{"id":209,"date":"2005-01-23T00:00:00","date_gmt":"2005-01-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=209"},"modified":"2005-01-23T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-23T00:00:00","slug":"direitos-humanos-maus-tratos-sistemticos-contra-grvidas-argentinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/direitos-humanos-maus-tratos-sistemticos-contra-grvidas-argentinas\/","title":{"rendered":"Direitos humanos: Maus-tratos sistem&aacute;ticos contra gr&aacute;vidas argentinas"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 23\/01\/2005 &ndash; A imagem no estilo na&iuml;f da mulher gr&aacute;vida que repousa em uma cama ao lado de uma janela, diante de uma paisagem buc&oacute;lica, &eacute; a outra face do &quot;tratamento cruel, desumano e degradante&quot; que recebem milhares de parturientes argentinas nos servi&ccedil;os de sa&uacute;de p&uacute;blica sexual e reprodutiva. &Eacute; o que indica o relat&oacute;rio &quot;Com todo o ar&quot;, realizado por duas organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais da Argentina, com base em testemunhos de mulheres de bairros pobres que procuram hospitais, maternidades e centros de sa&uacute;de p&uacute;blicos da prov&iacute;ncia de Santa F&eacute; e t&ecirc;m de suportar todo tipo de maus-tratos por parte do pessoal desses estabelecimentos.<br \/> <!--more--> <br \/> &quot;Se gostou do bem-bom, agora ag&uuml;ente&quot; e &quot;n&atilde;o grite, morda uma almofada&quot; s&atilde;o os coment&aacute;rios mais suaves que ouvem no momento de parir. O relat&oacute;rio cont&eacute;m outros coment&aacute;rios impublic&aacute;veis por serem obscenos. &quot;S&atilde;o frases de denegrir inclusive at&eacute; o lado humano de quem os profere, em sua maioria obstetras, enfermeiras, e m&eacute;dicas&quot;, diz o documento. &quot;Com todo o ar&quot; pegou o t&iacute;tulo dos relatos de mulheres que afirmaram ser obrigadas a permanecerem nuas durante o parto ou nas consultas ginecol&oacute;gicas onde n&atilde;o se respeita sua intimidade nem sua privacidade. &quot;Mais ou menos 13 estudantes me enfiaram as m&atilde;os&quot;, &quot;senti raiva e vergonha&quot;, &quot;enfiavam o dedo em mim como em um fen&ocirc;meno&quot;, contam as mulheres.<\/p>\n<p> Como os hospitais p&uacute;blicos s&atilde;o escola para estudantes de medicina, as mulheres servem de &quot;cobaias&quot;, n&atilde;o s&atilde;o consultadas a respeito nem lhes solicitam permiss&atilde;o. Em alguns casos, al&eacute;m de nuas, as pacientes est&atilde;o descobertas, pois n&atilde;o h&aacute; len&ccedil;&oacute;is suficientes, alega o pessoal m&eacute;dico em sua defesa. O resultado do relat&oacute;rio obrigou as autoridades sanit&aacute;rias da prov&iacute;ncia a tomarem medidas para mudar a situa&ccedil;&atilde;o nos centros de sa&uacute;de e de forma&ccedil;&atilde;o profissional, sob o risco de serem denunciadas junto ao Comit&ecirc; contra a Tortura, Maus-Tratos e Penas Cru&eacute;is, Desumanas ou Degradantes, com sede em Genebra. O estudo, realizado por profissionais do Comit&ecirc; da Am&eacute;rica Latina e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem) e do Instituto de G&ecirc;nero, Direito e Desenvolvimento, coincide com outro semelhante feito meses antes na prov&iacute;ncia de Tucum&aacute;n, e teve grande repercuss&atilde;o em outras prov&iacute;ncias.<\/p>\n<p> &quot;Soubemos por outras companheiras que o mesmo tratamento ocorre em Tucum&aacute;n, Santiago del Estero, Salta, Jujuy, Chaco, Formosa (todas no Norte do pa&iacute;s) e em outras prov&iacute;ncias, e por isso pretendemos lan&ccedil;ar este ano uma campanha para trabalhar em seis delas&quot;, contou &agrave; IPS a advogada Susana Chiarotti, coordenadora regional do Cladem. A campanha ser&aacute; feita em Tucum&aacute;n e Santiago del Estero, consideradas por Chiarotti como &quot;as prov&iacute;ncias mais atrasadas em mat&eacute;ria de legisla&ccedil;&atilde;o e com um tratamento feudal&quot;. Tamb&eacute;m ocorreram casos em duas das &quot;mais avan&ccedil;adas&quot; em mat&eacute;ria sanit&aacute;ria, Neuqu&eacute;n e Mendoza (Oeste), e em duas &quot;intermedi&aacute;rias&quot; como Misiones (Nordeste) e Santa F&eacute;. Na cidade de Buenos Aires a IPS tamb&eacute;m tomou conhecimento de den&uacute;ncias de maus-tratos.<\/p>\n<p> Uma mulher de classe m&eacute;dia atendida em um hospital p&uacute;blico disse ter ouvido de seu obstetra queixas constantes a respeito das gr&aacute;vidas pobres, porque tinham muitos filhos (&quot;s&atilde;o coelhas&quot;, dizia), ou porque corriam maior risco ao ser obesas. &quot;Farei cesariana em voc&ecirc;, mas para ela eu disse que n&atilde;o, para que ficasse com medo e se cuidasse, porque &eacute; uma porca, t&ecirc;m diabete, outros problemas e continua comendo&quot;, contou essa m&eacute;dica &agrave; fonte, tamb&eacute;m gr&aacute;vida, mas com maiores recursos, atendida h&aacute; dois anos no Hospital Rivadavia da capital argentina. A associa&ccedil;&atilde;o coordenada por Chiarotti na regi&atilde;o foi uma das que em 1999 apresentou uma den&uacute;ncia &agrave; Comiss&atilde;o Interamericana de Direitos Humanos da Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos, sobre o caso da peruana Mar&iacute;a Mam&eacute;rita Mestanza Ch&aacute;vez, que morreu ap&oacute;s ser submetida a uma esteriliza&ccedil;&atilde;o cujo consentimento foi obtido sob coa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Em 2002, os familiares de Mestanza conseguiram que o Estado peruano reconhecesse a viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos cometida por agentes p&uacute;blicos desse pa&iacute;s contra a mulher, que se comprometesse a pagar uma indeniza&ccedil;&atilde;o &agrave; sua fam&iacute;lia e se obrigasse a mudar suas pr&aacute;ticas em mat&eacute;ria de aten&ccedil;&atilde;o &agrave; sa&uacute;de das mulheres. Em Santa F&eacute;, a pesquisa come&ccedil;ou com o caso de uma jovem de 16 anos que em 2001 deu entrada em sanat&oacute;rio depois de ter disparado um tiro contra o abdome para interromper sua gravidez de sete meses. A adolescente sobreviveu, mas recebeu tratamento extremamente cruel no centro de sa&uacute;de, segundo constatou o relat&oacute;rio.<\/p>\n<p> A paciente teve de permanecer em terapia intensiva por alguns dias depois de operada e n&atilde;o podia se mover, mas as enfermeiras a ignoravam quando pedia o urinol ou um calmante (&quot;vire-se sozinha, menina&quot;, lhe gritava uma enfermeira) e n&atilde;o trataram adequadamente seus ferimentos. Diante desses dados, as pesquisadoras contataram mulheres de bairros pobres que utilizavam os mesmos servi&ccedil;os e que, ap&oacute;s superarem a barreira da vergonha, deram testemunhos de &quot;tratamentos cru&eacute;is, desumanos e degradantes&quot;, segundo sintetiza o documento. As entrevistas coincidiram em considera &quot;natural&quot; ou &quot;normal&quot; os maus-tratos e em afirmar que o acesso a um servi&ccedil;o gratuito lhes tirava o direito de protestar. Al&eacute;m disso, muitas admitiram temer que, protestando, seriam tratadas de maneira ainda pior no caso de terem de recorrer novamente ao mesmo servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> O Cladem apresentaria o relat&oacute;rio em Genebra, perante o Comit&ecirc; contra a Tortura, mas quando foi divulgado a Defensoria do Povo se encarregou do caso, as autoridades sanit&aacute;rias mostraram vontade de mudar e ent&atilde;o o grupo abandonou seu prop&oacute;sito inicial. &quot;O efeito que est&aacute;vamos buscando, conseguimos&quot;, explicou Chiarotti. Ela se referia aos novos servi&ccedil;os de acompanhamento das parturientes e a semin&aacute;rios de conscientiza&ccedil;&atilde;o e capacita&ccedil;&atilde;o para o pessoal m&eacute;dico, que se mostrou disposto a mudar de atitude. &quot;A princ&iacute;pio, argumentavam que n&atilde;o tinham meios para atender melhor, mas insistimos em que respeitar n&atilde;o custa nada&quot;, ressaltou. De todo modo, Chiarotti est&aacute; convencida de que os maus-tratos contra parturientes pobres chega a ser &quot;t&atilde;o maci&ccedil;o&quot; que n&atilde;o &eacute; considerado como tal, e por isso considera v&aacute;lida a estrat&eacute;gia de den&uacute;ncia de viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos para tornar esses casos vis&iacute;veis.<\/p>\n<p> Os maus-tratos ficam piores se uma mulher d&aacute; entrada no servi&ccedil;o m&eacute;dico por ter interrompido voluntariamente sua gravidez, uma pr&aacute;tica ilegal na Argentina. &quot;Se sabem que se trata de um aborto, fazem a curetagem em carne viva&quot;, contou uma fonte. A pr&aacute;tica do tratamento sem anestesia foi confirmada por pessoal entrevistado para o relat&oacute;rio. Os testemunhos tamb&eacute;m d&atilde;o conta da desvaloriza&ccedil;&atilde;o da palavra das mulheres pobres, por exemplo, no caso de uma paciente ser ignorada mesmo tendo avisado que tem problemas de coagula&ccedil;&atilde;o. &quot;Tem de assinar aqui&quot;, disseram a uma mulher quase desmaiando na qual haviam decidido fazer a liga&ccedil;&atilde;o das trompas para esteriliz&aacute;-la. &quot;Se veio ser atendida aqui &eacute; porque eu sou a doutora (&#8230;). Se voc&ecirc; sabe mais do que eu, fique em casa e se cuide sozinha&quot;, respondeu uma m&eacute;dica a uma paciente que havia feito uma sugest&atilde;o.<\/p>\n<p> Os dados s&atilde;o muito semelhantes aos testemunhos obtidos pela organiza&ccedil;&atilde;o Nova Cidadania em um estudo feito em 2003 na Maternidade Nossa Senhora das Merc&ecirc;s em Tucum&aacute;n, onde &eacute; realizado o maior n&uacute;mero de partos do pa&iacute;s. Ali s&atilde;o registrados 14 mil nascimentos por ano e outras tantas hist&oacute;rias de horror. As mulheres s&atilde;o obrigadas a dividir a cama. &quot;Certa noite, ao voltar do banheiro havia uma jovem que dera entrada de urg&ecirc;ncia ardendo em febre. A colocaram em minha cama. Fiquei indignada e chamei a enfermeira, mas ningu&eacute;m apareceu e, por consci&ecirc;ncia e humanidade deixei que ficasse na minha cama e passei a noite sentada&quot;, conta uma parturiente no relat&oacute;rio de Tucum&aacute;n. O documento tamb&eacute;m indicava que &eacute; corrente nessa maternidade ouvir frases como &quot;Abra as pernas e fique calada, bem que gostou de fazer&quot;, &quot;Deveria ter pensado antes&quot;, ou &quot;Suja, vai tomar banho porque cheira mal!&quot;.<\/p>\n<p> Uma gr&aacute;vida que entrou nesse estabelecimento recordou para o relat&oacute;rio que teve seu filho sozinha na cama, sem ser levada para a sala de parto. &quot;Espere porque estou lanchando&quot;, lhe disse a enfermeira quando pediu ajuda por causa das contra&ccedil;&otilde;es. Quando o menino nasceu, outra enfermeira chegou a repreend&ecirc;-la por &quot;n&atilde;o avisar&quot; e &quot;sujar a cama&quot;. O que leva esse pessoal, a maioria mulheres, a ter um comportamento t&atilde;o cruel com quem atravessa um dos momentos de maior sensibilidade e vulnerabilidade de suas vidas? Por acaso nenhuma delas passou por essa experi&ecirc;ncia para saber o quanto se necessita de aten&ccedil;&atilde;o e cordialidade?<\/p>\n<p> &quot;Maltratar &eacute; uma forma de manifesta&ccedil;&atilde;o do desprezo e da discrimina&ccedil;&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s mulheres que persiste na sociedade argentina e que se agrava quando as mulheres sofrem outras causas da opress&atilde;o, como classe social, etnia ou ra&ccedil;a&quot;, interpretou Chiarotti. &quot;&Eacute; sintom&aacute;tico que as reprova&ccedil;&otilde;es contra elas estejam carregadas de valoriza&ccedil;&otilde;es morais&quot;, acrescentou a advogada. &quot;Essa id&eacute;ia de que &quot;na hora gostou&quot; &eacute; como se as castigassem por terem &quot;pecado&quot;, como uma vis&atilde;o que n&atilde;o poderia ser mais oposta &agrave; da mulher na cama sonhando com o filho por nascer&quot;. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 23\/01\/2005 &ndash; A imagem no estilo na&iuml;f da mulher gr&aacute;vida que repousa em uma cama ao lado de uma janela, diante de uma paisagem buc&oacute;lica, &eacute; a outra face do &quot;tratamento cruel, desumano e degradante&quot; que recebem milhares de parturientes argentinas nos servi&ccedil;os de sa&uacute;de p&uacute;blica sexual e reprodutiva. &Eacute; o que indica o relat&oacute;rio &quot;Com todo o ar&quot;, realizado por duas organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais da Argentina, com base em testemunhos de mulheres de bairros pobres que procuram hospitais, maternidades e centros de sa&uacute;de p&uacute;blicos da prov&iacute;ncia de Santa F&eacute; e t&ecirc;m de suportar todo tipo de maus-tratos por parte do pessoal desses estabelecimentos.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/direitos-humanos-maus-tratos-sistemticos-contra-grvidas-argentinas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-209","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=209"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/209\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}