00e1rios, pol\u00edticos e chefes de grupos criminosos os que vivem entre muros no alto do Merend\u00f3n. O resto do vale est\u00e1 marcado por cintur\u00f5es de mis\u00e9ria, formados por fam\u00edlias do campo que chegaram a San Pedro, primeiro quando o furac\u00e3o Mitch devastou a regi\u00e3o, e depois com as deporta\u00e7\u00f5es maci\u00e7as feitas pelos Estados Unidos. Para essas pessoas, a \u00fanica op\u00e7\u00e3o de emprego \u00e9 nas maquiadoras com sal\u00e1rio miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>Essa \u00e9, em parte, uma das explica\u00e7\u00f5es da viol\u00eancia. Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, foram criados nesta cidade 427 bairros. De 270 existentes em 1992, passaram para 700, em 2013, segundo o \u00f3rg\u00e3o Estat\u00edsticas Municipais, embora os n\u00fameros n\u00e3o sejam exatos. Chamelec\u00f3n e Rivera Hern\u00e1ndez, dois dos bairros com maior densidade populacional, n\u00e3o foram recenseados em dez anos porque ningu\u00e9m se atreve a entrar nessas col\u00f4nias dominadas por gangues criminosas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica de San Pedro Sula \u2013 a 114 quil\u00f4metros da fronteira com a Guatemala e a 52 de Puerto Cort\u00e9s, com sa\u00eddas para Tegucigalpa e Ceiba \u2013 a converte em lugar estrat\u00e9gico para o transporte de quase tudo. Hoje, todos os migrantes que seguem para os Estados Unidos passam por ela. Tamb\u00e9m passa por esta rota 80% da droga que segue para o norte, segundo estimativas oficiais.<\/p>\n<p>Outro ativista da R\u00e1dio Progresso resume assim a situa\u00e7\u00e3o: \u201cEm El Salvador passa a coca consumida pelos salvadorenhos. Por San Pedro passa a coca consumida em Honduras, Guatemala, M\u00e9xico e Estados Unidos. Por San Pedro passa tudo\u201d.Na \u00faltima semana de mar\u00e7o circulou em redes sociais a fotografia de uma folha contendo uma mensagem para os moradores da col\u00f4nia Reparto Lempira que dizia:\u201cDa parte da gangue 18, damos 24 horas para que tenham vazado desta \u00e1rea, depois n\u00e3o v\u00e3o lamentar as vidas ca\u00eddas. Damos 24 horas para partirem, nada de telefonemas para a pol\u00edcia, nem den\u00fancias, do contr\u00e1rio v\u00e3o lamentar\u201d.<\/p>\n<p>Partiram. Ningu\u00e9m espera que sejam cumpridas as amea\u00e7as nesta cidade, onde, segundo as estat\u00edsticas, nos primeiros tr\u00eas dias da semana passada (durante os quais passava a caravana de ativistas que busca abrir o debate da pol\u00edtica de drogas militarizada impulsionada pelos Estados Unidos), 57 pessoas teriam sido assassinadas.No dia 27, houve quatro assassinatos em um mercado. Mataram as v\u00edtimas na \u00e1rea de descarga. O local foi cercado pela pol\u00edcia, mas os moradores da cidade passam como se nada houvesse acontecido no lugar, enquanto conversam sobre o tr\u00e1fico ou suas preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Marta, enfermeira no Hospital Rivas, pensa que a brutal viol\u00eancia vem de uma combina\u00e7\u00e3o de fatores que come\u00e7am com a industrializa\u00e7\u00e3o da cidade, que pouco dinheiro deixa para as pessoas comuns, as nulas op\u00e7\u00f5es para se conseguir uma vida melhor e a enorme concentra\u00e7\u00e3o de pessoas nas col\u00f4nias da periferia, onde o \u00fanico exemplo de autoridade para os jovens \u00e9 o crime.<\/p>\n<p>A isso se soma o fato de no pa\u00eds a lei permitir que cada cidad\u00e3o tenha at\u00e9 cinco armas de fogo. Por outro lado, a enfermeira pontuou que em seu hospital n\u00e3o h\u00e1 nada com que trabalhar. \u201cAqui, quem vem para uma cirurgia, tem que trazer sua anestesia, at\u00e9 suas ataduras\u201d, disse com raiva, porque, no dia 30 de mar\u00e7o, Ana Garc\u00eda, mulher do presidente Juan Orlando Hern\u00e1ndez, visitou o hospital para entregar pulseiras de identifica\u00e7\u00e3o aos pacientes. \u201c\u00c9 melhor nos trazer antibi\u00f3ticos, pois n\u00e3o tem nenhum, e deixamos as pulseiras para os que morrem\u201d, lhe disseram.<\/p>\n<p>Ao cair da noite, nas ruas do centro da cidade aparecem vultos de pessoas que se disp\u00f5em a dormir ao relento. N\u00f3s, autoras desta reportagem, demoramos um bom tempo at\u00e9 encontrarmos um hotel que custasse menos de US 90 a noite e n\u00e3o tivesse apar\u00eancia de bordel. Tivemos sorte. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>*<em>Este artigo foi originalmente publicado no portal Pie de P\u00e1gina, um projeto da organiza\u00e7\u00e3o Periodistas de a Pie financiado pela Open SocietyFundations. A IPS-Inter Press Service tem um acordo especial com essa entidade para a difus\u00e3o de seu material.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Ximena Natera e Daniela Pastrana, da IPS &ndash;&nbsp; San Pedro Sula, Honduras, 7\/4\/2016 &ndash; A contr&aacute;rio da capital, Tegucigalpa, constru&iacute;da como uma inc&ocirc;moda manta cinza que cobre meia d&uacute;zia de montes (&eacute; chamada de Cerrocigalpa), San Pedro Sula se estende sobre um vale de quase 800 quil&ocirc;metros quadrados. 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