{"id":21630,"date":"2017-02-15T12:37:20","date_gmt":"2017-02-15T12:37:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=218973"},"modified":"2017-02-15T12:37:20","modified_gmt":"2017-02-15T12:37:20","slug":"corrupcao-derruba-um-imperio-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2017\/02\/ultimas-noticias\/corrupcao-derruba-um-imperio-brasileiro\/","title":{"rendered":"Corrup\u00e7\u00e3o derruba um imp\u00e9rio brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 15\/2\/2017 \u2013 Os brasileiros se sentem sufocados pela chuva de informa\u00e7\u00f5es sobre os enormes tent\u00e1culos de corrup\u00e7\u00e3o com que operou a maior construtora do pa\u00eds, a Odebrecht, um conglomerado de empresas com presen\u00e7a em dezenas de setores e pa\u00edses. Mas o imp\u00e9rio empresarial constru\u00eddo por tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia Odebrecht est\u00e1 desmoronando em tr\u00eas anos da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, investiga\u00e7\u00e3o do <a href=\"http:\/\/www.mpf.mp.br\/\" >Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal<\/a>, que apura a corrup\u00e7\u00e3o que desviou milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares dos grandes neg\u00f3cios do grupo petroleiro estatal Petrobras.<\/p>\n<div id=\"attachment_218974\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-218974\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Odebrecht-Arena-629x419.jpg\" width=\"560\" height=\"373\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Odebrecht-Arena-629x419.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Odebrecht-Arena-629x419-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/Odebrecht-Arena-629x419-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">America Airlines Arena, emblem\u00e1tico est\u00e1dio e centro de espet\u00e1culos de Miami, e uma das muitas constru\u00e7\u00f5es da Odebrecht nos Estados Unidos, cujos procuradores come\u00e7aram a colocar n\u00fameros nas dimens\u00f5es continentais da corrup\u00e7\u00e3o do grupo brasileiro. Foto: Odebrecht<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Marcelo Odebrecht, que presidiu o grupo de 2008 a dezembro de 2015, est\u00e1 detido desde junho de 2015 e foi condenado em primeira inst\u00e2ncia a 19 anos de pris\u00e3o. Em outubro, deixou de resistir e aceitou colaborar com as investiga\u00e7\u00f5es judiciais, como decis\u00e3o empresarial. Um total de 77 dirigentes do grupo, boa parte j\u00e1 afastada de suas fun\u00e7\u00f5es, apresentou mais de 900 testemunhos a procuradores da Lava Jato, provocando um terremoto entre pol\u00edticos brasileiros e por toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O compromisso \u00e9 revelar todas as ilegalidades cometidas pela empresa e por seus agentes nos pa\u00edses onde j\u00e1 foram identificadas pr\u00e1ticas de suborno para obten\u00e7\u00e3o de contratos para obras p\u00fablicas. O Departamento de Justi\u00e7a norte-americano divulgou em dezembro que a Odebrecht destinou supostamente US$ 1,038 bilh\u00e3o para subornar pol\u00edticos e funcion\u00e1rios governamentais em dez pa\u00edses latino-americanos e dois africanos, inclu\u00eddo o Brasil, onde ficou 57,7% dessa quantia.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos fazem suas pr\u00f3prias investiga\u00e7\u00f5es, que podem culminar com condena\u00e7\u00f5es penais locais, porque v\u00e1rias empresas do conglomerado, como a construtora e a petroqu\u00edmica Braskem, operam nesse pa\u00eds e suas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o cotadas na Bolsa de Nova York. Isso tamb\u00e9m acontece com a Petrobras, considerada v\u00edtima da corrup\u00e7\u00e3o em seus megaprojetos de extra\u00e7\u00e3o e submetida a v\u00e1rias investiga\u00e7\u00f5es judiciais por parte de possuidores de a\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Esse pa\u00eds mais a Su\u00ed\u00e7a, cujos bancos foram usados para ocultar ou legitimar capitais ilegais, assinaram acordos de coopera\u00e7\u00e3o com o Judici\u00e1rio brasileiro, na atual ofensiva contra a corrup\u00e7\u00e3o em solo brasileiro. Os efeitos s\u00e3o esmagadores. No Brasil, espera-se que as revela\u00e7\u00f5es do ex-presidente da Odebrecht provoquem um tsunami na pol\u00edtica. Fala-se de duas centenas de parlamentares e governantes que teriam recebido subornos, inclusive membros das c\u00fapulas atuais dos poderes Executivo e Legislativo.<\/p>\n<p>O grupo empresarial havia criado um departamento especializado na compra e no pagamento de favores, que, segundo a justi\u00e7a norte-americana, resultava ser um bom neg\u00f3cio. Cada d\u00f3lar \u201cinvestido\u201d em subornos produzia US$ 12 em contratos. Essa estimativa se baseia em mais de cem projetos executados ou em andamento na Argentina, Brasil, Col\u00f4mbia, Equador, Guatemala, M\u00e9xico, Panam\u00e1, Peru, Rep\u00fablica Dominicana e Venezuela, mais os africanos Angola e Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<div id=\"attachment_218975\" style=\"width: 510px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"size-full wp-image-218975\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ValedeCaracas.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ValedeCaracas.jpg 500w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/ValedeCaracas-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/>Parte do vale de Caracas, vista do Metrocable de San Agust\u00edn, uma das in\u00fameras obras tocadas pela Odebrecht na Venezuela durante o governo de Hugo Ch\u00e1vez (1999-2013. Foto: Ra\u00fal L\u00edmaco\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A ordem de deten\u00e7\u00e3o solicitada por tribunais peruanos contra o ex-presidente do pa\u00eds Alejandro Toledo (2001-2006), que residiria nos Estados Unidos, e den\u00fancias envolvendo os atuais presidentes da Col\u00f4mbia, Juan Manuel Santos, e do Panam\u00e1, Juan Carlos Varela, constituem apenas a ponta do iceberg. Ainda n\u00e3o se sabe o que revelaram os dirigentes e ex-dirigentes da Odebrecht, como ex-diretores da \u00e1rea externa do conglomerado e ex-presidentes de bra\u00e7os especializados em infraestrutura, engenharia industrial ou log\u00edstica.<\/p>\n<p>Espera-se que, nos pr\u00f3ximos meses, novos n\u00fameros sobre supostos subornos sejam acrescentados aos j\u00e1 revelados nos Estados Unidos, encabe\u00e7ados pelos US$ 599 milh\u00f5es distribu\u00eddos no Brasil, US$ 98 milh\u00f5es na Venezuela, US$ 92 milh\u00f5es na Rep\u00fablica Dominicana, US$59 milh\u00f5es no Panam\u00e1 e US$ 50 milh\u00f5es em Angola. No Peru, foram \u201capenas\u201d US$ 29 milh\u00f5es desde 2005. \u00c9 pouco, considerando que somente no gasoduto do Sul, ainda em constru\u00e7\u00e3o, os investimentos previstos somam US$ 7 bilh\u00f5es. O governo peruano j\u00e1 decidiu retirar o controle dessa obra das m\u00e3os da Odebrecht.<\/p>\n<p>A Rodovia Interoce\u00e2nica, que cruza o sul peruano desde a fronteira com o Brasil at\u00e9 portos no Oceano Pac\u00edfico, envolve, junto com a Odebrecht, outras tr\u00eas construtoras brasileiras \u2013 Camargo Correa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galv\u00e3o \u2013, todas investigadas por suspeita de corrup\u00e7\u00e3o. Durante a presid\u00eancia de Alan Garcia (2006-2011), foi assinado com o Brasil um acordo para a constru\u00e7\u00e3o de cinco grandes hidrel\u00e9tricas no Peru, anulado por seu sucessor, Ollanta Humala (2011-2016) que, no entanto, tem sua campanha eleitoral sob suspeita de ter recebido US$ 3 milh\u00f5es brasileiros.<\/p>\n<p>A Odebrecht, que tem a concess\u00e3o de Chaglla, a terceira maior hidrel\u00e9trica do Peru, com 462 megawatts de pot\u00eancia, seria a principal construtora das novas usinas. A multiplica\u00e7\u00e3o dos esc\u00e2ndalos locais ou setoriais lan\u00e7a luz sobre os tent\u00e1culos dessa construtora. A Braskem, bra\u00e7o petroqu\u00edmico do grupo, \u00e9 acusada de distribuir US$ 250 milh\u00f5es em subornos para apoiar seu papel de l\u00edder em produ\u00e7\u00e3o de resinas termopl\u00e1sticas, com 36 f\u00e1bricas no Brasil e nos Estados Unidos, al\u00e9m da Alemanha.<\/p>\n<p>O imp\u00e9rio, nascido em 1944 como uma simples construtora, foi se diversificando no \u00faltimo meio s\u00e9culo e se expandiu para atividades t\u00e3o diversas como a agroind\u00fastria da cana-de-a\u00e7\u00facar, o desenvolvimento de tecnologias militares ou empresas de servi\u00e7os petroleiros, de log\u00edstica e de ind\u00fastria naval, entre outras. No come\u00e7o dos anos 1970, construiu a sede da Petrobras, selando uma rela\u00e7\u00e3o que desembocou no desastre atual, que destruiu a reputa\u00e7\u00e3o da empresa orgulhosa de sua \u201cTecnologia Empresarial\u201d, um conjunto de princ\u00edpios \u00e9ticos e operacionais ao qual se atribuiu sua r\u00e1pida expans\u00e3o, mas que n\u00e3o previu a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode-se atribuir o auge do conglomerado \u00e0 sua vis\u00e3o estrat\u00e9gica e um modo de operar que teve sucesso at\u00e9 come\u00e7ar a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato: ser \u201camigo do rei\u201d era parte de seus m\u00e9todos. Angola \u00e9 o melhor exemplo. O ainda presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do grupo, Emilio Odebrecht, filho do fundador Norberto Odebrecht, se re\u00fane anualmente com o presidente angolano Jos\u00e9 Eduardo dos Santos, em Luanda, para discutir projetos para o pa\u00eds. Oficialmente, trata-se de fazer um balan\u00e7o das obras executadas pela empresa e definir novas metas.<\/p>\n<p>Essa prerrogativa do grande empres\u00e1rio se justifica pela forte presen\u00e7a de sua construtora nas obras vitais de Angola, um pa\u00eds em reconstru\u00e7\u00e3o, nas \u00e1reas de energia, recursos h\u00eddricos, rodovias e urbaniza\u00e7\u00e3o. A Odebrecht conta com um prest\u00edgio \u00fanico nesse pa\u00eds, desde que construiu a hidrel\u00e9trica de Capanda, no rio Kwanza, entre 1984 e 2007, com interrup\u00e7\u00e3o e riscos devido \u00e0 guerra civil (1975-2002). Agora constr\u00f3i a maior central angolana, Lauca, tamb\u00e9m no rio Kwanza, com capacidade de 2.067 megawatts.<\/p>\n<p>Sua onipresen\u00e7a em Angola leva a empresa a administrar o Belas Shopping, centro comercial de luxo no sul de Luanda, executar o plano h\u00eddrico para abastecer a capital, preparar a primeira parte do distrito industrial na periferia da capital, construir conjuntos habitacionais, e recuperar a ind\u00fastria a\u00e7ucareira angolana.<\/p>\n<p>Em Cuba a construtora tamb\u00e9m cuidou do estrat\u00e9gico projeto da amplia\u00e7\u00e3o do Porto Mariel e da gest\u00e3o de uma central a\u00e7ucareira, em busca de recuperar esse deca\u00eddo setor cubano. Em outros pa\u00edses, como Panam\u00e1, Peru e Venezuela, se destaca a quantidade de obras e projetos a cargo da empresa brasileira, em \u00e1reas t\u00e3o diversas como transportes urbanos, estradas e pontes, portos, centrais el\u00e9tricas, hidrocarbonos e, inclusive, agricultura.<\/p>\n<p>Esse ciclo expansionista acabou. Muito endividada, com seu faturamento desmoronando, sem acesso a cr\u00e9dito, inclusive em bancos de fomento brasileiros, e com o estigma de corruptor, o conglomerado procura colaborar com a justi\u00e7a dos pa\u00edses envolvidos, tentando acordos que lhe permitam continuar operando e se recuperar mais adiante. Agora resta saber se a Odebrecht \u00e9 \u201ct\u00e3o grande que n\u00e3o pode quebrar\u201d, com se disse de alguns bancos na crise mundial iniciada em 2008. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/1-1-canais\/corrupcao-derruba-um-imperio-brasileiro\/\">Corrup\u00e7\u00e3o derruba um imp\u00e9rio brasileiro<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; &nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 15\/2\/2017 &ndash; Os brasileiros se sentem sufocados pela chuva de informa&ccedil;&otilde;es sobre os enormes tent&aacute;culos de corrup&ccedil;&atilde;o com que operou a maior construtora do pa&iacute;s, a Odebrecht, um conglomerado de empresas com presen&ccedil;a em dezenas de setores e pa&iacute;ses. 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