{"id":21823,"date":"2018-01-12T21:49:23","date_gmt":"2018-01-12T21:49:23","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/?p=225374"},"modified":"2018-01-12T21:49:23","modified_gmt":"2018-01-12T21:49:23","slug":"a-desigualdade-se-mundializou-entrevista-de-pierre-rosanvallon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2018\/01\/ultimas-noticias\/a-desigualdade-se-mundializou-entrevista-de-pierre-rosanvallon\/","title":{"rendered":"\u201cA desigualdade se mundializou\u201d, entrevista de Pierre Rosanvallon"},"content":{"rendered":"<p>De todas as reflex\u00f5es e livros que apareceram nos \u00faltimos anos sobre a democracia e a crise, o ensaio do professor Pierre Rosanvallon \u00e9 o mais vasto e profundo. No livro A sociedade dos iguais, Pierre Rosanvallon tra\u00e7a a fascinante hist\u00f3ria das pol\u00edticas a favor da igualdade que marcaram os s\u00e9culos XIX e XX ao mesmo tempo em que moderniza o termo com contribui\u00e7\u00f5es reflexivas substanciais.<\/p>\n<p>Pierre Rosanvallon ocupa desde 2001 a c\u00e1tedra de Hist\u00f3ria da Pol\u00edtica Moderna e Contempor\u00e2nea no Coll\u00e8ge de France e \u00e9 tamb\u00e9m diretor da Escola de Altos Estudos em Ci\u00eancias Sociais. Pr\u00f3ximo do Partido Socialista franc\u00eas, Rosanvallon tem como horizonte intelectual a reflex\u00e3o sobre a democracia, sua hist\u00f3ria, o papel do Estado e a justi\u00e7a social nas sociedades contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>Seus livros foram tra\u00e7ando um corpo de reflex\u00f5es que v\u00e3o muito al\u00e9m do j\u00e1 trilhado diagn\u00f3stico do mal. A contrademocracia, a pol\u00edtica na era da desconfian\u00e7a, Por uma hist\u00f3ria conceitual do pol\u00edtico, A legitimidade democr\u00e1tica ou O capitalismo ut\u00f3pico, hist\u00f3ria da ideia de mercado aportam um caudal impressionante de reflex\u00f5es sobre um sistema pol\u00edtico do qual, apesar de tudo, desconhecemos seus impulsos. A sociedade dos iguais responde perfeitamente \u00e0 crise contempor\u00e2nea marcada por uma perigosa dualidade: o avan\u00e7o da democracia pol\u00edtica, dos direitos, e o paulatino desaparecimento do la\u00e7o social que cria e alimenta as sociedades democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Com grande rigor, Rosanvallon esmi\u00fa\u00e7a as teorias da justi\u00e7a promovidas por autores como John Rawls e seu conseguinte ideal: a igualdade de possibilidades e sua aliada principal, a meritocracia. Rosanvallon destaca como entre a revolu\u00e7\u00e3o conservadora encarnada pela ex-primeira ministra brit\u00e2nica Margaret Thatcher e o ex-presidente norte-americano Ronald Reagan e a posterior queda do comunismo surgiu um novo capitalismo que mudou a fase da hist\u00f3ria. Mas esse novo capitalismo destro\u00e7ou a capacidade de os seres humanos viverem e constru\u00edrem juntos como iguais e n\u00e3o apenas como consumidores ou como for\u00e7as majorit\u00e1rias. Rosanvallon moderniza ent\u00e3o o termo igualdade, entendida n\u00e3o como uma quest\u00e3o de distribui\u00e7\u00e3o das riquezas, mas como uma filosofia da rela\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Nesta entrevista ao P\u00e1gina\/12, realizada em Paris, Pierre Rosanvallon aborda aos conte\u00fados essenciais de seu livro. A entrevista \u00e9 de Eduardo Febbro.<\/p>\n<p><strong>Praticamente para onde quer que se olhe, a democracia vive um potente processo de degrada\u00e7\u00e3o. No caso concreto do Ocidente, tem-se a impress\u00e3o de que os valores democr\u00e1ticos mudaram de planeta.<\/strong><\/p>\n<p>Isto se deve ao fato de que, nos \u00faltimos 30 anos, nos pa\u00edses da Europa, nos Estados Unidos e praticamente em todo o mundo, houve um crescimento extraordin\u00e1rio das desigualdades. Podemos inclusive falar de uma mundializa\u00e7\u00e3o das desigualdades. Trata-se de um fen\u00f4meno espetacular. Nos \u00faltimos 20 anos, as diferen\u00e7as entre os pa\u00edses se reduziram. Os lucros m\u00e9dios na China, Brasil ou Argentina foram se aproximando aos da Europa. Entretanto, em cada um destes pa\u00edses as desigualdades aumentaram. O exemplo mais espetacular \u00e9 a China. Ao mesmo tempo em que a China se desenvolvia, as desigualdades se multiplicaram de forma vertiginosa. Este problema diz respeito ao conjunto dos pa\u00edses. A Europa \u00e9 o caso mais emblem\u00e1tico, porque o aumento da desigualdade aparece depois de um s\u00e9culo de redu\u00e7\u00e3o das desigualdades. Entre a Primeira Guerra Mundial e a primeira crise do petr\u00f3leo, nos anos 70, na Europa e nos Estados Unidos houve uma redu\u00e7\u00e3o espetacular das desigualdades. Podemos dizer que, para a Europa, o s\u00e9culo XX foi o s\u00e9culo da redu\u00e7\u00e3o das desigualdades. Agora estamos no s\u00e9culo da multiplica\u00e7\u00e3o das desigualdades.<\/p>\n<p><strong>Neste sentido, voc\u00ea defende que ao mesmo tempo em que a democracia se afirma como regime morre como forma de sociedade sob o peso da desigualdade. O la\u00e7o entre os cidad\u00e3os desaparece.<\/strong><\/p>\n<p>Como regime, a democracia tende a progredir em todo o mundo. Mas sabemos que a democracia se define tamb\u00e9m como uma forma de sociedade, uma sociedade na qual podemos viver juntos, uma sociedade da vida comum, uma sociedade com rela\u00e7\u00f5es de igualdade. A democracia pol\u00edtica do sufr\u00e1gio universal e da liberdade progrediu ao mesmo tempo em que a democracia da sociedade dos iguais perdia vig\u00eancia. Hoje vemos um div\u00f3rcio completo entre o cidad\u00e3o eleitor e o cidad\u00e3o companheiro de trabalho. Na maioria dos pa\u00edses est\u00e3o se multiplicando os guetos, as formas de secess\u00e3o e de separatismo social. A hist\u00f3ria da democracia nos mostra que a democracia tinha como objetivo a constru\u00e7\u00e3o de um mundo comum entre os habitantes de um pa\u00eds. Hoje vemos a multiplica\u00e7\u00e3o dos mecanismos de fechamento sobre si mesmo. Isso \u00e9 muito perigoso, porque se a dist\u00e2ncia entre a democracia pol\u00edtica e a democracia social continuar a se aprofundar, \u00e9 a pr\u00f3pria democracia pol\u00edtica que corre um grande perigo.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea chama esse processo de \u201cdesgarramento democr\u00e1tico\u201d. Em suma, o desgarramento da democracia \u00e9 o desaparecimento do la\u00e7o entre os componentes da sociedade.<\/strong><\/p>\n<p>O grande problema da sociedade moderna est\u00e1 no fato de que \u00e9 uma sociedade de indiv\u00edduos. Mas esses indiv\u00edduos devem formar uma sociedade todos juntos. Os indiv\u00edduos querem ter sucesso em sua vida individual, querem ser reconhecidos pelo que s\u00e3o, pelo que h\u00e1 de espec\u00edfico. Mas isto implica saber compor com essas singularidades e oferecer um marco comum. E \u00e9 precisamente esse marco comum que nos est\u00e1 faltando. Por conseguinte, essa demanda de singularidade s\u00f3 se expressa mediante um individualismo galopante. Este problema do indiv\u00edduo est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da modernidade. Desde a revolu\u00e7\u00e3o norte-americana e a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, no final do s\u00e9culo XIX, j\u00e1 estamos em uma sociedade de indiv\u00edduos. O desenvolvimento do capitalismo criou o fen\u00f4meno da classe oper\u00e1ria, do partido de classe. Era ent\u00e3o uma sociedade de indiv\u00edduos que recomp\u00f4s as formas de solidez coletiva. Hoje essas formas j\u00e1 n\u00e3o existem mais. Por qu\u00ea? Porque o que aproxima as pessoas n\u00e3o \u00e9 o mero fato de que as pessoas compartilham uma condi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m o fato de que compartilham trajet\u00f3rias, situa\u00e7\u00f5es. Requer-se hoje outra forma para pensar o la\u00e7o social.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea redefine a no\u00e7\u00e3o de igualdade. Em sua an\u00e1lise \u00e9 preciso abordar a igualdade n\u00e3o como uma redistribui\u00e7\u00e3o das riquezas, mas como uma rela\u00e7\u00e3o social em si.<\/strong><\/p>\n<p>Precisamos que na sociedade haja redistribui\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m solidariedade, mas para que haja solidariedade \u00e9 preciso que antes se tenha o sentimento de que pertencemos a um mundo comum. Foi isso que ocorreu na Europa: se o Estado provid\u00eancia tornou-se t\u00e3o importante \u00e9 porque houve a experi\u00eancia das duas guerras mundiais, \u00e9 porque interveio o medo das revolu\u00e7\u00f5es. Se o Estado provid\u00eancia foi t\u00e3o importante foi porque houve o sentimento de uma desgra\u00e7a vivida em comum, de uma vida em comum que resultou decisiva. Hoje, o que falta \u00e0s nossas sociedades \u00e9 precisamente a possibilidade de refazer o la\u00e7o social. A igualdade \u00e9 uma forma de refazer esse la\u00e7o social. Um fil\u00f3sofo brit\u00e2nico, John Stuart Mill, tomava o exemplo da rela\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres. Mill dizia: a igualdade entre o homem e a mulher n\u00e3o consiste em que sejam os mesmos, em que se pare\u00e7am; a igualdade consiste em que vivam como iguais. O problema de nossas sociedades \u00e9 esse: n\u00e3o vivemos como iguais. E n\u00e3o vivemos como iguais porque h\u00e1 pessoas que vivem em seus bairros fechados, em suas mans\u00f5es rodeadas de muros e alarmes, enquanto outros vivem na pobreza. N\u00e3o vivemos como iguais porque h\u00e1 cada vez menos espa\u00e7os p\u00fablicos, porque se multiplicam os sub\u00farbios, onde pessoas que t\u00eam as mesmas opini\u00f5es, a mesma religi\u00e3o, o mesmo n\u00edvel de vida vivem entre si (e neste sentido os Estados Unidos s\u00e3o um exemplo extraordin\u00e1rio). Temos ent\u00e3o sociedades que est\u00e3o fechadas em si mesmas e n\u00e3o em sociedades onde h\u00e1 um mundo comum. E a igualdade \u00e9 antes de tudo isso: consiste em fazer um mundo comum. Mas esse mundo comum n\u00e3o pode ser constru\u00eddo se as diferen\u00e7as econ\u00f4micas entre os indiv\u00edduos s\u00e3o muito importantes, n\u00e3o se pode fazer um mundo comum se n\u00e3o h\u00e1 respeito pelas diferen\u00e7as, se todo mundo n\u00e3o joga as mesmas regras do jogo. Por isso tentei construir essa ideia de igualdade redefinida como uma rela\u00e7\u00e3o social em torno de tr\u00eas princ\u00edpios: singularidade \u2013 reconhecimento das diferen\u00e7as \u2013, reciprocidade \u2013 que cada um jogue com as mesmas regras de jogo \u2013 e comunalidade \u2013 a constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os comuns. Na hist\u00f3ria do mundo, se as cidades foram centros de liberdade foi porque criaram algo comum entre os indiv\u00edduos. As cidades n\u00e3o foram somente lugares de produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou lugares de circula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o; as cidades estavam organizadas em torno do f\u00f3rum, da pra\u00e7a p\u00fablica e de espa\u00e7os que permitiam a discuss\u00e3o entre uns e outros; \u00e9 isso que hoje est\u00e1 desaparecendo.<\/p>\n<p><strong>Um dos cap\u00edtulos mais profundos de seu livro \u00e9 aquele em que desenvolve uma cr\u00edtica contra as teorias da justi\u00e7a promovidas por autores como John Rawls. Essa teoria da justi\u00e7a, que d\u00e1 legitimidade \u00e0 ideologia da igualdade de possibilidades, \u00e9 para voc\u00ea uma pir\u00e2mide invertida: promove a igualdade, mas acrescenta a desigualdade.<\/strong><\/p>\n<p>Se coloquei a igualdade no centro da minha reflex\u00e3o intelectual foi para p\u00f4r fim a uma vis\u00e3o de progresso social percebida exclusivamente a partir do tema da igualdade de possibilidades. Est\u00e1 claro que a igualdade de possibilidades n\u00e3o existe mais. A ideologia do m\u00e9rito, da virtude, da igualdade de possibilidades, n\u00e3o pode servir para reconstruir sociedades. Por isso critiquei as chamadas teorias da justi\u00e7a. Essas teorias, inclusive atrav\u00e9s daqueles que apresentam as vers\u00f5es mais progressistas dessa teoria, gente como o Pr\u00eamio Nobel de Economia Amartya Sen ou John Rawls, seguem estando inscritas em uma filosofia das desigualdades aceit\u00e1veis enquanto essas desigualdades estiveram articuladas em torno do m\u00e9rito, da a\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. Esse n\u00e3o \u00e9 o modelo da boa sociedade. O modelo da boa sociedade n\u00e3o \u00e9 a meritocracia. O bom modelo \u00e9 o da sociedade dos iguais entendida no sentido de uma sociedade de rela\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos, uma rela\u00e7\u00e3o fundada sobre a igualdade. Temos a impress\u00e3o de que a no\u00e7\u00e3o de igualdade de possibilidades, sobretudo se a definimos de forma radical, pode ser uma vis\u00e3o de esquerda. Todo o combate pol\u00edtico se joga entre a defini\u00e7\u00e3o m\u00ednima e a defini\u00e7\u00e3o radical da ideia da igualdade de possibilidades. Eu digo que devemos desconfiar dessa ideia da igualdade de possibilidades, porque se vamos at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias acabamos justificando as desigualdades e tamb\u00e9m a falta de rea\u00e7\u00e3o contra as desigualdades na medida em que essas desigualdades foram legitimadas. O grande soci\u00f3logo brit\u00e2nico Michael Young foi o primeiro a falar, nos anos 60, da meritocracia, que \u00e9 um velho ideal dos s\u00e9culos XVIII e XIX. Young definia como um pesadelo qualquer pa\u00eds que fosse governado pela meritocracia. E \u00e9 um pesadelo porque ent\u00e3o ningu\u00e9m teria direito a protestar contra as diferen\u00e7as. Se todas as diferen\u00e7as est\u00e3o fundadas sobre o m\u00e9rito, aquele que tem uma condi\u00e7\u00e3o inferior \u00e9 por sua culpa. Trata-se ent\u00e3o de uma sociedade onde a cr\u00edtica social n\u00e3o teria mais lugar. Precisamos tomar consci\u00eancia do limite do ideal meritocr\u00e1tico, do limite das teorias da justi\u00e7a, do limite das pol\u00edticas sobre a igualdade das possibilidades. Mesmo que essas teorias tenham seu campo de validade, elas n\u00e3o representam a b\u00fassola que deve orientar uma sociedade para sua transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Os utopistas dos s\u00e9culos XVIII, XIX e XX tamb\u00e9m faziam da igualdade sua aspira\u00e7\u00e3o maior. Voc\u00ea, no entanto, moderniza a ideia da igualdade quando assinala que n\u00e3o se trata de que todo mundo seja igual, mas de viver como iguais partindo da nossa pr\u00f3pria singularidade.<\/strong><\/p>\n<p>Se observamos as utopias escritas nos s\u00e9culos XVIII e XIX, toda a vis\u00e3o da igualdade est\u00e1 fundada sobre a ideia de uma homogeneidade, ou seja, todo o mundo tem que se parecer. Para esses utopistas, a ideia comunista, no sentido comunit\u00e1rio plasmado pela igualdade, era uma ideia fundada sobre o fato de que todo mundo se parecia, de que todos trabalhavam em um mesmo marco. Foi o que se chamou, em uma determinada \u00e9poca, de uma esp\u00e9cie de igualdade de posi\u00e7\u00e3o ou igualdade da uniformidade. Essa vis\u00e3o correspondeu a uma era da humanidade, mas hoje quem gostaria de uma igualdade desse tipo, ou uma igualdade de uniforme para todos, ou uma igualdade que viria a negar as diferen\u00e7as entre os indiv\u00edduos? Esses utopistas n\u00e3o queriam as diferen\u00e7as entre os indiv\u00edduos. Queriam que todo o mundo vivesse no mesmo ritmo, que todos fossem, de alguma maneira, o duplo dos demais. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. Creio que a emancipa\u00e7\u00e3o humana passa hoje pela condi\u00e7\u00e3o de que cada pessoa seja reconhecida pelo que tem de espec\u00edfico. Por conseguinte, a igualdade n\u00e3o pode mais ser a uniformidade, nem a uniformidade de posi\u00e7\u00e3o: a igualdade deve ser uma igualdade da singularidade. Devemos voltar aos fundamentos do que foi a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica moderna: fazer com que reviva em um sentido aut\u00eantico a no\u00e7\u00e3o de igualdade, que n\u00e3o \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de igualitarismo. O igualitarismo \u00e9 a vis\u00e3o aritm\u00e9tica da igualdade. Mas o que eu procuro definir \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o da sociedade, uma ideia da igualdade como rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Para voc\u00ea, a ruptura com a filosofia pol\u00edtica da igualdade \u00e9 uma crise moral e antropol\u00f3gica, algo que vai muito al\u00e9m dos aspectos econ\u00f4micos ou sociais. Voc\u00ea chama a esta situa\u00e7\u00e3o de \u201cdesnacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d da democracia.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 duas defini\u00e7\u00f5es de na\u00e7\u00e3o: por um lado, pode-se conceber a na\u00e7\u00e3o como um bloco definido por uma identidade, pela homogeneidade. \u00c9 a defini\u00e7\u00e3o nacionalista de na\u00e7\u00e3o, para a qual s\u00f3 \u00e9 bom o mundo homog\u00eaneo e a solidariedade s\u00f3 existe se formar um bloco homog\u00eaneo. Para mim, esta \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o arcaica de democracia. A defini\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica de na\u00e7\u00e3o consiste em que a na\u00e7\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o de redistribui\u00e7\u00e3o aceito, no qual as diferen\u00e7as se comp\u00f5em, at\u00e9 mesmo um espa\u00e7o de aprendizagem do universalismo. Quando os Estados nacionais nasceram foi porque houve uma impossibilidade de realizar o universalismo em sua acep\u00e7\u00e3o m\u00e1xima. Como n\u00e3o foi poss\u00edvel fazer o m\u00e1ximo, tratou-se de faz\u00ea-lo a partir do pequeno. A grande ideia democr\u00e1tica de na\u00e7\u00e3o consiste em ser um espa\u00e7o de experimenta\u00e7\u00e3o do universalismo a partir do pequeno. E quem diz experimenta\u00e7\u00e3o do universalismo est\u00e1 falando de experimenta\u00e7\u00e3o da solidariedade, da redistribui\u00e7\u00e3o, da organiza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as para viver em comum.<\/p>\n<p><strong>A modernidade parece encerrada em outro paradoxo. Por exemplo, o mercado \u00e9 bom e ruim, aceito e criticado, desejado e temido. Isto leva \u00e0 ina\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Se a ideia de mercado se imp\u00f4s foi porque se aliou \u00e0 ideia das prefer\u00eancias individuais. E os indiv\u00edduos t\u00eam rela\u00e7\u00f5es amb\u00edguas com o mercado. Se o mercado \u00e9 definido como a ditadura long\u00ednqua do dinheiro contra a vida pessoa e social, a cr\u00edtica do mercado, das bolhas especulativas, \u00e9 aceita por todos. No entanto, se o mercado se apresenta como o campo dos consumidores, como aquele que vai permitir que se pague menos por determinados produtos, nesse caso a atitude frente aos mercados ser\u00e1 menos negativa. Se o mercado aparece como portador de valores como a individualidade, ser\u00e1 aceito mais facilmente. Dali prov\u00e9m a grande contradi\u00e7\u00e3o do mundo moderno. Podemos dizer que o mercado \u00e9 aceito e recha\u00e7ado secretamente. H\u00e1 duas dimens\u00f5es: \u00e9 aceito porque veicula valores ligados ao indiv\u00edduo, porque veicula valores ligados \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do consumidor, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 recha\u00e7ado como sistema global de domina\u00e7\u00e3o que instala uma pot\u00eancia da abstra\u00e7\u00e3o sobre a vida concreta dos indiv\u00edduos. Ningu\u00e9m questiona o fato de que devemos viver em economias de mercado porque \u00e9 uma forma de adequar a riqueza, de organizar os interc\u00e2mbios: n\u00e3o h\u00e1 como objetar isso. Mas, de certa forma, o mercado se torna uma tirania quando deixa de ser um instrumento e se torna um amo dominador. Estar alienado ou dominado significa ter as ideias do inimigo na cabe\u00e7a. Diria que se o poder das oligarquias \u00e9 t\u00e3o forte, deve-se ao fato de que uma parte das suas ideias est\u00e1 na cabe\u00e7a das pessoas. O terreno da batalha das ideias \u00e9 absolutamente essencial. Nunca as oligarquias teriam sido t\u00e3o potentes no mundo contempor\u00e2neo se a ideia do mercado n\u00e3o tivesse penetrado a sociedade atrav\u00e9s de alguns de seus aspectos positivos. A ideia penetrou a sociedade com postulados como a defesa do consumidor ou o sentido do indiv\u00edduo e, de alguma maneira, o mercado ganhou tamb\u00e9m uma forma de ades\u00e3o das pessoas para seus maus aspectos: fez crer que seu lado ruim era insepar\u00e1vel do lado que parece positivo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O capitalismo teve v\u00e1rias etapas. Voc\u00ea tra\u00e7a uma fronteira no modo de funcionar do capitalismo at\u00e9 os anos 70, o que voc\u00ea chama de capitalismo de organiza\u00e7\u00e3o, e a mudan\u00e7a que se produz depois com o capitalismo de inova\u00e7\u00e3o. Quais s\u00e3o as particularidades de ambos?<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo de organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 aquele que triunfou depois da Segunda Guerra Mundial e perdurou durante 30 anos. A for\u00e7a desse capitalismo de organiza\u00e7\u00e3o reside em sua capacidade de domina\u00e7\u00e3o do mercado por parte das empresas e em sua capacidade de organizar as empresas. Pois bem, a partir dos anos 70 passamos do capitalismo de organiza\u00e7\u00e3o ao capitalismo de inova\u00e7\u00e3o. No capitalismo de organiza\u00e7\u00e3o, o valor agregado n\u00e3o era o indiv\u00edduo, nem sequer o diretor geral. Mas, no capitalismo de inova\u00e7\u00e3o o que vai contar \u00e9 o trabalho dos indiv\u00edduos. N\u00e3o se pode imaginar a Microsoft sem seu chefe, a Apple sem Steve Jobs ou o Oracle sem o Alison. Neste novo capitalismo h\u00e1, ent\u00e3o, uma nova rela\u00e7\u00e3o entre a contribui\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos e o sucesso das empresas. Isso acarreta um paradoxo: h\u00e1 uma tend\u00eancia a considerar leg\u00edtimas as desigualdades nos lucros se se aceita que essas desigualdades est\u00e3o ligadas \u00e0 capacidade diferencial de inova\u00e7\u00e3o e \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o que isso representa para as empresas. No capitalismo de inova\u00e7\u00e3o, o trabalhador moderno n\u00e3o \u00e9 apenas um elo, como ocorria com os trabalhadores das f\u00e1bricas. N\u00e3o. Esse trabalhador deve mobilizar-se pessoal e permanentemente para avaliar os problemas ou solucionar as dificuldades. Entramos em uma economia que fez da criatividade e da mobiliza\u00e7\u00e3o sua principal for\u00e7a produtiva. E se a economia fez da criatividade e da mobiliza\u00e7\u00e3o sua principal for\u00e7a produtiva, ent\u00e3o produz-se um excesso que consiste em classificar os indiv\u00edduos segundo sua criatividade e sua suposta mobiliza\u00e7\u00e3o. E digo suposta, porque \u00e9 muito dif\u00edcil explicar por que um diretor ganha 500 vezes mais que um trabalhador. O diretor n\u00e3o contribui 500 vezes mais. Em uma equipe de futebol, \u00e9 f\u00e1cil identificar quem faz os gols; em uma empresa, inclusive se entramos em uma economia de inova\u00e7\u00e3o, o fen\u00f4meno segue sendo coletivo.<\/p>\n<p><strong>Sua obra e sua vida foram consagradas \u00e0 democracia. Voc\u00ea n\u00e3o tem a impress\u00e3o de que j\u00e1 ultrapassamos o estado de perigo e que estamos chegando a uma fase de elimina\u00e7\u00e3o da democracia?<\/strong><\/p>\n<p>Creio que ainda n\u00e3o chegamos ao estado da elimina\u00e7\u00e3o da democracia porque a sociedade espera algo. Vemos muito bem como as sociedades que conheceram uma multiplica\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel das desigualdades s\u00e3o sociedades inst\u00e1veis, que se tornam mais perigosas. A desigualdade tem um custo para todos. Isso \u00e9 muito importante: uma sociedade desigual n\u00e3o tem somente um custo para os pobres. Estes, \u00e9 verdade, s\u00e3o os primeiros concernidos, mas o custo n\u00e3o recai exclusivamente sobre os exclu\u00eddos, mas \u00e9 o conjunto da sociedade que ser\u00e1 afetado, \u00e9 a seguran\u00e7a de todos que \u00e9 afetada, \u00e9 a possibilidade de uma convivialidade que est\u00e1 quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Para voc\u00ea a democracia ainda \u00e9 um regime insuper\u00e1vel.<\/strong><\/p>\n<p>A democracia \u00e9 o regime natural do moderno. Estamos em sociedades que n\u00e3o podem mais ser reguladas pela tradi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se pode dizer que somos regulados pelo poder dos ancestrais. Estamos em sociedades que n\u00e3o podem regular-se recorrendo a uma lei divina. Por conseguinte, estamos em sociedades onde devemos organizar o mundo comum a partir da discuss\u00e3o p\u00fablica. E se \u00e9 t\u00e3o decisivo \u00e9 porque se trata de uma experi\u00eancia que sempre \u00e9 dif\u00edcil. Quem v\u00ea a hist\u00f3ria da democracia como a hist\u00f3ria de um progresso que vai da tirania \u00e0 democracia realizada se equivoca. A hist\u00f3ria da democracia \u00e9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria de sucessos e trai\u00e7\u00f5es. No s\u00e9culo XX, a Europa foi, por um lado, o continente da inven\u00e7\u00e3o da democracia e tamb\u00e9m o continente que viu as piores patologias da democracia. Os totalitarismos foram, em primeiro lugar, uma hist\u00f3ria europeia. O que me fascina na hist\u00f3ria da democracia \u00e9 que \u00e9 a hist\u00f3ria de uma experi\u00eancia fr\u00e1gil e n\u00e3o uma esp\u00e9cie de progresso acumulativo. \u00c9 a hist\u00f3ria de uma experi\u00eancia, de uma indetermina\u00e7\u00e3o, \u00e9 a hist\u00f3ria de um combate que nunca se acaba, de uma luta contra seus fantasmas que n\u00e3o termina de tornar mais clara a delibera\u00e7\u00e3o entre os cidad\u00e3os para que encontrem o caminho de uma vida comum. No fundo, a democracia \u00e9 isso: organizar a vida comum sobre a delibera\u00e7\u00e3o de regras que se fixam e n\u00e3o sobre algo que nos teria sido dado adiantado, como uma heran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Esse \u00e9, para voc\u00ea, o ponto central.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 o ponto central: a democracia \u00e9 uma experi\u00eancia sempre fr\u00e1gil. N\u00e3o podemos nos tornar democratas cr\u00e9dulos: temos que ser democratas atentos, democratas vigilantes. N\u00e3o h\u00e1 democracia sem vigil\u00e2ncia de suas debilidades e dos riscos de manipula\u00e7\u00e3o. O cidad\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente um eleitor. O cidad\u00e3o deve exercer esta fun\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia individual e coletiva. Fonte P\u00e1gina\/12 (#Envolverde)<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/desigualdade-se-mundializou-entrevista-de-pierre-rosanvallon\/\">\u201cA desigualdade se mundializou\u201d, entrevista de Pierre Rosanvallon<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/\">Envolverde - Revista Digital<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De todas as reflex&otilde;es e livros que apareceram nos &uacute;ltimos anos sobre a democracia e a crise, o ensaio do professor Pierre Rosanvallon &eacute; o mais vasto e profundo. No livro A sociedade dos iguais, Pierre Rosanvallon tra&ccedil;a a fascinante hist&oacute;ria das pol&iacute;ticas a favor da igualdade que marcaram os s&eacute;culos XIX e XX ao mesmo tempo em que moderniza o termo com contribui&ccedil;&otilde;es reflexivas substanciais. Pierre Rosanvallon ocupa desde 2001 a c&aacute;tedra de Hist&oacute;ria da Pol&iacute;tica Moderna e Contempor&acirc;nea no Coll&egrave;ge de France e &eacute; tamb&eacute;m diretor da Escola de Altos Estudos em Ci&ecirc;ncias Sociais. Pr&oacute;ximo do Partido Socialista franc&ecirc;s, Rosanvallon tem como horizonte intelectual a reflex&atilde;o sobre a democracia, sua hist&oacute;ria, o papel do Estado e a justi&ccedil;a social nas sociedades contempor&acirc;neas. Seus livros foram tra&ccedil;ando um corpo de reflex&otilde;es que v&atilde;o muito al&eacute;m do j&aacute; trilhado diagn&oacute;stico do mal. A contrademocracia, a pol&iacute;tica na era da desconfian&ccedil;a, Por uma hist&oacute;ria conceitual do pol&iacute;tico, A legitimidade democr&aacute;tica ou O capitalismo ut&oacute;pico, hist&oacute;ria da ideia de mercado aportam um caudal impressionante de reflex&otilde;es sobre um sistema pol&iacute;tico do qual, apesar de tudo, desconhecemos seus impulsos. A sociedade dos iguais responde perfeitamente &agrave; crise contempor&acirc;nea marcada por uma perigosa dualidade: o avan&ccedil;o da democracia pol&iacute;tica, dos direitos, e o paulatino desaparecimento do la&ccedil;o social que cria e alimenta as sociedades democr&aacute;ticas. Com grande rigor, Rosanvallon esmi&uacute;&ccedil;a as teorias da justi&ccedil;a promovidas por autores como John Rawls e seu conseguinte ideal: a igualdade de possibilidades e sua aliada principal, a meritocracia. Rosanvallon destaca como entre a revolu&ccedil;&atilde;o conservadora encarnada pela ex-primeira ministra brit&acirc;nica Margaret Thatcher e o ex-presidente norte-americano Ronald Reagan e a posterior queda do comunismo surgiu um novo capitalismo que mudou a fase da hist&oacute;ria. Mas esse novo capitalismo destro&ccedil;ou a capacidade de os seres humanos viverem e constru&iacute;rem juntos como iguais e n&atilde;o apenas como consumidores ou como for&ccedil;as majorit&aacute;rias. Rosanvallon moderniza ent&atilde;o o termo igualdade, entendida n&atilde;o como uma quest&atilde;o de distribui&ccedil;&atilde;o das riquezas, mas como uma filosofia da rela&ccedil;&atilde;o social. Nesta entrevista ao P&aacute;gina\/12, realizada em Paris, Pierre Rosanvallon aborda aos conte&uacute;dos essenciais de seu livro. A entrevista &eacute; de Eduardo Febbro. Praticamente para onde quer que se olhe, a democracia vive um potente processo de degrada&ccedil;&atilde;o. No caso concreto do Ocidente, tem-se a impress&atilde;o de que os valores democr&aacute;ticos mudaram de planeta. Isto se deve ao fato de que, nos &uacute;ltimos 30 anos, nos pa&iacute;ses da Europa, nos Estados Unidos e praticamente em todo o mundo, houve um crescimento extraordin&aacute;rio das desigualdades. Podemos inclusive falar de uma mundializa&ccedil;&atilde;o das desigualdades. Trata-se de um fen&ocirc;meno espetacular. Nos &uacute;ltimos 20 anos, as diferen&ccedil;as entre os pa&iacute;ses se reduziram. Os lucros m&eacute;dios na China, Brasil ou Argentina foram se aproximando aos da Europa. Entretanto, em cada um destes pa&iacute;ses as desigualdades aumentaram. O exemplo mais espetacular &eacute; a China. Ao mesmo tempo em que a China se desenvolvia, as desigualdades se multiplicaram de forma vertiginosa. Este problema diz respeito ao conjunto dos pa&iacute;ses. A Europa &eacute; o caso [&hellip;]<\/p>\n<p>O post <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/desigualdade-se-mundializou-entrevista-de-pierre-rosanvallon\/\">&ldquo;A desigualdade se mundializou&rdquo;, entrevista de Pierre Rosanvallon<\/a> apareceu primeiro em <a rel=\"nofollow\" href=\"http:\/\/envolverde.cartacapital.com.br\/\">Envolverde &#8211; Revista Digital<\/a>.<\/p>\n<p> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2018\/01\/ultimas-noticias\/a-desigualdade-se-mundializou-entrevista-de-pierre-rosanvallon\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2044,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,1],"tags":[1369,1044,1630,3043],"class_list":["post-21823","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-economia","category-ultimas-noticias","tag-desigualdade","tag-educacao","tag-jornalismo","tag-mundo-inter-press-service"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21823","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2044"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21823"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21823\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21827,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21823\/revisions\/21827"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21823"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21823"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21823"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}