{"id":21034,"date":"2016-07-19T14:10:55","date_gmt":"2016-07-19T14:10:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=211610"},"modified":"2016-07-19T14:10:55","modified_gmt":"2016-07-19T14:10:55","slug":"juros-elevados-refletem-anomalias-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/07\/ultimas-noticias\/juros-elevados-refletem-anomalias-no-brasil\/","title":{"rendered":"Juros elevados refletem anomalias no Brasil"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_211611\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-211611\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/pp_black.jpg\" alt=\"Consumidores nos caixas de uma grande loja de eletrodom\u00e9sticos durante um dia de ofertas especiais, que levam os brasileiros a gastarem mais do que seus bolsos permitem, com apoio dos cart\u00f5es de cr\u00e9dito, o que os mant\u00eam fortemente endividados. Foto: Paulo Pinto\/Fotos P\u00fablicas\" width=\"340\" height=\"226\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/pp_black.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/pp_black-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/pp_black-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Consumidores nos caixas de uma grande loja de eletrodom\u00e9sticos durante um dia de ofertas especiais, que levam os brasileiros a gastarem mais do que seus bolsos permitem, com apoio dos cart\u00f5es de cr\u00e9dito, o que os mant\u00eam fortemente endividados. Foto: Paulo Pinto\/Fotos P\u00fablicas<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 19\/7\/2016 \u2013 A d\u00edvida permanente \u00e9 um modo de vida desde que foi criado o cart\u00e3o de cr\u00e9dito. Mas isso custa muito caro paraos brasileiros, por causa das taxas de juros cobradas, aumentadas ainda mais pela atual crise econ\u00f4mica. Disso j\u00e1 sabia Laura (que preferiu n\u00e3o citar o sobrenome). Mas n\u00e3o p\u00f4de evitar cair na armadilha. Havia comprado um fog\u00e3o novo que apresentou falhas irrepar\u00e1veis e a empresa fornecedora demorou dois meses para fazer a troca.<\/p>\n<p>Laura teve que comer fora, gastando em restaurantes, justamente quando perdeu sua renda como cuidadora de uma idosa que morreu. A conta de seu cart\u00e3o de cr\u00e9dito mais do que duplicou em junho, chegando a R$ 3.740, e ela s\u00f3 conseguiu pagar 15% do total, refinanciando o restante. Sua conta duplicou novamente em julho, apesar de ter gasto menos.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o posso pagar\u201d, admitiu Laura, cuja aposentadoria cobre pouco mais que o aluguel do pequeno apartamento onde vive sozinha em um bairro no centro do Rio de Janeiro. Ela vai esperar a indeniza\u00e7\u00e3o da loja que lhe vendeu o fog\u00e3o para negociar um desconto e pagar a d\u00edvida, que por enquanto \u201ccresce em progress\u00e3o geom\u00e9trica\u201d.<\/p>\n<p>Os descontos costumam ser t\u00e3o elevados quanto as taxas de juros cobradas no Brasil. Os R$ 35.730 que Leo (pseud\u00f4nimo de um eletricista) devia a um banco ca\u00edram para R$ 6.435. A redu\u00e7\u00e3o de 82% teve como condi\u00e7\u00e3o o pagamento \u00e0 vista, e a ajuda da fam\u00edlia permitiu que quitasse a d\u00edvida, causada por um d\u00e9ficit em sua conta banc\u00e1ria. Cerca de R$ 1 mil se multiplicaram acumulando juros sobre juros durante mais de tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds de devedores contumazes que costumam atrasar os pagamentos, justificando a exist\u00eancia de v\u00e1rios servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o ao cr\u00e9dito, com listas de maus pagadores. Um total de 59,4 milh\u00f5es de brasileiros estava inadimplentes em maio, segundo aconsultoria Serasa, um banco de dados sobre cidad\u00e3os e empresas com d\u00edvidas financeiras. O n\u00famero, quase metade da popula\u00e7\u00e3o adulta do pa\u00eds, foi comemorado como um avan\u00e7o, j\u00e1 que em abril eram 60,7 milh\u00f5es os que tinham d\u00edvidas vencidas.<\/p>\n<p>Isso ocorre apesar da alta penaliza\u00e7\u00e3o das taxas de juros sobre o cr\u00e9dito e especialmente sobre os atrasos no pagamento. Refinanciar parte da d\u00edvida do cart\u00e3o de cr\u00e9dito, por exemplo, custava, em junho, 447,44% de juros ao ano, enquanto os bancos cobravam 286,27% sobre o saldo devedor em contas correntes, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Executivos de Finan\u00e7as, Administra\u00e7\u00e3o e Contabilidade (Anefac). \u00c9 mais de dez vezes o que se cobra em pa\u00edses de desenvolvimento semelhante, como os latino-americanos.<\/p>\n<p>O custo de um cr\u00e9dito pessoal em um banco \u00e9 de 72% ao ano, inclusive para clientes com boa capacidade de pagamento. Esse limite foi ultrapassado devido \u00e0 crise econ\u00f4mica que afeta o Brasil desde 2014, mas j\u00e1 eram abusivas h\u00e1 tr\u00eas anos, quando estavam em 41%. As grandes redes comerciais de bens dur\u00e1veis preferem vender a prazo, mais lucrativo, com juros pr\u00f3ximos de 100% ao ano. Para comprar com presta\u00e7\u00f5es mensais compat\u00edveis com seus bolsos, os consumidores aceitam pre\u00e7os que duplicam a cada ano.<\/p>\n<div id=\"attachment_211612\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-211612\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/juros.jpg\" alt=\"No Brasil, as taxas de juros para cart\u00f5es de cr\u00e9dito estavam, em maio, em 450% ao ano, n\u00edvel de usura que faz o n\u00famero de inadimplentes ser, este m\u00eas, de quase 60 milh\u00f5es de pessoas. Foto: Fernanda Carvalho\/Fotos P\u00fablicas\" width=\"340\" height=\"184\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/juros.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/juros-300x162.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">No Brasil, as taxas de juros para cart\u00f5es de cr\u00e9dito estavam, em maio, em 450% ao ano, n\u00edvel de usura que faz o n\u00famero de inadimplentes ser, este m\u00eas, de quase 60 milh\u00f5es de pessoas. Foto: Fernanda Carvalho\/Fotos P\u00fablicas<\/p><\/div>\n<p>As empresas tamb\u00e9m pagam juros alt\u00edssimos, entre 37% e 45%, para capital de giro (circulante ou de trabalho) vinculado \u00e0s contas a receber. Isso acontece enquanto os pa\u00edses ricos baixaram suas taxas para perto de zero, para estimular a demanda. S\u00e3o \u201cjuros de extors\u00e3o que freiam a demanda\u201d das pessoas f\u00edsicas e os investimentos das empresas, impedindo o desenvolvimento econ\u00f4mico e \u201cdrenando imensos recursos para os intermedi\u00e1rios financeiros\u201d, ressaltou \u00e0 IPS Ladislau Dowbor, professor de economia na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201cCa\u00edmos na armadilha porque os bancos se juntaram em um cartel\u201d e o Banco Central fixou, desde 1996,taxas b\u00e1sicas de juros \u201cexorbitantes\u201d para \u201ccompensar os banqueiros pelo fim da hiperinfla\u00e7\u00e3o que lhes dava ganhos f\u00e1ceis\u201d, explicou Dowbor.Para o professor, um militante do esquerdista Partido dos Trabalhadores (PT), o poder financeiro \u00e9 uma \u201cdeforma\u00e7\u00e3o mundial\u201d, que assumiu formas espec\u00edficas de criar obst\u00e1culos\u00e0 economia no Brasil, onde seus ganhos crescem mais enquanto o produto estanca ou diminui, como ocorre desde 2014.<\/p>\n<p>A sa\u00edda seria uma reforma financeira, para baixar as taxas de juros do Banco Central e dos bancos p\u00fablicos, ampliar os sistemas locais de financiamento, descentralizando o cr\u00e9dito, como fez a Alemanha, e regular o setor para priorizar os investimentos produtivos em lugar da especula\u00e7\u00e3o. Seria \u201cpersistir\u201d no que tentou o governo do PT em 2013, sob a administra\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, freado por falta de for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o oposta, majorit\u00e1ria entre economistas, \u00e9 a de Andrew Storffer, diretor executivo da Anefac. \u201c\u00c9 o governo, que gasta muito em propor\u00e7\u00e3o aos servi\u00e7os prestados, o principal culpado pelos jurosaltos\u201d, afirmou \u00e0 IPS. A tentativa \u201cvoluntariosa\u201d de baixar os juros em 2013 foi um dos erros que alimentaram a forte e prolongada recess\u00e3o da economia brasileira desde 2014, acrescentou.<\/p>\n<p>Com seus gastos e d\u00edvida em crescimento, o governo drena muito mais recursos da economia, tendo de se autofinanciar emitindo t\u00edtulos que pagam altos juros para atrair investidores, elevando as taxas de todo o sistema financeiro, explicouStorffer. No ano passado, os juros da d\u00edvida p\u00fablica totalizaram R$ 500 bilh\u00f5es, equivalentes a 8,2% do produto interno bruto (PIB).<\/p>\n<p>Os bancos s\u00e3o intermedi\u00e1rios, captam o dinheiro e o redistribuem. \u201cSe cobram caro, \u00e9 porque h\u00e1 demanda, e o governo \u00e9 o que mais demanda\u201d, opinouStorffer. \u201cSe ter um banco no Brasil fosse t\u00e3o bom neg\u00f3cio, todos os bancos estrangeiros tratariam de se instalar no pa\u00eds, e n\u00e3o de sair, com fez o brit\u00e2nico HSBC\u201d, que em 2015 vendeu sua subsidi\u00e1ria local ao Bradesco, segundo maior banco privado do pa\u00eds. Os juros aqui s\u00e3o grandes, mas os riscos tamb\u00e9m, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cO Brasil tem, provavelmente, o n\u00edvel de juros reais mais elevado do mundo\u201d, reconheceu Storffer, porque s\u00e3o altos os custos, os impostos e os riscos de insolv\u00eancia, mas principalmente porque a taxa b\u00e1sica fixada pelo Banco Central se situa atualmente em elevados 14,25%. Esta taxa \u00e9 um instrumento de pol\u00edtica monet\u00e1ria, \u201celevada quando sobe a infla\u00e7\u00e3o\u201d, para desestimular o consumo, e que no Brasil tem de ser mais alta pelo \u201cdesacerto nas contas p\u00fablicas\u201d, acrescentou. Encarecendo o dinheiro a ser emprestado, todas as taxas de juros sobem \u00e0s nuvens. \u201cA chave para baixar os juros \u00e9 reduzir o gasto do governo\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o proposta por Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educa\u00e7\u00e3o Financeira, parte do indiv\u00edduo. Sua organiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 proporcionou educa\u00e7\u00e3o financeira a meio milh\u00e3o de pessoas, principalmente crian\u00e7as, e divulga sua metodologia por meio de 15 livros para alunos e outros 15 para professores. DSOP s\u00e3o siglas de Diagnosticar, Sonhar, Or\u00e7amentar e Economizar, os quatro passos de seu curso. \u201cTrata-se de mudar comportamentos, em uma forma\u00e7\u00e3o preventiva para as novas gera\u00e7\u00f5es, pois a nossa j\u00e1 n\u00e3o muda. \u00c9 necess\u00e1rio fixar sonhos para economizar\u201d, enfatizou \u00e0 IPS. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 19\/7\/2016 &ndash; A d&iacute;vida permanente &eacute; um modo de vida desde que foi criado o cart&atilde;o de cr&eacute;dito. Mas isso custa muito caro paraos brasileiros, por causa das taxas de juros cobradas, aumentadas ainda mais pela atual crise econ&ocirc;mica. 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