{"id":20920,"date":"2016-06-13T13:00:25","date_gmt":"2016-06-13T13:00:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=210114"},"modified":"2016-06-13T13:00:25","modified_gmt":"2016-06-13T13:00:25","slug":"estupro-coletivo-acende-luta-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/06\/ultimas-noticias\/estupro-coletivo-acende-luta-das-mulheres\/","title":{"rendered":"Estupro coletivo acende luta das mulheres"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_210115\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-210115\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ato.jpg\" alt=\"\u201cEstupro nunca mais, todas contra 33\u201d, diz o cartaz \u00e0 frente de uma multid\u00e3o de mulheres em S\u00e3o Paulo, no dia 8 deste m\u00eas, emprotesto sob o lema Por Todas Elas. As manifesta\u00e7\u00f5es contra a cultura machista no Brasil se multiplicaram pelas cidades do pa\u00eds, ap\u00f3s a viola\u00e7\u00e3o coletiva de uma adolescente. Foto: Paulo Pinto\/AGPT\" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ato.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ato-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">\u201cEstupro nunca mais, todas contra 33\u201d, diz o cartaz \u00e0 frente de uma multid\u00e3o de mulheres em S\u00e3o Paulo, no dia 8 deste m\u00eas, emprotesto sob o lema Por Todas Elas. As manifesta\u00e7\u00f5es contra a cultura machista no Brasil se multiplicaram pelas cidades do pa\u00eds, ap\u00f3s a viola\u00e7\u00e3o coletiva de uma adolescente. Foto: Paulo Pinto\/AGPT<\/p><\/div>\n<p><em>A indigna\u00e7\u00e3o generalizada no Brasil pela viola\u00e7\u00e3o de uma adolescente por mais de 30 homens gerou o protesto de milhares de mulheres pelas ruas das cidades do pa\u00eds, enquanto as respostas do poder pol\u00edtico diante desse fato s\u00e3o equivocadas segundo as ativistas.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 13\/6\/2016 \u2013\u00a0A primeira rea\u00e7\u00e3o do governo federal, diante da como\u00e7\u00e3o nacional, foi criar um N\u00facleo de Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Mulher, para apoiar os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a p\u00fablica, que em sua maioria s\u00e3o estatais. A orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 nitidamente policial e voltada a intensificar a repress\u00e3o.O governador do Rio de Janeiro, Francisco Dornelles, se declarou favor\u00e1vel \u00e0 execu\u00e7\u00e3o dos violadores, embora a pena de morte n\u00e3o exista no pa\u00eds e seja proibida pela Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Senado aprovou em urg\u00eancia uma proposta para aumentar o tempo de pris\u00e3o para condenados por agress\u00e3o sexual, com um ou dois ter\u00e7os adicionais quando a viola\u00e7\u00e3o for praticada por duas ou mais pessoas. Sua entrada em vigor depende da ratifica\u00e7\u00e3o pela C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>Ampliar as penas n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o, como se comprovou na \u00cdndia, que em 2013 instituiu a pena de morte para casos de viola\u00e7\u00e3o coletiva ou quando a v\u00edtima morre, ressaltou Sonia Correa, uma das coordenadoras do internacional Observat\u00f3rio de Sexualidade e Pol\u00edtica. A quest\u00e3o \u00e9 cultural, \u201ca pr\u00f3pria sociedade alimenta a viol\u00eancia contra as mulheres\u201d, desde sempre, e boa parte da popula\u00e7\u00e3o considera culpadas as pr\u00f3prias v\u00edtimas de agress\u00e3o sexual, apontou.<\/p>\n<p>As autoridades partem da percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 um aumento da viol\u00eancia contra as mulheres, pela grande repercuss\u00e3o que teve o caso da jovem de 16 anos, presa em uma casa \u00e0 merc\u00ea do grupo por 36 horas, nos dias 21 e 22 de maio, em uma favela do Rio de Janeiro.A v\u00edtima disse ter contado 33 agressores, alguns armados, quando conseguiu recuperar os sentidos. S\u00f3 denunciou o caso \u00e0 pol\u00edcia depois que alguns dos envolvidos postaram imagens de sua viola\u00e7\u00e3o nas redes sociais. Ent\u00e3o ela se sentiu humilhada por um delegado que a tratou como sendo culpada de ter consentido na agress\u00e3o, sem acreditar em suas afirma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A notoriedade e as evid\u00eancias do caso permitiram que fosse atendida, finalmente, por uma delegada especializada em crimes contra a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, que aceitou o v\u00eddeo como prova da viola\u00e7\u00e3o, o que facilitou a identifica\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios acusados do crime e deten\u00e7\u00e3o de dois deles, at\u00e9 agora.\u201cA cultura da viol\u00eancia tem ra\u00edzes profundas, quase geol\u00f3gicas, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, onde suas camadas mais distantes est\u00e3o na coloniza\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o, com suas tradi\u00e7\u00f5es androc\u00eantricas de dom\u00ednio do corpo do outro, n\u00e3o apenas das mulheres, mas tamb\u00e9m dos escravos\u201d, explicou Correa, uma arquiteta com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia.<\/p>\n<div id=\"attachment_210116\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-210116\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/TR_riodapaz_abusos_mulheres_copacabana_201606062675.jpg\" alt=\"A organiza\u00e7\u00e3o Rio Paz encheu as areias de Copacabana de roupa \u00edntima feminina da cor de sangue ou ensanguentada e de megafotografias de mulheres com o rosto tamb\u00e9m ensanguentado, representando a popula\u00e7\u00e3o feminina assassinada no Brasil. Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil\" width=\"340\" height=\"226\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/TR_riodapaz_abusos_mulheres_copacabana_201606062675.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/TR_riodapaz_abusos_mulheres_copacabana_201606062675-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">A organiza\u00e7\u00e3o Rio Paz encheu as areias de Copacabana de roupa \u00edntima feminina da cor de sangue ou ensanguentada e de megafotografias de mulheres com o rosto tamb\u00e9m ensanguentado, representando a popula\u00e7\u00e3o feminina assassinada no Brasil. Foto: T\u00e2nia R\u00eago\/Ag\u00eancia Brasil<\/p><\/div>\n<p>O C\u00f3digo Penal Brasileiro, de 1940 e com paulatinas emendas, inclu\u00eda a agress\u00e3o sexual entre os crimes contra os costumes, isto \u00e9, o considerava um atentado contra a sociedade e a fam\u00edlia, n\u00e3o contra a mulher e seu corpo, explicou Correa \u00e0 IPS. Somente em 2009 se conseguiu uma reforma para corrigir essa distor\u00e7\u00e3o e incluir v\u00edtimas masculinas. Antes era considerado um crime exclusivamente contra o sexo feminino.<\/p>\n<p>As penas, que variam de seis a 30 anos de pris\u00e3o e aumentam com agravantes como les\u00f5es f\u00edsicas, morte ou pouca idade da v\u00edtima, n\u00e3o frearam o aparente aumento das agress\u00f5es sexuais no Brasil, um pa\u00eds com quase 205 milh\u00f5es de habitantes. Oficialmente chegaram a 50.600 em 2011, equivalente a 138 casos por dia, um a cada dez minutos, segundo o Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), \u00f3rg\u00e3o governamental para estudos voltados ao planejamento.<\/p>\n<p>Entretanto, estima-se que esses n\u00fameros representam apenas 10% das viola\u00e7\u00f5es reais, que poderiam passar de meio milh\u00e3o de casos ao ano. A maioria das v\u00edtimas n\u00e3o denuncia por vergonha, medo de policiais machistas ou desconhecimento de como denunciar e tamb\u00e9m sobre o pr\u00f3prio crime. \u00c9 de meninas uma grande parte das v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual, exercida majoritariamente por familiares e amigos pr\u00f3ximos, dentro de casa, o que representa outra grande barreira para a den\u00fancia.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma trag\u00e9dia que afeta uma maioria negra de 51%\u201d, provavelmente subestimada, segundo Jurema Werneck, m\u00e9dica e coordenadora da organiza\u00e7\u00e3o Criola, de promo\u00e7\u00e3o dos direitos das mulheres afro-brasileiras. A grande quantidade de viola\u00e7\u00f5es \u201ctem origem no machismo, mas tamb\u00e9m no racismo patriarcal, como uma a\u00e7\u00e3o de poder contra as pessoas que consideram inferiores e n\u00e3o empoderadas, como as negras\u201d, destacou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>A cultura do estupro compreende \u201cuma contradi\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o, que se mobiliza em rejeitar um crime hediondo, disposta inclusive ao linchamento quando s\u00e3o violados meninos ou meninas, mas mostra certa toler\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia sexual contra a mulher\u201d, pontuou Marisa Sanematsu, diretora de conte\u00fados do feminista Instituto Patr\u00edcia Galv\u00e3o.<\/p>\n<p>A aparente condena\u00e7\u00e3o geral n\u00e3o se reflete na escassa den\u00fancia do crime, segundo Sanematsu, \u201cpor medo do julgamento de amigos, da fam\u00edlia, pol\u00edcia e at\u00e9 do juiz. A opini\u00e3o social \u00e9 que o homem n\u00e3o consegue controlar seu desejo sexual e reage a uma mulher atraente, maquiada e com roupas provocativas\u201d. A ativistalamentou que se aceite a desigualdade dos pap\u00e9is sociais: \u201ch\u00e1 mulheres \u2018viol\u00e1veis\u2019, que conhecem os riscos que correm, elas deveriam saber como se proteger, n\u00e3o se expor, \u00e9 o que pensa boa parte da popula\u00e7\u00e3o\u201d,.<\/p>\n<p>Educa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, segundo Sanematsu, \u00e9 o melhor caminho para prevenir e reduzir todas as viol\u00eancias contra mulheres. Mas a tend\u00eancia atual \u00e9 proibi-la nas escolas, como fez o governo do Estado de S\u00e3o Paulo. \u201cNada se conseguir\u00e1 sem atacar as ra\u00edzes da cultura da viol\u00eancia trivializada\u201d, que n\u00e3o est\u00e1 associada \u00e0 pobreza, mas que afeta todas as classes, ressaltou.<\/p>\n<p>\u00c0s defensoras dos direitos das mulheres preocupa o grande avan\u00e7o de for\u00e7as conservadoras na sociedade brasileira, especialmente no parlamento nacional. Ali, v\u00e1rios projetos buscam restringir o aborto, os direitos conquistados pela comunidade de l\u00e9sbicas, gays, bissexuais e transexuais (LGBT), e pelas fam\u00edlias n\u00e3o convencionais.<\/p>\n<p>A onda conservadora se acentuou com o governo interino do vice-presidente, Michel Temer, que presidir\u00e1 o pa\u00eds at\u00e9 a conclus\u00e3o do processo de impeachment de Dilma Rousseff, que deve terminar em agosto.O antigo Minist\u00e9rio de Pol\u00edticas para as Mulheres, agora rebaixado a uma secretaria vinculada ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, tem como titular uma deputada evang\u00e9lica que j\u00e1 se declarou contr\u00e1ria ao aborto em gravidez provocada por estupro, uma das situa\u00e7\u00f5es permitidas pela restritiva lei atual.<\/p>\n<p>O gabinete de Temer \u00e9 o primeiro em anos que n\u00e3o inclui nenhuma mulher, e nem afrodescendentes.Para Sonia Correa, \u201cfor\u00e7as religiosas dogm\u00e1ticas est\u00e3o em uma expans\u00e3o que pretende controlar o pa\u00eds\u201d e conta com uma grande bancada legislativa e uma rede de comunica\u00e7\u00f5es, especialmente de televis\u00e3o, para impulsionar o conservadorismo. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A indigna&ccedil;&atilde;o generalizada no Brasil pela viola&ccedil;&atilde;o de uma adolescente por mais de 30 homens gerou o protesto de milhares de mulheres pelas ruas das cidades do pa&iacute;s, enquanto as respostas do poder pol&iacute;tico diante desse fato s&atilde;o equivocadas segundo as ativistas. 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