{"id":2176,"date":"2006-10-09T00:00:00","date_gmt":"2006-10-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2176"},"modified":"2006-10-09T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-09T00:00:00","slug":"pena-de-morte-paquisto-as-inocentes-vtimas-da-tradio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/direitos-humanos\/pena-de-morte-paquisto-as-inocentes-vtimas-da-tradio\/","title":{"rendered":"Pena de morte-Paquist&atilde;o: As inocentes v&iacute;timas da tradi&ccedil;&atilde;o"},"content":{"rendered":"<p>Carachi, Paquist&atilde;o, 09\/10\/2006 &ndash; Rubina Bibi, de 17 anos, foi confinada em um est&aacute;bulo por causa de um delito que n&atilde;o cometeu, na aldeia paquistanesa de Kas Koroona. <!--more--> Morreu em 2005 em circunst&acirc;ncias misteriosas. Vivia com a fam&iacute;lia de seu marido. Perto dali, na aldeia de Gumbat Banda, tamb&eacute;m na Prov&iacute;ncia da Fronteira Noroeste do Paquist&atilde;o, morreu em junho Tayyaba Begum, de 20 anos. Sua fam&iacute;lia a submeteu a torturas, segundo a antrop&oacute;loga Samar Minallah. Moradores da aldeia \u201cme contaram em segredo que Tayyaba morreu um m&ecirc;s e meio depois de se casar\u201d, disse &agrave; IPS Minallah, diretora da organiza&ccedil;&atilde;o de direitos humanos EtnoMeios e Desenvolvimento.<\/p>\n<p>Zarmina Bibi, de 19 anos, contraiu matrim&ocirc;nio em fevereiro de 2006 e, ao que parece, foi assassinada por seu cunhado dois meses depois. Sua sogra assegura que o rifle que a mo&ccedil;a estava limpando disparou acidentalmente. Mas a m&atilde;e de Zarmina acredita que ela foi morta por membros de sua fam&iacute;lia, disse &agrave; IPS a ativista Rafaqat Bibi, de Mardan, que n&atilde;o &eacute; parente de Zarmina nem de rubina. As tr&ecirc;s jovens haviam sido entregues &agrave; for&ccedil;a para fam&iacute;lias com as quais viviam quando morreram, em compensa&ccedil;&atilde;o por um delito cometido pelas suas. Trata-se de uma tradi&ccedil;&atilde;o chamada \u201cswara\u201d, na l&iacute;ngua pashtun, em alguns lugares do Afeganist&atilde;o e na Prov&iacute;ncia da Fronteira Noroeste, e \u201cvanni\u201d na prov&iacute;ncia paquistanesa de Punjab.<\/p>\n<p>Essa pr&aacute;tica se mant&eacute;m no Paquist&atilde;o, apesar de lei que a pro&iacute;be. A entrega for&ccedil;ada das jovens acontece \u201cdesde que tenho mem&oacute;ria, mas o assassinato destas pobres mulheres &eacute; um fen&ocirc;meno praticamente recente\u201d, disse Rafaqt Bibi. A tend&ecirc;ncia remonta a 1998, estimou. \u201cA swara implica uma virtual pena de morte para estas jovens, v&iacute;timas da tradi&ccedil;&atilde;o\u201d, disse &agrave; IPS a diretora da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos do Paquist&atilde;o, Kamila Hayat, desde Lahore. \u201cMesmo nos casos em que n&atilde;o acabam assassinadas, a humilha&ccedil;&atilde;o e o sofrimento que sofrem, &agrave;s vezes por toda a vida, &eacute; terr&iacute;vel. E estas mulheres n&atilde;o s&atilde;o respons&aacute;veis por nenhum crime\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O professor de psicologia cl&iacute;nica Fouzia Naeem, do Instituto de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia de Carachi, procede de uma aldeia da Prov&iacute;ncia da Fronteira Noroeste onde foi instaurada a swara para frear inimizades sangrentas entre cl&atilde;s com d&eacute;cadas de antiguidade. O verdadeiro motivo da maioria dos conflitos sangrentos &eacute; a disputa pela posse da terra, explicou Khan. Para resolver um enfrentamento, a jirga (assembl&eacute;ia de anci&atilde;os da aldeia) decide que uma jovem da fam&iacute;lia do atacante se case com um membro da fam&iacute;lia agredida, para evitar futuros assassinatos.<\/p>\n<p>Inclusive, algumas vezes s&atilde;o entregues meninas com poucos meses como \u201cdinheiro ensang&uuml;entado\u201d, que se casam quando crescem. Se n&atilde;o h&aacute; mulheres na fam&iacute;lia, compra-se uma menina. \u201c&Eacute; como uma condena&ccedil;&atilde;o &agrave; morte\u201d, disse Khan &agrave; IPS. \u201cUma mulher submetida &agrave; swara pode estar viva, mas seu esp&iacute;rito est&aacute; morto. Ela serve como permanente lembran&ccedil;a da morte de um ente querido para a fam&iacute;lia com a qual vive. &Eacute; poss&iacute;vel que nem sempre haja abuso f&iacute;sico, mas uma cicatriz psicol&oacute;gica com a qual tem de viver e que nunca sara\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Minallah estuda este costume desde 2002. No ano seguinte realizou um document&aacute;rio a respeito intitulado \u201cSwara: A bridge Over Troubled Waters\u201d (Swara: Uma ponte sobre &aacute;guas turbulentas). Em um novo projeto de investiga&ccedil;&atilde;o, \u201cSwara: o escudo humano\u201d, a antrop&oacute;loga escreveu: \u201cO &oacute;dio em rela&ccedil;&atilde;o a elas nunca acaba. &Agrave;s vezes, at&eacute; seus filhos sofrem agress&otilde;es verbais. Acredita-se que o casamento por swara serve para estabelecer uma paz duradoura ao unir duas fam&iacute;lias pelo casamento. Mas isso raramente acontece\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Minallah, como Bibi, considera que a quantidade de mulheres mortas em condi&ccedil;&otilde;es estranhas nos &uacute;ltimos anos aumentou. N&atilde;o h&aacute; estat&iacute;sticas sobre o n&uacute;mero de meninas entregues por essa tradi&ccedil;&atilde;o, mas Minallah acredita que &eacute; significativo. Durante sua pesquisa conheceu 60 mulheres casadas pela tradi&ccedil;&atilde;o swara, somente nos distritos de Mardane Swabi. Entre elas, 20 estavam casadas h&aacute; muito tempo, mas as demais foram entregues no mesmo ano em que a ativista soube desses casos.<\/p>\n<p>A Comiss&atilde;o de Direitos Humanos do Paquist&atilde;o registrou 1.242 crimes violentos contra mulheres nos oito primeiros meses de 2005. Por sua vez, a organiza&ccedil;&atilde;o Advogados pelos Direitos Humanos e Assist&ecirc;ncia Legal, com sede em Carachi, contabilizou 31 mil den&uacute;ncias nos &uacute;ltimos cinco anos em todo o pa&iacute;s. Essa estat&iacute;stica n&atilde;o discrimina os delitos \u201cswara\u201d dos outros. V&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade civil realizam pain&eacute;is e reuni&otilde;es informais para conscientizar sobre esse brutal costume, t&atilde;o dif&iacute;cil de eliminar quanto os assassinatos por honra. Al&eacute;m disso, oferecem assist&ecirc;ncia legal gratuita &agrave;s v&iacute;timas. Uma mulher submetida &agrave; swara deve manter sil&ecirc;ncio, porque se revela sua condi&ccedil;&atilde;o seu pai pode ser feito prisioneiro.<\/p>\n<p>Para acabar com esta tradi&ccedil;&atilde;o, o pa&iacute;s deve primeiro eliminar o dom&iacute;nio das jirgas. O poder que estas t&ecirc;m evidencia o fracasso do indel&eacute;vel sistema judicial do Paquist&atilde;o, cujos magistrados costumam demonstrar grande falta de sensibilidade e que depende de uma pol&iacute;cia incapaz de realizar investiga&ccedil;&otilde;es apropriadas. \u201cO governo deve suprimir as panchayats (conselhos locais), as jirgas tribais e outros &oacute;rg&atilde;os tradicionais. As autoridades locais devem atuar de acordo com a lei e deixar de assumir ares de tribunal\u201d, disse Ali Dayan Hasan, investigador da &Aacute;sia setentrional da organiza&ccedil;&atilde;o Human Rights Watch. Mas \u201cestes f&oacute;runs de justi&ccedil;a informal somente podem ser eliminados realmente se o sistema judicial for efetivo\u201d, acrescentou Hasan. O que, no momento, n&atilde;o &eacute; o caso do Paquist&atilde;o. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carachi, Paquist&atilde;o, 09\/10\/2006 &ndash; Rubina Bibi, de 17 anos, foi confinada em um est&aacute;bulo por causa de um delito que n&atilde;o cometeu, na aldeia paquistanesa de Kas Koroona. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/direitos-humanos\/pena-de-morte-paquisto-as-inocentes-vtimas-da-tradio\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2025,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[17],"class_list":["post-2176","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","tag-asia-e-pacifico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2176","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2025"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2176"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2176\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2176"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2176"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2176"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}