{"id":20951,"date":"2016-06-22T17:47:16","date_gmt":"2016-06-22T17:47:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=210477"},"modified":"2016-06-22T17:47:16","modified_gmt":"2016-06-22T17:47:16","slug":"resposta-miope-aos-temores-da-migracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/06\/ultimas-noticias\/resposta-miope-aos-temores-da-migracao\/","title":{"rendered":"Resposta m\u00edope aos temores da migra\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p><em>As na\u00e7\u00f5es europeias das quais milh\u00f5es de pessoas fugiram de pen\u00farias e da fome (Gr\u00e9cia, Irlanda, It\u00e1lia) hoje em dia s\u00e3o o destino dos que fazem exatamente o mesmo.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Por\u00a0Jos\u00e9 Graziano da Silva e Andrew MacMillan*<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Roma, It\u00e1lia, 22\/6\/2016 \u2013\u00a0H\u00e1 muita gente em movimento. Os dados mais chamativos s\u00e3o os da migra\u00e7\u00e3o rural para as cidades nos pa\u00edses em desenvolvimento. Em 1950, 746 milh\u00f5es de pessoas viviam em cidades, 30% da popula\u00e7\u00e3o mundial. Em 2014, a popula\u00e7\u00e3o urbana atingiu os 3,9 bilh\u00f5es (54%).<\/p>\n<div id=\"attachment_210478\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-210478\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/migracao.jpg\" alt=\"Migrantes africanos interceptados na L\u00edbia quando se preparavam para tentar chegar \u00e0 Europa em uma perigosa travessia pelo Mar Mediterr\u00e2neo, onde muitos deles perdem a vida a cada ano. Foto: Rebecca Murray\/IPS\" width=\"540\" height=\"382\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/migracao.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/migracao-300x212.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 540px) 100vw, 540px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Migrantes africanos interceptados na L\u00edbia quando se preparavam para tentar chegar \u00e0 Europa em uma perigosa travessia pelo Mar Mediterr\u00e2neo, onde muitos deles perdem a vida a cada ano. Foto: Rebecca Murray\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Comparativamente, cerca de quatro milh\u00f5es de migrantes se trasladaram para pa\u00edses da OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4micos) a cada ano desde 2007. E,em 2013, 60% dos 3,4 milh\u00f5es de imigrantes da Europa procediam de outros Estados membros da Uni\u00e3o Europeia (UE) ou j\u00e1 possu\u00edam a cidadania europeia. As pessoas procedentes do exterior eram menos de 0,3% da popula\u00e7\u00e3o da UE.<\/p>\n<p>Os conflitos no Afeganist\u00e3o, Iraque e S\u00edria, al\u00e9m do descalabro da lei ou das liberdades na L\u00edbia, Eritreia, Som\u00e1lia e Sud\u00e3o do Sul, detonaram um aumento de solicitantes de asilo, cujo n\u00famero aumentou,apenas em 2014, para 800 mil nos pa\u00edses da OCDE e que, em virtude do direito internacional, devem ser protegidos.<\/p>\n<p>Uma apreens\u00e3o crescente por parte de alguns pa\u00edses receptores aumentou os pedidos para criar barreiras e erguer muros para reduzir os fluxos migrat\u00f3rios. As barreiras, por\u00e9m, s\u00e3o caras, podem ser evitadas e, sobretudo, s\u00e3o uma reminisc\u00eancia demasiadamente forte das restri\u00e7\u00f5es \u00e0 liberdade,das quais muitos migrantes buscam ref\u00fagio.<\/p>\n<p>A \u00e2nsia por uma vida melhor \u00e9 a principal for\u00e7a motora para a migra\u00e7\u00e3o tanto local como internacional. A cren\u00e7a de que existem melhores perspectivas em outros lugares exerce uma poderosa atra\u00e7\u00e3o. Agora que os telefones celulares e o acesso \u00e0 internet chegam aos rinc\u00f5es mais remotos do planeta, tais cren\u00e7as proliferaram.<\/p>\n<div id=\"attachment_210479\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"size-full wp-image-210479\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Graziano-300x200.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Graziano da Silva. Foto: Cortesia do autor\" width=\"300\" height=\"200\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Jos\u00e9 Graziano da Silva. Foto: Cortesia do autor<\/p><\/div>\n<p>Para os pa\u00edses que desejam reduzir as press\u00f5es migrat\u00f3rias transfronteiri\u00e7as, provavelmente a melhor op\u00e7\u00e3o seja enfrentar suas causas na raiz. Isso implica realizar a\u00e7\u00f5es para fomentar a paz e a seguran\u00e7a onde h\u00e1 conflito e opress\u00e3o. Tamb\u00e9m implica fechar, tanto entre na\u00e7\u00f5es como entre ricos e pobres, as crescentes brechas nos n\u00edveis de vida, principalmentenos pa\u00edses dos quais os migrantes econ\u00f4micos partem.<\/p>\n<p>Algumas das na\u00e7\u00f5es de destino reduziram o pagamento de seguridade social para os rec\u00e9m-chegados, em uma tentativa de reduzir sua atra\u00e7\u00e3o. Mas faltam mudan\u00e7as mais fundamentais de pol\u00edticas nas sociedades mais ricas e voltadas a dissuadir o comportamento de consumo desenfreado de seu pr\u00f3prio povo. E n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil. Poderia implicar que os consumidores assumissem os custos dos danos ambientais e sociais ocasionados pela produ\u00e7\u00e3o e pelo uso do que compram.<\/p>\n<p>A pobreza extrema \u00e9 encontrada principalmente nas comunidades rurais, onde come\u00e7a a maior parte da migra\u00e7\u00e3o interna. A pobreza n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma quest\u00e3o de baixa renda, mas tamb\u00e9m de acesso limitado a moradia adequada, \u00e1gua pot\u00e1vel, energia, educa\u00e7\u00e3o decente e servi\u00e7os de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em quase todos os contextos, a popula\u00e7\u00e3o rural est\u00e1 pior do que os habitantes da cidade e tamb\u00e9m \u00e9 mais vulner\u00e1vel aos choques. Paradoxalmente, a incid\u00eancia da fome e da desnutri\u00e7\u00e3o \u00e9 mais alta nas pr\u00f3prias comunidades que produzem grande parte dos alimentos do mundo.<\/p>\n<p>Parece que a urbaniza\u00e7\u00e3o ampliar\u00e1 ainda mais essas brechas. As remessas de dinheiro enviadas pelos imigrantes de primeira gera\u00e7\u00e3o locais e internacionais para seus familiares em casa ajudam, mas costumam ser modestas. As pol\u00edticas para eliminar a pobreza rural devem responder \u00e0s prioridades que as comunidades locais manifestam para melhorar o acesso a infraestrutura e servi\u00e7os p\u00fablicos, que devem incluir institui\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o local honesta e competente.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m devem incluir programas de prote\u00e7\u00e3o social, idealmente baseados nas transfer\u00eancias de dinheiro \u2013 regulares e previs\u00edveis \u2013 \u00e0s fam\u00edlias mais pobres, garantindo que todas as pessoas sejam, no m\u00ednimo, capazes de comer de forma saud\u00e1vel e enfrentar per\u00edodos de escassez.<\/p>\n<div id=\"attachment_210480\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"size-full wp-image-210480\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Andrew-MacMillan-1-003.jpg\" alt=\"Andrew McMillan. Foto:Cortesia do autor\" width=\"270\" height=\"360\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Andrew-MacMillan-1-003.jpg 270w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Andrew-MacMillan-1-003-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Andrew McMillan. Foto:Cortesia do autor<\/p><\/div>\n<p>A Uni\u00e3o Europeia apoia o princ\u00edpio de abordar as causas fundamentais da migra\u00e7\u00e3o da \u00c1frica para a Europa e, na c\u00fapula de Malta de novembro de 2015, declarou que o investimento em desenvolvimento rural \u00e9 uma prioridade. Mas os quase 30 membros da UE s\u00f3 aprovaram US$ 1,8 bilh\u00e3o em recursos adicionais. Devido \u00e0 magnitude da pobreza, \u00e9 uma quantia insignificante. \u00c9 um quarto do que ofereciam \u00e0 Turquia para deter o fluxo dos migrantes para a Europa.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio maior financiamento. Essa necessidade foi reconhecida explicitamente em setembro do ano passado, com o apoio un\u00e2nime de todos os governos aos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS), promovidos pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), incluindo a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza e da fome at\u00e9 2030. Al\u00e9m de ser moralmente correto, isso reduzir\u00e1 os conflitos que frequentemente impulsionam a migra\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>O v\u00ednculo entre a redu\u00e7\u00e3o da priva\u00e7\u00e3o extrema e a paz foi reconhecido pelos fundadores da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO) em 1945, quando escreveram: \u201cO progresso para a liberta\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria \u00e9 essencial para uma paz duradoura, j\u00e1 que \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para liberar as tens\u00f5es que surgem da inadapta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, do descontentamento profundo e da sensa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a, que s\u00e3o t\u00e3o perigosas nessa comunidade de na\u00e7\u00f5es modernas\u201d.<\/p>\n<p>Hoje a FAO se guia por esses princ\u00edpios em seu trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a alimentar e da cria\u00e7\u00e3o de uma capacidade maior de recupera\u00e7\u00e3o em pa\u00edses devastados pelos conflitos.As remessas e a ajuda podem colaborar para reduzir as desigualdades, mas o com\u00e9rcio justo de alimentos, a principal sa\u00edda comercial das comunidades rurais, \u00e9 uma forma mais sustent\u00e1vel de fechar a brecha entre as comunidades rurais e as urbanas.<\/p>\n<p>Quando os consumidores come\u00e7arem a pagar pre\u00e7os pelos alimentos que recompensam de forma justa os produtores por seus investimentos, suas habilidades, sua exposi\u00e7\u00e3o ao risco e m\u00e3o de obra, e por sua administra\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel dos recursos naturais, o mercado poder\u00e1 chegar a ser o principal ve\u00edculo para a erradica\u00e7\u00e3o da priva\u00e7\u00e3o extrema e da fome que \u201cimpulsiona\u201d a migra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma virada para pre\u00e7os mais justos dos alimentos seria um primeiro passo para aproveitar o grande potencial que os processos da globaliza\u00e7\u00e3o oferecem e para criar um mundo no qual todas as pessoas saibam que podem ter uma vida decente por meio de seu trabalho, mesmo se decidirem viver onde nasceram. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>*<strong>Jos\u00e9 Graziano da Silva <\/strong>\u00e9 diretor-geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO) e <strong>Andrew MacMillan<\/strong>\u00e9 ex-diretor do Centro de Pesquisas da FAO.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As na&ccedil;&otilde;es europeias das quais milh&otilde;es de pessoas fugiram de pen&uacute;rias e da fome (Gr&eacute;cia, Irlanda, It&aacute;lia) hoje em dia s&atilde;o o destino dos que fazem exatamente o mesmo. Por&nbsp;Jos&eacute; Graziano da Silva e Andrew MacMillan* Roma, It&aacute;lia, 22\/6\/2016 &ndash;&nbsp;H&aacute; muita gente em movimento. 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