{"id":21485,"date":"2016-12-15T12:42:16","date_gmt":"2016-12-15T12:42:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=217314"},"modified":"2016-12-15T12:42:16","modified_gmt":"2016-12-15T12:42:16","slug":"feminismo-ajuda-na-resistencia-a-seca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/12\/ultimas-noticias\/feminismo-ajuda-na-resistencia-a-seca\/","title":{"rendered":"Feminismo ajuda na resist\u00eancia \u00e0 seca"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Cara\u00fabas, Brasil, 15\/12\/2016 \u2013 \u201cA horta mudou minha vida\u201d, contou Rita Alexandre da Silva, no Assentamento Primeiro de Maio, onde 65 fam\u00edlias conseguiram, em 1999, terras para plantar, neste munic\u00edpio do Rio Grande do Norte. Ela integra o Grupo de Mulheres que se organizou em 2001 e adotou o lema Unidas Para Vencer, com o objetivo de ter suas pr\u00f3prias atividades produtivas, reafirmar seus direitos e enfrentar o machismo.<\/p>\n<div id=\"attachment_217315\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217315\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/feminismo.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/feminismo.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/feminismo-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Um grupo de mulheres se organizou para cultivar coletivamente hortali\u00e7as e frutas para consumo da comunidade do Assentamento Primeiro de Maio e venda na feira de Cara\u00fabas, cidade pr\u00f3xima, no Nordeste brasileiro. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cEu vivia sozinha entre a casa e a lavoura, sem direito de sair, ir \u00e0 cidade. Com a horta comecei a ir para a cidade vender nossos produtos na feira, com a oposi\u00e7\u00e3o do meu marido e do filho mais velho\u201d, disse Rita \u00e0 IPS. \u201cTrazer dinheiro para casa quando o marido estava doente\u201d ajudou a dobrar a resist\u00eancia dos homens. \u201cHoje, meu filho, j\u00e1 casado, tem outra atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua mulher\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Com 60 anos e tr\u00eas filhos adultos, Rita divide com outras cinco mulheres do Assentamento o cultivo de coentro, alface, cebola, tomate, mandioca, papaia, coco e outras hortali\u00e7as e frutas, em um hectare de terra coletiva do povoado. A dificuldade \u00e9 o transporte dos produtos at\u00e9 a cidade de Cara\u00fabas, a 22 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Elas pagam cerca de US$ 25 por um ve\u00edculo contratado e tamb\u00e9m custeiam a manuten\u00e7\u00e3o e limpeza do ponto de venda.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o dormimos na v\u00e9spera, acordamos \u00e0s duas da madrugada para estar na feira todos os s\u00e1bados\u201d, contou Ant\u00f4nia Damiana da Silva, de 41 anos e com quatro filhos. Mas \u201cnossa vida mudou para melhor, comemos o que produzimos, sem venenos, e somos outras pessoas, mais livres, decidimos o que fazer e comunicamos aos maridos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O assentamento reuniu fam\u00edlias camponesas que viviam nos arredores, sem terra pr\u00f3pria. Foi resultado da ocupa\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea improdutiva por duas vezes. A primeira tentativa, em 1997, durou 18 dias e foi frustrada por uma ordem judicial de despejo, em resposta a uma queixa apresentada pelos propriet\u00e1rios. Dois anos depois, uma nova ocupa\u00e7\u00e3o conseguiu que o Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra) destinasse a terra aos camponeses, entregando a cada fam\u00edlia 13 hectares e boas moradias na agrovila.<\/p>\n<div id=\"attachment_217316\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217316\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/agrovila.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/agrovila.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/agrovila-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Parte da agrovila onde vivem as 65 fam\u00edlias do Assentamento Primeiro de Maio, um o\u00e1sis de vegeta\u00e7\u00e3o em meio \u00e0 grave seca provocada por cinco anos quase sem chuvas na Caatinga, o bioma semi\u00e1rido exclusivo do Nordeste brasileiro. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m conseguiram uma \u00e1rea comum para a cria\u00e7\u00e3o de animais, a sede da associa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e a horta. A agrovila identifica no Brasil os assentamentos rurais estabelecidos em \u00e1reas isoladas, nos quais moradias e instala\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e de servi\u00e7os se concentram nas proximidades das terras, uma solu\u00e7\u00e3o adotada dentro da reforma agr\u00e1ria no pa\u00eds, que d\u00e1 aos camponeses vantagens urbanas, como escola, postos de sa\u00fade e, em alguns casos, saneamento.<\/p>\n<p>A seca, que j\u00e1 dura cinco anos no interior semi\u00e1rido do Nordeste brasileiro, se nota na vegeta\u00e7\u00e3o cinza, aparentemente morta, de quase toda a Caatinga, um bioma exclusivo do Brasil. Mas suas \u00e1rvores baixas e retorcidas, que na verdade est\u00e3o mais para arbustos, costumam ficar verdes algumas horas depois de uma simples chuvinha.<\/p>\n<p>O Assentamento Primeiro de Maio surge na paisagem quase como um o\u00e1sis, pelo verde de suas \u00e1rvores e pela horta, que atrai p\u00e1ssaros e outros animais. Os cultivos tradicionais das fam\u00edlias, em geral de milho e feij\u00e3o, se perderam devido \u00e0 seca. Mas a horta continua produtiva, irrigada com \u00e1gua de um po\u00e7o e manejada segundo princ\u00edpios da agroecologia, com diversidade de semeadura e melhor uso de todos os recursos naturais, inclu\u00edda a palha.<\/p>\n<p>Para isso, contam com assist\u00eancia t\u00e9cnica e apoio da Diaconia, uma organiza\u00e7\u00e3o social sem fins lucrativos composta por 11 igrejas evang\u00e9licas, de forte atua\u00e7\u00e3o no Nordeste brasileiro. A renda proporcionada pela horta empodera as mulheres, especialmente nessa \u00e9poca de agricultura tradicional invi\u00e1vel. Mesmo assim o Grupo, inicialmente composto por 23 mulheres, diminuiu para seis, que se revezam para cuidar da horta e vender a produ\u00e7\u00e3o na feira de Cara\u00fabas.<\/p>\n<div id=\"attachment_217317\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217317\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/agrovila2.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/agrovila2.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/agrovila2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Na agrovila do Assentamento Primeiro de Maio, a horta continua produtiva, irrigada com \u00e1gua de um po\u00e7o e manejada segundo princ\u00edpios da agroecologia. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As dificuldades de comercializa\u00e7\u00e3o e o machismo dentro de casa, t\u00e3o presente quanto pouco mencionado, estimularam as deser\u00e7\u00f5es. A horta irrigada sem desperd\u00edcio de \u00e1gua \u00e9 uma forma de produ\u00e7\u00e3o promovida pela Articula\u00e7\u00e3o Semi\u00e1rido Brasileiro (ASA), movimento que congrega cerca de tr\u00eas mil organiza\u00e7\u00f5es sociais do Nordeste, como associa\u00e7\u00f5es variadas, sindicatos, entidades religiosas e n\u00e3o governamentais.<\/p>\n<p>Conviv\u00eancia Com o Semi\u00e1rido \u00e9 sua orienta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 velha pol\u00edtica oficial de \u201ccombate \u00e0 seca\u201d, que acumulou fracasso ap\u00f3s fracasso ao construir grandes represas, aquedutos e canais que n\u00e3o oferecem solu\u00e7\u00f5es \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel, os camponeses pobres e dispersos. O Assentamento Primeiro de Maio foi uma das oito experi\u00eancias visitadas por participantes do Encontro Nacional da ASA, que reuniu cerca de 500 pessoas entre os dias 21 e 25 de novembro em Mossor\u00f3, cidade a 80 quil\u00f4metros de Cara\u00fabas.<\/p>\n<p>\u201cSem feminismo n\u00e3o h\u00e1 conviv\u00eancia no semi\u00e1rido\u201d, afirmam os integrantes da ASA, ao explicarem seu apoio ao Grupo de Mulheres e a outras iniciativas em favor da igualdade de g\u00eanero nas comunidades rurais. \u201cAs tecnologias sociais\u201d impulsionadas por essa conviv\u00eancia s\u00e3o, em geral, abra\u00e7adas com mais determina\u00e7\u00e3o e rapidez pelas mulheres.<\/p>\n<p>Damiana, por exemplo, conta com um arsenal de recursos no quintal dos fundos de sua casa para afirmar que desfruta de \u201cuma vida maravilhosa\u201d. Um biodigestor alimentado com fezes de seus pequenos animais lhe garante g\u00e1s para seu fog\u00e3o. No povoado h\u00e1 outras dez casas com essa \u201ctecnologia\u201d, que consiste em um recipiente fechado hermeticamente onde fermentam dejetos org\u00e2nicos at\u00e9 produzir g\u00e1s metano e fertilizante natural.<\/p>\n<p>O \u201cbio\u00e1gua\u201d, uma cadeia de filtros que limpa a \u00e1gua usada em sua casa permite a reutiliza\u00e7\u00e3o na horta e no pomar. Al\u00e9m disso, ela cria peixes em um pequeno tanque de tr\u00eas metros de di\u00e2metro. A esp\u00e9cie escolhida \u00e9 til\u00e1pia-do-nilo (<em>Oreochromis niloticus<\/em>), proveniente do rio Nilo, muito produtiva na piscicultura.<\/p>\n<div id=\"attachment_217318\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217318\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/contraste.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/contraste.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/contraste-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Contraste entre o verde da horta cultivada por mulheres do Assentamento Primeiro de Maio e a seca ao redor, no Rio Grande do Norte. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vanusa Vieira, de 47 anos e dois filhos, \u00e9 outra integrante do Grupo que cultiva a horta coletiva, embora reconhe\u00e7a que gosta mais dos animais. \u201cAdoro cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o consigo viver sem animais, cuido deles desde a madrugada at\u00e9 a noite\u201d, explicou \u00e0 IPS, em uma \u00e1rea com aves, bodes e uma vaca. \u201cAprendi com meu pai e minha m\u00e3e, que tinham gado e galinhas\u201d, acrescentou. Agora que tem uma casa com um grande quintal, pode ter suas cria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas ela paga o pre\u00e7o dessa paix\u00e3o. Com a seca, teve que reduzir seu rebanho. O milho aumentou muito e a \u00e1gua escasseia, pontuou. O mel, que era outra produ\u00e7\u00e3o importante e est\u00e1 parado porque as florestas est\u00e3o secas e sem flores, \u201cnos ajudou a comprar uma caminhonete para a fam\u00edlia\u201d, contou Vanusa.<\/p>\n<p>Os pequenos animais, como bodes e cabras, que conseguem sobreviver com alimentos e \u00e1gua limitados, constitui, de todo modo, um recurso que ajuda a conviver com as prolongadas secas como a que afeta o Nordeste do pa\u00eds desde 2012. Ajuda a paliar essa situa\u00e7\u00e3o o fato de as fam\u00edlias da agrovila receberem um pequeno subs\u00eddio do programa Bolsa Fam\u00edlia. Al\u00e9m disso, alguns homens trabalham como diaristas para aumentar a renda diante da queda da produ\u00e7\u00e3o em suas terras. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/opiniao\/feminismo-ajuda-na-resistencia-seca\/\">Feminismo ajuda na resist\u00eancia \u00e0 seca<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Cara&uacute;bas, Brasil, 15\/12\/2016 &ndash; &ldquo;A horta mudou minha vida&rdquo;, contou Rita Alexandre da Silva, no Assentamento Primeiro de Maio, onde 65 fam&iacute;lias conseguiram, em 1999, terras para plantar, neste munic&iacute;pio do Rio Grande do Norte. 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