{"id":21271,"date":"2016-10-03T15:32:53","date_gmt":"2016-10-03T15:32:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=214733"},"modified":"2016-10-03T15:32:53","modified_gmt":"2016-10-03T15:32:53","slug":"zebras-camufladas-entre-grades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/10\/ultimas-noticias\/zebras-camufladas-entre-grades\/","title":{"rendered":"Zebras camufladas entre grades"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_214735\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><img class=\"wp-image-214735\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/traficopassarosshutterstock_286546007.jpg\" alt=\"Em dez anos, estima-se que quase seis milh\u00f5es de p\u00e1ssaros foram comercializados ilegalmente no pa\u00eds. Foto: Shutterstock\" width=\"340\" height=\"237\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/traficopassarosshutterstock_286546007.jpg 950w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/traficopassarosshutterstock_286546007-300x209.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Em dez anos, estima-se que quase seis milh\u00f5es de p\u00e1ssaros foram comercializados ilegalmente no pa\u00eds. Foto: Shutterstock<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Por\u00a0Alexandre Gon\u00e7alves Jr e Carolina de Barros*<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>O p\u00fablico tem acesso aos animais, mas nem sempre \u00e0 realidade por tr\u00e1s de estarem eles ali, o que n\u00e3o o impede de criar ideias e estigmas. Mas, na verdade, como funciona a situa\u00e7\u00e3o de cativeiro de animais?<\/em><\/p>\n<p>Animais selvagens. Quando algu\u00e9m diz isso, a primeira coisa que vem \u00e0 cabe\u00e7a s\u00e3o imagens de um grande mam\u00edfero correndo pela savana ou uma ave de penas coloridas voando em alguma floresta tropical. A ideia de um animal selvagem remete a liberdade, a um ambiente silvestre, remoto e intocado. No entanto, essa fera imagin\u00e1ria est\u00e1 muito distante da realidade e, talvez, bem mais perto.<\/p>\n<p>Da natureza direto para atr\u00e1s das grades. Este \u00e9 o caminho para alguns animais que t\u00eam a liberdade sequestrada por contrabandistas de animais silvestres. Em dez anos, estima-se que quase seis milh\u00f5es de p\u00e1ssaros foram comercializados ilegalmente no pa\u00eds, incentivando um mercado negro e R$ 7 bilh\u00f5es em uma d\u00e9cada. Ao serem capturados, esses animais passam a viver em constante estresse, permanecendo horas em viaturas, debaixo de sol e grande circula\u00e7\u00e3o de pessoas, com insufici\u00eancia de alimento e \u00e1gua, ficando cada vez mais debilitados. Devido ao enfraquecimento, a maior parte destes animais n\u00e3o pode retornar a seu habitat natural, tendo de ser enviados a um local apropriado onde se possa proceder a cataloga\u00e7\u00e3o ou classifica\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies e em seguida, rumar a um centro de manejo, como zool\u00f3gicos. Nestes locais, eles s\u00e3o instalados em recintos, vis\u00edveis ao p\u00fablico. Assim, os animais que uma vez estavam isolados na natureza, viram atra\u00e7\u00e3o. Mas, at\u00e9 que ponto o bem-estar do animal deve ser sacrificado em detrimento do entretenimento do ser humano?<\/p>\n<p>Dois ursos polares vieram direto da R\u00fassia para o Brasil em dezembro de 2014, para serem expostos no Aqu\u00e1rio de S\u00e3o Paulo. O local passou por uma intensa manuten\u00e7\u00e3o para poder abrigar os gigantescos mam\u00edferos em 1.500 m\u00b2, adaptando locais para que eles pudessem viver o mais semelhante poss\u00edvel ao seu ambiente natural. Esse fato desencadeou uma enorme pol\u00eamica: visitantes afirmaram nas redes sociais e em protestos por parte de ONGs que os ursos, Aurora e Pelegrino, foram retirados da natureza. Entretanto, segundo o Aqu\u00e1rio de S\u00e3o Paulo em nota, eles foram retirados de um circo que n\u00e3o possibilitava o desenvolvimento deles. Luan Henrique Moraes, bi\u00f3logo encarregado do setor de mam\u00edferos do Zool\u00f3gico de S\u00e3o Paulo, disse que, diferente do que foi veiculado nas redes sociais, os dois ursos viviam em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e sob maus tratos, antes de serem recolhidos pelo Aqu\u00e1rio. Segundo o bi\u00f3logo, atualmente, zool\u00f3gicos e demais centros de exposi\u00e7\u00e3o de animais n\u00e3o podem capturar animais direto da natureza; os recebidos s\u00e3o recuperados do tr\u00e1fico atrav\u00e9s de um tr\u00e2mite com a Secret\u00e1ria do Maio Ambiente e o IBAMA, e inseridos em programas de tratamento ou reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 30 de abril de 2015, foi instaurada uma Instru\u00e7\u00e3o Normatiza pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis) que institui e normatiza as categorias de uso e manejo de fauna silvestre em cativeiro, levando em conta qual a finalidade de determinado animal, seja para atender demandas de pesquisas cient\u00edficas, de conserva\u00e7\u00e3o, exposi\u00e7\u00e3o ou reprodu\u00e7\u00e3o, entre outros. \u201cNem todos os animais que recebemos podem ser reabilitados e devolvidos para a natureza. Alguns est\u00e3o muito prejudicados fisicamente ou j\u00e1 desaprenderam comportamentos que favorecessem sua sobreviv\u00eancia, tendo que ficar retidos no zoo. Mas tudo isso passa, antes, por um processo de triagem e dependendo do veredicto dado pelos zootecnistas e veterin\u00e1rios, estabelecemos o tratamento mais adequado\u201d, afirmou Moraes.\u00a0 H\u00e1 uma comiss\u00e3o de \u00e9tica que determina se o animal est\u00e1 apto a ser devolvido ao ambiente ou n\u00e3o. Animais que apresentem problemas de sa\u00fade ou desgastes psicol\u00f3gicos devido ao tempo cativos, ficam nos centros de manejo. Filhotes apreendidos normalmente tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o soltos, uma vez que sem a m\u00e3e n\u00e3o aprendem a sobreviver em <em>habitats<\/em> naturais.<\/p>\n<div id=\"attachment_214737\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img class=\"wp-image-214737\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/zebra.jpg\" alt=\"Zebra em zool\u00f3gico de S\u00e3o Paulo. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ Youtube\" width=\"340\" height=\"191\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/zebra.jpg 950w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/zebra-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Zebra em zool\u00f3gico de S\u00e3o Paulo. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ Youtube<\/p><\/div>\n<p>Existe, por\u00e9m, uma preocupa\u00e7\u00e3o desses locais para manter o ambiente em que os animais passar\u00e3o a viver o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel do natural. Os recintos s\u00e3o estruturados de acordo com a Normativa 169, do IBAMA, que determina os tamanhos e caracter\u00edsticas que devem estar presentes em cada tipo de recinto (lago, troncos, \u00e1rvores, aclimatiza\u00e7\u00e3o etc) de acordo com a esp\u00e9cie. No Zoo de S\u00e3o Paulo, ainda conta Moraes, h\u00e1 um Programa de Enriquecimento em Comportamento Animal, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 adaptar o animal ao novo local, para que possa, a partir dele, suprir suas necessidades biol\u00f3gicas &#8211; exerc\u00edcios, forragear, buscar por comida e o pr\u00f3prio contato com outros animais da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante tentar fazer com que o animal expresse a biologia dele, como se estivesse livre\u201d, ele completa. Esses recintos s\u00e3o adequados com pontos de fuga. Tratam-se de lugares estrategicamente feitos para o animal se esconder. Quando esses animais n\u00e3o querem ser vistos, entram nesses lugares, ficando assim longe dos olhares dos visitantes, evitando assim que tenham altos n\u00edveis de <em>stress<\/em> pelo contato com o p\u00fablico. Al\u00e9m disso, nem todos os animais que est\u00e3o no zool\u00f3gico s\u00e3o expostos ao mesmo tempo ou durante o ano todo. Por exemplo, quando h\u00e1 mais de um indiv\u00edduo da mesma esp\u00e9cie, costuma-se fazer um rod\u00edzio entre o animal que est\u00e1 em exposi\u00e7\u00e3o, reduzindo assim seu desgaste.<\/p>\n<p>Quando perguntado se o contato direto com humanos era prejudicial para as esp\u00e9cies, Moraes disse que tentam ao m\u00e1ximo manter uma dist\u00e2ncia do animal, tanto para seguran\u00e7a dos tratadores, quanto para do pr\u00f3prio animal. Mas \u00e9 inevit\u00e1vel que um animal que teve contato, desde filhote ou por muito tempo, com humanos, seja mais d\u00f3cil do que um selvagem. Isso inviabiliza, depois, seu retorno ao ambiente. \u201cTivemos no Zoo o caso de um tamandu\u00e1-mirim, o Batutinha, amamentado pelos tratadores. Hoje, se o solt\u00e1ssemos na natureza, ele n\u00e3o saberia conseguir comida e qualquer humano que visse, seria para ele um lugar de fonte de alimento. Isso facilita que o animal seja capturado por contrabandistas ou maltratado, essa falta de medo do humano\u201d, contou.<\/p>\n<p>Carlos Santana, bi\u00f3logo p\u00f3s-graduado em Manejo de Animais Selvagens, que trabalha em criadouros com manejo, comportamento e enriquecimento, \u00e9 favor\u00e1vel a manter animais cativos, em certos casos. Segundo ele, os zoos atualmente s\u00e3o muito mais do que uma cole\u00e7\u00e3o de animais. Eles exercem important\u00edssimas fun\u00e7\u00f5es como, educa\u00e7\u00e3o, conserva\u00e7\u00e3o e pesquisa.\u00a0 H\u00e1 ainda uma fiscaliza\u00e7\u00e3o por parte dos \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis do governo, evitando que \u201czool\u00f3gicos ruins\u201d continuem a existir, mantendo s\u00f3 aqueles que seguem os padr\u00f5es adequados. Caso contr\u00e1rio, a posse dos animais \u00e9 retirada e eles s\u00e3o realocados. No entanto, \u00e9 categ\u00f3rico: \u201cexpor, s\u00f3 para lazer, sou contra\u201d.<\/p>\n<p>Ele afirma que a presen\u00e7a desses animais \u00e9, tamb\u00e9m, uma maneira importante de educa\u00e7\u00e3o ambiental. Grande parte das pessoas jamais ter\u00e1 contato direto com um animal selvagem. Apesar das m\u00eddias propiciarem outras maneiras de conhec\u00ea-los, nada se assemelha a ver o verdadeiro bicho, ao vivo. \u201cO que impressiona \u00e9 estar na frente de um ser vivo, em carne e osso, ouvindo, cheirando, vendo o que faz e absorvendo detalhes\u201d. Isso pode ser um est\u00edmulo para se buscar uma maior compreens\u00e3o do mundo natural e desencadear um esfor\u00e7o de conserva\u00e7\u00e3o. Muitos zool\u00f3gicos atualmente possuem programas de educa\u00e7\u00e3o ambiental. No Zoo de S\u00e3o Paulo, existe a Divis\u00e3o de Ensino e Divulga\u00e7\u00e3o, respons\u00e1vel por estabelecer o contato dos visitantes com os animais de uma maneira mais educacional, a partir de visitas assistidas e de intera\u00e7\u00f5es com o <em>backstage<\/em> do zool\u00f3gico. Essa divis\u00e3o atende, principalmente, a crian\u00e7as e idosos, tendo ainda um conv\u00eanio com os idosos do Centro de Gerontologia da Universidade de S\u00e3o Paulo, que participam de atividades uma vez por semana.<\/p>\n<p>\u201cSe quisermos salvar muitas esp\u00e9cies selvagens e restaurar ecossistemas, precisamos saber como as esp\u00e9cies-chave vivem, agem e reagem. Ser capaz de estudar os animais em zool\u00f3gicos, onde h\u00e1 menos risco e menos vari\u00e1veis, significa que mudan\u00e7as reais podem ser efetuadas sobre as popula\u00e7\u00f5es selvagens, com muito menos problemas\u201d, afirma Santana, ressaltando a import\u00e2ncia dos centros de manejo para, tamb\u00e9m, desenvolver a pesquisa cient\u00edfica. Isso pode fazer uma diferen\u00e7a real para os esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o e reduzir os conflitos entre humanos e animais, criando uma base de conhecimento para solucionar as crescentes amea\u00e7as e problemas, muitas vezes infligidos por n\u00f3s, humanos, talvez os verdadeiros selvagens. <em>(#Envolverde)<\/em><\/p>\n<div><em>* <strong>Alexandre Gon\u00e7alves Jr<\/strong> \u00e9 jornalista estudante da Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero. \u00c9 estagi\u00e1rio na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o no Instituto Pro Bono e se interessa por temas de direitos humanos, meio-ambiente e design. \u00a0<\/em><em><strong>Carolina de Barros<\/strong> \u00e9 jornalista, estudante da Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero, e graduanda em biologia na USP. Se interessa por sustentabilidade e meio ambiente.<\/em><\/div>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/opiniao\/zebras-camufladas-entre-grades\/\">Zebras camufladas entre grades<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Alexandre Gon&ccedil;alves Jr e Carolina de Barros* O p&uacute;blico tem acesso aos animais, mas nem sempre &agrave; realidade por tr&aacute;s de estarem eles ali, o que n&atilde;o o impede de criar ideias e estigmas. Mas, na verdade, como funciona a situa&ccedil;&atilde;o de cativeiro de animais? Animais selvagens. 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