{"id":21094,"date":"2016-08-08T12:46:48","date_gmt":"2016-08-08T12:46:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=212352"},"modified":"2016-08-08T12:46:48","modified_gmt":"2016-08-08T12:46:48","slug":"o-peso-da-pecuaria-para-os-gases-estufa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/08\/ultimas-noticias\/o-peso-da-pecuaria-para-os-gases-estufa\/","title":{"rendered":"O peso da pecu\u00e1ria para os gases-estufa"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_212353\" style=\"width: 219px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"size-full wp-image-212353\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Risto.jpg\" alt=\"Risto Isom\u00e4ki. Foto: Cortesia do autor\" width=\"209\" height=\"314\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Risto.jpg 209w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Risto-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 209px) 100vw, 209px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Risto Isom\u00e4ki. Foto: Cortesia do autor<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Risto Isom\u00e4ki, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Helsinque, Finl\u00e2ndia, 8\/8\/2016 \u2013 A produ\u00e7\u00e3o de carne e outros produtos de origem animal responde por aproximadamente 18% a 20% de todas as emiss\u00f5es de gases-estufa antropog\u00eanicos, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO). Se este c\u00e1lculo estiver correto, os res\u00edduos animais e o uso de fertilizantes \u00e0 base de nitrog\u00eanio para cultivo de forragens geram, por ano, cerca de seis milh\u00f5es de toneladas de\u00f3xido nitroso, ou entre 65% e 70% das emiss\u00f5es totais.<\/p>\n<p>O impacto disso na temperatura mundial equivale a,aproximadamente,dois bilh\u00f5es de toneladas de di\u00f3xido de carbono por ano. Al\u00e9m de \u00f3xido nitroso, a ind\u00fastria pecu\u00e1riaproduz mais de cem milh\u00f5es de toneladas de metano ao ano, o que esquenta o planeta tanto como 3,5 bilh\u00f5es de toneladas de di\u00f3xido de carbono.Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 agravada pelo desmonte de grandes extens\u00f5es de florestas tropicais para pastagens e produ\u00e7\u00e3o de forragem, o que libera anualmente 2,7 bilh\u00f5es de toneladas de di\u00f3xido de carbono na atmosfera.<\/p>\n<p>O total de nossas emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono atualmente chega a pouco mais de 35 bilh\u00f5es de toneladas, al\u00e9m de tamb\u00e9m produzirmos pelo menos 350 milh\u00f5es de toneladas de metano e nove milh\u00f5es\u00a0 de toneladas de \u00f3xido nitroso.Muitos governos, munic\u00edpios e empresas privadas j\u00e1 come\u00e7aram a aplicar programas para reduzir as emiss\u00f5es de gases-estufa a uma fra\u00e7\u00e3o de seus n\u00edveis atuais nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Em 2015, mais de 90% dos novos investimentos em energia se deslocaram para fontes renov\u00e1veis, enquanto os combust\u00edveis f\u00f3sseis e a energia nuclear atraem a duras penas os 10% restantes.Do mesmo modo, as novas solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas para reduzir as emiss\u00f5es dos ve\u00edculos, bem como da produ\u00e7\u00e3o industrial, constru\u00e7\u00e3o, ilumina\u00e7\u00e3o, calefa\u00e7\u00e3o e refrigera\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios, ou est\u00e3o em processo de implanta\u00e7\u00e3o, ou j\u00e1 foram implantadas.<\/p>\n<p>Inclusive as empresas de avia\u00e7\u00e3o e navega\u00e7\u00e3o aceitaram o desafio. Alguns setores o fizeram com maior entusiasmo que outros, mas parece existir o consenso geral de que s\u00e3o necess\u00e1rias mudan\u00e7as consider\u00e1veis para evitar uma cat\u00e1strofe ambiental absoluta.A exce\u00e7\u00e3o ao deslocamento geral para a sustentabilidade ambiental parece ser a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. Os governos e as organiza\u00e7\u00f5es intergovernamentais como a FAO continuam analisando a maneira de aumentar a produ\u00e7\u00e3o mundial de carne, de 200 milh\u00f5es de toneladas para 470 milh\u00f5esat\u00e9 2050.<\/p>\n<p>Isso seria motivo de grande preocupa\u00e7\u00e3o, mesmo se a carne, os produtos l\u00e1cteos e demais derivados de animais fossem respons\u00e1veis unicamente por 20% das emiss\u00f5es de gases-estufa combinados. Mesmo se fosse duplicada a contribui\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria, provavelmente seria imposs\u00edvel limitar o aquecimento global a 1,5 ou 2 graus Celsius, segundo o acordado em Paris.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que o papel da ind\u00fastria pecu\u00e1ria tenha sido seriamente subestimado. Segundo c\u00e1lculos atuais, os lagos e tanques naturais provavelmente produzam cerca de 85 milh\u00f5es\u00a0 de toneladas de metano por ano, enquanto as represas artificiais gerariam entre 20 milh\u00f5es e 100 milh\u00f5es\u00a0 de toneladas.Embora o metano das represas seja considerado um subproduto da ind\u00fastria da energia, as emiss\u00f5es de lagos, tanques e rios s\u00e3o classificadas como \u201cemiss\u00f5es naturais\u201d.<\/p>\n<p>As pesquisas demonstram que h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es significativas nos n\u00edveis de metano produzido pelos corpos de \u00e1gua doce. Os lagos heter\u00f3trofos, cuja \u00e1gua e o sedimento cont\u00eam apenas pequenas quantidades de nutrientes e mat\u00e9ria org\u00e2nica, produzem muito pouco metano. As menores emiss\u00f5es anuais por hectare medidas nesses lagos chegaram a apenas 0,78 quilo.No outro extremo do espectro, lagos sumamente eutr\u00f3ficos, ou ricos em nutrientes, com grandes quantidades de plantas aqu\u00e1ticas e algas mortas, podem liberar at\u00e9 190 toneladas de metano por hectare ao ano.<\/p>\n<p>Em outras palavras, h\u00e1 uma diferen\u00e7a de 243.590 vezes entre a menor e a maior emiss\u00e3o medida por hectare, um espectro que inclui quase seis ordens de magnitude.Podemos, ent\u00e3o, realmente supor que a escorr\u00eancia dos fertilizantes e o gado nada t\u00eam a ver com essas emiss\u00f5es? A maior parte do metano liberado no ar de lagos e represas eutr\u00f3ficos n\u00e3o pode, na verdade, ser considerada emiss\u00e3o natural, e n\u00e3o se deve contar como tal.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, a maior parte do \u00f3xido nitroso, que se define atualmente como emiss\u00f5es naturais dos oceanos ou dos solos naturais, deveria voltar a ser classificada com derivado da pecu\u00e1ria.Al\u00e9m disso, h\u00e1 muitas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas capazes de reduzir a quantidade de carbono org\u00e2nico armazenado nas \u00e1rvores e nos solos, bem como o desmatamento tropical, que historicamente \u00e9 o centro de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estudos realizados no Argentina,Brasil, China, Estados Unidos, Gr\u00e3-Bretanha, Cazaquist\u00e3o e Mong\u00f3lia, indicam que grandes extens\u00f5es de pastagens que costumavam ser pradarias naturais continuam perdendo quantidades significativas de carbono org\u00e2nico devido ao pastoreio excessivo.Segundo uma an\u00e1lise, os seres humanos queimam anualmente 4,3 bilh\u00f5es de toneladas de biomassa, classificada como carbono. Dessa quantidade, a madeira para combust\u00edvel e o uso de outras formas de biocombust\u00edvel representam 1,3 bilh\u00e3o de toneladas, enquanto o restante est\u00e1 vinculado \u00e0 ind\u00fastria pecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Isso significa que poder\u00edamos, ao menos teoricamente, reduzir nossas emiss\u00f5es de carbono em quase tr\u00eas bilh\u00f5es de toneladas ao eliminar a queima de biomassa que n\u00e3o est\u00e1 relacionada com a produ\u00e7\u00e3o de energia e mediante o uso da biomassa economizada para substituir os combust\u00edveis f\u00f3sseis.As pr\u00e1ticas de queima de biomassa atuais tamb\u00e9m produzem grande quantidade de fuligem, que repercute com for\u00e7a no aumento das temperaturas mundiais, e tamb\u00e9m geram entre 40 milh\u00f5es e 50 milh\u00f5es de toneladas adicionais de metano e 1,3 bilh\u00e3o de toneladas de \u00f3xido nitroso.<\/p>\n<p>Atualmente, 3,5 bilh\u00f5es de hectares de terras de pastagem permanentes e centenas de milh\u00f5es de hectares de terras de cultivo s\u00e3o explorados para produ\u00e7\u00e3o de alimentos destinados a animais nas ind\u00fastrias da carne e dos l\u00e1cteos.<\/p>\n<p>Se reduzirmos o consumo de produtos de origem animal e os substituirmos por alternativas \u00e0 base de prote\u00ednas de soja, trigo, aveia ou fungos, ou mediante cultivo de c\u00e9lulas-m\u00e3e de animais, poder\u00edamos converter grandes extens\u00f5es de terreno em florestas protegidas. Estas, por sua vez, recuperadas, podem absorver grande quantidade de carbono da atmosfera. De modo alternativo, se poderia utilizar a mesma terra para cultivo de biocombust\u00edveis.<\/p>\n<p>Isso significa que dever\u00edamos nos concentrar na degrada\u00e7\u00e3o ambiental causada pela ind\u00fastria pecu\u00e1ria, que por sua vez recebe press\u00e3o de uma demanda cada vez maior por carne e l\u00e1cteos. Grande parte do que se mencionou merece uma aten\u00e7\u00e3o urgente e ampla e maior pesquisa em todo o mundo.Talvez seja imposs\u00edvel deter o aquecimento global sem reduzir o consumo de carne. Mas, se formos capazes de substituir uma por\u00e7\u00e3o substancial de carne por alternativas, alcan\u00e7ar as metas adotadas em Paris na verdade ser\u00e1 muito mais f\u00e1cil do que se imagina.<\/p>\n<p><em>*<strong>Risto Isom\u00e4ki<\/strong>\u00e9 escritor e militante ecol\u00f3gico finland\u00eas, cujo \u00faltimo livro, <\/em>A Carne, o Leite e o Clima<em>, analisa o impacto ambiental da ind\u00fastria pecu\u00e1ria. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Risto Isom&auml;ki, da IPS &ndash;&nbsp; Helsinque, Finl&acirc;ndia, 8\/8\/2016 &ndash; A produ&ccedil;&atilde;o de carne e outros produtos de origem animal responde por aproximadamente 18% a 20% de todas as emiss&otilde;es de gases-estufa antropog&ecirc;nicos, segundo a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Alimenta&ccedil;&atilde;o e a Agricultura (FAO). 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