{"id":21695,"date":"2017-03-08T13:29:53","date_gmt":"2017-03-08T13:29:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.envolverde.com.br\/?p=219679"},"modified":"2017-03-09T13:29:53","modified_gmt":"2017-03-09T13:29:53","slug":"engenheiras-lutam-contra-a-desigualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2017\/03\/ultimas-noticias\/engenheiras-lutam-contra-a-desigualdade\/","title":{"rendered":"Engenheiras lutam contra a desigualdade"},"content":{"rendered":"<p><strong><em><img class=\"alignleft wp-image-219281\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/10.png\" width=\"140\" height=\"140\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/10.png 466w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/10-150x150.png 150w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/10-300x300.png 300w\" sizes=\"(max-width: 140px) 100vw, 140px\" \/>Por Stella Paul, da IPS &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tilonia, \u00cdndia, 9\/3\/2017 \u2013 Em uma manh\u00e3 do ver\u00e3o de 2008, a indiana Magan Kawar decidiu abandonar sua aldeia em busca de trabalho. No dia seguinte, seus sogros a condenaram ao ostracismo. \u201cEstavam com muita raiva\u201d, recordou essa mulher de 52 anos, dois filhos e origin\u00e1ria de Bhawani Khera, 400 quil\u00f4metros a oeste de Nova D\u00e9lhi. \u201cAs mulheres nunca saem sozinhas de suas casas. Deixar a aldeia e trabalhar em um escrit\u00f3rio com homens foi uma desonra. Meus sogros disseram que lhes levei a desgra\u00e7a\u201d, contou.<\/p>\n<p>Kawar saiu rumo a Tilonia, a uma hora de \u00f4nibus de sua aldeia, apesar de seus familiares descontentes e seus vizinhos impactados verem consternados sua partida. Junto com o marido, se converteu em t\u00e9cnica solar em um centro de inova\u00e7\u00e3o rural. Quando seu mundo lhe fechou as portas, seu marido lhe garantiu que \u201cum dia tudo estaria bem\u201d, recordou. Oito anos depois, Kawar, que s\u00f3 havia terminado a terceira s\u00e9rie prim\u00e1ria, \u00e9 uma das principais especialistas em energia renov\u00e1vel da \u00cdndia.<\/p>\n<p>Kawar \u00e9 a principal instrutora do Barefoot College (Universidade P\u00e9s Descal\u00e7os), em Tilonia, um centro de inova\u00e7\u00e3o e capacita\u00e7\u00e3o \u00fanico, onde as mulheres de todo o pa\u00eds e do mundo se especializam em tecnologia solar. A Universidade foi criada h\u00e1 quatro d\u00e9cadas por Bunker Roy, um educador vision\u00e1rio e ambientalista que imaginou um lugar em que as mulheres com pouca ou nenhuma educa\u00e7\u00e3o formal pudessem adquirir ferramentas para ganhar a vida e se converterem em l\u00edderes de suas comunidades.<\/p>\n<div id=\"attachment_219680\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-219680\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas1-629x420.jpg\" width=\"560\" height=\"374\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas1-629x420.jpg 629w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas1-629x420-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas1-629x420-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\">A engenheira Magan Kawar (de v\u00e9u rosa), que apenas concluiu o terceiro ano prim\u00e1rio, ensina suas alunas de diferentes pa\u00edses do mundo sobre a tecnologia solar; j\u00e1 capacitou 900 mulheres de mais de 20 pa\u00edses. Foto: Stella Paul\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o ensinados muitos of\u00edcios, como costura, soldagem e carpintaria, entre outros, mas o programa mais emblem\u00e1tico \u00e9 um curso semestral de tecnologia solar. O curso aceita mulheres maiores de 35 anos, principalmente de comunidades econ\u00f4mica e socialmente ignoradas de \u00e1reas sem eletricidade. S\u00e3o dois centros de aprendizagem separados, para as indianas e para as estrangeiras, chamadas \u201cmam\u00e3es solares\u201d. Cada uma delas \u00e9 escolhida por sua comunidade e enviada ao instituto por seus respectivos governos, e recebem bolsa do governo indiano, que cobre sua estadia no <em>campus<\/em> e a alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atualmente h\u00e1 30 mam\u00e3es solares de 13 pa\u00edses da \u00c1sia e da \u00c1frica, entre os quais se destacam \u00cdndia, Myanmar (Birm\u00e2nia), S\u00edria, Mali, Serra Leoa e Botsuana. O \u00faltimo grupo de estudantes se formar\u00e1 no dia 15 deste m\u00eas, quando receber\u00e3o US$ 700 como pagamento pelos meses que estiveram estudando. Para muitas, \u00e9 uma quantia que poder\u00e3o empregar como capital para iniciar um neg\u00f3cio em suas comunidades. As que se formaram em fevereiro receberam uma lanterna solar, fabricada pelas t\u00e9cnicas do instituto.<\/p>\n<p>O circuito da lanterna \u00e9 complexo, com dezenas de <em>microchips<\/em> eletr\u00f4nicos conectados entre si em uma pequena placa com pouco mais de dez cent\u00edmetros. Ensinar essa complexa tecnologia, quando nem os professores nem as alunas falam ingl\u00eas ou qualquer outro idioma comum, pode parecer um enorme desafio, mas n\u00e3o para as instrutoras da P\u00e9s Descal\u00e7os, que t\u00eam sua pr\u00f3pria metodologia inovadora.<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7amos fazendo uma lista das partes e dos equipamentos mais importantes e dizemos a cada estudante que memorize. Isso \u00e9 fundamental. Depois, nos comunicamos assinalando as partes, os sinais e as a\u00e7\u00f5es\u201d, explicou Kawar. \u201cPor exemplo, pego uma placa de circuito, indico uma parte e digo pressionem. Ou pego um cabo da fonte de energia de teste, mostro \u00e0s alunas e digo teste de energia, e elas copiam\u201d, acrescentou.<\/p>\n<div id=\"attachment_219681\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-219681\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas2.jpg\" width=\"560\" height=\"374\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas2.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas2-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas2-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> Amarmani Oraon \u00e9 uma ind\u00edgena analfabeta da atribulada regi\u00e3o de Chhattisgarh, na \u00cdndia, que aprende a montar o circuito para uma lanterna solar. Foto: Stella Paul\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o entregues certificados porque o lugar n\u00e3o objetiva ser um centro formal de educa\u00e7\u00e3o. Em troca, se coloca em pr\u00e1tica um m\u00e9todo \u201cmuito, muito simples\u201d, que fomenta uma educa\u00e7\u00e3o que \u201crealmente empodera\u201d, pontuou Bunker Roy, tamb\u00e9m diretor da Universidade.<\/p>\n<p>\u201cImagine uma mulher que nunca saiu de sua aldeia, n\u00e3o sabe ler nem escrever, pegar um avi\u00e3o e viajar 19 horas para chegar a um pa\u00eds desconhecido, com comida diferente, idioma diferente e em seis meses se tornar engenheira solar mediante a linguagem de sinais. Sabe mais de engenharia do que um universit\u00e1rio rec\u00e9m-formado. O que pode ser mais gratificante do que isso?\u201d, destacou Roy.<\/p>\n<p>Elizabeth Halauafu, de 42 anos, chegou de Tonga, uma pequena na\u00e7\u00e3o insular no Oceano Pac\u00edfico, considerada a mais vulner\u00e1vel do mundo devido \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar em raz\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Mas que n\u00e3o adotou com rapidez as medidas de adapta\u00e7\u00e3o, como o uso de energias renov\u00e1veis. Quanto Tonga finalmente decidir assumir seu papel e redobrar esfor\u00e7os na luta contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, ela poder\u00e1 ser uma das pioneiras em tecnologia solar gra\u00e7as \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o da Universidade P\u00e9s Descal\u00e7os.<\/p>\n<p>\u201cAprendi sobre instala\u00e7\u00f5es solares e posso armar circuitos, montar e reparar luzes solares\u201d, disse Elizabeth. \u201cQuando regressar a Tonga, gostaria de conseguir um trabalho em que possa usar minhas habilidades. Meu marido e eu talvez comecemos um empreendimento solar\u201d, acrescentou, antes de afirmar que chegar\u00e1 ao seu pa\u00eds no come\u00e7o da \u00e9poca de tempestades oce\u00e2nicas, quando a eletricidade escasseia.<\/p>\n<p>As mam\u00e3es solares Hala Nasif e Azhar Sarhan vieram de Damasco. O governo pode tentar apresentar a capital da S\u00edria como um o\u00e1sis em um pa\u00eds afetado pela guerra, mas a realidade no terreno \u00e9 muito diferente: h\u00e1 apag\u00f5es com frequ\u00eancia e todos vivem com medo de um colapso da rede el\u00e9trica. A tecnologia solar n\u00e3o \u00e9 muito popular, mas logo poder\u00e1 ser a \u00fanica fonte de eletricidade se a guerra n\u00e3o terminar logo, observaram Nasif e Sarhan. \u201cEstranho a casa e a comida, mas ver outras mulheres que vieram de lugares dif\u00edceis me faz esquecer minhas pr\u00f3prias dificuldades\u201d, afirmou Nasif.<\/p>\n<div id=\"attachment_219682\" style=\"width: 570px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\"wp-image-219682\" src=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas3.jpg\" width=\"560\" height=\"374\" srcset=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas3.jpg 640w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas3-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/descalzas3-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><p class=\"wp-caption-text\"><br \/> As mulheres de aldeias rurais na \u00cdndia usam lanternas solares fabricadas por m\u00e3es formadas na Universidade P\u00e9s Descal\u00e7os de Tilonia. Foto: Stella Paul\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lila Devi Gujjar, tamb\u00e9m instrutora na universidade, ressaltou que a maioria das estudantes carrega uma dor enorme. E explica que \u201cmuitas sobreviveram ao abuso, \u00e0 viol\u00eancia e est\u00e3o quebradas espiritualmente. Mas aqui encontram uma forma de esquecer o passado e renovar a esperan\u00e7a de reconstruir suas vidas\u201d.<\/p>\n<p>Kawar contou o caso de Chantal, uma estudante da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, que foi estuprada v\u00e1rias vezes. \u201cEra sua primeira fuga da viol\u00eancia. Primeiro chorou durante dias, depois se entregou aos estudos. De alguma forma, nosso ambiente de aprendizagem informal foi reconfortante para ela\u201d, indicou. \u201cDe alguma forma nos damos conta de que em todo o mundo a vida das mulheres \u00e9 a mesma, com muitas dificuldades, mas juntas podemos reescrever nossa hist\u00f3ria\u201d, apontou.<\/p>\n<p>E Kawar reescreveu a sua hist\u00f3ria h\u00e1 alguns anos, enviando seus dois filhos para a universidade e convidando seus sogros a conhecerem a Universidade P\u00e9s Descal\u00e7os. \u201cChegaram, me viram ensinando e minha sogra disse: \u2018mas s\u00e3o mulheres aprendendo umas com as outras\u2019. Nesse dia ela voltou a me receber na fam\u00edlia\u201d, contou sorrindo Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* Este artigo faz parte da cobertura especial da IPS por ocasi\u00e3o do Dia Internacional da Mulher.<\/em><\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/1-1-canais\/engenheiras-lutam-contra-desigualdade\/\">Engenheiras lutam contra a desigualdade<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/www.envolverde.com.br\/\">Envolverde<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Stella Paul, da IPS &ndash;&nbsp; Tilonia, &Iacute;ndia, 9\/3\/2017 &ndash; Em uma manh&atilde; do ver&atilde;o de 2008, a indiana Magan Kawar decidiu abandonar sua aldeia em busca de trabalho. 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