{"id":21103,"date":"2016-08-10T13:50:44","date_gmt":"2016-08-10T13:50:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=212581"},"modified":"2016-08-10T13:50:44","modified_gmt":"2016-08-10T13:50:44","slug":"um-sonho-para-os-indigenas-de-camaroes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/08\/ultimas-noticias\/um-sonho-para-os-indigenas-de-camaroes\/","title":{"rendered":"Um sonho para os ind\u00edgenas de Camar\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_212582\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-212582\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/camerun-629x418.jpg\" alt=\"Meninas e meninos bakas no p\u00e1tio da escola em Camar\u00f5es. Foto: Ngala Kilian Chimtom\/IPS\" width=\"340\" height=\"226\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/camerun-629x418.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/camerun-629x418-300x199.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/camerun-629x418-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Meninas e meninos bakas no p\u00e1tio da escola em Camar\u00f5es. Foto: Ngala Kilian Chimtom\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Ngala Kilian Chimtom, da IPS &#8211;<\/em><\/p>\n<p>Iaund\u00e9, Camar\u00f5es, 10\/8\/2016 \u2013 Em uma pequena aldeia de Boumba e Ngoko, no sudeste de Camar\u00f5es, uma professora desenha alguns animais selvagens no quadro-negro e pergunta aos seus 25 alunos: \u201cQuem pode me dizer os nomes?\u201d.Lisette Bikola \u00e9 uma das que responde. A menina, de 12 anos, pertence \u00e0 comunidade baka e est\u00e1 no terceiro ano prim\u00e1rio, ao qual a maioria chega com oito, mas tem grandes sonhos para seu futuro. \u201cVenho para a escola porque quero ser professora. Quero aprender ingl\u00eas e franc\u00eas e gostaria de escrever e ler cartas para meus pais\u201d, contou.<\/p>\n<p>Em outra escola em Ntam Carrefour, Bernard Elinga, de 14 anos, tem sonhos semelhantes. \u201cGostaria de ser algu\u00e9m importante. Talvez professor, soldado ou policial\u201d, disse. Mas \u00e9 muito dif\u00edcil que seus sonhos se tornem realidade porque quase todas as crian\u00e7as do povo baka que v\u00e3o \u00e0 escola prim\u00e1ria nunca chegam ao curso secund\u00e1rio, pelos v\u00e1rios obst\u00e1culos que devem enfrentar, como pobreza, discrimina\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas educacionais mal adaptadas \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>Das 30 crian\u00e7as que se matricularam na escola h\u00e1 dois anos, Elinga \u00e9 o \u00fanico que resta em Ntam Carrefour. Os demais abandonaram os estudos para poderem ajudar seus pais nas atividades tradicionais de ca\u00e7adores coletores.<\/p>\n<p>O direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o tema deste ano do Dia Internacional dos Povos Ind\u00edgenas, celebrado em 9 de agosto. Isso porque, para romper sua vulnerabilidade e exclus\u00e3o, considera-se fundamental o acesso a uma escolaridade apropriada aos seus m\u00e9todos culturais de aprendizagem e com pleno conhecimento de sua diversidade, de seus valores e de suas necessidades espec\u00edficas, incluindo aprender em sua l\u00edngua materna.<\/p>\n<p>David Angoula, cujos dois filhos deixaram a escola, disse que as crian\u00e7as de sua comunidade recebem os ensinamentos deixados pelos seus ancestrais na selva. \u201cVamos \u00e0 selva buscar comida. Nossos pais nos deixaram uma escola na selva, e \u00e9 essa escola que os pais devem mostrar aos filhos para que n\u00e3o se esque\u00e7am da cultura de seus ancestrais. Para os bakas, o importante \u00e9 o presente. O passado e o futuro n\u00e3o importam\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Os filhos de Angoula est\u00e3o entre alguns homens que tentam cortar uma \u00e1rvore enorme com galhos. Quando a derrubam, as mulheres e as crian\u00e7as vasculham o tronco, onde as abelhas tinham uma col\u00f4nia, e usam fuma\u00e7a para tonte\u00e1-las e colher o mel. A coleta de mel faz parte das atividades di\u00e1rias de quase 30 mil bakas. Este povo ca\u00e7ador coletor vive de frutas, tub\u00e9rculos e da ca\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cA selva \u00e9 nosso lar\u201d, afirmouDominique Ngola, de 58 anos, origin\u00e1rio da comunidade salapumbe, na regi\u00e3o Leste de Camar\u00f5es. \u201cEla nos d\u00e1 tudo o que precisamos: o ar puro que respiramos, os alimentos que comemos e as ervas medicinais que usamos para nos curar. \u00c9 nossa farm\u00e1cia\u201d, destacou.Os bakas est\u00e3o t\u00e3o ligados \u00e0 selva, que as \u00e1rvores, os p\u00e1ssaros e os outros animais s\u00e3o uma parte integral de sua exist\u00eancia cotidiana. O estreito v\u00ednculo que t\u00eam com a natureza dificulta as tentativas de integr\u00e1-los \u00e0 educa\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n<p>Sarah Tucker, consultora do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), explicou que muitos pais n\u00e3o veem os benef\u00edcios da educa\u00e7\u00e3o formal. \u201cMandar um filho para a escola exige muitos sacrif\u00edcios para eles. Em lugar disso, poderiam ir para a floresta com eles e realizar suas atividades tradicionais, por isso n\u00e3o veem os benef\u00edcios desse sacrif\u00edcio\u201d, pontuou. Por\u00e9m, sabem que, para sobreviver em um mundo com mudan\u00e7as r\u00e1pidas, precisam conhecer o sistema educacional. Mas manter as crian\u00e7as na escola \u00e9 um grande desafio para os que precisam ir \u00e0 selva em busca de alimentos e plantas medicinais.<\/p>\n<p>\u201cA educa\u00e7\u00e3o de comunidades como a baka \u00e9 muito diferente da de outros grupos de Camar\u00f5es\u201d, apontou Martiyn Ter Heedge, oficial do programa Kudu Zambo, no parque nacional Campo Ma\u2019an, na regi\u00e3o Sul de Camar\u00f5es. \u201cO que aprendemos \u00e9 que precisamos ter uma educa\u00e7\u00e3o especial para os bakas. Os programas habituais n\u00e3o t\u00eam muito sucesso. Acredito que agora se entende melhor que seu conte\u00fado precisa ser especial, com li\u00e7\u00f5es e m\u00e9todos especiais\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>O governo de Camar\u00f5es trabalha com s\u00f3cios como WWF e a pr\u00f3pria comunidade baka, para propor um enfoque de sucesso, mas os progressos s\u00e3o lentos. Heedge e Tuker concordam que tudo come\u00e7a por compreender seu estilo de vida.\u201cRecebemos muitas propostas de diferentes atores: minist\u00e9rios, organiza\u00e7\u00f5es, os pr\u00f3prios bakas, e, entre as recomenda\u00e7\u00f5es, o primeiro e mais importante \u00e9 usar sua pr\u00f3pria l\u00edngua na escola\u201d, destacoua consultora do WWF. \u201cH\u00e1 ampla literatura e informa\u00e7\u00e3o que confirma que a melhor forma de aprender \u00e9 utilizando a l\u00edngua materna\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>ParaTuker, \u201ctamb\u00e9m \u00e9 importante adaptar o calend\u00e1rio escolar ao calend\u00e1rio tradicional dos bakas, isto \u00e9, n\u00e3o dar aulas em janeiro e dezembro, por exemplo, porque os alunos v\u00e3o com os pais passar semanas na floresta. Al\u00e9m disso,adequar os m\u00e9todos de ensino \u00e0 cultura baka, como utilizar exemplos da selva e de seu estilo de vida, e realizar mais brincadeiras, atividades e trabalhos pr\u00e1ticos de descoberta, que \u00e9 o que as crian\u00e7as bakas mais gostam de fazer\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante que, de alguma forma, no ensino prim\u00e1rio exista a possibilidade de oferecer uma educa\u00e7\u00e3o bil\u00edngue, isto \u00e9, baka e franc\u00eas\u201d, opinou Heedge. \u201cAs crian\u00e7as bakas que tenho em minha sala costumam aprender r\u00e1pido se uso exemplos de seu entorno imediato\u201d, confirmou Quinta Koshi, professora da escola prim\u00e1ria de Boui.<\/p>\n<p>Rosalie Aboutou, do Minist\u00e9rio de Assuntos Sociais, declarou que \u201co governo aplaude todas as iniciativas que t\u00eam por objetivo que todos os cidad\u00e3o se beneficiem dos servi\u00e7os estatais. Os pigmeus baka fazem parte desse pa\u00eds e sua educa\u00e7\u00e3o integra a pol\u00edtica governamental\u201d. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>*Este artigo integra uma s\u00e9rie por ocasi\u00e3o do Dia Internacional dos Povos Ind\u00edgenas, celebrado em 9 de agosto.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Ngala Kilian Chimtom, da IPS &ndash; Iaund&eacute;, Camar&otilde;es, 10\/8\/2016 &ndash; Em uma pequena aldeia de Boumba e Ngoko, no sudeste de Camar&otilde;es, uma professora desenha alguns animais selvagens no quadro-negro e pergunta aos seus 25 alunos: &ldquo;Quem pode me dizer os nomes?&rdquo;.Lisette Bikola &eacute; uma das que responde. 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