{"id":21651,"date":"2017-02-16T12:59:54","date_gmt":"2017-02-16T12:59:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=219178"},"modified":"2017-02-16T12:59:54","modified_gmt":"2017-02-16T12:59:54","slug":"em-busca-da-classe-operaria-perdida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2017\/02\/ultimas-noticias\/em-busca-da-classe-operaria-perdida\/","title":{"rendered":"Em busca da classe oper\u00e1ria perdida"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por\u00a0Mario Osava, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 16\/2\/2017 \u2013 O que aconteceria se a \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas (Alca) tivesse sido implantada como os Estados Unidos tentaram nas malogradas negocia\u00e7\u00f5es que se prolongaram de 1994 a 2005? O campe\u00e3o dos acordos para eliminar as fronteiras comerciais adota agora, com o republicano Donald Trump na Presid\u00eancia desde 20 de janeiro, posi\u00e7\u00f5es protecionistas que Washington condenava nos pa\u00edses latino-americanos que resistiam em abrir seus mercados, chamando-as de travas ao progresso.<\/p>\n<div id=\"attachment_219179\" style=\"width: 639px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"size-full wp-image-219179\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/APPA_Exportacao_Parana_1-629x374.jpg\" alt=\"\" width=\"629\" height=\"374\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/APPA_Exportacao_Parana_1-629x374.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/APPA_Exportacao_Parana_1-629x374-300x178.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 629px) 100vw, 629px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/>Ve\u00edculos brasileiros sendo embarcados para exporta\u00e7\u00e3o. A perda de valor e de empregos na outrora poderosa ind\u00fastria metal\u00fargica e mec\u00e2nica foi uma das causas do descontentamento de importantes setores de trabalhadores com a pol\u00edtica e, em particular, com a esquerda. Foto: APPA<\/p><\/div>\n<p>Com a Alca, pelo menos o M\u00e9xico n\u00e3o estaria agora na solid\u00e3o com que tem de enfrentar as amea\u00e7as imediatas do chamado \u201cpopulismo de direita\u201d que, instalado no centro do poder mundial, agrava de forma apocal\u00edptica as incertezas da humanidade. \u201cVoltamos aos anos 1930\u201d, compara Fernando Cardim de Carvalho, economista brasileiro e atualmente pesquisador do Instituto de Economia do Bard College, no Estado de Nova York, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Recuperar empregos perdidos foi uma bandeira eficaz na campanha de Trump. Ajudou-o a vencer em Estados como Michigan, Ohio, Pensilv\u00e2nia e Wisconsin, antes de maioria democrata, para compor o chamado \u201ccintur\u00e3o industrial\u201d, com sua massa oper\u00e1ria no nordeste e meio oeste do pa\u00eds. Envolv\u00ea-los foi decisivo e poss\u00edvel para o magnata Trump porque a desindustrializa\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas converteu a regi\u00e3o no \u201ccintur\u00e3o da fome\u201d, com desemprego, viol\u00eancia e fuga da popula\u00e7\u00e3o, em uma decad\u00eancia que agora cobrou seu pre\u00e7o pol\u00edtico ao Partido Democrata.<\/p>\n<p>Detroit, capital da ind\u00fastria automobil\u00edstica, tinha 1,85 milh\u00e3o de habitantes em 1950. Em 2010, segundo o censo, eram 714 mil. Suas ruinas urbanas incomodam. O processo vem de longe, desde a primeira crise do petr\u00f3leo e da recess\u00e3o econ\u00f4mica da d\u00e9cada de 1970, acompanhadas da expans\u00e3o japonesa nas ind\u00fastrias automobil\u00edstica e eletr\u00f4nica. As empresas migraram em busca de menos custos dentro dos Estados Unidos e os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos reduziram a m\u00e3o de obra industrial.<\/p>\n<p>Esse processo tirou muito mais empregos do que os tratados de livre com\u00e9rcio, afirmam pesquisadores. Trump atribuiu aos acordos comerciais o \u00eaxodo de empresas nacionais, justificando o protecionismo e os ataques a M\u00e9xico e China. O Brasil duvidou da Alca at\u00e9 se tornar mais nacionalista a partir de 2003, sob o governo do Partido dos Trabalhadores (PT), que implementou v\u00e1rias iniciativas para proteger as ind\u00fastrias nacionais e estimular a cria\u00e7\u00e3o de novas. Parecido com o que Trump anuncia.<\/p>\n<p>\u201cMas \u00e9 diferente. O Brasil representa menos de 1% do com\u00e9rcio mundial, atua em nichos e pode apoiar suas ind\u00fastrias com est\u00edmulos e c\u00e2mbio mais competitivo, sem impactos relevantes no exterior. Os Estados Unidos n\u00e3o, pois o pa\u00eds \u00e9 o centro do mundo, n\u00e3o pode fechar sua economia sem gerar confus\u00e3o, conflitos\u201d, observou Cardim. O M\u00e9xico concentra 80% de suas exporta\u00e7\u00f5es no mercado norte-americano, apontou o professor em\u00e9rito da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<div id=\"attachment_219180\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-219180\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/PP_Fora-Temer-7-setembro-Sao-Paulo_00409072016-850x567-1.jpg\" width=\"560\" height=\"374\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/PP_Fora-Temer-7-setembro-Sao-Paulo_00409072016-850x567-1.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/PP_Fora-Temer-7-setembro-Sao-Paulo_00409072016-850x567-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/PP_Fora-Temer-7-setembro-Sao-Paulo_00409072016-850x567-1-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">O descontentamento \u00e9 generalizado no Brasil. S\u00e3o Paulo, cidade que liderou os protestos contra a ex-presidente Dilma Rousseff, continua sendo palco de manifesta\u00e7\u00f5es contra o atual presidente, Michel Temer. Foto: Paulo Pinto\/AGPT<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cardim alertou que s\u00e3o imagin\u00e1veis os danos de medidas unilaterais do s\u00f3cio de propor\u00e7\u00f5es esmagadoras cujo novo governo amea\u00e7a \u201cn\u00e3o aceitar as regras do jogo\u201d. No Brasil, tentativas de recuperar o setor n\u00e3o evitaram a crescente desindustrializa\u00e7\u00e3o, qualificada de \u201cprecoce\u201d por afetar um pa\u00eds ainda de renda m\u00e9dia por pessoa, de US$ 15 mil, segundo a paridade do poder de compra, equivalente a apenas 26% do norte-americano, segundo o Fundo Monet\u00e1rio Internacional.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o atingiu seu teto de 21,6% do produto interno bruto (PIB) em 1985, uma participa\u00e7\u00e3o que caiu para 11,4% em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Sua produ\u00e7\u00e3o despencou 9,8% em 2015. O Estado de S\u00e3o Paulo, o mais industrializado, chamado de \u201clocomotiva\u201d do pa\u00eds, sofreu as maiores perdas. Sua participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o industrial era metade do total no come\u00e7o dos anos 1990, mas caiu para 38,6% em 2013.<\/p>\n<p>Essa decad\u00eancia n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o vis\u00edvel como as ru\u00ednas do \u201ccintur\u00e3o de ferrugem\u201d norte-americano e do norte da Gr\u00e3-Bretanha que aprovou o Brexit, mas se manifesta em protestos de rua desde 2013 e em um airado recha\u00e7o ao PT, surgido das lutas sindicais paulistas em 1980. Seu fundador e principal l\u00edder, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, oper\u00e1rio metal\u00fargico e sindicalista que conseguiu ser presidente entre 2003 e 2010, mant\u00e9m alta popularidade, apesar de v\u00e1rios processos de corrup\u00e7\u00e3o que amea\u00e7am seu futuro.<\/p>\n<p>Mas sua sucessora, Dilma Rousseff, foi reeleita em 2014 com um fraco apoio em S\u00e3o Paulo, onde conseguiu apenas 35,69% dos votos v\u00e1lidos. Sua destitui\u00e7\u00e3o, em agosto de 2016 pelo Congresso, foi precedida e impulsionada por maci\u00e7as manifesta\u00e7\u00f5es paulistas. Esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, que afetam pol\u00edticos de quase todos os partidos, foram decisivos na queda de Dilma. N\u00e3o h\u00e1 acusa\u00e7\u00f5es contra ela, mas foi durante os governos do PT que ocorreu a grande rapina nos neg\u00f3cios da Petrobras. Sua vulnerabilidade era econ\u00f4mica, por ter provocado uma grave crise fiscal.<\/p>\n<p>Entretanto, a perda do vigor industrial e dos bons empregos do setor contribu\u00edram para a determina\u00e7\u00e3o com que os paulistas se mobilizaram pelo impeachment de Dilma e a derrota do PT. Muitos dos erros da primeira mulher a ocupar a Presid\u00eancia do Brasil se deveram a tentativas voluntaristas, \u201cpopulistas\u201d, segundo seus cr\u00edticos, de recuperar a ind\u00fastria. Incentivos fiscais, redu\u00e7\u00e3o for\u00e7ada das taxas de juros e dos custos de energia foram algumas dessas medidas de resultados negativos.<\/p>\n<p>Os governos do PT intensificaram a prote\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria nacional, com tarifas no m\u00e1ximo permitido pelas regras, e exig\u00eancias de conte\u00fado nacional em determinados produtos. \u201cMas o nacionalismo econ\u00f4mico \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia, diante da competi\u00e7\u00e3o entre na\u00e7\u00f5es\u201d, justificou Luiz Bresser Pereira, professor em\u00e9rito da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas que alerta para a desindustrializa\u00e7\u00e3o brasileira acentuada pela \u201cenfermidade holandesa\u201d (c\u00e2mbio supervalorizado) desde 2005.<\/p>\n<p>\u201cNos Estados Unidos, o nacionalismo se faz agress\u00e3o imperial, perigoso porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 econ\u00f4mico como o brasileiro, pois incorpora outras dimens\u00f5es, ao se tratar de pot\u00eancia militar\u201d, se estendendo a temas migrat\u00f3rios, religiosos e \u00e9tnicos, pontuou Bresser Pereira. Para ele, o Brexit (sa\u00edda brit\u00e2nica da Uni\u00e3o Europeia), a vit\u00f3ria de Trump e a ascens\u00e3o da ultradireita na Europa desnudam \u201cuma crise pol\u00edtica do capitalismo, causada pela ren\u00fancia ao nacionalismo das elites econ\u00f4micas dos pa\u00edses ricos que agora vivem de rendas\u201d, com ganhos tamb\u00e9m fora do mercado interno.<\/p>\n<p>A debilidade da social-democracia desde 1989, com governantes que \u00e0s vezes \u201cn\u00e3o souberam distinguir suas pol\u00edticas das neoliberais\u201d, tamb\u00e9m atrapalha a supera\u00e7\u00e3o da crise, que compreende uma maioria de \u201cperdedores da globaliza\u00e7\u00e3o\u201d cuja rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o se pode menosprezar como \u201cmero populismo\u201d, advertiu o professor.<\/p>\n<p>A perda de peso do emprego industrial \u2013 por mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas, produtivas e sociais, al\u00e9m da migra\u00e7\u00e3o de empresas \u2013 tira votos da esquerda \u201cn\u00e3o populista\u201d, com seus partidos org\u00e2nicos, como o PT. E tamb\u00e9m dilui sua matriz pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, ao enfraquecer o sindicalismo e a gera\u00e7\u00e3o de quadros e l\u00edderes. A decad\u00eancia de polos industriais favorece op\u00e7\u00f5es radicais e nacionalistas que, aparentemente, tendem a aderir aos movimentos conservadores e de extrema direita. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/opiniao\/em-busca-da-classe-operaria-perdida\/\">Em busca da classe oper\u00e1ria perdida<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por&nbsp;Mario Osava, da IPS &ndash;&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 16\/2\/2017 &ndash; O que aconteceria se a &Aacute;rea de Livre Com&eacute;rcio das Am&eacute;ricas (Alca) tivesse sido implantada como os Estados Unidos tentaram nas malogradas negocia&ccedil;&otilde;es que se prolongaram de 1994 a 2005? 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