{"id":21514,"date":"2017-01-11T12:45:30","date_gmt":"2017-01-11T12:45:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=217679"},"modified":"2017-01-11T12:45:30","modified_gmt":"2017-01-11T12:45:30","slug":"cabras-e-ovelhas-sustentam-vida-rural-no-semiarido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2017\/01\/ultimas-noticias\/cabras-e-ovelhas-sustentam-vida-rural-no-semiarido\/","title":{"rendered":"Cabras e ovelhas sustentam vida rural no semi\u00e1rido"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sobradinho, Brasil, 11\/1\/2017 \u2013 \u201cQuando eu era crian\u00e7a, as chuvas eram regulares, suficientes para a pecu\u00e1ria, que era forte aqui. As pessoas n\u00e3o gostavam de criar cabras e ovelhas\u201d, recordou Jos\u00e9 Neto da Silva Costa, campon\u00eas de 49 anos, morador dessa localidade do Estado da Bahia. Para ele, \u201cgado\u201d significa exclusivamente bovinos. Nada a ver com os cerca de 400 carneiros e cabras que, segundo ele, permitem que viva bem em S\u00e3o Jo\u00e3o, uma comunidade rural do munic\u00edpio de Sobradinho. \u201cAgora chove apenas dois anos em cada d\u00e9cada, o gado n\u00e3o tem futuro aqui\u201d, afirmou.<\/p>\n<div id=\"attachment_217680\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217680\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ovelhascarneiros.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ovelhascarneiros.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ovelhascarneiros-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> Ovelhas e carneiros conseguem se alimentar na Caatinga, bioma exclusivo do semi\u00e1rido brasileiro, com sua vegeta\u00e7\u00e3o aparentemente seca, ap\u00f3s cinco anos de chuvas escassas. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O gado bovino, introduzido no Nordeste pelos colonizadores portugueses no s\u00e9culo 17, serviu para uma ocupa\u00e7\u00e3o inadequada do semi\u00e1rido e \u201cat\u00e9 hoje n\u00e3o se adaptou \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas locais\u201d, segundo o Instituto Regional da Pequena Agropecu\u00e1ria Apropriada (IRPAA), que d\u00e1 assessoria t\u00e9cnica a comunidades como S\u00e3o Jo\u00e3o. Na ecorregi\u00e3o do semi\u00e1rido brasileiro, em secas como a atual, que j\u00e1 dura cinco anos, os bovinos s\u00e3o as primeiras v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Morrem muitos e seus propriet\u00e1rios, para evitar perdas maiores, s\u00e3o obrigados a vender os sobreviventes para criadores distantes, a pre\u00e7os baixos. Ironicamente, sofrem os danos ambientais que eles mesmos provocaram durante tr\u00eas s\u00e9culos e meio, como devasta\u00e7\u00e3o de florestas, degrada\u00e7\u00e3o do solo e sedimenta\u00e7\u00e3o dos rios, que agravaram os efeitos da irregularidade pluviom\u00e9trica.<\/p>\n<p>\u201cFelizmente mudei enquanto crescia, n\u00e3o tenho voca\u00e7\u00e3o para o gado\u201d, contou Costa, lamentando a perda de 35 cabritos no ano passado. \u201cSuas m\u00e3es abortaram por causa da sede\u201d, acrescentou. Sua mulher, L\u00e9lia dos Santos, aproveita o leite de cabra para fazer queijo, produto de crescente demanda e considerado muito saud\u00e1vel. A cria\u00e7\u00e3o de cabras e ovelhas \u201c\u00e9 a \u00fanica atividade segura e bem adaptada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas de grande parte do semi\u00e1rido brasileiro\u201d, afirma o IRPAA.<\/p>\n<div id=\"attachment_217681\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217681\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/JoseNeto.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/JoseNeto.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/JoseNeto-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> Jos\u00e9 Neto da Silva Costa em sua propriedade na Comunidade S\u00e3o Jo\u00e3o, onde cria cerca de 400 cabras e ovelhas. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 a garantia permanente de prote\u00ednas e renda para as fam\u00edlias, que aprenderam a armazenar \u00e1gua e forragem para os per\u00edodos de estiagem intensa e prolongada como a atual, iniciada em 2012 e compar\u00e1vel \u00e0 de 1979 a 1983, que deixou um milh\u00e3o de mortos, segundo as estimativas. \u201cEm lugar de forragem seca, preferi a armazenada, que oferece alimenta\u00e7\u00e3o fresca, com mais umidade, embora exija cuidados\u201d, explicou Costa, apontando para o silo de concreto cravado no solo onde armazena quatro toneladas de sorgo e palha agr\u00edcola picados.<\/p>\n<p>O sorgo (<em>Sorghum bicolor L. Moench<\/em>), que planta desde 2005, come\u00e7ou a ser cultivado no Brasil durante a d\u00e9cada de 1970 e se expandiu no semi\u00e1rido por sua toler\u00e2ncia \u00e0 escassez h\u00eddrica e por ser alimento de boa qualidade para o gado. Esp\u00e9cies nativas e t\u00edpicas da Caatinga, bioma exclusivo do semi\u00e1rido, tamb\u00e9m se incorporam cada vez mais \u00e0 forragem. Mas as t\u00e9cnicas h\u00eddricas e forrageiras de \u201cconviv\u00eancia com o semi\u00e1rido\u201d, desenvolvidas a partir de experi\u00eancias locais e difundidas por organiza\u00e7\u00f5es sociais como o IRPAA h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas, n\u00e3o contemplam grandes animais.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o recomendamos o gado bovino, que esgota a economia familiar. Muitas vezes vendem v\u00e1rios carneiros para manter um boi\u201d, observou Andr\u00e9 Azevedo Rocha, coordenador de Clima e \u00c1gua do IRPAA, que tem sede na cidade de Juazeiro, norte do Estado da Bahia, a 50 quil\u00f4metros de Sobradinho. A cria\u00e7\u00e3o de pequenos e m\u00e9dios animais \u00e9 uma das formas de conviv\u00eancia incentivada pelo movimento Articula\u00e7\u00e3o Semi\u00e1rido Brasileiro (ASA), que dissemina um novo modelo de desenvolvimento rural e re\u00fane tr\u00eas mil organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, como o IRPAA, institui\u00e7\u00f5es religiosas, sindicais e comunit\u00e1rias do Nordeste.<\/p>\n<div id=\"attachment_217682\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-217682\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Lelia.jpg\" width=\"560\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Lelia.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Lelia-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> L\u00e9lia dos Santos empacota queijos feitos com leite das cabras que s\u00e3o criadas por seu marido, Jos\u00e9 Neto da Silva Costa. O queijo tem um crescente mercado de consumidores que se disp\u00f5em a pagar mais por produtos saud\u00e1veis. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O aprendizado com secas desde o s\u00e9culo passado fortalece a recomenda\u00e7\u00e3o da ASA, mas muitos camponeses resistem \u00e0 mudan\u00e7a. \u201cT\u00eam mentalidade de fazendeiro, querem vacas como patrim\u00f4nio\u201d, apesar do consumo excessivo de \u00e1gua e recursos naturais para sua cria\u00e7\u00e3o, lamentou Carlos Campos, coordenador da ASA no Estado do Piau\u00ed, um dos dez Estados com territ\u00f3rios semi\u00e1ridos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 dif\u00edcil romper a tradi\u00e7\u00e3o\u201d, reconheceu Francisco Edilson Neto, de 59 anos, ex-presidente e atual tesoureiro do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Apodi, dono de 30 vacas leiteiras que fornecem a mat\u00e9ria-prima para que seus quatro filhos produzam ricota. \u201cOs camponeses s\u00f3 se sustentam com diversidade produtiva\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Gildete da Silva, de 47 anos e tr\u00eas filhos, j\u00e1 se convenceu de que \u201ccriar bode e ovelha \u00e9 melhor. Alimentar uma vaca custa mais do que duas ovelhas, que, al\u00e9m do mais, se reproduzem em cinco meses, e os bodes crescem r\u00e1pido\u201d, afirmou. Mesmo assim, \u201cquando chover, ficaremos apenas com uma vaca e poucos bezerros para engordar\u201d, vendendo as sete reses restantes que t\u00eam atualmente, acrescentou.<\/p>\n<p>Ela conta com tr\u00eas cisternas, uma para guardar \u00e1gua de chuva para beber, outra para uso dom\u00e9stico e a terceira, maior, tamb\u00e9m para guardar \u00e1gua de chuva, mas destinada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, animais e pomar. Suas hortali\u00e7as se perderam por causa da \u201cquentura\u201d do Sol, at\u00e9 que conseguiu comprar e instalar uma tela negra para proteger a horta da excessiva radia\u00e7\u00e3o solar. Ela tamb\u00e9m recebe \u00e1gua de um po\u00e7o coletivo que abastece sete fam\u00edlias da Comunidade Juli\u00e3o, onde vive h\u00e1 18 anos, perto da cidade de Ouricuri. \u201cOs animais bebem muito\u201d, contou.<\/p>\n<p>Ali se instalou com sua fam\u00edlia em uma propriedade de 40 hectares, depois que suas terras anteriores foram inundadas para formar a represa Algod\u00e3o, hoje totalmente seca, a poucos quil\u00f4metros de seu novo lar. Seu vizinho Adelmir Alves da Silva, de 51 anos e quatro filhos, se arrisca a ter 20 bovinos, mas os distribui entre suas duas propriedades. Na Comunidade Juli\u00e3o conta com quatro cisternas, al\u00e9m do fornecimento proporcionado pelo po\u00e7o comunit\u00e1rio, \u00e1gua suficiente para tamb\u00e9m criar 55 cabras em um terreno de 76 hectares.<\/p>\n<p>Em uma esp\u00e9cie de trincheira coberta por pl\u00e1stico preto, armazena capim-elefante, a vegeta\u00e7\u00e3o que conseguiu colher. \u201cN\u00e3o \u00e9 muito nutritivo, mas \u00e9 abundante, bom para sobreviver, n\u00e3o para engordar\u201d, explicou Alves. Outras alternativas, o sorgo e a palma forrageira (<em>Opuntia f\u00edcus-indica Mill<\/em> e <em>Nopalea Cochenillifera Salm-Dyck<\/em>, as duas esp\u00e9cies mais cultivadas), se perderam por causa da seca e de uma praga, respectivamente.<\/p>\n<p>O problema com os bodes \u00e9 a necessidade de cercas fortes, para que n\u00e3o fujam, afirmaram Alves e Gildete, que afirmou que \u201cs\u00f3 quatro fios de arame n\u00e3o s\u00e3o suficientes\u201d. Mais de 200 quil\u00f4metros ao sul, Costa se queixa dos parques de energia e\u00f3lica constru\u00eddos em montanhas pr\u00f3ximas. \u201cExpulsaram as on\u00e7as (<em>Panthera onca<\/em>, maior felino americano) que desceram a serra e comem nossos animais\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>Mas sua comunidade necessita de menos cercas. A pecu\u00e1ria \u00e9 feita na terra coletiva sob gest\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Fundo de Pasto Agropastoril de S\u00e3o Jo\u00e3o, que soma 2.643 hectares de pastagem aos 40 hectares de propriedade privada de cada uma das 22 fam\u00edlias ali assentadas h\u00e1 quatro d\u00e9cadas. O Fundo de Pasto comum \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o em mais de mil comunidades da Bahia, que camponeses e o IRPAA procuram legalizar. Al\u00e9m de alimentar melhor os animais, \u00e9 a melhor forma de preservar a Caatinga, afirma o Instituto. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/opiniao\/cabras-e-ovelhas-sustentam-vida-rural-no-semiarido\/\">Cabras e ovelhas sustentam vida rural no semi\u00e1rido<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Sobradinho, Brasil, 11\/1\/2017 &ndash; &ldquo;Quando eu era crian&ccedil;a, as chuvas eram regulares, suficientes para a pecu&aacute;ria, que era forte aqui. As pessoas n&atilde;o gostavam de criar cabras e ovelhas&rdquo;, recordou Jos&eacute; Neto da Silva Costa, campon&ecirc;s de 49 anos, morador dessa localidade do Estado da Bahia. 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