{"id":20933,"date":"2016-06-16T13:25:23","date_gmt":"2016-06-16T13:25:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=210238"},"modified":"2016-06-16T13:25:23","modified_gmt":"2016-06-16T13:25:23","slug":"calcanhar-de-aquiles-da-esquerda-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/06\/ultimas-noticias\/calcanhar-de-aquiles-da-esquerda-latina\/","title":{"rendered":"Calcanhar de Aquiles da esquerda latina"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_210239\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-210239\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Brasil-dos-629x420.jpg\" alt=\"O \u201ckeynesianismo mal entendido\u201d, a desconfian\u00e7a no mercado e a inclina\u00e7\u00e3o ao gasto excessivo, o intervencionismo e os controles s\u00e3o ingredientes para as distor\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas da esquerda latino-americana, segundo analistas ouvidos pela IPS. Foto: Marcos Santos\/USP Imagens\" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Brasil-dos-629x420.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Brasil-dos-629x420-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">O \u201ckeynesianismo mal entendido\u201d, a desconfian\u00e7a no mercado e a inclina\u00e7\u00e3o ao gasto excessivo, o intervencionismo e os controles s\u00e3o ingredientes para as distor\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas da esquerda latino-americana, segundo analistas ouvidos pela IPS. Foto: Marcos Santos\/USP Imagens<\/p><\/div>\n<p><em>Rio de Janeiro, Brasil, 16\/6\/2016 \u2013 Governos considerados de esquerda est\u00e3o caindo na Am\u00e9rica Latina, desgastados por desastres econ\u00f4micos. Por que os esquerdistas trope\u00e7am na gest\u00e3o econ\u00f4mica? Esta foi a pergunta que a IPS fez para economistas de diferentes correntes ideol\u00f3gicas.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de l\u00edderes ou partidos que, por seus \u00eaxitos, sobretudo sociais, conquistaram uma popularidade eleitoralmente imbat\u00edvel por mais de uma d\u00e9cada, mas n\u00e3o conseguiram evitar, ou lidar, com crises econ\u00f4micas que em pouco tempo destru\u00edram sua for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 pela vis\u00e3o populista de que se pode gastar como bem entender e, pior, praticar pre\u00e7os no setor estatal abaixo do custo, com subs\u00eddios do Tesouro. Tudo converge para o desastre nas contas p\u00fablicas\u201d, explicou Raul Velloso, especialista em finan\u00e7as p\u00fablicas que exerceu importantes fun\u00e7\u00f5es nos governos brasileiros nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990.<\/p>\n<p>Hildete Pereira de Melo, professora da Universidade Federal Fluminense, recha\u00e7a a avalia\u00e7\u00e3o que atribui a derrocada a erros da esquerda, pelo menos no Brasil. \u201cA atual recess\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 o corol\u00e1rio da crise pol\u00edtica provocada por for\u00e7as conservadoras que n\u00e3o aceitaram a derrota eleitoral de 2014\u201d, afirmou, compartilhando a vers\u00e3o do Partido dos Trabalhadores (PT), que esteve no poder entre 2003 e 12 de maio deste ano, com Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Entre essas opini\u00f5es opostas, outras an\u00e1lises apontam caracter\u00edsticas da gest\u00e3o econ\u00f4mica dos governos considerados de esquerda que contribu\u00edram para uma volta \u00e0 direita dos dois maiores pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do Brasil \u2013 onde o parlamento suspendeu a presidente Dilma, ao abrir seu julgamento de impeachment, e a substituiu interinamente pelo vice-presidente, Michel Temer \u2013, na Argentina, a mudan\u00e7a se deu pelas elei\u00e7\u00f5es de novembro de 2015, com a vit\u00f3ria de Mauricio Macri, de centro-direita.<\/p>\n<p>\u201cA esquerda, de fato, conduz mal a pol\u00edtica econ\u00f4mica na Am\u00e9rica Latina, mas a direita tampouco o faz bem. As raz\u00f5es s\u00e3o diferentes, mas o resultado \u00e9 sempre a med\u00edocre situa\u00e7\u00e3o regional\u201d, afirmou Fernando Cardim de Carvalho, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Os julgamentos contrastam porque \u201cda direita pouco se espera e a esquerda chega ao poder prometendo muito e se complica por seu voluntarismo\u201d, acrescentou Carvalho. \u201cO desconhecimento de como funciona uma economia capitalista, baseada no mercado\u201d, \u00e9 uma das duas insufici\u00eancias destacadas por Carvalho na vis\u00e3o da esquerda latino-americana.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia \u00e9 acreditar que \u201ctudo \u00e9 quest\u00e3o de poder\u201d, sem considerar os limites impostos pelos interesses e pelas decis\u00f5es volunt\u00e1rias do mercado e pelo fato de o governo depender de coaliz\u00f5es pol\u00edticas s\u00f3lidas. A segunda limita\u00e7\u00e3o dos governos ditos de esquerda \u00e9 \u201cn\u00e3o transformar estruturas, n\u00e3o criar institui\u00e7\u00f5es e outros instrumentos para perenizar as mudan\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>O Bolsa Fam\u00edlia, que oferece pequenas somas a 14 milh\u00f5es de fam\u00edlias pobres no Brasil, reduz a pobreza \u201cmas n\u00e3o muda nada estruturalmente, pode desaparecer com um corte no or\u00e7amento\u201d, apontou Carvalho.<\/p>\n<div id=\"attachment_210240\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-210240\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Brasil.jpg\" alt=\"Um tratamento dent\u00e1rio, em mar\u00e7o de 2016, em uma comunidade ind\u00edgena do Estado do Acre, que faz parte do programa Bolsa Fam\u00edlia. Economistas criticam esses programas dizendo que n\u00e3o transcendem o assistencialismo para promover mudan\u00e7as estruturais na distribui\u00e7\u00e3o da renda. Foto: Arison Jardim\/Secom\" width=\"340\" height=\"189\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Brasil.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Brasil-300x167.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Um tratamento dent\u00e1rio, em mar\u00e7o de 2016, em uma comunidade ind\u00edgena do Estado do Acre, que faz parte do programa Bolsa Fam\u00edlia. Economistas criticam esses programas dizendo que n\u00e3o transcendem o assistencialismo para promover mudan\u00e7as estruturais na distribui\u00e7\u00e3o da renda. Foto: Arison Jardim\/Secom<\/p><\/div>\n<p>Segundo o professor, o que o PT fez no Brasil, com o Bolsa Fam\u00edlia e outros programas sociais, \u201cn\u00e3o \u00e9 nem mesmo de esquerda\u201d, \u00e9 similar, por exemplo, ao realizado pelos democratas-crist\u00e3os da Alemanha com \u201cajuda aos menos favorecidos, sem mudan\u00e7as estruturais\u201d. E acrescentou que \u201cpol\u00edtica de esquerda seria criar mecanismos institucionais de redistribui\u00e7\u00e3o da renda e da riqueza, como impostos progressivos sobre a renda\u201d, adotados pelos social-democratas na Europa.<\/p>\n<p>Desequil\u00edbrios fiscais s\u00e3o problemas comuns nos governos que est\u00e3o deixando a cena sul-americana. No Brasil, \u00e9 uma dimens\u00e3o importante da crise e da sa\u00edda, no momento interina, mas provavelmente definitiva, da presidente Dilma, acusada de fraudes fiscais que justificariam ser retirada do poder.<\/p>\n<p>Particularmente no Brasil, o risco de desbaratar as contas p\u00fablicas \u00e9 grave devido \u00e0 carga tribut\u00e1ria no limite toler\u00e1vel pela sociedade, juros elevados sobre a d\u00edvida p\u00fablica, um sistema de previd\u00eancia excessivamente deficit\u00e1rio e uma tributa\u00e7\u00e3o injusta e complexa. Medidas mal avaliadas podem ser fatais. O \u201ccora\u00e7\u00e3o do desastre\u201d de Dilma Rousseff foi isentar ou reduzir impostos para alguns setores empresariais, afirmou Carvalho.<\/p>\n<p>\u201cA esquerda em geral tem enorme desconfian\u00e7a sobre a efic\u00e1cia do sistema de pre\u00e7os, isto \u00e9, o mercado, como distribuidor de recursos escassos, por isso acredita que o Estado deve intervir nesse sistema para evitar distor\u00e7\u00f5es injustas em termos de igualdade social\u201d, afirmou Luis Eduardo Assis, ex-diretor do Banco Central brasileiro.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, para essa esquerda, \u201co Estado tem de ser grande e, por fim, consome recursos elevados e exige, ao assumir fun\u00e7\u00f5es que seriam exercidas pelo mercado, uma gest\u00e3o incrivelmente complexa e pass\u00edvel de erros graves de avalia\u00e7\u00e3o, como o congelamento de pre\u00e7os\u201d, destacou Assis.<\/p>\n<p>Para o especialista, dessa vis\u00e3o resulta a cren\u00e7a de que os gastos p\u00fablicos s\u00e3o sempre virtuosos, ao estimular a economia, de maneira \u201cque haver\u00e1 mais adiante uma gera\u00e7\u00e3o de impostos suficiente para financiar o d\u00e9ficit originalmente provocado pelos gastos governamentais, uma vis\u00e3o equivocada do que disse Keynes\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que muitos erros cometidos pela esquerda latino-americana se devam a um \u201ckeynesianismo mal assimilado\u201d, de considerar que \u201cqualquer interven\u00e7\u00e3o do Estado na economia \u00e9 keynesiana e progressista, uma bobagem\u201d, afirmou Carvalho, especialista nas ideias do economista brit\u00e2nico John Maynard Keynes, morto em 1946.<\/p>\n<p>Foi puro \u201cpopulismo\u201d, a tenta\u00e7\u00e3o de ganhar elei\u00e7\u00f5es com base na expans\u00e3o do gasto p\u00fablico e dos subs\u00eddios, segundo Velloso, defensor do equil\u00edbrio fiscal. Masengloba contradi\u00e7\u00f5es porque acaba por arruinar o Estado e congelar os pre\u00e7os p\u00fablicos para conter a infla\u00e7\u00e3o, e produz uma explos\u00e3o inflacion\u00e1ria no futuro, quando a corre\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e, como ocorreu neste s\u00e9culo na Argentina e no Brasil.<\/p>\n<p>Os dois pa\u00edses adotaram pol\u00edticas econ\u00f4micas similares, no \u201cmodelo populista pr\u00f3-consumo\u201d, afirmou Velloso na publica\u00e7\u00e3o escrita juntamente com dois economistas argentinos e outro brasileiro, em 2014,<em>Interven\u00e7\u00e3o Estatal e Populismo, a Argentina no In\u00edcio do S\u00e9culo 21<\/em>, na qual se aponta a decad\u00eancia do ciclo argentino.<\/p>\n<p>A crise brasileira \u00e9 de democracia, \u201co caso mais emblem\u00e1tico do impacto da crise pol\u00edtica na economia\u201d, discorda Melo, identificando um \u201cc\u00edrculo vicioso\u201d entre esse processo interno, \u201ca mudan\u00e7a dos ventos internacionais\u201d com a crise financeira de 2008 e a retra\u00e7\u00e3o dos investimentos privados.<\/p>\n<p>No entanto, reconhece que a presidente Dilma cometeu um erro ao reduzir os impostos de alguns setores, porque o grande problema fiscal no Brasil \u00e9 a injusti\u00e7a tribut\u00e1ria. \u201cA carga \u00e9 muito elevada para todos, mas n\u00e3o para o capital, os bancos e os ricos\u201d, ressaltou a professora. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 16\/6\/2016 &ndash; Governos considerados de esquerda est&atilde;o caindo na Am&eacute;rica Latina, desgastados por desastres econ&ocirc;micos. Por que os esquerdistas trope&ccedil;am na gest&atilde;o econ&ocirc;mica? Esta foi a pergunta que a IPS fez para economistas de diferentes correntes ideol&oacute;gicas. 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