{"id":21506,"date":"2017-01-10T12:01:20","date_gmt":"2017-01-10T12:01:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=217603"},"modified":"2017-01-10T12:01:20","modified_gmt":"2017-01-10T12:01:20","slug":"adeus-as-secas-com-milhoes-de-mortos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2017\/01\/ultimas-noticias\/adeus-as-secas-com-milhoes-de-mortos\/","title":{"rendered":"Adeus \u00e0s secas com milh\u00f5es de mortos"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ouricuri, Brasil, 10\/1\/2017 \u2013 A seca que, desde 2012, castiga a regi\u00e3o semi\u00e1rida do Nordeste do Brasil j\u00e1 \u00e9 mais severa do que a registrada entre 1979 e 1983, a mais prolongada do s\u00e9culo 20. Mas agora n\u00e3o causa as trag\u00e9dias do passado. N\u00e3o est\u00e3o ocorrendo as mortes em massa por fome e sede, nem o \u00eaxodo de multid\u00f5es castigadas pela falta de \u00e1gua, que invadiam cidades e saqueavam seus com\u00e9rcios, ou buscavam melhor sorte em terras distantes no centro-sul, regi\u00e3o mais desenvolvida do pa\u00eds.<\/p>\n<div id=\"attachment_217604\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217604\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/cisternas.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/cisternas.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/cisternas-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Cisternas para guardar \u00e1gua de chuva atr\u00e1s de uma casa em Boa Esperan\u00e7a, um assentamento de 45 fam\u00edlias em Pernambuco, regi\u00e3o do semi\u00e1rido do Nordeste brasileiro, onde, gra\u00e7as a iniciativas como esta, a popula\u00e7\u00e3o rural convive com uma seca pertinaz, sem as trag\u00e9dias do passado. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>A falta de chuvas, por\u00e9m, est\u00e1 presente em tudo. A Caatinga, o bioma exclusivo da regi\u00e3o do semi\u00e1rido brasileiro, parece morta, com exce\u00e7\u00e3o de algumas \u00e1rvores resistentes e \u00e1reas onde garoas recentes reverdeceram os arbustos. A represa de Tamboril, nos arredores de Ouricuri, cidade de 68 mil habitantes no oeste do Estado de Pernambuco, est\u00e1 seca h\u00e1 mais de um ano. Felizmente a cidade tamb\u00e9m conta com a \u00e1gua do rio S\u00e3o Francisco, que fica a 180 quil\u00f4metros, por meio de aquedutos.<\/p>\n<p>\u201cA seca em 1982 e 1983 foi pior, n\u00e3o tanto pela escassez de \u00e1gua, mas porque n\u00e3o sab\u00edamos como lidar com a situa\u00e7\u00e3o\u201d, contou \u00e0 IPS o campon\u00eas Manoel Pereira Barros, de 58 anos e sete filhos, em sua propriedade, o S\u00edtio Santa F\u00e9, a 80 quil\u00f4metros de Ouricuri. Justo no momento mais \u00e1rduo da crise, em 1983, ele se casou. \u201cFoi dif\u00edcil para toda a fam\u00edlia. Matamos alguns bois, sobrevivemos com \u00e1gua de uma cacimba (buraco no leito de um p\u00e2ntano ou outro corpo de \u00e1gua), poucas vacas e muitas cabras. Os animais nos salvaram, a planta\u00e7\u00e3o de feij\u00e3o secou\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Naquele ano, os governadores dos nove Estados que compartilham o semi\u00e1rido brasileiro pediam mais ajuda ao governo federal, argumentando que cem pessoas morriam por dia devido \u00e0 seca. Nos cinco anos que durou a seca (1979 a 1983), as mortes somaram 100 mil, segundo os governos regionais, mas pesquisadores estimam em pelo menos 700 mil as pessoas que morreram por fome e sede, na maioria crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Um milh\u00e3o \u00e9 a estimativa adotada pela Articula\u00e7\u00e3o Semi\u00e1rido Brasileiro (ASA), uma rede de mais de tr\u00eas mil organiza\u00e7\u00f5es sociais criada em 1999 para impulsionar as transforma\u00e7\u00f5es que est\u00e3o melhorando a vida da popula\u00e7\u00e3o mais afetada pela seca, os camponeses pobres do Nordeste do pa\u00eds. Disseminar cisternas para captar e armazenar \u00e1gua de chuva para beber e cozinhar foi sua primeira meta.<\/p>\n<div id=\"attachment_217605\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217605\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/seca-2.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/seca-2.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/seca-2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> A vegeta\u00e7\u00e3o seca, aparentemente morta da Caatinga, um exclusivo bioma do semi\u00e1rido do Brasil. Mas s\u00e3o, em geral, plantas de grande resili\u00eancia, que reverdecem pouco depois de qualquer chuvinha. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Al\u00e9m de garantir \u00e1gua pot\u00e1vel para neutralizar a estiagem anual, que dura oito meses em tempos normais, essa iniciativa \u00e9 a alavanca de um novo enfoque para o desenvolvimento do semi\u00e1rido, onde vivem mais de 23 milh\u00f5es dos 208 milh\u00f5es\u00a0 de brasileiros. Um milh\u00e3o de cisternas j\u00e1 foram constru\u00eddas, cerca de um ter\u00e7o por iniciativa da ASA, que distribuiu unidades familiares de 16 mil litros feitas com placas de concreto e implantadas com participa\u00e7\u00e3o dos beneficiados, que tamb\u00e9m recebem aulas de cidadania e de gest\u00e3o de recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p>Conviver com o clima local, superando as fracassadas pol\u00edticas de \u201ccombate \u00e0 seca\u201d, \u00e9 o lema do movimento, que, por isso, incentiva o conhecimento do ecossistema, aproveitando o saber tradicional dos camponeses e promovendo intenso interc\u00e2mbio de experi\u00eancias entre comunidades rurais. Educa\u00e7\u00e3o contextualizada, que prioriza a realidade local, pr\u00e1ticas agroecol\u00f3gicas e o princ\u00edpio da armazenagem de tudo \u2013 seja \u00e1gua, inclu\u00edda aquela para plantar e dar aos animais, forragem para o per\u00edodo seco, e sementes crioulas (tradicionais) adaptadas ao solo e clima locais \u2013 s\u00e3o outros itens da conviv\u00eancia com o semi\u00e1rido.<\/p>\n<p>Essas tecnologias, proporcionadas pelo Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores e Institui\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais Alternativas (Caatinga) membro da ASA, n\u00e3o existiam nas secas anteriores e hoje fazem a diferen\u00e7a, reconheceu Barros. A elas se soma o Bolsa Fam\u00edlia, a aposentadoria rural e programas sociais do governo para garantir uma sobreviv\u00eancia razo\u00e1vel dos camponeses, inclusive quando n\u00e3o chove.<\/p>\n<div id=\"attachment_217606\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217606\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Manoel.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Manoel.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Manoel-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Manoel Pereira Barros mostra as caixas para colmeias de sua pequena propriedade, agora in\u00fateis porque as abelhas partiram em decorr\u00eancia da seca. A produ\u00e7\u00e3o de mel, uma das fontes de renda de muitas fam\u00edlias camponesas, ter\u00e1 que esperar pelo retorno das chuvas ao Nordeste do Brasil. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Barros optou por deixar sua terra em 1993, ao final de outra seca de dois anos, para buscar emprego em monoculturas irrigadas de uva e manga, no munic\u00edpio de Petrolina, 200 quil\u00f4metros ao sul de Ouricuri, nas margens do rio S\u00e3o Francisco. \u201cForam 15 anos longe da fam\u00edlia, trabalhando com venenos agr\u00edcolas, por isso pare\u00e7o mais velho do que sou\u201d, brincou. \u201cAqui s\u00f3 como alimentos org\u00e2nicos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Esse campon\u00eas \u201csonhava ter uma cisterna que n\u00e3o existia, agora tenho tr\u00eas, uma delas ainda com \u00e1gua das chuvas de janeiro de 2016. Usada apenas para beber, dura mais de um ano para cinco pessoas. A economia \u00e9 rigorosa, antes desperdi\u00e7\u00e1vamos muita \u00e1gua\u201d, destacou Barros. Al\u00e9m das cisternas, a comunidade de 14 fam\u00edlias conta com um po\u00e7o artesanal, cavado entre pedras h\u00e1 70 anos, para armazenar \u00e1gua que desce de uma \u00e1rea mais acima. Ainda n\u00e3o secou, mas est\u00e1 muito suja. \u201cPrecisa de uma limpeza\u201d, afirmou Clarinda Alves, de 64 anos, vizinha de Barros.<\/p>\n<p>O bio\u00e1gua, um sistema de filtros que permite reutilizar o esgoto dom\u00e9stico na irriga\u00e7\u00e3o de hortas e pomares, \u00e9 outro recurso que se espalha entre camponeses do semi\u00e1rido. Apesar de todo esse arsenal h\u00eddrico, mais a \u00e1gua distribu\u00edda pelo ex\u00e9rcito em caminh\u00f5es-tanque que se multiplicaram pelo Nordeste, Barros decidiu suspender a produ\u00e7\u00e3o da horta, que muitos camponeses conseguem manter em suas terras. Ele apostou em priorizar a \u00e1gua para consumo humano e animal.<\/p>\n<p>A ASA considera que ainda h\u00e1 muito a ser feito na quest\u00e3o h\u00eddrica. Para a meta de universalizar as \u201cduas \u00e1guas\u201d faltam 350 mil cisternas para \u00e1gua de beber e 800 mil destinadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. S\u00e3o necess\u00e1rias \u201ccinco \u00e1guas\u201d, segundo Andr\u00e9 Rocha, coordenador de Clima e \u00c1gua do n\u00e3o governamental Instituto Regional da Pequena Agricultura Apropriada, tamb\u00e9m membro da ASA, com sede em Juazeiro, na Bahia.<\/p>\n<div id=\"attachment_217607\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217607\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Sobradinho.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Sobradinho.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Sobradinho-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Sobradinho, a maior represa hidrel\u00e9trica do Brasil, no Estado da Bahia, tem 4.200 quil\u00f4metros quadrados e sua margem se encontra cerca de 500 metros abaixo do n\u00edvel de suas \u00e1guas, em mais um reflexo do impacto da seca que se abate sobre o Nordeste brasileiro desde 2012. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O uso dom\u00e9stico exige duas \u00e1guas, uma para beber e cozinhar e outra para higiene, assim a \u00e1gua produtiva seria a terceira. A quarta \u00e9 de emerg\u00eancia ou reserva, \u201ccomo um banco de sangue\u201d, e a \u201cquinta destina-se ao ambiente, para recupera\u00e7\u00e3o de nascentes, recarga do len\u00e7ol fre\u00e1tico e para manter os rios perenes\u201d, explicou Rocha em seu escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u201cConstruir a conviv\u00eancia com o semi\u00e1rido\u201d, como quer a ASA, enfrenta uma amea\u00e7a pol\u00edtica. Ser\u00e1 dif\u00edcil manter a armazenagem de \u00e1gua de chuva e o fortalecimento da pequena agricultura como pol\u00edticas p\u00fablicas, ap\u00f3s a virada conservadora do governo brasileiro, com a queda do PT. Tamb\u00e9m exige uma batalha ideol\u00f3gica permanente e, em consequ\u00eancia, um esfor\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o, porque combater as secas, em lugar de se adaptar e conviver com elas, permanece como a estrat\u00e9gia para o semi\u00e1rido nas mentes oficiais e econ\u00f4micas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Grandes projetos h\u00eddricos \u2013 como a transposi\u00e7\u00e3o do rio S\u00e3o Francisco para fornecer \u00e1gua a outros rios e represas do Nordeste \u2013, al\u00e9m da irriga\u00e7\u00e3o de monoculturas do agroneg\u00f3cio e da agricultura em grande escala destinada principalmente \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, avan\u00e7am em detrimento da agricultura familiar. Elevados investimentos e cr\u00e9ditos oficiais s\u00e3o dedicados ao agroneg\u00f3cio, apesar dos fracassos anteriores e da corrup\u00e7\u00e3o, enquanto minguam recursos para as a\u00e7\u00f5es da ASA, de \u00eaxito comprovado na supera\u00e7\u00e3o dos efeitos da seca. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/opiniao\/adeus-as-secas-com-milhoes-de-mortos\/\">Adeus \u00e0s secas com milh\u00f5es de mortos<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Ouricuri, Brasil, 10\/1\/2017 &ndash; A seca que, desde 2012, castiga a regi&atilde;o semi&aacute;rida do Nordeste do Brasil j&aacute; &eacute; mais severa do que a registrada entre 1979 e 1983, a mais prolongada do s&eacute;culo 20. Mas agora n&atilde;o causa as trag&eacute;dias do passado. 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