{"id":20873,"date":"2016-05-23T15:00:12","date_gmt":"2016-05-23T15:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=209612"},"modified":"2016-05-23T15:00:12","modified_gmt":"2016-05-23T15:00:12","slug":"destino-incerto-para-refugiados-do-clima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/05\/ultimas-noticias\/destino-incerto-para-refugiados-do-clima\/","title":{"rendered":"Destino incerto para refugiados do clima"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_209607\" style=\"width: 420px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/desplazados-629x420-4-MAteira2.jpg\"><img class=\" wp-image-209607\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/desplazados-629x420-4-MAteira2-300x225.jpg\" alt=\"Muitos migrantes de Bangladesh e das cidades costeiras da \u00cdndia trabalham no setor da constru\u00e7\u00e3o e vivem em bairros pobres. Foto: Neeta Lal\/IPS\" width=\"410\" height=\"308\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/desplazados-629x420-4-MAteira2-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/desplazados-629x420-4-MAteira2.jpg 629w\" sizes=\"(max-width: 410px) 100vw, 410px\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Muitos migrantes de Bangladesh e das cidades costeiras da \u00cdndia trabalham no setor da constru\u00e7\u00e3o e vivem em bairros pobres. Foto: Neeta Lal\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>por \u00a0Neeta Lal, da IPS &#8211;\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Nova D\u00e9lhi, \u00cdndia, 23\/5\/2016 \u2013 Depois que o mar levou sua casa e sua fam\u00edlia, no distrito costeiro de Bhola, em Bangladesh, a agricultora Sanjeela Sheikh ficou desconsolada. Despojada de todos seus pertences, com sua terra alagada e seus entes queridos mortos, pensou em suic\u00eddio. Mas, ao final, a fr\u00e1gil mulher de 36 anos optou por trabalhar no campo de seus vizinhos para economizar dinheiro e emigrar para Nova D\u00e9lhi, na \u00cdndia, onde vive atualmente.<\/p>\n<p>\u201cAceitei meu destino: n\u00e3o h\u00e1 futuro para mim em Bangladesh\u201d, contou Sheikh \u00e0 IPS. Ela agora trabalha como empregada dom\u00e9stica e vive com uma fam\u00edlia indiana. Junto com China, Filipinas, \u00cdndia e Indon\u00e9sia, Bangladesh \u00e9 considerado um dos pa\u00edses da \u00c1sia meridional mais vulner\u00e1veis \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica. A primeira-ministra, Sheikh Hasina, reconheceu, em 2015, que aproximadamente 30 milh\u00f5es dos 169 milh\u00f5es de habitantes poderiam chegar a ser migrantes clim\u00e1ticos at\u00e9 2050.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es para emigrar s\u00e3o conhecidas: perda de meios de vida devido a desastres naturais, como furac\u00f5es, secas, invas\u00e3o da \u00e1gua do mar e falta de \u00e1gua doce para a agricultura. Em seu informe <em>Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica e Migra\u00e7\u00e3o na \u00c1sia e no Pac\u00edfico,<\/em> o Banco Asi\u00e1tico de Desenvolvimento prev\u00ea que o aumento do n\u00edvel do mar colocar\u00e1 em risco aproximadamente 37 milh\u00f5es de pessoas na \u00cdndia, 22 milh\u00f5es na China e 21 milh\u00f5es na Indon\u00e9sia, at\u00e9 2050.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a clim\u00e1tica tamb\u00e9m repercutir\u00e1 na agricultura e nos meios de vida de milh\u00f5es de habitantes, especialmente das popula\u00e7\u00f5es pobres e marginalizadas, acrescentaram os especialistas. O furac\u00e3o Phailin, que a\u00e7oitou o Estado indiano de Orissa em outubro de 2013, provocou uma forte migra\u00e7\u00e3o das comunidades pesqueiras. O mesmo ocorreu quando as inunda\u00e7\u00f5es de 2013 na cordilheira do Himalaia arrasaram com o emprego de milh\u00f5es de pessoas, que precisaram se mudar para outro lugar.<\/p>\n<p>O Departamento de Defesa dos Estados Unidos definiu a mudan\u00e7a clim\u00e1tica como uma \u201camea\u00e7a urgente e crescente para a seguran\u00e7a nacional, o que contribui para o aumento dos desastres naturais, o movimento de refugiados e os conflitos por recursos b\u00e1sicos, como alimentos e \u00e1gua\u201d. O Centro de Monitoramento dos Deslocamentos Internos, com sede em Genebra, na Su\u00ed\u00e7a, indicou que pelos menos 19,3 milh\u00f5es de pessoas tiveram que abandonar suas casas diante dessas cat\u00e1strofes em 2015, das quais 90% eram eventos clim\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, a quest\u00e3o dos direitos legais ou a ajuda continua sendo esquiva para os refugiados clim\u00e1ticos. \u201cApesar de serem obrigados a abandonar seus pa\u00edses de origem, esses migrantes n\u00e3o podem solicitar a condi\u00e7\u00e3o de refugiados. Est\u00e3o desprovidos da prote\u00e7\u00e3o jur\u00eddica outorgada pela Conven\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados e podem ser deportados a qualquer momento\u201d, explicou \u00e0 IPS um alto funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio de Assuntos Exteriores da \u00cdndia.<\/p>\n<p>Zahida Begum, de 45 anos, \u00e9 uma refugiada que vive com o constante medo de ser deportada. Essa agricultora emigrou de Bangladesh em 2014, quando uma inunda\u00e7\u00e3o alagou suas terras. Agora vive no Estado indiano de Uttar Pradesh, com o marido e seus tr\u00eas filhos. \u201cLogo que nos mudamos, pass\u00e1vamos dias inteiros escondidos. Agora fingimos que somos do Estado indiano de Bengala Ocidental, j\u00e1 que falamos o mesmo idioma e nossas culturas s\u00e3o bastante semelhantes. Por\u00e9m, nos aterroriza a possiblidade de as autoridades descobrirem nossa origem bengalesa. Poderiam nos deportar sem perguntas. Mas esse \u00e9 um risco que estamos dispostos a correr\u201d, destacou.<\/p>\n<p>Pesquisadores da \u00cdndia e de Bangladesh calculam que um milh\u00e3o de pessoas ficaram sem teto devido \u00e0 eros\u00e3o da ba\u00eda do rio Bramaputra nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. Especialmente sens\u00edveis \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica s\u00e3o os Sundarbans, um delta de baixa altitude na Ba\u00eda de Bengala, onde vivem 13 milh\u00f5es de bengaleses e indianos. As mais de 200 ilhas da regi\u00e3o formam o maior estu\u00e1rio de mangues do mundo, compartilhado por Bangladesh e \u00cdndia, que perdeu florestas, terras e habitats devido \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Os especialistas em clima afirmam que o mar sobe nos Sundarbans em ritmo duas vezes maior do que a m\u00e9dia anual, e que grande parte do delta poder\u00e1 ficar submersa em apenas 20 anos. \u201cEssa cat\u00e1strofe desencadearia um \u00eaxodo em massa de refugiados clim\u00e1ticos, criando enormes desafios para \u00cdndia e Bangladesh\u201d, afirmou Abhinav Mohapatra, do Departamento Meteorol\u00f3gico indiano.<\/p>\n<p>Sahana Bose, da Universidade Central de Assam, afirma, em seu ensaio <em>A Resist\u00eancia ao Clima e os Refugiados Clim\u00e1ticos<\/em>, que as tribos migrantes dos Sundarbans \u2013 conhecidas na \u00cdndia como adivasis \u2013, que trabalham como pe\u00f5es ou cultivam pequenas \u00e1reas de terra, s\u00e3o o tipo mais vulner\u00e1vel de refugiado clim\u00e1tico. \u201cSeu deslocamento muito frequente de uma ilha a outra, gerou, em um per\u00edodo de cinco anos, uma diversidade de problemas ecol\u00f3gicos e socioecon\u00f4micos que levou \u00e0 crise humanit\u00e1ria. Esses refugiados clim\u00e1ticos tamb\u00e9m s\u00e3o as pessoas mais pobres do mundo, vivendo com menos de US$ 10 por m\u00eas\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>\u201cTodos sabem que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica desloca as pessoas, mas nenhum governo est\u00e1 disposto a reconhecer isso oficialmente, por medo de ter de reconhecer essas pessoas como refugiados e assumir a responsabilidade por seu bem-estar\u201d, explicou Jamuna Sheshadri, professora de sociologia na Universidade de D\u00e9lhi. O problema se agrava porque a comunidade cient\u00edfica ainda n\u00e3o chegou a um consenso sobre a defini\u00e7\u00e3o de refugiado clim\u00e1tico, embora o deslocamento e a migra\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o do clima sejam fen\u00f4menos globais.<\/p>\n<p>O Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC) prev\u00ea que o n\u00edvel do mar na \u00cdndia subir\u00e1 38 cent\u00edmetros at\u00e9 2050, deslocando dezenas de milhares de pessoas. Para aproximadamente 25% dos 1,25 milh\u00e3o de habitantes do pa\u00eds \u2013 que vivem ao longo da costa \u2013 o aquecimento global \u00e9 uma realidade aterradora. A quest\u00e3o dos refugiados clim\u00e1ticos tamb\u00e9m gera tens\u00f5es. Em Bengala Ocidental a aflu\u00eancia cont\u00ednua de imigrantes ilegais de Bangladesh, que se instalam no Estado e no nordeste indiano h\u00e1 d\u00e9cadas, com as press\u00f5es resultantes sobre a terra e os demais recursos econ\u00f4micos, provoca enfrentamentos com os residentes locais.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 a solu\u00e7\u00e3o para o complexo problema dos refugiados clim\u00e1ticos? A organiza\u00e7\u00e3o independente Conselho Noruegu\u00eas para os Refugiados sugeriu a cria\u00e7\u00e3o de um fundo internacional para a migra\u00e7\u00e3o ambiental, financiado pelos pa\u00edses industrializados. A ideia de um pacto da ONU para compensar as v\u00edtimas da mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 outra sugest\u00e3o, um tema que ser\u00e1 analisado na C\u00fapula Humanit\u00e1ria Mundial que acontecer\u00e1 na cidade turca de Istambul, hoje e amanh\u00e3. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* Este artigo integra uma s\u00e9rie elaborada pela IPS sobre a C\u00fapula Humanit\u00e1ria Mundial, que acontece hoje e amanh\u00e3 em Istambul, na Turquia<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; por &nbsp;Neeta Lal, da IPS &ndash;&nbsp; Nova D&eacute;lhi, &Iacute;ndia, 23\/5\/2016 &ndash; Depois que o mar levou sua casa e sua fam&iacute;lia, no distrito costeiro de Bhola, em Bangladesh, a agricultora Sanjeela Sheikh ficou desconsolada. Despojada de todos seus pertences, com sua terra alagada e seus entes queridos mortos, pensou em suic&iacute;dio. 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