{"id":21495,"date":"2016-12-19T11:52:20","date_gmt":"2016-12-19T11:52:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=217386"},"modified":"2016-12-19T11:52:20","modified_gmt":"2016-12-19T11:52:20","slug":"remessas-causam-desvantagens-as-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2016\/12\/ultimas-noticias\/remessas-causam-desvantagens-as-mulheres\/","title":{"rendered":"Remessas causam desvantagens \u00e0s mulheres"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por\u00a0Ivet Gonz\u00e1lez, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Havana, Cuba, 18\/12\/2016 \u2013 No jarg\u00e3o das ruas de Cuba, as pessoas com f\u00e9 deixaram de ser aquelas crentes em poderes divinos. Agora s\u00e3o as que t\u00eam fam\u00edlia no exterior e costumam ser vistas como \u201cprivilegiadas\u201d por receberem remessas que aliviam a dura economia dom\u00e9stica. Aos 67 anos, Ramona Hern\u00e1ndez aparenta pertencer ao segmento da popula\u00e7\u00e3o, de 11,2 milh\u00f5es de habitantes, que melhorou sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica gra\u00e7as \u00e0 ajuda enviada por familiares que formam a chamada di\u00e1spora, em dinheiro ou produtos, como roupas, eletrodom\u00e9sticos, alimentos, cr\u00e9ditos para celular e rem\u00e9dios.<\/p>\n<div id=\"attachment_217387\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217387\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/mulheres-6.jpg\" width=\"560\" height=\"374\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/mulheres-6.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/mulheres-6-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/mulheres-6-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Duas mulheres preparam produtos para venda em um pequeno local dentro de um pr\u00e9dio em Havana. O envio de dinheiro, ou produtos, por familiares do exterior fizeram prosperar esses neg\u00f3cios privados em Cuba. Foto: Jorge Luis Ba\u00f1os\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Hern\u00e1ndez vive em um humilde apartamento na capital cubana, de paredes descascadas, portas e janelas desconjuntadas e teto em mau estado. Durante sua vida profissional, teve diversos empregos como enfermeira e outros of\u00edcios, mas n\u00e3o acumulou a quantidade de anos exigida por lei para receber uma aposentadoria. \u201cO que minha fam\u00edlia envia \u00e9 minha \u00fanica renda e basta apenas para comer, se for bem distribu\u00edda\u201d, disse \u00e0 IPS esta mulher que sozinha cuida da m\u00e3e, de 81 anos.<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e estava na Espanha at\u00e9 tr\u00eas anos atr\u00e1s, quando adoeceu e minha filha n\u00e3o p\u00f4de cuidar dela. A decis\u00e3o foi mand\u00e1-la para casa\u201d, explicou Hern\u00e1ndez. \u201cSe n\u00e3o recebesse essa ajuda, estaria muito pior. Nem todos que emigraram t\u00eam a mesma sorte\u201d, prosseguiu. E deu como exemplo o caso de sua filha \u00fanica, que morou em Barcelona por 15 anos e perdeu o emprego devido \u00e0 crise que atinge a Espanha desde 2012.<\/p>\n<p>\u201cEla tem dois filhos e s\u00f3 encontra trabalho tempor\u00e1rio. Seu marido \u00e9 o \u00fanico que manteve o emprego. Minha filha faz um grande esfor\u00e7o para me enviar 50 euros mensais e eu tamb\u00e9m fa\u00e7o uma coisa ou outra (trabalho informal) em casa, porque tenho que cuidar sozinha de uma pessoa doente\u201d, contou Hern\u00e1ndez.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de pobreza e vulnerabilidade dessa mulher representa um lado pouco abordado dentro do complexo fen\u00f4meno das remessas em Cuba, que hoje costuma ser associado aos casos das fam\u00edlias emigradas com grandes recursos que financiam e coadministram muitos dos exitosos e crescentes neg\u00f3cios privados no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cA maioria das pesquisas econ\u00f4micas n\u00e3o levam em conta que a quantidade de dinheiro enviada pelos migrantes, bem como a maneira como se envia e como \u00e9 utilizada, est\u00e3o condicionadas tamb\u00e9m pela economia da fam\u00edlia e das rela\u00e7\u00f5es de poder\u201d, pontuou \u00e0 IPS a economista Blanca Munster. Para mudar essa realidade, ela estudou os n\u00f3s entre remessas, pobreza e g\u00eanero na atual sociedade cubana.<\/p>\n<p>Assim, essa pesquisadora em assuntos econ\u00f4micos e de g\u00eanero abordou tr\u00eas assuntos pouco estudados na esfera p\u00fablica e focou nas desvantagens femininas na hora de aproveitar essas rendas para conseguir um sustento pr\u00f3prio. Embora constituam uma importante fonte de renda para esse pa\u00eds com sua economia atual em crise aguda, segundo fontes especializadas, as autoridades locais n\u00e3o publicam dados oficiais do volume captado anualmente com remessas nem que lugar ocupam entre os setores mais importantes da economia cubana.<\/p>\n<div id=\"attachment_217388\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217388\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/mae.jpg\" width=\"560\" height=\"374\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/mae.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/mae-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/mae-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Uma m\u00e3e caminha com a filha, em Havana Velha, na capital de Cuba, ap\u00f3s peg\u00e1-la na escola. Nesse pa\u00eds, as tarefas do cuidado est\u00e3o quase exclusivamente a cargo das mulheres. Foto: Jorge Luis Ba\u00f1os\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em uma revista distribu\u00edda em Cuba e nos Estados Unidos, o economista cubano Juan Triana estima que por esse conceito entrem em Cuba entre US$ 2 bilh\u00f5es e US$ 2,5 bilh\u00f5es por ano. Essa quantia \u00e9 obtida unicamente com a exporta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos, que constitui o primeiro setor da economia cubana, afirmou. Outros estudos independentes realizados em Miami, onde vive a maior comunidade cubana no exterior, calcularam que esses envios alcan\u00e7aram a cifra recorde de US$ 3,354 bilh\u00f5es em 2015.<\/p>\n<p>Esse foi o primeiro ano em que vigorou a amplia\u00e7\u00e3o do teto trimestral de remessas originadas nos Estados Unidos para residentes em Cuba, de US$ 500 para US$ 2 mil, em uma medida estabelecida pelo presidente Barack Obama em 17 de dezembro de 2014, dia em que os dois pa\u00edses anunciaram o rein\u00edcio de suas rela\u00e7\u00f5es bilaterais. Munster investigou o que ocorria nas fam\u00edlias pobres e focou a situa\u00e7\u00e3o vivida por homens e mulheres, para ir al\u00e9m da discuss\u00e3o sobre o potencial ou n\u00e3o das remessas para impulsionar o consumo e o investimento em Cuba.<\/p>\n<p>Em 2013, a economista estudou 50 n\u00facleos com baixa renda e receptores de ajudas externas na comunidade periurbana de Santa F\u00e9, com popula\u00e7\u00e3o de 27.855 habitantes, assentada nessa regi\u00e3o pesqueira e tur\u00edstica na costa noroeste de Havana. Como resultado, registrou que todas as fam\u00edlias dependiam das remessas para sua subsist\u00eancia, mas que poucas conseguiram com essa ajuda manter um sustento pr\u00f3prio, devido a diversos fatores como baixa quantia enviada e a alta preval\u00eancia nas fam\u00edlias de dependentes com crian\u00e7as pequenas, estudantes, idosos e doentes.<\/p>\n<div id=\"attachment_217389\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"size-full wp-image-217389\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/funcionaria.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/funcionaria.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/funcionaria-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/funcionaria-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Uma funcion\u00e1ria da limpeza e outra da recep\u00e7\u00e3o em um \u00f3rg\u00e3o do governo, na capital de Cuba. Foto: Jorge Luis Ba\u00f1os\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cAs mulheres vivem situa\u00e7\u00f5es de empoderamento e desempoderamento nas fam\u00edlias pobres receptoras de remessas\u201d, apontou Munster. \u201cReceber e administrar os envios n\u00e3o significa decidir sobre seu uso, o que, com frequ\u00eancia, \u00e9 definido principalmente por quem os envia\u201d, explicou. Em seu trabalho, descobriu que as mulheres das fam\u00edlias estudadas em Santa F\u00e9 sofriam mais do que os homens o peso da escassez de recursos, por isso as remessas melhoravam as condi\u00e7\u00f5es de seu trabalho dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>Por outro lado, muitas recebiam dinheiro de seus familiares emigrados para poderem se concentrar em cuidar de idosos, crian\u00e7as e doentes, refor\u00e7ando assim os pap\u00e9is tradicionais femininos, bem como sua reconcentra\u00e7\u00e3o no trabalho reprodutivo e n\u00e3o remunerado. Munster tamb\u00e9m observou que alguns homens e mulheres fizeram pequenos investimentos produtivos, conseguindo empreendimentos mais lucrativos, como a cria\u00e7\u00e3o de animais ou o servi\u00e7o de taxista, mas as mulheres realizaram neg\u00f3cios tradicionalmente femininos, como sal\u00e3o de cabelereiro e venda de audiovisuais, roupas e acess\u00f3rios, detalhou.<\/p>\n<p>Segundo a economista, entre outros fatores limitantes, as mulheres carecem de \u201cuma cultura empresarial e tribut\u00e1ria pr\u00e9via, porque sempre trabalharam no setor dos servi\u00e7os estatais ou em casa. As remessas costumam substituir a renda com a qual elas n\u00e3o contam, ou resultam ser insignificantes para atender suas necessidades b\u00e1sicas\u201d, assegurou.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso de Fabiana Mora, oper\u00e1ria de 33 anos que trabalha no controle de qualidade de uma empresa com capital estrangeiro, em Havana. Esporadicamente recebe dinheiro, rem\u00e9dios e roupas de seu pai que vive nos Estados Unidos. \u201cFico muito contente cada vez que recebo algo\u201d, contou \u00e0 IPS. \u201cA remessa \u00e9 uma ajuda mas n\u00e3o d\u00e1 para cobrir todas as necessidades. Tamb\u00e9m tenho meu sal\u00e1rio e o que ganho vendendo telefone celular e roupas\u201d, contou Fabiana. Seu pai lhe envia com alguma frequ\u00eancia esse tipo de artigos, para que ela ganhe dinheiro com a venda de roupa importada, apesar de esse com\u00e9rcio ser proibido para a iniciativa privada.<\/p>\n<p>Permitidas pelas autoridades locais nos primeiros anos da crise que come\u00e7ou em 1991, as remessas t\u00eam, desde ent\u00e3o, um importante papel na economia familiar e nacional, embora seu comportamento dependa do estado das rela\u00e7\u00f5es entre Cuba e Estados Unidos, onde vivem mais de dois milh\u00f5es de pessoas nascidas na ilha e seus descendentes. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/1-1-canais\/remessas-causam-desvantagens-as-mulheres\/\">Remessas causam desvantagens \u00e0s mulheres<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Ivet Gonz&aacute;lez, da IPS &ndash;&nbsp; Havana, Cuba, 18\/12\/2016 &ndash; No jarg&atilde;o das ruas de Cuba, as pessoas com f&eacute; deixaram de ser aquelas crentes em poderes divinos. Agora s&atilde;o as que t&ecirc;m fam&iacute;lia no exterior e costumam ser vistas como &ldquo;privilegiadas&rdquo; por receberem remessas que aliviam a dura economia dom&eacute;stica. 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