{"id":20740,"date":"2016-04-14T13:28:52","date_gmt":"2016-04-14T13:28:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=208179"},"modified":"2016-04-14T13:28:52","modified_gmt":"2016-04-14T13:28:52","slug":"paraguai-um-pais-sobre-rodas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/04\/ultimas-noticias\/paraguai-um-pais-sobre-rodas\/","title":{"rendered":"Paraguai, um pa\u00eds sobre rodas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_208180\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-208180\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Victor.jpg\" alt=\" V\u00edctor Villamayor, de 42 anos, metade dos quais passou dirigindo ve\u00edculos de carga no Paraguai, orgulhoso ao lado de seu caminh\u00e3o nos arredores de Assun\u00e7\u00e3o, capital do Paraguai. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Victor-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/Victor.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> V\u00edctor Villamayor, de 42 anos, metade dos quais passou dirigindo ve\u00edculos de carga no Paraguai, orgulhoso ao lado de seu caminh\u00e3o nos arredores de Assun\u00e7\u00e3o, capital do Paraguai. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Assun\u00e7\u00e3o, Paraguai, 14\/4\/2016 \u2013 Gustavo Ag\u00fcero dirige ve\u00edculos automotores desde os 12 anos. Agora, aos 24, \u00e9 taxista na capital do Paraguai, mas com larga experi\u00eancia de caminhoneiro, ocupa\u00e7\u00e3o de todos os homens adultos de sua fam\u00edlia: pai, tr\u00eas tios, dois irm\u00e3os e cinco primos.Tudo come\u00e7ou com o pai, que adquiriu um caminh\u00e3o para transportar gado do interior profundo do Paraguai, e ensinou o of\u00edcio para duas gera\u00e7\u00f5es dos familiares mais pr\u00f3ximos, que vivem todos na periferia de Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ag\u00fcero seguiu o caminho paterno, at\u00e9 que as longas viagens por estradas in\u00f3spitas lhe pareceram muito sacrif\u00edcio. \u201cTinha que buscar o gado no Chaco, a 300 quil\u00f4metros de estrada de terra. Com chuva, ficava preso por uma semana por l\u00e1\u201d, recordou. \u201cMelhor dormir todas as noites em casa, por isso preferi o t\u00e1xi\u201d, contou. J\u00e1 o seu pai n\u00e3o gostou da vida de taxista, que experimentou por pouco tempo. Aos 55 anos, continua transportando bois.<\/p>\n<p>Seus cinco primos suportam viagens mais longas, v\u00e3o ao Chile com seus caminh\u00f5es-cegonha para trazer autom\u00f3veis japoneses \u201cseminovos\u201d, que s\u00e3o os mais numerosos na \u00e1rea metropolitana de Assun\u00e7\u00e3o, porque s\u00e3o mais baratos e mant\u00eam a qualidade. \u201cSer cegonheiro \u00e9 duro, ficar um m\u00eas fora em cada viagem e cruzar os Andes, sofrendo altera\u00e7\u00f5es extremas de temperatura\u201d,explicou Victor Villamayor, caminhoneiro durante metade de seus 42 anos<\/p>\n<p>Morador perto de Ciudad del Este, na fronteira sudeste, Villamayor agora se dedica ao transporte de soja, depois de rodar v\u00e1rios anos levando cargas variadas ao Brasil e pelos mais de dois mil quil\u00f4metros de estradas entre Assun\u00e7\u00e3o e os portos do Oceano Pac\u00edfico para trazer os autom\u00f3veis apelidados de Via Chile.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o quero mais dirigir cegonheiras\u201d, decidiu, depois de uma \u00faltima viagem em que trouxe para si mesmo um autom\u00f3vel da marca Toyota, que lhe custou 40% menos do que os US$ 8,5 mil que costuma custar um Via Chile similar no Paraguai. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, esse tipo de importa\u00e7\u00e3o \u201cest\u00e1 acabando\u201d, porque,\u201ccom o cr\u00e9dito de longo prazo, qualquer um pode comprar carro novo\u201d. Os Via Chile v\u00eam com o volante do lado direito, exigem a mudan\u00e7a para o esquerdo, que \u00e9 feita em oficinas especializadas.<\/p>\n<p>Desde final de mar\u00e7o, o Paraguai conta com uma montadora de autom\u00f3veis chineses da marca JAC, a pre\u00e7os baixos e facilidade de financiamento, desestimulando a importa\u00e7\u00e3o de carros usados. Al\u00e9m disso, h\u00e1 o interesse dos pa\u00edses vizinhos na suspens\u00e3o dessas importa\u00e7\u00f5es de ve\u00edculos usados, em detrimento da ind\u00fastria automobil\u00edstica instalada no Mercosul, especialmente no Brasil. O mercado paraguaio \u00e9 pequeno, mas poderia aliviar a grave crise atual das montadoras brasileiras.<\/p>\n<div id=\"attachment_208181\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-208181\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/caminhoes.jpg\" alt=\"Caminh\u00f5es aguardam para entrar no Complexo Agroindustrial Angostura, o maior produtor de \u00f3leo e farinha de soja no Paraguai, localizado no parque industrial do munic\u00edpio de Villeta, a 45 quil\u00f4metros de Assun\u00e7\u00e3o. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/caminhoes-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/caminhoes.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Caminh\u00f5es aguardam para entrar no Complexo Agroindustrial Angostura, o maior produtor de \u00f3leo e farinha de soja no Paraguai, localizado no parque industrial do munic\u00edpio de Villeta, a 45 quil\u00f4metros de Assun\u00e7\u00e3o. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Villamayor reconheceu que nas estradas chilenas circula-se melhor e \u201ca pol\u00edcia nunca te pede suborno\u201d, ao contr\u00e1rio do Paraguai. E no Brasil teve a surpresa de ganhar \u201cestadia\u201d, di\u00e1ria para os gastos durante a viagem, um pagamento que n\u00e3o existe neste pa\u00eds do Cone Sul americano.A compara\u00e7\u00e3o permite que se queixe do \u201cpouco respeito\u201d com os caminhoneiros do Paraguai, pa\u00eds com 6,8 milh\u00f5es de habitantes, dos quais 18,8% ainda vivem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, embora a porcentagem tenha ca\u00eddo desde 2009, quando ela afetava 32,5% da popula\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as a um alto crescimento econ\u00f4mico durante esta d\u00e9cada, segundo dados do Banco Mundial.<\/p>\n<p>Ainda assim, o sonho de Villamayor \u00e9 ter seu pr\u00f3prio caminh\u00e3o, para aumentar sua renda, disse \u00e0 IPS, enquanto esperava sua vez para descarregar no Complexo Agroindustrial Angostura (Caiasa), onde fica a maior processadora de soja do pa\u00eds, ao sul de Assun\u00e7\u00e3o. A soja ele trouxe do departamento Alto Paran\u00e1, a mais de 300 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>S\u00f3 para abastecer o Caiasa de mat\u00e9ria-prima para a produ\u00e7\u00e3o de farinha e \u00f3leo de soja, estima-se que trabalhem cerca de dois mil caminhoneiros. Duas outras gigantes do com\u00e9rcio agr\u00edcola mundial, as norte-americanas ADM e Cargill, tamb\u00e9m instalaram plantas industriais no Paraguai, mobilizando outros milhares de caminhoneiros.A agroind\u00fastria \u00e9 a ponta de lan\u00e7a do processo de industrializa\u00e7\u00e3o que vive o Paraguai e que permite agregar valor \u00e0s suas exporta\u00e7\u00f5es, que em 60% s\u00e3o agropecu\u00e1rias.<\/p>\n<p>A soja, cuja produ\u00e7\u00e3o local triplicou nos \u00faltimos 20 anos e j\u00e1 supera oito milh\u00f5es de toneladas anuais, se converteu no principal produto de exporta\u00e7\u00e3o paraguaio e impulsionou a frota de transporte vi\u00e1rio no pa\u00eds. Pouco mais da metade da soja ainda \u00e9 exportada em gr\u00e3os, principalmente pela hidrovia dos rios Paraguai-Paran\u00e1, o que multiplicou os portos fluviais.<\/p>\n<p>\u201cA vida do caminhoneiro \u00e9 esperar, h\u00e1 portos desorganizados onde ficamos quatro ou cinco dias para descarregar a soja\u201d, lamentou Mart\u00edn Echauri, de 47 anos, 30 deles conduzindo caminh\u00f5es. Foi h\u00e1 13 anos que conseguiu comprar seu pr\u00f3prio caminh\u00e3o. OCaiasa \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, pois tem recep\u00e7\u00e3o organizada e limita a espera a um m\u00e1ximo de 24 horas, reconheceram Echauri e Villamayor. Mas se queixaram de que no estacionamento n\u00e3o tem banheiro, nem restaurante ou um lugar para se acomodar.<\/p>\n<p>Outra longa espera ocorre nos pontos de carga durante o per\u00edodo final da colheita, normalmente em mar\u00e7o, quando escasseia a soja nas planta\u00e7\u00f5es e s\u00e3o necess\u00e1rios v\u00e1rios dias para completar as 30 toneladas que os caminh\u00f5es graneleiros costumam transportar. O mesmo acontece com o milho, o trigo e outros produtos agr\u00edcolas.<\/p>\n<div id=\"attachment_208182\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-208182\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/caminhoneiro.jpg\" alt=\"\u201cA vida do caminhoneiro \u00e9 esperar\u201d, carregar e descarregar, queixa-se Mart\u00edn Echauri, de 47 anos, 30 deles conduzindo caminh\u00f5es por todo o Paraguai e que h\u00e1 13 conseguiu ter o seu pr\u00f3prio. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/caminhoneiro-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/caminhoneiro.jpg 640w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">\u201cA vida do caminhoneiro \u00e9 esperar\u201d, carregar e descarregar, queixa-se Mart\u00edn Echauri, de 47 anos, 30 deles conduzindo caminh\u00f5es por todo o Paraguai e que h\u00e1 13 conseguiu ter o seu pr\u00f3prio. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>\u201cPrecisamos de cr\u00e9dito para comprar nossos caminh\u00f5es\u201d, pontuou Mario Ortellado, de 41 anos, que, como a maioria dos caminhoneiros, trabalha para empresas ou donos individuais desses ve\u00edculos de carga. \u201cAs cooperativas,\u00e0s quais aportamos uma quantia mensal, deveriam oferecer esses empr\u00e9stimos, j\u00e1 que os bancos n\u00e3o os concedem, porque n\u00e3o temos documentos para provar nossa capacidade de pagamento\u201d, destacou.<\/p>\n<p>Uma dificuldade \u00e9 o car\u00e1ter sazonal da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, ao qual se somam os altos e baixos dos pre\u00e7os de mat\u00e9ria-prima. Desde 2015,a queda do pre\u00e7o da soja diminuiu em cerca de 60% a renda mensal dos caminhoneiros, segundo Gustavo Arrua de 26 anos e novo na atividade. Ap\u00f3s quatro anos transportando soja e de ter come\u00e7ado em uma \u00e9poca de bonan\u00e7a, pelos pre\u00e7os recordes da oleaginosa, sofre sua primeira crise.<\/p>\n<p>Arrua pensa em desistir e voltar ao seu oficio de operador de empilhadeira e outras m\u00e1quinas de armaz\u00e9ns agr\u00edcolas. Ganharia o sal\u00e1rio m\u00ednimo, 1,8 milh\u00e3o de guaranis (US$ 325), metade do que consegue neste ano de vacas magras com o caminh\u00e3o, mas \u201cpor oito horas de trabalho di\u00e1rio, com descanso, enquanto aqui s\u00e3o viagens de 16 a 18 horas\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Por outro lado, Jorge Bogado, de 32 anos e uma filha pequena, sonha em deixar o t\u00e1xi e voltar ao caminh\u00e3o-tanque, que dirigiu por quatro anos transportando combust\u00edvel, outro produto que mobiliza milhares de caminh\u00f5es de norte a sul do Paraguai. Seu v\u00ednculo com ve\u00edculos tamb\u00e9m come\u00e7ou na adolesc\u00eancia, mas em uma oficina mec\u00e2nica de Luque, cidade pr\u00f3xima a Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cTransportar combust\u00edvel \u00e9 mais perigoso, exige habilita\u00e7\u00e3o especial, ap\u00f3s curso de seis meses e depois de aulas de seguran\u00e7a mensais\u201d, detalhou Bogado. \u201cMas permite percorrer e conhecer todos os lugares do pa\u00eds, enquanto a soja se limita a uma rota da \u00e1rea produtora at\u00e9 o porto. O caminhoneiro sofre, mas ganha mais como resultado de seu sacrif\u00edcio\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>A quantidade e o peso desses trabalhadores na economia paraguaia motivou a cria\u00e7\u00e3o, em 1999, da empresa Paraguay Films, que produz um programa nacional de televis\u00e3o, o Amigo Caminhoneiro, uma revista com o mesmo t\u00edtulo e outras publica\u00e7\u00f5es especializadas, como <em>Oficina Mec\u00e2nica<\/em>e <em>M\u00e1quinas e Constru\u00e7\u00f5es<\/em>. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Assun&ccedil;&atilde;o, Paraguai, 14\/4\/2016 &ndash; Gustavo Ag&uuml;ero dirige ve&iacute;culos automotores desde os 12 anos. 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