{"id":21155,"date":"2016-08-29T13:04:58","date_gmt":"2016-08-29T13:04:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=213351"},"modified":"2016-08-29T13:04:58","modified_gmt":"2016-08-29T13:04:58","slug":"mexico-onde-o-estado-desaparece-com-civis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/08\/ultimas-noticias\/mexico-onde-o-estado-desaparece-com-civis\/","title":{"rendered":"M\u00e9xico, onde o Estado desaparece com civis"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_213352\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-213352\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico1.jpg\" alt=\" Uma das m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es de familiares de v\u00edtimas de desaparecimento for\u00e7ado, que chegam \u00e0 capital do M\u00e9xico cobrando do governo a busca por seus parentes e o esclarecimento dos casos. Foto: Diana Cariboni\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico1.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> Uma das m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es de familiares de v\u00edtimas de desaparecimento for\u00e7ado, que chegam \u00e0 capital do M\u00e9xico cobrando do governo a busca por seus parentes e o esclarecimento dos casos. Foto: Diana Cariboni\/IPS<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Daniela Pastrana, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Cidade do M\u00e9xico, M\u00e9xico, 29\/8\/2016 \u2013 \u201cAvise meu pai que me detiveram aqui\u201d, disse Maximiliano Gordillo Mart\u00ednez ao seu companheiro de viagem, no dia 7 de maio, na esta\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria de Chabl\u00e9, no Estado mexicano de Tabasco. Foi a \u00faltima vez que foi visto com vida e a \u00faltima not\u00edcia que seus pais t\u00eam dele.Gordillo, de 19 anos, e seu amigo haviam deixado sua comunidade no Estado de Chiapas para procurar trabalho na tur\u00edstica cidade de Playadel Carmen, no Estado de Quintana Roo.<\/p>\n<p>Era um trajeto de mil quil\u00f4metros por rodovia para deixar para tr\u00e1s a zona ind\u00edgena do segundo Estado mais pobre do pa\u00eds.Mas na metade do caminho foram detidos por agentes do Instituto Nacional de Migra\u00e7\u00e3o, que retiveram Maximiliano por consider\u00e1-lo guatemalteco, apesar de o jovem do povo origin\u00e1rio tzeltal ter apresentado sua documenta\u00e7\u00e3o comprovando ser cidad\u00e3o mexicano.Quando seu companheiro de viagem quis intervir, foi amea\u00e7ado pelos agentes. Disseram que o acusariam de ser traficante de migrantes.<\/p>\n<p>O rapaz, cujo nome n\u00e3o foi citado, foi embora apavorado e ao chegar ao seu destino se comunicou com Arturo Gordillo, pai de Maximiliano.Passaram-se mais de tr\u00eas meses e os pais de Max \u2013 como \u00e9 chamado pela fam\u00edlia \u2013 n\u00e3o deixam de procur\u00e1-lo. No dia 22 deste m\u00eas, chegaram \u00e0 Cidade do M\u00e9xico, apoiados por organiza\u00e7\u00f5es defensoras dos direitos humanos, para denunciar o desaparecimento for\u00e7ado do mais velho de seus cinco filhos.<\/p>\n<p>Nunca antes haviam ido t\u00e3o longe de Tzinil, uma comunidade tzeltal do munic\u00edpio de Socoltenango, que, segundo dados oficiais, tem quatro em cada dez de seus habitantes em condi\u00e7\u00f5es de pobreza extrema e o restante \u00e9 pobre.\u201cNosso sentimento pelo desaparecimento de meu filho \u00e9 muito duro. Tenho que denunciar porque \u00e9 grande a dor e n\u00e3o quero que outro pai passe por isso, que tenha de ser humilhado e ofendido assim pelo governo\u201d, afirmou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>\u201cO Instituto ignora, seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 duro\u201d, insistiu Gordillo, se referindo \u00e0s autoridades migrat\u00f3rias mexicanas. Ao seu lado, sua mulher, Antonia Mart\u00ednez, n\u00e3o para de chorar. O caso de Maximiliano se soma aos de outros 150 civis chiapanecos desaparecidos em territ\u00f3rio mexicano em rotas migrat\u00f3rias internas, declarou \u00e0 IPS o porta-voz da organiza\u00e7\u00e3o Vozes Mesoamericanas, Enrique Vidal.<\/p>\n<div id=\"attachment_213353\" style=\"width: 371px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-213353 size-full\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico2.jpg\" alt=\"Antonia Mart\u00ednez, afetada pelo desaparecimento for\u00e7ado de seu filho Maximiliano Gordillo, de 19 anos, enquanto seu tio, Natalio Gordillo, conta \u00e0 IPS detalhes do caso. Os pais e outros familiares chegaram \u00e0 Cidade do M\u00e9xico vindos da distante comunidade de Tzinil, do povo ind\u00edgena tzeltal, para pedir ao governo que lhes devolva o jovem, do qual n\u00e3o t\u00eam noticia desde 7 de maio. Foto: Daniela Pastrana\/IPS\" width=\"361\" height=\"640\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico2.jpg 361w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico2-169x300.jpg 169w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico2-300x532.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 361px) 100vw, 361px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Antonia Mart\u00ednez, afetada pelo desaparecimento for\u00e7ado de seu filho Maximiliano Gordillo, de 19 anos, enquanto seu tio, Natalio Gordillo, conta \u00e0 IPS detalhes do caso. Os pais e outros familiares chegaram \u00e0 Cidade do M\u00e9xico vindos da distante comunidade de Tzinil, do povo ind\u00edgena tzeltal, para pedir ao governo que lhes devolva o jovem, do qual n\u00e3o t\u00eam noticia desde 7 de maio. Foto: Daniela Pastrana\/IPS<\/p><\/div>\n<p>E a esses somam-se milhares de migrantes centro-americanos que desapareceram no M\u00e9xico na \u00faltima d\u00e9cada e que, segundo den\u00fancias de defensores de migrantes, muitos teriam sido entregues por funcion\u00e1rios e policiais a grupos criminosos para serem empregados for\u00e7ados dentro de suas organiza\u00e7\u00f5es. O \u00fanico dado oficial para se aproximar do problema \u00e9 um informe da estatal Comiss\u00e3o Nacional de Direitos Humanos, que registrou 21 mil sequestros de pessoas migrantes em 2011.<\/p>\n<p>E tampouco se trata de um problema apenas de pessoas migrantes. No M\u00e9xico, o desaparecimento for\u00e7ado \u00e9 uma pr\u00e1tica \u201cgeneralizada e sistem\u00e1tica\u201d, conclui o informe <em>Atrocidades Ineg\u00e1veis<\/em>, elaborado pela funda\u00e7\u00e3o internacional Open Society Justice Initiative, em colabora\u00e7\u00e3o com cinco organiza\u00e7\u00f5es mexicanas de direitos humanos. O estudo documenta graves viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos cometidas no M\u00e9xico entre 2006 e 2015, e afirma que s\u00e3o crimes que devem ser considerados de lesa humanidade, por sua natureza sistem\u00e1tica ou generalizada contra a popula\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>S\u00e3o desaparecimentos cometidos por autoridades militares, federais e estatais, uma pr\u00e1tica dif\u00edcil de entender em uma democracia, insistem ativistas humanit\u00e1rios locais e internacionais. \u201cUm \u00fanico desaparecimento for\u00e7ado ou por motivos pol\u00edticos, em qualquer pa\u00eds, teria que colocar em d\u00favida se efetivamente existe um Estado de Direito. N\u00e3o se pode falar de uma democracia com v\u00edtimas de desaparecimento for\u00e7ado\u201d, afirmou H\u00e9ctor Cerezo, respons\u00e1vel pela documenta\u00e7\u00e3o de desaparecimentos for\u00e7ados do Comit\u00ea Cerezo M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Este comit\u00ea \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o mais s\u00f3lida na documenta\u00e7\u00e3o de desaparecimentos for\u00e7ados, sejam por motivos pol\u00edticos ou n\u00e3o. No dia 24 deste m\u00eas, apresentou o informe <em>Defender os Direitos Humanos no M\u00e9xico: A Normaliza\u00e7\u00e3o da Repress\u00e3o Pol\u00edtica<\/em>, que documenta 11 casos de desaparecimentos for\u00e7ados de defensores dos direitos humanos, entre junho de 2015 e maio de 2016.<\/p>\n<p>\u201cAo ser ampliado, o uso do desaparecimento for\u00e7ado tamb\u00e9m funciona como mecanismo de controle social e mudan\u00e7a de rotas migrat\u00f3rias, de recrutamento for\u00e7ado de jovens e mulheres, e de deslocamento for\u00e7ado exercido em regi\u00f5es espec\u00edficas contra toda a popula\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o documento. Cerezo assegurou \u00e0 IPS que, no M\u00e9xico, o desaparecimento for\u00e7ado \u201cdeixou de ser mecanismo de repress\u00e3o pol\u00edtica para ser uma pol\u00edtica de Estado que quer gerar terror na popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo sentido que as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, a Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pediu ao M\u00e9xico, em mar\u00e7o, que reconhe\u00e7a a \u201cgravidade da crise de direitos humanos que o pa\u00eds enfrenta\u201d. O relat\u00f3rio, que a CIDH apresentou sobre sua visita ao M\u00e9xico em 2015, denuncia n\u00fameros \u201calarmantes\u201d de desaparecimentos involunt\u00e1rios e for\u00e7ados, com interven\u00e7\u00e3o de agentes do Estado, bem como os altos \u00edndices de execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais, torturas, inseguran\u00e7a social, falta de acesso \u00e0 justi\u00e7a e impunidade.<\/p>\n<p>O governo mexicano rejeitou uma e outra vez as den\u00fancias de organismos internacionais. Mas sua nega\u00e7\u00e3o da gravidade do problema tem poucas consequ\u00eancias. Pelo Dia Internacional das V\u00edtimas de Desaparecimentos For\u00e7ados, celebrado em 30 de agosto, a comunidade internacional \u2013 segundo os ativistas ouvidos pela IPS \u2013 tem a possibilidade de contornar a crise mexicana e cobrar de um Estado que sistematicamente desaparece com setores da popula\u00e7\u00e3o civil, como documentaram as organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"attachment_213354\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-213354\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico3.jpg\" alt=\"Os cartazes com fotos coletivas de desaparecidos procurados est\u00e3o se tornando comuns no M\u00e9xico, como este em uma igreja de Iguala, no Estado de Guerrero, no sudoeste do pa\u00eds. Foto: Daniela Pastrana\/IPS \" width=\"340\" height=\"191\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico3.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Mexico3-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Os cartazes com fotos coletivas de desaparecidos procurados est\u00e3o se tornando comuns no M\u00e9xico, como este em uma igreja de Iguala, no Estado de Guerrero, no sudoeste do pa\u00eds. Foto: Daniela Pastrana\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Nem tudo \u00e9 negativo a respeito desse fen\u00f4meno dos desaparecimentos for\u00e7ados, que se contradiz com a democracia desse pa\u00eds de quase 120 milh\u00f5es de habitantes sem conflito interno. Este ano, familiares ganharam duas importantes batalhas legais, uma delas \u00e9 uma decis\u00e3o para que o Ex\u00e9rcito abra suas instala\u00e7\u00f5es para a busca dos militantes do Ex\u00e9rcito Popular Revolucion\u00e1rio desaparecidos em Oaxaca, embora a senten\u00e7a ainda n\u00e3o tenha sido cumprida.<\/p>\n<p>Tampouco h\u00e1 avan\u00e7os na Lei Geral Contra o Desaparecimento For\u00e7ado, que \u00e9 discutida no Congresso. \u201cO \u00faltimo rascunho n\u00e3o atende aos padr\u00f5es internacionais de desaparecimento for\u00e7ado nem \u00e0s necessidades das v\u00edtimas, que n\u00e3o t\u00eam recursos efetivos para enfrentar o processo judicial do desaparecimento de seus familiares. N\u00e3o h\u00e1 um acesso real, nem \u00e0 justi\u00e7a, nem \u00e0 repara\u00e7\u00e3o, muito menos \u00e0 n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o\u201d, pontuou Cerezo.<\/p>\n<p>No mais recente caso p\u00fablico, o de Maximiliano Gordillo, a Procuradoria Especializada em Busca de Pessoas Desaparecidas, do governo federal, se negou a pedir a investiga\u00e7\u00e3o \u00e0 sua regional em Tabasco.Por sua vez, a Comiss\u00e3o Nacional dos Direitos Humanos divulgou medidas cautelares para evitar uma recomenda\u00e7\u00e3o contundente, e o Instituto de Migra\u00e7\u00e3o recha\u00e7a ter retido o jovem, mas se nega a entregar a lista dos funcion\u00e1rios, v\u00eddeos e registros de entradas e sa\u00eddas na barraca de migra\u00e7\u00e3o onde o rapaz foi visto pela \u00faltima vez.<\/p>\n<p>O jovem completou 19 anos no dia 22. \u201cEstamos muito tristes sem ele. Celebramos um anivers\u00e1rio amargo, de dor\u201d, explicou seu pai \u00e0 IPS, antes de anunciar que, a partir do dia 25 deste m\u00eas, vai espalhar cartazes procurando seu filho em mais de 60 munic\u00edpios de Chiapas. Enquanto os dias passam sem que as investiga\u00e7\u00f5es avancem, o ind\u00edgena vai de \u00f3rg\u00e3o em \u00f3rg\u00e3o com um pedido: \u201cSe voc\u00eas, irm\u00e3os, irm\u00e3s, podem falar ao governo, pe\u00e7am que devolva meu filho, porque est\u00e3o com ele, eles o levaram\u201d. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>*Este artigo \u00e9 parte da cobertura da IPS por ocasi\u00e3o do Dia Internacional das V\u00edtimas de Desaparecimentos For\u00e7ados, celebrado em 30 de agosto.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Daniela Pastrana, da IPS &ndash;&nbsp; Cidade do M&eacute;xico, M&eacute;xico, 29\/8\/2016 &ndash; &ldquo;Avise meu pai que me detiveram aqui&rdquo;, disse Maximiliano Gordillo Mart&iacute;nez ao seu companheiro de viagem, no dia 7 de maio, na esta&ccedil;&atilde;o migrat&oacute;ria de Chabl&eacute;, no Estado mexicano de Tabasco. 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