{"id":2116,"date":"2006-10-08T00:00:00","date_gmt":"2006-10-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2116"},"modified":"2006-10-08T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-08T00:00:00","slug":"ir-em-um-jogo-de-mdico-e-monstro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/direitos-humanos\/ir-em-um-jogo-de-mdico-e-monstro\/","title":{"rendered":"Ir&atilde;: Em um jogo de m&eacute;dico e monstro"},"content":{"rendered":"<p>Teer&atilde;, 08\/10\/2006 &ndash; Nada pode ser mais enganoso do que a imagem da vida no Ir&atilde; projetada pela imprensa ocidental, de homens barbados que atiram pedras contra embaixadas e de mulheres encobertas por pesados v&eacute;us negros. <!--more--> De perto, a vida no Ir&atilde; oferece um panorama muito mais colorido e v&iacute;vido, embora o establishment religioso fa&ccedil;a de tudo para que a na&ccedil;&atilde;o coincida com a imagem predominante no estrangeiro. \u201cEm um regime autorit&aacute;rio que tenta controlar os ambientes mais &iacute;ntimos, as pessoas t&ecirc;m uma vida dupla. Usam m&aacute;scaras em p&uacute;blico, mas no privado vivem a vida que querem viver\u201d, disse um analista que pediu para n&atilde;o ter sua identidade revelada por medo de poss&iacute;veis repres&aacute;lias. \u201cO Estado isl&acirc;mico dominado pelo setor conservador e de linha dura quer controlar cada aspecto da vida em que as pessoas acreditam ou o que pensam, as rela&ccedil;&otilde;es pessoas, o que olham ou l&ecirc;em, tudo deve ser aprovado pelo Estado\u201d, disse o informante.<\/p>\n<p>Existe uma raz&atilde;o hist&oacute;rica, muito enraizada no credo xiita \u2013 ramo do Isl&atilde; praticado pela maioria dos iranianos e que &eacute; a religi&atilde;o oficial desde a revolu&ccedil;&atilde;o de 1979 \u2013 para a \u201cdupla vida\u201d a que se refere o analista. \u201cO xi&iacute;smo, muito combatido pela autoridade ao longo da historia, sempre pregou que em tempos de repress&atilde;o, quando a pr&aacute;tica da f&eacute; implica um perigo pessoal, as pessoas podem ocultar suas cren&ccedil;as e fingir que aderem &agrave; religi&atilde;o oficial\u201d, explicou a fonte.\u201dEste argumento ajuda a justificar o div&oacute;rcio mental entre o que &eacute; p&uacute;blico e o que &eacute; privado. Mas aparentemente os mais jovens est&atilde;o cansados da dupla vida e querem deix&aacute;-la para tr&aacute;s\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cOs jovens querem ser indiv&iacute;duos, em lugar de sumir na multid&atilde;o. Procuram exibir suas diferen&ccedil;as. &Eacute; uma rea&ccedil;&atilde;o diante da press&atilde;o para que se amoldem &agrave; imagem obrigat&oacute;ria. E n&atilde;o se conformam mais em viver livres dentro dos limites do lar, com as gera&ccedil;&otilde;es anteriores\u201d, disse um ativista estudantil. Durante o governo anterior, liderado pelo moderado presidente Mohammad Khatami, foi aliviada a press&atilde;o sobre a vida privada. Os centros culturais municipais eram palco freq&uuml;ente de concertos musicais e exposi&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas. Os jornais e as revistas privadas eram exibidos na via p&uacute;blica e houve aumento entre usu&aacute;rios de televis&atilde;o via sat&eacute;lite e Internet. Foram levantadas as proibi&ccedil;&otilde;es que havia sobre determinados filmes e livros. V&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais foram criadas, incentivadas pelo pr&oacute;prio governo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a popula&ccedil;&atilde;o deixou de levar em conta o r&iacute;gido c&oacute;digo de vestimenta. Os cybercaf&eacute;s e bares para o p&uacute;blico jovem, antes reprimidos pelos religiosos por consider&aacute;-los uma corruptora influ&ecirc;ncia ocidental, surgiram como fungos. Com o retorno ao poder da direita religiosa, em junho de 2005, renasceu a press&atilde;o de cl&eacute;rigos e militantes. Corrigir o comportamento do p&uacute;blico &eacute; uma das prioridades dos poderes do Estado e da pol&iacute;cia. As autoridades lan&ccedil;aram v&aacute;rios embates contra as liberdades pessoais: campanha contra a TV via sat&eacute;lite, r&iacute;gido controle dos c&oacute;digos de vestimenta, negar autoriza&ccedil;&atilde;o para impress&atilde;o de livros, proibir filmes e obras teatrais, al&eacute;m de filtros aplicados &agrave; Internet s&atilde;o alguns exemplos.<\/p>\n<p>\u201cA televis&atilde;o estatal est&aacute; cheia de programas com mul&aacute;s (cl&eacute;rigos) que pregam o uso do chador negro para as mulheres. N&atilde;o s&atilde;o nada interessantes. Gostaria de ser livre para escolher o que assistir, o que vestir, o que ler\u201d, lamentou um t&eacute;cnico de 19 anos que disse chamar-se Arash e preferiu n&atilde;o dar o sobrenome. \u201cAs coisas voltam gradualmente ao estado em que estavam nos velhos tempos. Ainda n&atilde;o se nota muito. Meus pais dizem que nos primeiros dias da Revolu&ccedil;&atilde;o Isl&acirc;mica s&oacute; eram permitidas m&uacute;sica cl&aacute;ssica e can&ccedil;&otilde;es revolucion&aacute;rias\u201d, contou Arash. \u201cPassaram-s uns poucos anos para que a m&uacute;sica pop se tornasse aceit&aacute;vel para o establishment. Agora, vamos pelo mesmo caminho, mas, ao contr&aacute;rio, e creio que chegaremos ao ponto de partida\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O c&oacute;digo de vestimenta sempre foi o sinal mais &oacute;bvio e vis&iacute;vel de \u201cconformidade\u201d, e os conservadores reclamam que a pol&iacute;cia e outras for&ccedil;as de seguran&ccedil;a cuidam para que ele seja cumprido. Nas universidades e escolas, seu cumprimento &eacute; mais r&iacute;gido, depois de muitos anos de toler&acirc;ncia. O ver&atilde;o come&ccedil;ou em Teer&atilde; com chamados de alerta para as mulheres. Policiais femininas que vestem amplos v&eacute;us negros sobre seu uniforme colocaram-se em algumas das avenidas mais movimentadas para convidar as mulheres a destacarem a virtude. Os fabricantes e vendedores de roupa feminina foram advertidos sobre roupa justa e as saias curtas e, inclusive, foram organizados dois \u201cdesfiles de moda isl&acirc;mica\u201d para indicar ao p&uacute;blico o limite do aceit&aacute;vel.<\/p>\n<p>\u201cNo m&ecirc;s passado, 63 mil pessoas receberam \u2018assessoramento corretivo&#039; e assinaram compromissos de acatar o c&oacute;digo de vestimenta. Mais de 1,1 mil ve&iacute;culos foram apreendidos por uso de equipamentos de m&uacute;sica em volume alto ou por darem fazerem sinais a mulheres vestidas de maneira impr&oacute;pria. Os autom&oacute;veis permanecer&atilde;o apreendidos por um a tr&ecirc;s meses\u201d, disse um alto funcion&aacute;rio policiai ao jornal reformista Etemad Melli, do dia 28 de agosto. Mas a propaganda estatal e os controles n&atilde;o s&atilde;o muito efetivos, pelo menos com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; vestimenta. Em Teer&atilde; e na maioria das cidades, se v&ecirc; menos \u201cconformistas\u201d do que \u201cinconformistas\u201d. A situa&ccedil;&atilde;o &eacute; muito diferente em Qom, a capital religiosa do Ir&atilde;, onde homens em mangas de camisa ou mulheres sem v&eacute;u s&atilde;o impedidos de entrar em muitos lugares. Mas as mo&ccedil;as com roupa colorida e usando maquiagem s&atilde;o uma paisagem habitual das grandes cidades, dos centros tur&iacute;sticos e, em menor medida, nos pequenos povoados.<\/p>\n<p>Homens jovens de barba feita ou cabelo comprido n&atilde;o s&atilde;o dif&iacute;ceis de encontrar em lugares como o centro comercial Golestan, em Teer&atilde;. E tamb&eacute;m &eacute; pouco comum serem presos por isso. Quase 70% da popula&ccedil;&atilde;o iraniana tem menos de 30 anos. E mais de 60% dos estudantes universit&aacute;rios s&atilde;o formados por mulheres, quando eram apenas 34% antes da Revolu&ccedil;&atilde;o Isl&acirc;mica de 1979. Muitos conservadores est&atilde;o a par da demanda de liberdade pelos mais jovens. Em sua campanha eleitoral, o presidente Mahmoud Ahmadinejad disse que seu governo n&atilde;o iria interferir na vida privada ou na vestimenta.<\/p>\n<p>Ao assumir o cargo, tentou melhorar sua imagem permitindo &agrave;s mulheres entrar em espet&aacute;culos esportivos, embora em lugares separados do p&uacute;blico masculino. Um dia depois, teve de anular seu pr&oacute;prio decreto: cl&eacute;rigos de Qom advertiram que a presen&ccedil;a de mulheres nas partidas de futebol era inapropriada e corruptora. \u201cNenhum governo deveria intervir deste modo na vida das pessoas\u201d, disse Elnaz, uma secret&aacute;ria de 23 anos. \u201cDo mesmo modo que h&aacute; grande variedade de gostos em mat&eacute;ria de m&uacute;sica, livros e televis&atilde;o, deveria haver liberdade para escolher a roupa. Por que n&atilde;o fazer uma consulta a respeito atrav&eacute;s das urnas?\u201d, perguntou.<\/p>\n<p> Um analista, que tamb&eacute;m pediu reserva de seu nome, afirmou que \u201ca repress&atilde;o social acrescenta uma nova dimens&atilde;o aos problemas j&aacute; existentes\u201d, que ocupam \u201co regime em v&aacute;rias frentes externas e internas. Mas a hist&oacute;ria do Ir&atilde; nos mostra que estes enfrentamentos n&atilde;o passam de uma guerra de desgaste e que, no fim das contas, o Estado cede &agrave; press&atilde;o popular. O Estado isl&acirc;mico n&atilde;o pode for&ccedil;ar uma mudan&ccedil;a para a qual as pessoas n&atilde;o est&atilde;o genuinamente preparadas\u201d, afirmou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teer&atilde;, 08\/10\/2006 &ndash; Nada pode ser mais enganoso do que a imagem da vida no Ir&atilde; projetada pela imprensa ocidental, de homens barbados que atiram pedras contra embaixadas e de mulheres encobertas por pesados v&eacute;us negros. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/direitos-humanos\/ir-em-um-jogo-de-mdico-e-monstro\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1470,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[16],"class_list":["post-2116","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","tag-oriente-medio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2116","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1470"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2116"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2116\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}