{"id":21208,"date":"2016-09-14T13:12:13","date_gmt":"2016-09-14T13:12:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=213961"},"modified":"2016-09-14T13:12:13","modified_gmt":"2016-09-14T13:12:13","slug":"amazonia-da-borracha-a-energia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/09\/ultimas-noticias\/amazonia-da-borracha-a-energia\/","title":{"rendered":"Amaz\u00f4nia, da borracha \u00e0 energia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_213962\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-213962\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Euro-Tourinho.jpg\" alt=\" Euro Tourinho, propriet\u00e1rio e diretordo jornal Alto Madeira, que formou gera\u00e7\u00f5es de jornalistas no Estado de Rond\u00f4nia. Aos 94 anos, \u00e9 a hist\u00f3ria viva dessa regi\u00e3o amaz\u00f4nica de passado frustrado e presente incerto, grande provedora da hidroeletricidade do pa\u00eds. Foto: Mario Osava\/IPS \" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Euro-Tourinho.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Euro-Tourinho-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> Euro Tourinho, propriet\u00e1rio e diretordo jornal Alto Madeira, que formou gera\u00e7\u00f5es de jornalistas no Estado de Rond\u00f4nia. Aos 94 anos, \u00e9 a hist\u00f3ria viva dessa regi\u00e3o amaz\u00f4nica de passado frustrado e presente incerto, grande provedora da hidroeletricidade do pa\u00eds. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p><strong><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Entre a borracha e a hidroeletricidade, Rond\u00f4nia viveu uma intensa expans\u00e3o agropecu\u00e1ria e mineradora, desmatando extensas \u00e1reas. Numerosos ind\u00edgenas foram massacrados por mineiros ilegais, agricultores e pecuaristas.<\/em><\/p>\n<p>Porto Velho, Rond\u00f4nia, 14\/9\/2016 \u2013 Euro Tourinho tinha oito anos, em 1930, quando acompanhou sua m\u00e3e at\u00e9 Campo Grande, j\u00e1 na \u00e9poca grande cidade do centro-oeste do Brasil, para o parto de um irm\u00e3o. \u201cForam 30 dias viajando em carro de boi. Poderiam ser cinco, a cavalo, seguindo a linha do tel\u00e9grafo, mas meu pai temia ataques ind\u00edgenas\u201d, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Pouco depois, seu pai, um fazendeiro em Corumb\u00e1, no Mato Grosso do Sul, na fronteira com o sudeste da Bol\u00edvia, escapou ileso de um tiroteio que perfurou seu carro, um dos poucos existentes no pa\u00eds naquela \u00e9poca. Conflitos pela terra costumavam ser resolvidos na base do \u201c38\u201d, o calibre do tipo de rev\u00f3lver que \u201ctodos usavam\u201d. Mas um emprego p\u00fablico e a indeniza\u00e7\u00e3o recebida da ferrovia que cruzaria sua fazenda lhe permitiram evitar essa guerra, em troca de adentrar ainda mais na selva brasileira.<\/p>\n<p>Para assumir o cargo no territ\u00f3rio que hoje \u00e9 Rond\u00f4nia, Estado na fronteira com o norte da Bol\u00edvia, teve que viajar por seis meses com a fam\u00edlia, por terra at\u00e9 S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, depois por mar at\u00e9 Bel\u00e9m e por rios amaz\u00f4nicos at\u00e9 seu novo lar. Uma volta quase completa pela geografia brasileira.<\/p>\n<p>Acess\u00edvel praticamente apenas por lentas embarca\u00e7\u00f5es fluviais at\u00e9 1960, Rond\u00f4nia hoje \u00e9 um entroncamento log\u00edstico entre a Amaz\u00f4nia, o industrializado sudeste do pa\u00eds, a Bol\u00edvia e o Peru, um fator importante para seu poss\u00edvel desenvolvimento. Est\u00e1 em meio a estradas que unem os oceanos Atl\u00e2ntico e Pac\u00edfico no Peru, conta com outras que penetram na Amaz\u00f4nia ou v\u00e3o para o norte colombiano e com a hidrovia do rio Madeira, por onde exporta boa parte da soja colhida no oeste brasileiro, barateando o transporte.<\/p>\n<p>A mais recente transforma\u00e7\u00e3o do Estado deriva da constru\u00e7\u00e3o, entre 2008 e 2016, de duas grandes centrais hidrel\u00e9tricas no rio Madeira, perto da capital Porto Velho, que assim passa a ser grande provedor de energia.<\/p>\n<p>Aos 94 anos, Tourinho \u00e9 a hist\u00f3ria viva desse processo e dos ciclos econ\u00f4micos que se sucederam em Rond\u00f4nia, Estado com 1,8 milh\u00e3o de habitantes, 510 mil deles morando na capital. Come\u00e7ou pelo neg\u00f3cio da borracha, que enriqueceu a Amaz\u00f4nia desde o final do s\u00e9culo 19, gra\u00e7as \u00e0 demanda por pneus por parte da nascente ind\u00fastria automobil\u00edstica. Aos 22 anos, Tourinho herdou do pai falecido uma floresta de seringueiras.<\/p>\n<div id=\"attachment_213964\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-213964\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ProntoAtendimento.jpg\" alt=\"Unidade de Pronto Atendimento na localidade de Jacy Paran\u00e1, de tr\u00eas mil habitantes, localizada entre as represas de Santo Ant\u00f4nio e de Jirau, as duas centrais hidrel\u00e9tricas de Rond\u00f4nia. Essa unidade de sa\u00fade, constru\u00edda h\u00e1 dois anos, permanece fechada, sem m\u00e9dicos nem equipamentos, em um lugar sumido e no abandono. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ProntoAtendimento.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ProntoAtendimento-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Unidade de Pronto Atendimento na localidade de Jacy Paran\u00e1, de tr\u00eas mil habitantes, localizada entre as represas de Santo Ant\u00f4nio e de Jirau, as duas centrais hidrel\u00e9tricas de Rond\u00f4nia. Essa unidade de sa\u00fade, constru\u00edda h\u00e1 dois anos, permanece fechada, sem m\u00e9dicos nem equipamentos, em um lugar sumido e no abandono. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Naquela \u00e9poca, 1944, vivia-se um auge da borracha. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) demandava grandes suprimentos para os ve\u00edculos militares e a Mal\u00e1sia, principal produtora, estava sob controle do Jap\u00e3o, deixando os Estados Unidos e seus aliados dependentes da borracha brasileira.Terminado o conflito, os pre\u00e7os ca\u00edram e foi inevit\u00e1vel a decad\u00eancia da economia baseada na borracha na Amaz\u00f4nia, incapaz de competir com a produ\u00e7\u00e3o intensiva do sudeste asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Tourinho deixou o seringal e a selva e abriu um sal\u00e3o de bilhar em Porto Velho, capital do Estado, ao lado da sede do jornal <em>Alto Madeira<\/em>, onde come\u00e7ou a escrever em 1950 e desde ent\u00e3o, como jornalista, se converteu em testemunha da evolu\u00e7\u00e3o de Rond\u00f4nia. Em 1970 adquiriu o jornal e at\u00e9 hoje dirige pessoalmente sua edi\u00e7\u00e3o, com disciplinada dedica\u00e7\u00e3o. \u201cEnquanto eu viver, o jornal impresso n\u00e3o acabar\u00e1\u201d, afirmou sobre o <em>Alto Madeira<\/em>, que completar\u00e1 cem anos em 2017.<\/p>\n<p>Tourinho segue aferrado \u00e0 sua velha m\u00e1quina de escrever, recha\u00e7ando o computador, mas n\u00e3o os novos temas. \u201cAs centrais hidrel\u00e9tricas t\u00eam um impacto negativo, que \u00e9 destruir a natureza, engolir florestas, mas, sem eletricidade n\u00e3o h\u00e1 progresso. Porto Velho s\u00f3 tem funcion\u00e1rios p\u00fablicos, necessita atrair ind\u00fastrias, ainda que pequenas, como as de confec\u00e7\u00e3o de roupas\u201d, opinou.<\/p>\n<p>A hidrel\u00e9trica Santo Ant\u00f4nio, constru\u00edda a seis quil\u00f4metros de Porto Velho, com capacidade para 3.150 megawatts (MW), se prepara para acrescentar outros 417 MW, somando seis novas turbinas \u00e0s 44 j\u00e1 operando. A energia adicional se destinaria exclusivamente a Rond\u00f4nia e ao vizinho Estado do Acre.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante porque teremos excedentes energ\u00e9ticos para atrair investimentos. At\u00e9 agora, nos apag\u00f5es somos os primeiros a sofrer a queda no fornecimento e o restabelecimento se d\u00e1 ao contr\u00e1rio, por \u00faltimo aqui\u201d, apontou \u00e0 IPS Marcelo Thom\u00e9, presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias de Rond\u00f4nia (Fiero).<\/p>\n<p>\u201cO grande legado da constru\u00e7\u00e3o das centrais \u00e9 umanova cultura empresarial, a qualifica\u00e7\u00e3o de empresas e empres\u00e1rios como melhores provedores de servi\u00e7os e produtos. Tamb\u00e9m foi capacitada a m\u00e3o de obra, com a experi\u00eancia de trabalhar em uma grande empresa\u201d, acrescentou Thom\u00e9. Mas a industrializa\u00e7\u00e3o esperada pela Fiero n\u00e3o aconteceu. Tampouco o grande aumento do com\u00e9rcio com o Peru, para o qual foi constru\u00edda a estrada interoce\u00e2nica conclu\u00edda em 2011.<\/p>\n<div id=\"attachment_213965\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-213965\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/pastagem.jpg\" alt=\"Uma pastagem incendiada na margem do trecho da rodovia BR-364 que leva ao norte da Bol\u00edvia e leste do Peru, a partir de Rond\u00f4nia. As grandes queimadas diminu\u00edram na Amaz\u00f4nia, mas persistem os inc\u00eandios em pequenas \u00e1reas. Foto: Mario Osava\/IPS\" width=\"340\" height=\"255\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/pastagem.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/pastagem-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Uma pastagem incendiada na margem do trecho da rodovia BR-364 que leva ao norte da Bol\u00edvia e leste do Peru, a partir de Rond\u00f4nia. As grandes queimadas diminu\u00edram na Amaz\u00f4nia, mas persistem os inc\u00eandios em pequenas \u00e1reas. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Agora os empres\u00e1rios buscam identificar voca\u00e7\u00f5es e processos adequados a \u201ccadeias de produ\u00e7\u00e3o\u201d locais. A ind\u00fastria de alimentos, aproveitando a agricultura em expans\u00e3o, \u00e9 um bom caminho, disse \u00e0 IPS o superintendente da Fiero, Gilberto Baptista.<\/p>\n<p>Entre a borracha e a hidroeletricidade, o Estado viveu uma intensa expans\u00e3o agropecu\u00e1ria e mineradora, desmatando extensas \u00e1reas. Numerosos ind\u00edgenas foram massacrados por mineiros ilegais, agricultores e pecuaristas. Rond\u00f4nia foi um dos Estados que recebeu mais migrantes, atra\u00eddos por campanhas governamentais de ocupa\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica nos anos 1970 e 1980.<\/p>\n<p>O eixo da devasta\u00e7\u00e3o foi a rodovia BR-364, que cruza o Brasil de sudeste a noroeste, inaugurada em 1960 pelo ent\u00e3o presidente Juscelino Kubitschek, derrubando com um trator a \u00faltima \u00e1rvore do caminho, mas cuja pavimenta\u00e7\u00e3o em Rond\u00f4nia demorou mais de duas d\u00e9cadas. \u201cNaquela \u00e9poca, nem se falava de ecologia\u201d, recordou Tourinho, que esteve no ato para entregar a Juscelino um exemplar do <em>Alto Madeira<\/em>.<\/p>\n<p>Agora, os protestos e as den\u00fancias de ambientalistas, ativistas sociais e do Minist\u00e9rio P\u00fablico se tornaram insepar\u00e1veis dos projetos hidrel\u00e9tricos, especialmente na Amaz\u00f4nia, apesar dos crescentes recursos destinados pelas empresas concession\u00e1rias a a\u00e7\u00f5es de compensa\u00e7\u00e3o e mitiga\u00e7\u00e3o de danos.<\/p>\n<p>O Movimento de Afetados por Barragens (MAB) considera, por exemplo, que as empresas subestimaram a \u00e1rea inundada e, por fim, a quantidade de fam\u00edlias a serem reassentadas ou indenizadas.\u201cO solo aqui \u00e9 argiloso, empapa, e, com a sedimenta\u00e7\u00e3o, a represa se expande, matando \u00e1rvores e deixando a terra improdutiva, al\u00e9m de contaminar po\u00e7os de \u00e1gua pot\u00e1vel\u201d, afetando mais gente do que admitem as companhias, destacou \u00e0 IPS um dos coordenadores do MAB em Rond\u00f4nia, Jo\u00e3o Dutra.<\/p>\n<p>\u201cNosso programa de monitoramento demonstra que n\u00e3o h\u00e1 interfer\u00eancia da represa no len\u00e7ol fre\u00e1tico\u201d, contra-atacou a concession\u00e1ria Santo Ant\u00f4nio Energia, em uma resposta por escrito.\u201cO solo empapa, mas j\u00e1 inundava antes da represa. Grande parte da \u00e1rea vizinha \u00e9 de \u2018umiziral\u2019 uma \u00e1rea vulner\u00e1vel\u201d, explicou Ver\u00edssimo Alves, gerente socioambiental da Energia Sustent\u00e1vel do Brasil (ESBR), a concession\u00e1ria da hidrel\u00e9trica de Jirau, 110 quil\u00f4metros rio acima da de Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>\u201cUmiziral\u201d define a vegeta\u00e7\u00e3o lenhosa nascida em solos pobres e inund\u00e1veis quando chove. Por isso a ESBR recha\u00e7a reassentar os moradores de Abun\u00e3, cerca de cinco mil, segundo o MAB. Todos reconhecem que a brutal cheia do rio Madeira, em 2014, alterou as condi\u00e7\u00f5es, inclusive de sedimenta\u00e7\u00e3o, e pode ter agravado esses fen\u00f4menos. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/opiniao\/amazonia-da-borracha-energia\/\">Amaz\u00f4nia, da borracha \u00e0 energia<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Entre a borracha e a hidroeletricidade, Rond&ocirc;nia viveu uma intensa expans&atilde;o agropecu&aacute;ria e mineradora, desmatando extensas &aacute;reas. Numerosos ind&iacute;genas foram massacrados por mineiros ilegais, agricultores e pecuaristas. 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