{"id":2183,"date":"2006-10-09T00:00:00","date_gmt":"2006-10-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2183"},"modified":"2006-10-09T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-09T00:00:00","slug":"gua-a-escassez-cruza-fronteiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/mundo\/gua-a-escassez-cruza-fronteiras\/","title":{"rendered":"&Aacute;gua: A escassez cruza fronteiras"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 09\/10\/2006 &ndash; Equilibrar a oferta e a demanda de &aacute;gua foi, historicamente, responsabilidade dos governos nacionais. <!--more--> Mas agora a escassez h&iacute;drica atravessa fronteiras por causa do com&eacute;rcio internacional de cereais. Produzir uma tonelada desses alimentos consome mil toneladas de &aacute;gua. Assim, import&aacute;-los &eacute; a maneira mais eficiente de importar &aacute;gua. Os pa&iacute;ses usam cereais para balancear suas contas h&iacute;dricas. De modo semelhante, comercializ&aacute;-los no futuro &eacute;, de certo modo, faz&ecirc;-lo com a &aacute;gua no futuro. A falta de &aacute;gua j&aacute; prejudica as colheitas em alguns pa&iacute;ses, entre eles a China, maior produtora mundial de cereais.<\/p>\n<p>O bombeamento excessivo reduziu o j&aacute; pouco profundo aq&uuml;&iacute;fero que se estende sob sua plan&iacute;cie setentrional, obrigando os agricultores a recorrerem &agrave;s camadas profundas do aq&uuml;&iacute;fero f&oacute;ssil da regi&atilde;o, cujas reservas s&atilde;o limitadas. Os produtores de trigo em algumas &aacute;reas da plan&iacute;cie agora retiram &aacute;gua a uma profundidade de 300 metros. A produ&ccedil;&atilde;o chinesa de cereais caiu de seu m&aacute;ximo hist&oacute;rico de 392 milh&otilde;es de toneladas, em 1998, para 358 milh&otilde;es de toneladas no ano passado, segundo estimativas. Essa redu&ccedil;&atilde;o de 34 milh&otilde;es de toneladas excede a colheita de trigo canadense. A China cobriu amplamente essa redu&ccedil;&atilde;o apelando para suas outras exist&ecirc;ncias at&eacute; 2004, a ponto de importar sete milh&otilde;es de toneladas de gr&atilde;os.<\/p>\n<p>A escassez de &aacute;gua &eacute; inclusive mais s&eacute;ria na &Iacute;ndia, simplesmente porque a margem entre o consumo real de alimentos e a sobreviv&ecirc;ncia &eacute; muito prec&aacute;ria. As colheitas de trigo e arroz, os principais gr&atilde;os da &Iacute;ndia, ainda aumentam. Mas nos pr&oacute;ximos anos a perda de &aacute;gua de irriga&ccedil;&atilde;o poder&aacute; superar os avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos e diminuir as colheitas em algumas partes do pa&iacute;s, como j&aacute; ocorre na China. Depois de China e &Iacute;ndia, existe uma segunda s&eacute;rie de pa&iacute;ses com grande d&eacute;ficit h&iacute;drico: Arg&eacute;lia, Egito, M&eacute;xico, Ir&atilde; e Paquist&atilde;o, sendo que os tr&ecirc;s primeiros j&aacute; importam boa parte de seus gr&atilde;os. Entretanto, ao mesmo tempo em que a China, o Paquist&atilde;o recorreu abruptamente ao mercado mundial em 2004, para importar 1,5 milh&atilde;o de toneladas de trigo. &Eacute; prov&aacute;vel que suas necessidades de importa&ccedil;&otilde;es aumentem nos pr&oacute;ximos anos.<\/p>\n<p>Oriente M&eacute;dio e &Aacute;frica setentrional \u2013 desde Marrocos, no oeste, at&eacute; o Ir&atilde;, no leste \u2013 se converteram no mercado de importa&ccedil;&atilde;o de cereais de crescimento mais acelerado. A demanda por gr&atilde;os se deve tanto ao r&aacute;pido crescimento da popula&ccedil;&atilde;o quanto ao crescente bem-estar econ&ocirc;mico, produto, em boa parte, das exporta&ccedil;&otilde;es de petr&oacute;leo. Com praticamente cada pa&iacute;s da regi&atilde;o pressionando ao m&aacute;ximo seus limites h&iacute;dricos, a crescente demanda urbana de &aacute;gua pode ser satisfeita somente reduzindo a irriga&ccedil;&atilde;o da agricultura.<\/p>\n<p>Egito, com cerca de 74 milh&otilde;es de habitantes, se tornou grande importador de trigo nos &uacute;ltimos anos. J&aacute; disputa o primeiro lugar com o Jap&atilde;o. Agora, importa 40% de seu consumo total de cereais, propor&ccedil;&atilde;o que cresce &agrave; medida em que o consumo de sua crescente popula&ccedil;&atilde;o supera a colheita irrigada pelo Rio Nilo. A Arg&eacute;lia, com 33 milh&otilde;es de habitantes, importa mais da metade de seus gr&atilde;os, o que significa que a &aacute;gua incorporada ao cereal importado excede o uso de &aacute;gua de origem para todo prop&oacute;sito. Devido &agrave; sua forte depend&ecirc;ncia das importa&ccedil;&otilde;es, a Arg&eacute;lia &eacute; particularmente vulner&aacute;vel a qualquer varia&ccedil;&atilde;o do mercado mundial de gr&atilde;os.<\/p>\n<p>No total, a &aacute;gua necess&aacute;ria pra produzir cereais e outros produtos agr&iacute;colas importados pelo Oriente M&eacute;dio e &Aacute;frica setentrional no ano passado igualaram o fluxo anual do Rio Nilo na represa de Aswan. Assim, o d&eacute;ficit h&iacute;drico da regi&atilde;o representa outro Nilo fluindo na regi&atilde;o sob a forma de gr&atilde;os importados. Costuma-se dizer que as futuras guerras no Oriente M&eacute;dio ser&atilde;o travadas mais por causa da &aacute;gua do que pelo petr&oacute;leo, mas a competi&ccedil;&atilde;o h&iacute;drica j&aacute; &eacute; evidente nos mercados mundiais de gr&atilde;os. S&atilde;o os pa&iacute;ses financeiramente mais fortes \u2013 n&atilde;o necessariamente aqueles que o s&atilde;o do ponto de vista militar \u2013 os que ficaram melhor situados nesta competi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Saber onde amanh&atilde; estar&atilde;o concentradas as exporta&ccedil;&otilde;es de cereais requer olhar quais regi&otilde;es e pa&iacute;ses sobrem hoje com o d&eacute;ficit h&iacute;drico. At&eacute; agora, os que importam boa parte de seus gr&atilde;os t&ecirc;m sido os menores. Agora o d&eacute;ficit cresce rapidamente, tanto na China quanto a &Iacute;ndia, cada um com mais de um bilh&atilde;o de habitantes. A cada ano se amplia a brecha entre o consumo mundial de &aacute;gua e seu fornecimento sustent&aacute;vel. Tanto a redu&ccedil;&atilde;o do aq&uuml;&iacute;fero quanto o desvio da &aacute;gua para as cidades contribuir&aacute; com o crescente d&eacute;ficit de irriga&ccedil;&atilde;o e, portanto, com uma escassez maior em pa&iacute;ses com poucas reservas h&iacute;dricas. O bombeamento excessivo para satisfazer a crescente demanda de alimentos garante uma queda da produ&ccedil;&atilde;o agropecu&aacute;ria no futuro, quando os aq&uuml;&iacute;feros estiverem esgotados.<\/p>\n<p>Por isso, muitos pa&iacute;ses criam uma \u201ceconomia de bolha alimentar\u201d. Segundo esse crit&eacute;rio, a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos &eacute; inflada artificialmente pela extra&ccedil;&atilde;o insustent&aacute;vel de &aacute;gua subterr&acirc;nea. Os efeitos n&atilde;o foram &oacute;bvios quando os agricultores come&ccedil;aram a bombear &aacute;gua em grande escala h&aacute; poucas d&eacute;cadas. A grande conveni&ecirc;ncia de usar com essa finalidade os len&ccedil;&oacute;is subterr&acirc;neos sem apelar para sistemas de &aacute;gua superficial em grande escala &eacute; que os produtores podem regar cultivos somente quando &eacute; necess&aacute;rio, maximizando a efici&ecirc;ncia. Al&eacute;m disso, a &aacute;gua subterr&acirc;nea tamb&eacute;m est&aacute; dispon&iacute;vel na esta&ccedil;&atilde;o seca, o que permite a muitos agricultores de regi&otilde;es temperadas duplicar seus cultivos.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, 37% da &aacute;gua de irriga&ccedil;&atilde;o s&atilde;o subterr&acirc;neos. O restante procede de fontes da superf&iacute;cie. Tr&ecirc;s grandes produtores de cereais \u2013 os Estados do Texas, Kansas e Nebraska \u2013 obt&ecirc;m, a cada ano, entre 70% e 90% de sua irriga&ccedil;&atilde;o do aq&uuml;&iacute;fero Ogallala, de origem f&oacute;ssil com pouca recarga. A incomum alta produtividade da irriga&ccedil;&atilde;o de fontes subterr&acirc;neas significa que as perdas na produ&ccedil;&atilde;o de alimentos ser&atilde;o desproporcionalmente grandes quando estas reservas se esgotarem. At&eacute; que ponto a escassez h&iacute;drica se traduz em escassez alimentar? Em quais pa&iacute;ses as perdas na &aacute;gua para irriga&ccedil;&atilde;o pela redu&ccedil;&atilde;o de aq&uuml;&iacute;feros redunda em uma queda na produ&ccedil;&atilde;o de cereais?<\/p>\n<p>David Seckler e seus colegas do Instituto Internacional para o Manejo da &Aacute;gua, resumiram dizendo que \u201cmuitos dos pa&iacute;ses mais povoados do mundo \u2013 China, &Iacute;ndia, Paquist&atilde;o, M&eacute;xico e quase todos do Oriente M&eacute;dio e da &Aacute;frica setentrional \u2013 literalmente tiveram um passe livre nas &uacute;ltimas duas ou tr&ecirc;s d&eacute;cadas, esgotando seus recursos subterr&acirc;neos. \u201cO castigo pelo mau manejo deste valioso recurso est&aacute; chegando agora, e n&atilde;o &eacute; exagerado dizer que os resultados poderiam ser catastr&oacute;ficos para estes pa&iacute;ses e para todo o mundo\u201d, acrescentaram.<\/p>\n<p>Como a irriga&ccedil;&atilde;o expandida ajudou a triplicar a colheita mundial de cereais entre 1950 e 2000, n&atilde;o &eacute; surpresa que as perdas de &aacute;gua reduzam as colheitas. Com &aacute;gua para irriga&ccedil;&atilde;o, muitos pa&iacute;ses est&atilde;o em um cl&aacute;ssico modo de exceder e cair. Se os pa&iacute;ses que bombeiam excessivamente suas reservas subterr&acirc;neas n&atilde;o adotarem rapidamente medidas para reduzir o uso da &aacute;gua e estabilizar os balan&ccedil;os h&iacute;dricos, ser&aacute; quase inevit&aacute;vel uma queda na produ&ccedil;&atilde;o de alimentos. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>(*) Lester R. Brown &eacute; presidente do Instituto para as Pol&iacute;ticas da Terra e autor de \u201cPlan B 2.0: Rescuing a Planet Under Stresse and a Civilization in Trouble\u201d (Plano B 2.0: Resgatando um planeta em tens&atilde;o e uma civiliza&ccedil;&atilde;o com problemas).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 09\/10\/2006 &ndash; Equilibrar a oferta e a demanda de &aacute;gua foi, historicamente, responsabilidade dos governos nacionais. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/mundo\/gua-a-escassez-cruza-fronteiras\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":938,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,12,6,4,11],"tags":[],"class_list":["post-2183","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-desenvolvimento","category-direitos-humanos","category-mundo","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2183","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/938"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2183"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2183\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2183"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2183"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2183"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}