{"id":2162,"date":"2006-10-09T00:00:00","date_gmt":"2006-10-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2162"},"modified":"2006-10-09T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-09T00:00:00","slug":"comunicao-a-sombra-da-censura-no-estatuto-do-jornalista-em-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/politica\/comunicao-a-sombra-da-censura-no-estatuto-do-jornalista-em-portugal\/","title":{"rendered":"Comunica&ccedil;&atilde;o: A sombra da censura no Estatuto do Jornalista em Portugal"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 09\/10\/2006 &ndash; O novo Estatuto do Jornalista proposto pelo primeiro-ministro de Portugal, Jos&eacute; S&oacute;crates, levantou uma onda de protestos de profissionais do setor, incluindo os que nunca esconderam suas simpatias em rela&ccedil;&atilde;o ao governante, por entenderem que foi criado na medida para os donos das empresas. <!--more--> Assim demonstra a peti&ccedil;&atilde;o contra as altera&ccedil;&otilde;es sugeridas pelo governo, promovida pelo Sindicato dos Jornalistas e acompanhada por mais de duas mil assinaturas, entre as quais as de destacados membros dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, aos quais se uniu o ganhador do pr&ecirc;mio Nobel de Literatura 1998, Jos&eacute; Saramago.<\/p>\n<p>De concreto, o novo estatuto proposto pelo governo de S&oacute;crates permitiria &agrave;s empresas de comunica&ccedil;&atilde;o alterar qualquer texto sem consentimento do autor, situa&ccedil;&atilde;o que, de fato, colocaria os gerentes como eventuais censores dos rep&oacute;rteres. Os 230 membros do parlamento, com maioria absoluta do Partido Socialista (PS), come&ccedil;ou a discuss&atilde;o sobre as altera&ccedil;&otilde;es ao Estatuto em n&iacute;vel da Comiss&atilde;o Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias. <\/p>\n<p>A Comiss&atilde;o recebeu no dia 19 o ministro para Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, e no dia seguinte foi a vez de receber o Sindicato dos Jornalistas. Tamb&eacute;m deveria se reunir com a associa&ccedil;&atilde;o empresarial Confedera&ccedil;&atilde;o Portuguesa dos Meios de Comunica&ccedil;&atilde;o Social, que ap&oacute;ia incondicionalmente o projeto, mas o encontro foi adiado. Na Comiss&atilde;o, o sindicato insistiu especialmente que, ao dar aos superiores hier&aacute;rquicos a faculdade de alterar mat&eacute;rias sem consentimento do autor, sempre que os padr&otilde;es invocarem \u201cnecessidades de espa&ccedil;o ou adequa&ccedil;&atilde;o de estilo\u201d, abrem-se as portas para \u201ca manipula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o com meros prop&oacute;sitos mercantilistas\u201d.<\/p>\n<p>O assunto causou tamanho alvoro&ccedil;o que at&eacute; legisladores do pr&oacute;prio OS, entre eles Helena Roseta, dirigente de destaca e presidente do influente Col&eacute;gio de Arquitetos, assinou o documento do Sindicato dos Jornalistas, que tamb&eacute;m tem assinaturas dos mais diversos profissionais, como m&eacute;dicos, advogados, economistas, soci&oacute;logos, engenheiros, diretores de cinema e sacerdotes cat&oacute;licos. O sindicato considera que a lei que o governo pretende impor cont&eacute;m \u201cgraves atentados aos direitos e &agrave; pr&oacute;pria liberdade de cria&ccedil;&atilde;o e express&atilde;o\u201d, pelo qual exorta o parlamento a \u201calterar o teor da proposta\u201d.<\/p>\n<p>Ao lan&ccedil;ar o debate &agrave; opini&atilde;o p&uacute;blica, o sindicato, que re&uacute;ne cerca de cinco mil profissionais da informa&ccedil;&atilde;o, identificou duas grandes obje&ccedil;&otilde;es ao projeto de lei. A primeira &eacute; que, caso o texto seja aprovado sem mudan&ccedil;as, \u201cos jornalistas n&atilde;o poder&atilde;o se opor a modifica&ccedil;&otilde;es formais introduzidas em seus trabalhos por superiores hier&aacute;rquicos\u201d, uma disposi&ccedil;&atilde;o que, segundo o sindicato, anula quest&otilde;es centrais amparadas pela Constitui&ccedil;&atilde;o, em seus artigos 37 e 38, que s&atilde;o o direito &agrave;s liberdades de cria&ccedil;&atilde;o e express&atilde;o.<\/p>\n<p>A segunda obje&ccedil;&atilde;o indica que a proposta governamental permite aos donos dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, ou eventual cons&oacute;rcio econ&ocirc;mico que integre, \u201co direito &agrave; livre utiliza&ccedil;&atilde;o, em todos os &oacute;rg&atilde;os de informa&ccedil;&atilde;o pertencentes &agrave; empresa ou ao grupo, de trabalhos destinados ao meio no qual o jornalista trabalha\u201d. A aprova&ccedil;&atilde;o de uma cl&aacute;usula como est&aacute; colocaria Portugal em rota de colis&atilde;o com o restante da Uni&atilde;o Europ&eacute;ia e seus princ&iacute;pios b&aacute;sicos da propriedade intelectual, porque, segundo o sindicato, trata-se de \u201cuma viola&ccedil;&atilde;o grosseira do principio do direito de autor\u201d, dando prote&ccedil;&atilde;o legal \u201ca uma verdadeira usurpa&ccedil;&atilde;o\u201d.<\/p>\n<p>Por est&aacute; &oacute;tica dos profissionais afetados, uma medida deste tipo poderia contribuir de forma decisiva para agravar o empobrecimento da diversidade informativa e estrangular o pluralismo da comunica&ccedil;&atilde;o social. Em defesa da total independ&ecirc;ncia dos jornalistas, uniram-se a Saramago outros destacados nomes da cultura que assinaram o documento do Sindicato dos Jornalistas, como os tamb&eacute;m escritores Agustina Bessa-Lu&iacute;s, Baptista Bastos e Casimiro de Brito, e, tamb&eacute;m, o pintor Armando Alves.<\/p>\n<p>Entretanto, nem tudo &eacute; apoio da cidadania &agrave; luta dos jornalistas. Em publica&ccedil;&otilde;es eletr&ocirc;nicas surgem severos questionamentos e acusa&ccedil;&otilde;es de \u201ccorporativismo\u201d da classe profissional. Em uma dessas cr&iacute;ticas aos jornalistas, o cidad&atilde;o Pedro Moreira, da cidade do Porto, sintetiza um sentimento que se faz presente diante do caso do Estatuto. \u201cTalvez os jornalistas compreendam e aprendam: ser&aacute; que desta vez ter&atilde;o a consci&ecirc;ncia do apoio cego que d&atilde;o a este governo? S&oacute; agora que viram atacados seus privil&eacute;gios?\u201d, perguntou.<\/p>\n<p>Em alus&atilde;o &agrave;s dr&aacute;sticas medidas adotadas por S&oacute;crates, especialmente na &aacute;rea da educa&ccedil;&atilde;o, assist&ecirc;ncia social e sa&uacute;de, recomendadas por economistas liberais e apoiadas unanimemente pela imprensa, Moreira afirma que \u201cquando se faz o ataque mais vil e feroz a outras profiss&otilde;es nesse pa&iacute;s os jornalistas mant&ecirc;m sil&ecirc;ncio ou defendem a publicidade oficial\u201d. Manuel, um jornalista de longa experi&ecirc;ncia em Lisboa e no ex-enclave luso-chin&ecirc;s de Macau, disse &agrave; IPS que o novo estatuto tem a agravante de \u201ccriar um ambiente de autocensura que tende a agradar os patr&otilde;es, bem com de cautela, que me faz pedir para n&atilde;o ser identificado com o sobrenome, por causa de poss&iacute;veis repres&aacute;lias. Na minha idade, perder o trabalho&#8230;\u201d, afirmou com uma boa dose de ironia este jornalista de 63 anos.<\/p>\n<p>Manuel disse que o presidente do Sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia, \u201cTem toda a raz&atilde;o quando diz que o Estatuto coloca em risco um aspecto t&atilde;o importante quanto a rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a entre jornalistas e suas fontes, porque legitima a adultera&ccedil;&atilde;o dos originais e, assim, o sentido das declara&ccedil;&otilde;es que obtemos\u201d. Outro perigo apontado &eacute; que o Estatuto abre caminho para a censura interna nas reda&ccedil;&otilde;es e contribui de forma decisiva para agravar a pobreza da diversidade informativa e estrangular o pluralismo. Nesse sentido, Manuel concluiu enfatizando que \u201cn&atilde;o se pode transformar um bem essencial com a informa&ccedil;&atilde;o em simples mercadoria, adapt&aacute;vel aos apetites e interesses do mercado, capaz de condicionar as op&ccedil;&otilde;es da cidadania\u201d. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 09\/10\/2006 &ndash; O novo Estatuto do Jornalista proposto pelo primeiro-ministro de Portugal, Jos&eacute; S&oacute;crates, levantou uma onda de protestos de profissionais do setor, incluindo os que nunca esconderam suas simpatias em rela&ccedil;&atilde;o ao governante, por entenderem que foi criado na medida para os donos das empresas. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/politica\/comunicao-a-sombra-da-censura-no-estatuto-do-jornalista-em-portugal\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[18],"class_list":["post-2162","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-politica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2162","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2162"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2162\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}