{"id":2122,"date":"2006-10-09T00:00:00","date_gmt":"2006-10-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2122"},"modified":"2006-10-09T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-09T00:00:00","slug":"jornalismo-lembranas-do-11-de-setembro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/politica\/jornalismo-lembranas-do-11-de-setembro\/","title":{"rendered":"Jornalismo: Lembran&ccedil;as do 11 de setembro"},"content":{"rendered":"<p>Roma, 09\/10\/2006 &ndash; \u201cSe existe uma &uacute;nica imagem para recordar a destrui&ccedil;&atilde;o do World Trade Center &eacute; o salto desde os andares mais altos daqueles que escolheram uma morte diferente da sufoca&ccedil;&atilde;o pela fuma&ccedil;a ou consuma&ccedil;&atilde;o pelas chamas\u201d, escreveu John Bussey, do jornal The Wall Street Journal. <!--more--> O jornalista foi um dos sobreviventes dos devastadores atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em nu e Washington. Bussey ficou esquecido na Torre G&ecirc;mea N&uacute;mero Um depois que o edif&iacute;cio foi evacuado. \u201cQuando as janelas explodiram e o escombro come&ccedil;ou a chover dentro do escrit&oacute;rio, me escondi debaixo de uma mesa. Tentava salvar minha vida\u201d, lembrou uma entrevista concedida dias depois.<\/p>\n<p>Os jornalistas que presenciaram o massacre entenderam de imediato que a partir desse momento nada voltaria a ser o mesmo. Entretanto, nunca imaginaram o que ocorreriam nos cinco anos seguintes: a campanha militar no Afeganist&atilde;o, invas&atilde;o e ocupa&ccedil;&atilde;o do Iraque, jornalistas instalados em unidades militares e a \u201cguerra contra o terrorismo\u201d. Um total de 103 jornalistas e trabalhadores da imprensa morreram no Iraque desde o inicio da guerra, em mar&ccedil;o de 203, segundo a organiza&ccedil;&atilde;o Rep&oacute;rteres Sem Fronteiras. Dois ainda permanecem desaparecidos. Esta ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias perdeu seu colaborador Alaa Hassan em um tiroteio nas ruas de Bagd&aacute; em julho passado.<\/p>\n<p>O 11 de setembro de 2001, imediatamente depois do primeiro impacto, enquanto uma torrente de pessoas fugia do epicentro, bombeiros, policiais e jornalistas seguiam na dire&ccedil;&atilde;o oposta. A coragem dos policiais e bombeiros foi elogiada em v&aacute;rios filmes e document&aacute;rios. Mas, o que os jornalistas experimentaram ainda n&atilde;o veio &agrave; luz. William Biggart foi, provavelmente, o primeiro jornalista gr&aacute;fico no lugar dos atentados. Seu cad&aacute;ver foi encontrado entre as ru&iacute;nas do World Trade Center quatro dias depois.<\/p>\n<p>David Handschuh, do New York Daily News, teve melhor sorte. Foi empurado pela onda expansiva e ficou debaixo de um automovel estacionado proximo do local. Conseguiu escapar com fraturas em uma perna. Seth Cohen, outro rep&oacute;rter fotogr&aacute;fico, foi acordado naquela manh&atilde; pelo telefone. Vivia a seis quarteir&otilde;es das Torres G&ecirc;meas. Pegou a bicicleta e a c&acirc;mera e se dirigiu rapidamente para o lugar dos atentados. N&atilde;o podia acreditar no que estava vivendo, contou mais tarde. As pessoas estavam todas cobertas de p&oacute;. Aquilo parecia uma alucina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ele tentou concentrar-se e come&ccedil;ou a fotografar. Em suas tomadas, em preto e branco, se v&ecirc; uma n&eacute;voa fantasmag&oacute;rica cobrindo as &aacute;rvores que em p&eacute; e uma placa de orienta&ccedil;&atilde;o do tr&acirc;nsito indicando o caminho perdido para Wall Street. Xavier Ara&uacute;jo, do jornal porto-riquenho El Nuevo Dia, fez imagens que revelam o inferno vivido dentro das Torres G&ecirc;meas. \u201cFizemos fotos de pessoas saltando dos edif&iacute;cios\u201d, disse, pouco depois dos ataques. \u201cEstava dormindo quando meu editor ligou\u201d, disse Greg Kelly, ex-jornalista do canal de televis&atilde;o local Nova York-1. Seu primeiro impulso foi ir para o St. Vincent\u2019s Hospital, na rua 11. Esperava-se a chegada de centenas de feridos.<\/p>\n<p>Mas, \u201cem seguida ficou claro que n&atilde;o seria o melhor lugar. N&atilde;o chegava ningu&eacute;m\u201d, lembrou em uma entrevista. Kelly decidiu se aproximar do que restava das Torres G&ecirc;meas. Foi parado por um membro da Guarda Nacional que confundiu sua credencial jornal&iacute;stica com uma autoriza&ccedil;&atilde;o policial. Ele n&atilde;o corrigiu o guarda e foi um dos primeiros jornalistas de televis&atilde;o a entrar nos lugar dos fatos. \u201cEstava t&atilde;o cheio de fuma&ccedil;a que todos pareciam desorientados. Nada estava em seu lugar. Algu&eacute;m aponto para algo no andar que parecia ser escombro. \u2018s&atilde;o partes humanas\u2019, disse em seguida. N&atilde;o se parecia com nenhuma parte de corpo humano que eu conhe&ccedil;o. N&atilde;o sentia raiva. Estava preocupado com a possibilidade de ser descoberto, posto para fora e ter minhas coisas confiscadas\u201d, contou.<\/p>\n<p>\u201cLogo ouvimos um grande estrondo. N&atilde;o pod&iacute;amos dizer de onde vinha. Est&aacute;vamos em uma montanha de escombros. O Edif&iacute;cio N&uacute;mero Sete do complexo do World Trade Center veio abaixo. Enquanto isso acontecia eu falava ao telefone: \u2018Holocausto nuclear\u2019 foi a &uacute;nica descri&ccedil;&atilde;o que me veio &agrave; mente\u201d, afirmou. Nessa tarde, esta jornalista fez fila com outras dezenas de pessoas no St. Vincent\u2019s Hospital, n&atilde;o longo de onde vivia, no cora&ccedil;&atilde;o da cidade. Como Kelly, descobri que n&atilde;o havia muitos feridos. Com meu tipo de sangue &eacute; O negativo, que pensava fosse ficar escasso para atender as v&iacute;timas, anotaram meu nome e telefone, mas, nunca ligaram.<\/p>\n<p>Yuri Kirilchenko, jornalista de radio que trabalhava para ag&ecirc;ncia de noticias russa Itar-Tass, estava estacionando seu carro perto do lugar quando houve o impacto contra a primeira torre. Um tsunami de escombros come&ccedil;ou a perseguir a multid&atilde;o que estava diante do pr&eacute;dio. Kirilchenko, um gigante de dois metros de altura, carregou algu&eacute;m em suas costas e fugiu do lugar. Desta maneira levou outras pessoas para locais seguros. Depois se sentiu mal. Sua mulher e seu editor o encontraram inconsciente perto de um hidrante. Seis horas mais tarde, acordou em uma cama de hospital ap&oacute;s ter passado por uma opera&ccedil;&atilde;o de urg&ecirc;ncia do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Minutos depois do segundo impacto. A torre N&uacute;mero Um foi evacuado. Ali ficavam os escrit&oacute;rios do The Wall Street Journal. Todos se perguntavam como faria o maior di&aacute;rio do pa&iacute;s para circular no dia seguinte. O jornal tinha uma segunda reda&ccedil;&atilde;o em Nova Jersey e um plano de emerg&ecirc;ncia. Mas, onde estavam os jornalistas? Imediatamente se soube quantas das 900 pessoas que trabalhavam no jornal haviam sa&iacute;do ilesas da trag&eacute;dia e puderam cruzar o rio, j&aacute; que a ilha de Manhattan estava praticamente fechada e s&oacute; se podia deix&aacute;-la por ferry-boat.<\/p>\n<p>Bussey, editor de internacional do jornal, contou ao vivo por telefone a destrui&ccedil;&atilde;o da qual foi testemunha para o canal de televis&atilde;o CNBC. O pr&eacute;dio come&ccedil;ou a desmoronar. Bussey saiu debaixo de sua mesa onde se refugiara e come&ccedil;ou a tatear a parede, buscando uma sa&iacute;da. Desorientado, passou duas vezes ao lado de uma porte, at&eacute; que conseguiu fugir. Enquanto isso, em Nova Jersey, alguns trabalhadores come&ccedil;avam a chegar, um por um. Assim, &agrave;s 16 horas haviam chegado apenas 30 jornalistas, de um total de 400 em dias normais.<\/p>\n<p>\u201cN&atilde;o havia editores, por isso Jim Pensiero, cujo trabalho era a administra&ccedil;&atilde;o do or&ccedil;amento da reda&ccedil;&atilde;o, mas que tinha alguma experi&ecirc;ncia editorial, se converteu no editor nesse dia. T&atilde;o logo chegaram alguns jornalistas, cobertos de p&oacute;, foi distribu&iacute;da a pauta, mesmo para quem n&atilde;o estava acostumado com essa tarefa. Quando cheguei, n&atilde;o restava nada por fazer, assim, comecei a escrever sobre o que havia visto\u201d, contou Bussey. \u201calguns ca&iacute;am (dos andares mais altos das Torres G&ecirc;meas) movendo bra&ccedil;os e pernas, olhando para baixo quando se aproximavam do ch&atilde;o. Outros ca&iacute;ram de costas, tentando ver as chamas e o c&eacute;u\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>\u201cA cena parecia tirada da (antiga cidade romana de ) Pomp&eacute;ia depois da erup&ccedil;&atilde;o do vulc&atilde;o Ves&uacute;vio. Cent&iacute;metros de cinzas no solo. Fuma&ccedil;a e p&oacute; turvavam o ar\u201d, acrescentou em sua cr&ocirc;nica, que apareceu na primeira p&aacute;gina do jornal no dia seguinte. Em outra sala de reda&ccedil;&atilde;o do centro de Manhattan, do jornal The New York Times, as coisas transcorreram de forma mais ordenada. \u201cOs ataques foram cometidos bem cedo, assim, pudemos nos organizar. O jornal imediatamente entendeu que enfrentava um desafio: o mundo nos olhava. Era um acontecimento de dimens&atilde;o hist&oacute;rica\u201d, disse Serge Schmemann, um dos principais editores do jornal.<\/p>\n<p>\u201dA cobertura deveria ser apropriada, s&oacute;bria, completa e n&atilde;o-especulativa. &Eacute; por isso que n&atilde;o falamos de milhares de mortos nem mencionamos Osama bin Laden (l&iacute;der da rede terrorista al Qaeda) como o culpado autom&aacute;tico. N&atilde;o quer&iacute;amos causar p&acirc;nico nem contribuir para a repress&atilde;o. Dev&iacute;amos passar ao exame da hist&oacute;ria\u201d, acrescentou. Quando viu pela televis&atilde;o a queda das Torres G&ecirc;meas, Schmenamm come&ccedil;ou a escrever um artigo, que foi primeira p&aacute;gina no dia seguinte. \u201cEnquanto m&eacute;dicos e enfermeiras nos hospitais da cidade atendiam centenas de feridos, crescia a sensa&ccedil;&atilde;o de que durante o dia haveria cada vez menos trabalho: os necrot&eacute;rios estariam mais ocupados\u201d, escreveu. O resto &eacute; hist&oacute;ria. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>* Miren Guti&eacute;rrez &eacute; editora-chefe da IPS. No dia dos atentados era a &uacute;nica jornalista presente do jornal espanhol El Pa&iacute;s. Este artigo est&aacute; baseado em entrevistas realizadas nessa oportunidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roma, 09\/10\/2006 &ndash; \u201cSe existe uma &uacute;nica imagem para recordar a destrui&ccedil;&atilde;o do World Trade Center &eacute; o salto desde os andares mais altos daqueles que escolheram uma morte diferente da sufoca&ccedil;&atilde;o pela fuma&ccedil;a ou consuma&ccedil;&atilde;o pelas chamas\u201d, escreveu John Bussey, do jornal The Wall Street Journal. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/politica\/jornalismo-lembranas-do-11-de-setembro\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":287,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[14],"class_list":["post-2122","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica","tag-america-do-norte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2122","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/287"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2122"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2122\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}