{"id":2199,"date":"2006-10-09T00:00:00","date_gmt":"2006-10-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=2199"},"modified":"2006-10-09T00:00:00","modified_gmt":"2006-10-09T00:00:00","slug":"mxico-a-rebelio-pelas-ondas-do-rdio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/america-latina\/mxico-a-rebelio-pelas-ondas-do-rdio\/","title":{"rendered":"M&eacute;xico: A rebeli&atilde;o pelas ondas do r&aacute;dio"},"content":{"rendered":"<p>Oaxaca, M&eacute;xico, 09\/10\/2006 &ndash; \u201cCompanheiros, o inimigo &eacute; o Estado\u201d. <!--more--> Com est&aacute; frase La Ley, saudou sua audi&ecirc;ncia na cidade mexicana de Oaxaca. Esta emissora de r&aacute;dio privada permanece ocupada por ativistas e &eacute; o motor de uma revolta social que mant&eacute;m o governo estadual contra a parede. Tomar &agrave; for&ccedil;a um meio de comunica&ccedil;&atilde;o \u201c&eacute; um delito grave, sabemos, mas n&atilde;o nos deixaram outra alternativa\u201d, se justificou &agrave; IPS o professor \u201cSelvis\u201d, coordenador da emissora, cujas instala&ccedil;&otilde;es s&atilde;o guardadas por cerca de 300 pessoas que acampam rodeadas por trincheiras feitas com sacos de areia, arames e &ocirc;nibus velhos.<\/p>\n<p>\u201cSe o governo optar pela repress&atilde;o sabemos que a r&aacute;dio ser&aacute; a primeira a ser atacada, pois sabe que La Ley nos serve para manter a luta, que &eacute; estrat&eacute;gica para n&oacute;s\u201d, disse o coordenador, que prefere usar seu pseud&ocirc;nimo, pois teme por sua vida. La Ley, que pertence ao privado R&aacute;dio Programas de Oaxaca, est&aacute; ocupada desde o dia 21 de agosto pela Assembl&eacute;ia Popular do Povo de Oaxaca (APPO). Nas ultimas semanas, o edif&iacute;cio onde est&aacute; instalada foi atacado por homens armados, n&atilde;o identificados, em tr&ecirc;s ocasi&otilde;es durante a noite, sendo que em uma delas foi morto o ativista Lorenzo San Pablo.<\/p>\n<p>A APPO &eacute; um movimento formado por mais de 350 organiza&ccedil;&otilde;es sociais de Oaxaca, um dos mais pobres do M&eacute;xico, que surgiu em junho no fragor dos protestos do sindicato local dos professores que se declarou em greve no dia 22 de maio, exigindo melhores sal&aacute;rios. Desde junho, a APPO ocupa a maioria dos pr&eacute;dios da administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica de Oaxaca e mant&eacute;m acampamentos e trincheiras em v&aacute;rias regi&otilde;es desta cidade de mesmo nome, especialmente no centro. Seus lideres advertem que n&atilde;o se mover&atilde;o at&eacute; que o governador Ulises Ruiz, aqu&eacute;m acusam de corrupto, repressor e assassino, renuncie.<\/p>\n<p>\u201cCompanheiros, nosso destino &eacute; a vit&oacute;ria. N&atilde;o devemos fraquejar, temos que nos unir e seguir na luta\u201d, afirmou um locutor ao microfone de La Ley. Atrav&eacute;s da emissora, a APPO informa seus seguidores sobre suas estrat&eacute;gias, convoca mobiliza&ccedil;&otilde;es e recebe dezenas de telefonemas de simpatizantes. Al&eacute;m disso, passam por seus est&uacute;dios lideres sociais, trabalhadores, donas de casa e at&eacute; crian&ccedil;as que falam a favor do levante popular. Suas lideran&ccedil;as, que nunca dizem seus nomes, convocam protestos, criticam duramente o governo nacional do conservador presidente Vicente Fox e o governador Ruiz, membro do hist&oacute;rico Partido Revolucion&aacute;rio Institucional.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m transmitem m&uacute;sicas de cantores identificados com a esquerda, al&eacute;m de discursos de lideres dessa corrente ideol&oacute;gica, como o presidente de Cuba, Fidel Castro, e fazem constantes referencias ao seu colega da Venezuela, Hugo Ch&aacute;vez, destacando suas posi&ccedil;&otilde;es \u201cantiimperialistas\u201d. \u201c&Eacute; ilegal, mas &eacute; valido, a APPO ter ocupado a r&aacute;dio, pois &eacute; uma de suas armas mais efetivas, sem ela, talvez a hist&oacute;ria fosse outra\u201d, disse &agrave; IPS Anabel L&oacute;pez, porta-voz do grupo n&atilde;o-governamental Servi&ccedil;os para uma Educa&ccedil;&atilde;o Alternativa, que h&aacute; 12 anos trabalha em Oaxaca.<\/p>\n<p>Entretanto, L&oacute;pez lamenta que na emissora sejam manejadas \u201cposi&ccedil;&otilde;es fundamentalistas (de esquerda) e que estejam muito fechados\u201d. Mas &eacute; preciso entender que \u201cocuparam a emissora de maneira espont&acirc;nea e que continuam aprendendo a lidar com ela\u201d, acrescentou. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que realizou uma sess&atilde;o na capital mexicana at&eacute; a &uacute;ltima ter&ccedil;a-feira, pediu ao presidente Fox que suspenda as agress&otilde;es contra empresas propriet&aacute;rias de emissoras de r&aacute;dio de Oaxaca, enquanto a Associa&ccedil;&atilde;o Mexicana de Editores de Jornais denunciou que a APPO seq&uuml;estrou esta&ccedil;&otilde;es privadas para utiliz&aacute;-las como \u201cum instrumento de sedi&ccedil;&atilde;o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAqui pode-se ver que as instala&ccedil;&otilde;es de La Ley est&atilde;o intactas, que nosso &uacute;nico interesse &eacute; manter a comunica&ccedil;&atilde;o com o povo. Se nos cortarem est&aacute; possibilidade estaremos em dificuldades\u201d, afirmou Selvis. Na maioria dos acampamentos da APPO h&aacute; receptores de r&aacute;dio sintonizados na emissora, cujos est&uacute;dios localizados a cerca de sete quil&ocirc;metros do centro da capital de Oaxaca est&atilde;o ferreamente vigiados pelos moradores. A seguran&ccedil;a foi refor&ccedil;ada na v&eacute;spera, quando circularam insistentes rumores de que policia e exercito poderiam entrar na cidade para desalojar a APPO, o que, por fim, n&atilde;o aconteceu. Nesta quinta-feira, e depois de v&aacute;rias tentativas in&uacute;teis de negocia&ccedil;&atilde;o, o governo Fox e essa organiza&ccedil;&atilde;o restabeleceram o di&aacute;logo.<\/p>\n<p>Para entrar no pr&eacute;dio da r&aacute;dio, todo visitante deve passar por v&aacute;rias barreiras de seguran&ccedil;a e fazer fila junto a muitas pessoas. Nas portas de acesso h&aacute; cartazes onde se l&ecirc; palavras de ordem contra o governador Ruiz e denuncia do desaparecimento for&ccedil;ado e pris&atilde;o de ativistas. Dentro do edif&iacute;cio, os corredores est&atilde;o cheios de caixas com alimentos e garrafas de &aacute;gua, bem como em muitas das suas salas, ocupadas por cerca de 50 pessoas. A maioria delas dormem no local h&aacute; v&aacute;rias semanas.<\/p>\n<p>\u201cAqui n&atilde;o somos t&eacute;cnicos, mas existe muita solidariedade de quem entende disto e da r&aacute;dio, e eles est&atilde;o nos ajudando a operar a emissora, nos entregam alimentos e cuidam da gente. N&atilde;o esquecemos que h&aacute; pessoas, sic&aacute;rios de Ruiz, que nos querem mortos\u201d, afirmou Selvis. Leonarda Reyes, diretora do n&atilde;o-governamental Centro de Jornalismo e &Eacute;tica P&uacute;blica, disse &agrave; IPS que a ocupa&ccedil;&atilde;o de La Ley merece um castigo, \u201cpois se trata de um atentado &agrave; liberdade de express&atilde;o\u201d.<\/p>\n<p>Entretanto, afirmou que esse fato deve ser colocado no contexto de um problema social e pol&iacute;tico grave, no qual muitos meios de comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deram voz &agrave; APPO ou enfatizaram os ataques contra essa organiza&ccedil;&atilde;o. A rede Oaxaquenha de Direitos Humanos, integrada por v&aacute;rios grupos, entre eles simpatizantes da APPO e, inclusive, membros dessa organiza&ccedil;&atilde;o, com \u201cFlor e Canto\u201d, a Liga Mexicana pela Defesa dos Direitos Humanos e &Ntilde;u\u2019u Ji Kandi, afirmam que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o comerciais locais est&atilde;o, em sua maioria, aliados &agrave;s autoridades.<\/p>\n<p>Reyes identifica esse fato como negativo e atentat&oacute;rio ao livre exerc&iacute;cio dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m afirma que o mesmo se passa co a APPO, que atrav&eacute;s de La Ley s&oacute; d&aacute; voz a um setor, o que se op&otilde;e aos poderes p&uacute;blicos. Um diretor da emissora, que preferiu n&atilde;o se identificar por quest&atilde;o de seguran&ccedil;a, disse &agrave; IPS que a APPO amea&ccedil;ou destruir a r&aacute;dio caso se fa&ccedil;a algo para evitar que opera. \u201cEst&aacute; ocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; um atropelo &agrave; liberdade de empresa e de express&atilde;o, por isso denunciamos criminalmente estas pessoas\u201d, afirmo o representante da entidade propriet&aacute;ria da emissora. Segundo as leis, ocupar &aacute; for&ccedil;a um meio de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; crime grave punido com mais de cinco anos de pris&atilde;o. <\/p>\n<p>O trabalho dos jornalistas em Oaxaca tem sido dif&iacute;cil nos &uacute;ltimos anos. desde 1995, o jornal local Not&iacute;cias sofre agress&otilde;es e enfrenta um conflito sindical cuja origem est&aacute; em sua atitude cr&iacute;tica diante das autoridades. Nas ultimas semanas tamb&eacute;m foi denunciada a agress&atilde;o de v&aacute;rios rep&oacute;rteres da m&iacute;dia local e nacional por parte da pol&iacute;cia e de membros da APPO. A SIP recha&ccedil;ou tais fatos e pediu que sejam investigados. \u2018A comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; uma arma fundamental neste conflito t&atilde;o grave, e isso a APPO j&aacute; entendeu\u201d, afirmou a porta-voz da Servi&ccedil;os para uma Educa&ccedil;&atilde;o Alternativa.<\/p>\n<p>Em maio, o sindicato de professores colocou em funcionamento a \u201cR&aacute;dio Plant&atilde;o\u201d, que tinha alcance de apenas dois quil&ocirc;metros de raio, mas deixou de operar em 14 de junho, quando a pol&iacute;cia atacou militantes da entidade que ocupavam a pra&ccedil;a central de Oaxaca. Durante a repress&atilde;o os policiais destru&iacute;ram os equipamentos da r&aacute;dio. Nesse mesmo dia, estudantes que depois se integraram &agrave; APPO ocuparam a emissora local, a R&aacute;dio Universid. Oito dias depois, as instala&ccedil;&otilde;es dessa emissora foram atacadas a tiros por homens vestidos de preto e com os rostos cobertos, que tamb&eacute;m jogaram &aacute;cido nos transmissores, deixando-os inutilizados.<\/p>\n<p>A APPO, ent&atilde;o, decidiu tomar o Canal 9 de televis&atilde;o, que pertence ao governo do Estado de Oaxaca, de onde foram feitas v&aacute;rias transmiss&otilde;es at&eacute; 20 de agosto. No dia seguinte, policiais fortemente armados dispararam contra os que guardavam a antena de transmiss&atilde;o, ferindo um ativista e destruindo os equipamentos. \u201cN&atilde;o pense que isto &eacute; f&aacute;cil, aqui n&atilde;o estamos brincando com a vida\u201d, assegurou com &ecirc;nfase o coordenador de La Ley. O ataque ao Canal 9 \u201ccausou indigna&ccedil;&atilde;o, fazendo com que de forma espont&acirc;nea os companheiros tomassem uma dezena de emissoras de r&aacute;dio particulares, que tamb&eacute;m nos atacavam de forma injusta, dizendo que somos violentos e nos acusando de n&atilde;o representar ningu&eacute;m\u201d, contou o ativista.<\/p>\n<p>A maioria dessas emissoras foi devolvida aos seus propriet&aacute;rios pouco depois. Mas duas delas, que operam em FM, ficaram em m&atilde;os da APPO. Na quarta-feira, uma das emissoras, a R&aacute;dio Oro, foi abandonada porque seus equipamentos apresentaram defeito, deixando apenas La Ley em opera&ccedil;&atilde;o. \u201cCompanheiro, voc&ecirc; &eacute; jornalista e deve os apoiar, diga que a La Ley deve continuar operando e que os homens de Ruiz n&atilde;o venham nos atacar, pois responderemos com bons golpes\u201d, disse &agrave; IPS Hilda, uma mulher que pernoita no acampamento que guarda a emissora. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oaxaca, M&eacute;xico, 09\/10\/2006 &ndash; \u201cCompanheiros, o inimigo &eacute; o Estado\u201d. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/10\/america-latina\/mxico-a-rebelio-pelas-ondas-do-rdio\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":437,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,11],"tags":[],"class_list":["post-2199","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/437"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2199"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2199\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}