{"id":21249,"date":"2016-09-28T19:23:13","date_gmt":"2016-09-28T19:23:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=214509"},"modified":"2016-09-28T19:23:13","modified_gmt":"2016-09-28T19:23:13","slug":"milhares-de-africanos-perdidos-no-mexico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/09\/ultimas-noticias\/milhares-de-africanos-perdidos-no-mexico\/","title":{"rendered":"Milhares de africanos perdidos no M\u00e9xico"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_214510\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-214510\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/africanos-tijuana-guillermo-arias-01-1038x692-629x420.jpg\" alt=\" Alguns africanos diante de um posto de atendimento a migrantes, na cidade de Tijuana, na fronteira do M\u00e9xico com os Estados Unidos.Foto: Guillermo Arias\/Enelcamino\" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/africanos-tijuana-guillermo-arias-01-1038x692-629x420.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/africanos-tijuana-guillermo-arias-01-1038x692-629x420-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/africanos-tijuana-guillermo-arias-01-1038x692-629x420-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> Alguns africanos diante de um posto de atendimento a migrantes, na cidade de Tijuana, na fronteira do M\u00e9xico com os Estados Unidos.Foto: Guillermo Arias\/Enelcamino<\/p><\/div>\n<p><em>Por\u00a0Alberto N\u00e1jar, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Tijuana, M\u00e9xico, 28\/9\/2016 \u2013 \u00c9 uma tarde de s\u00e1bado. Da cidade de Tijuana, Sergio Tamai, ativista pelos direitos de pessoas migrantes, resume a nova crise nessa parte da fronteira do M\u00e9xico com os Estados Unidos. \u201cO governo j\u00e1 passou dos limites, por mais que tentem esconder, j\u00e1 n\u00e3o conseguem, e a situa\u00e7\u00e3o vai estourar em suas m\u00e3os\u201d, advertiu.<\/p>\n<p>Fundador da organiza\u00e7\u00e3o Anjos Sem Fronteiras, o ativista fala de um fen\u00f4meno in\u00e9dito, que surpreende essa cidade do extremo noroeste mexicano, a mais povoada do Estado de Baixa Calif\u00f3rnia e criada por migrantes: a chegada de milhares de africanos e haitianos que buscam asilo nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe quantos s\u00e3o. A municipalidade reconhece 350, que est\u00e3o em seus abrigos, mas organiza\u00e7\u00f5es civis dizem que podem ser at\u00e9 sete mil. Muitos se encontram em Tijuana desde maio de 2016, mas outros apareceram nas primeiras duas semanas deste m\u00eas. O fluxo n\u00e3o se deteve e \u00e9 muito poss\u00edvel que sua origem seja mais antiga do que o dessas estimativas.<\/p>\n<p>Mas agora \u00e9 vis\u00edvel, por tr\u00eas motivos: a quantidade de migrantes est\u00e1 aumentando, os primeiros que chegaram gastaram seu dinheiro e foram para as ruas conseguir mais. Antes viviam em hot\u00e9is. A terceira causa \u00e9 que alguns meios de imprensa locais come\u00e7aram a divulgar o fen\u00f4meno, depois que o governo dos Estados Unidos denunciou uma poss\u00edvel venda de passes por parte do Instituto Nacional de Migra\u00e7\u00e3o (INM) para solicitar asilo humano.<\/p>\n<p>Entretanto, al\u00e9m dos n\u00fameros, h\u00e1 alguns elementos que tornam in\u00e9dito o fen\u00f4meno, mesmo nessa cidade que em mat\u00e9ria migrat\u00f3ria viu quase de tudo.Os rec\u00e9m-chegados, especialmente os procedentes da \u00c1frica, s\u00e3o parte de um fluxo suspeitamente ordenado e silencioso, que inclusive conta com apoio do INM, segundo den\u00fancias de ativistas pr\u00f3-migrantes.<\/p>\n<p>Muitos t\u00eam recursos que permitem que sobrevivam no M\u00e9xico durante meses, e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso: t\u00eam clara a forma para tentar asilar-se nos Estados Unidos, o que implica conhecimento de leis internacionais ou, pelo menos, dos tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos das autoridades norte-americanas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 comum no fluxo humano que cruza o M\u00e9xico. Nem mesmo na centen\u00e1ria tradi\u00e7\u00e3o migrante deste pa\u00eds para o norte. Por isso o fen\u00f4meno \u00e9 in\u00e9dito. E alguns, como o sacerdote Alejandro Solalinde, fundador do albergue Irm\u00e3os no Caminho, t\u00eam claro o panorama: a crise migrat\u00f3ria, que se gesta em Tijuana, \u00e9 parte de uma elaborada estrat\u00e9gia de m\u00e1fias transnacionais de tr\u00e1fico de pessoas, capazes de mover por todo o planeta n\u00e3o s\u00f3 africanos mas migrantes de qualquer nacionalidade.<\/p>\n<p>Grupos que, de acordo com protocolos internacionais, como o de Palermo (sobre o crime organizado) s\u00f3 podem existir com apoio ativo, ou por omiss\u00e3o, das autoridades. Mas agora alguma coisa falhou para que a porta para essa migra\u00e7\u00e3o de passagem livre, considerada de privil\u00e9gio pelo alto custo da viagem (US$ 20 mil, em m\u00e9dia), tenha se fechado. E as consequ\u00eancias s\u00e3o vistas nas ruas de Tijuana.<\/p>\n<div id=\"attachment_214511\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-214511\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/africanos-tijuana-guillermo-arias-02.jpg\" alt=\"Um policial municipal de Tijuana controla um grupo de africanos, na fronteira mexicana com os Estados Unidos. Foto: Guillermo Arias\/Enelcamino\" width=\"340\" height=\"227\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/africanos-tijuana-guillermo-arias-02.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/africanos-tijuana-guillermo-arias-02-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/africanos-tijuana-guillermo-arias-02-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Um policial municipal de Tijuana controla um grupo de africanos, na fronteira mexicana com os Estados Unidos. Foto: Guillermo Arias\/Enelcamino<\/p><\/div>\n<p>Historicamente,cidad\u00e3os de meio mundo cruzaram a fronteira sul do M\u00e9xico. Em Tapachula, a maior cidade da regi\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o poucos os que falam de indianos, paquistaneses, iraquianos, chineses e naturalmente, centro-americanos, cubanos e haitianos que em algum momento das \u00faltimas d\u00e9cadas caminharam por suas ruas ou se refugiaram em algum hotel.<\/p>\n<p>Poucas eram as refer\u00eancias aos africanos, at\u00e9 h\u00e1 alguns anos, quando sua presen\u00e7a come\u00e7ou a ser cada vez mais evidente. Apareceram ap\u00f3s a onda de cubanos que escaparam de seu pa\u00eds diante do descongelamento das rela\u00e7\u00f5es entre Havana e Washington, que colocou em risco os privil\u00e9gios migrat\u00f3rios que os ilh\u00e9us mantiveram por d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Muitos desses africanos tamb\u00e9m chegaram diretamente aos escrit\u00f3rios do INM para se entregar e pedir um of\u00edcio de sa\u00edda, que serve como salvo-conduto por um m\u00eas para evitar ser detido. O documento estabelece que seu portador est\u00e1 em processo volunt\u00e1rio de abandonar o pa\u00eds e, por isso, enquanto estiver em vigor, n\u00e3o pode ser deportado.<\/p>\n<p>Um tr\u00e2mite que existe h\u00e1 d\u00e9cadas mas que n\u00e3o costumava ser aplicado a migrantes irregulares rec\u00e9m-chegados ao M\u00e9xico. H\u00e1 alguns anos, as v\u00edtimas eram, geralmente, estrangeiros com v\u00e1rios anos radicados no pa\u00eds, que tinham sua permiss\u00e3o de perman\u00eancia tempor\u00e1ria vencida, conhecida como FM3.<\/p>\n<p>O of\u00edcio de sa\u00edda obriga o migrante a deixar o M\u00e9xico, mas n\u00e3o impede seu reingresso, mesmo horas depois de partir. Muitos o utilizam para regularizar sua situa\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria. A decis\u00e3o de aplicar essa medida \u00e9certamentearbitr\u00e1ria, porque \u00e9 frequente em popula\u00e7\u00f5es como argentinos, espanh\u00f3is ou chilenos (naturalmente quase nunca norte-americanos), mas s\u00e3o contados os casos em que centro-americanos recebem esse beneficio.<\/p>\n<p>Agora os africanos recebem o of\u00edcio, contou Solalinde. O documento permitiu que chegassem at\u00e9 Tijuana, onde nos \u00faltimos meses se converteram em uma bomba de tempo. \u201cAs autoridades est\u00e3o perdidas. Propusemos fazer um acampamento para concentr\u00e1-los e n\u00e3o ficarem nas ruas, mas disseram que n\u00e3o, porque em pouco tempo chegariam milhares\u201d, apontou Tamai.\u201cS\u00f3 o que fizeram foi tir\u00e1-los dos lugares onde se concentravam e agora andam perambulando pelas ruas. J\u00e1 chegaram at\u00e9 Praias de Tijuana\u201d, acrescentou. Essa \u00e1rea fica na zona oeste da cidade, no Oceano Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de milhares de africanos e haitianos em Tijuana n\u00e3o \u00e9 gratuita, insistiu Solalinde. A viagem come\u00e7a em pa\u00edses como Nig\u00e9ria, Gana, Mali, Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, Senegal, Som\u00e1lia, Eritreia ou Burkina Faso, segue por Brasil, Equador, Col\u00f4mbia, Am\u00e9rica Central e M\u00e9xico.\u00c9 uma longa viagem, que quase ningu\u00e9m faz sozinho, e que geralmente est\u00e1 a cargo de gangues transnacionais de tr\u00e1fico humano.<\/p>\n<p>Eles tinham garantida a passagem para os Estados Unidos, gra\u00e7as \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o de agentes do servi\u00e7o de imigra\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds.Mas isso mudou, pontuou Solalinde. \u201cH\u00e1 quatro ou cinco meses, havia um tr\u00e1fico regular operado pelo INM. Chegavam voos regulares, por exemplo, da fronteira sul a Toluca, com orientais ou indianos, que eram levados diretamente para Tijuana\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, quase sem sa\u00edrem do aeroporto, os migrantes chegavam \u00e0s guaritas de migra\u00e7\u00e3o e cruzavam sem problema, ou utilizavam outras vias irregulares e mais caras.\u201cHavia narcot\u00faneis por onde as pessoas tamb\u00e9m passavam, custa muito, mas cruzavam. Agora est\u00e3o sendo fechados. Tamb\u00e9m passavam de carro com documentos falsos e quem estava na guarita aceitava, mas agora isso acabou\u201d, contou Solalinde.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe o motivo de a porta clandestina para os Estados Unidos ter sido fechada, mas a realidade \u00e9 que ficaram presos na cidade. \u201cPagaram a algu\u00e9m que j\u00e1 n\u00e3o pode responder pelo elo da cadeia, como eles dizem, mas continuam chegando\u201d, explicou o sacerdote.<\/p>\n<p>Nunca faltaram aproveitadores. Todos os dias, o INM marca 50 entrevistas com um c\u00f4nsul norte-americano e apresenta\u00e7\u00e3o do pedido de asilo.Isso n\u00e3o significa que consigam e na realidade a maioria n\u00e3o \u00e9 aceita, mas ficam em Tijuana por duas raz\u00f5es: n\u00e3o querem voltar aos seus pa\u00edses e, ao mesmo tempo, o governo mexicano n\u00e3o pode expuls\u00e1-los, porque em muitos casos n\u00e3o mant\u00e9m acordo de deporta\u00e7\u00e3o com essas na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 algumas semanas soube-se que os passes, supostamente gratuitos, na realidade s\u00e3o vendidos por centenas de d\u00f3lares. Muitos que j\u00e1 est\u00e3o h\u00e1 algum tempo na cidade n\u00e3o puderam compr\u00e1-los, mas os rec\u00e9m-chegados sim. \u201cUm dia chegaram a comprar mil. Foi quando os Estados Unidos suspenderam o tr\u00e2mite\u201d, descreveu Tamai. Presos na cidade, come\u00e7aram a perambular pelas ruas. Algumas centenas foram para Mexicali tentar cruzar a fronteira por l\u00e1, mas tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiram. \u201cA guarita na fronteira ali \u00e9 menor, logo a encheram e a porta foi fechada\u201d, disse o ativista.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o problema social na fronteira se agrava a cada semana. Os recursos municipais para atender a popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua j\u00e1 acabaram, afirmou Tamai, e o governo de Baixa Calif\u00f3rnia n\u00e3o quer soltar dinheiro para evitar uma concentra\u00e7\u00e3o maior de migrantes.A \u00fanica sa\u00edda \u00e9 o governo federal destravar os recursos para aten\u00e7\u00e3o aos migrantes, cerca de US$ 15,7 milh\u00f5es ) e envi\u00e1-los \u00e0 fronteira para resolver o problema. Segundo Tamai, vai demorar, mas n\u00e3o v\u00e3o esperar sentados. \u201cVamos fazer barulho, protestar para que soltem o dinheiro. Esta \u00e9 uma crise humanit\u00e1ria\u201d, afirmou. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>*Este artigo foi originalmente publicado por En El Camino, um projeto da organiza\u00e7\u00e3o Jornalistas a P\u00e9. A IPS \u2013 Inter Press Service tem um acordo especial com Jornalistas a P\u00e9 para a difus\u00e3o de seu material.<\/em><\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/1-1-canais\/milhares-de-africanos-perdidos-no-mexico\/\">Milhares de africanos perdidos no M\u00e9xico<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Alberto N&aacute;jar, da IPS &ndash;&nbsp; Tijuana, M&eacute;xico, 28\/9\/2016 &ndash; &Eacute; uma tarde de s&aacute;bado. 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