{"id":22,"date":"2005-01-18T00:00:00","date_gmt":"2005-01-18T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=22"},"modified":"2005-01-18T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-18T00:00:00","slug":"microcrdito-os-novos-guetos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/microcrdito-os-novos-guetos\/","title":{"rendered":"Microcr&eacute;dito: Os novos guetos"},"content":{"rendered":"<p>Genebra, 18\/01\/2005 &ndash; Existem novos guetos no mundo. Diferem dos antigos por sua natureza e dimens&otilde;es, e s&atilde;o cada dia mais numerosos. Podem ter a dimens&atilde;o de um sub&uacute;rbio, de um pa&iacute;s, de uma regi&atilde;o ou de um continente. Trata-se, em primeiro lugar, dos chamados Pa&iacute;ses Menos Avan&ccedil;ados (PMA), que s&atilde;o 49 e em sua maior parte se encontram na &Aacute;frica subsaariana. A seguir est&atilde;o os &quot;estados fracassados&quot;, cujo n&uacute;mero flutua de acordo com a evolu&ccedil;&atilde;o de conflitos violentos, interestatais e paraestatais. Por exemplo: Afeganist&atilde;o, Som&aacute;lia, Serra Leoa ou Lib&eacute;ria. Neste mesmo contexto, est&atilde;o os campos de refugiados, algumas popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas e minorias oprimidas. Por &uacute;ltimo, est&atilde;o os bairros pobres das megal&oacute;poles, milhares de bols&otilde;es de mis&eacute;ria que n&atilde;o surgem apenas nos pa&iacute;ses pobres, mas tamb&eacute;m nas na&ccedil;&otilde;es mais opulentas e que alguns chamam de quarto mundo. <br \/> <!--more--> <br \/> Por&eacute;m, somente no Terceiro Mundo se sobrep&otilde;em e acumulam esses fen&ocirc;menos diferentes. Bem al&eacute;m de suas diferen&ccedil;as, os novos guetos t&ecirc;m em comum o fato de englobarem centenas de milh&otilde;es de pessoas que sofrem e lutam diariamente pela sobreviv&ecirc;ncia. A difundida cren&ccedil;a de que a mis&eacute;ria no mundo diminuiu &eacute; err&ocirc;nea. A redu&ccedil;&atilde;o da pobreza destacada nos &uacute;ltimos dados oficiais se deve. em grande parte. &agrave; not&aacute;vel expans&atilde;o da economia chinesa, que cresceu a uma m&eacute;dia superior a 9% durante os anos 90. Entretanto, nesse mesmo per&iacute;odo numerosos pa&iacute;ses em desenvolvimento retrocederam ou ficaram paralisados. Hoje em dia, 54 pa&iacute;ses em desenvolvimento encontram-se mais pobres do que em 1990. <\/p>\n<p> As causas desta degrada&ccedil;&atilde;o s&atilde;o diversas. As causas pol&iacute;ticas s&atilde;o notadas sobretudo nos Estados fracassados. Penso em Som&aacute;lia, Serra Leoa e Lib&eacute;ria, onde o poder se converteu em sin&ocirc;nimo de cleptomania e a corrup&ccedil;&atilde;o corr&oacute;i como grangena todas as engrenagens estatais, ou onde, como na Palestina ocupada, a autoridade nacional foi desmantelada ou destru&iacute;da. Em outros casos, os conflitos violentos constituem o maior obst&aacute;culo ao desenvolvimento. Entre 1990 e 2001, foram registrados 57 grandes conflitos armados em 45 regi&otilde;es diferentes, 13 delas nos pa&iacute;ses mais pobres do mundo. A &Aacute;frica &eacute; o continente mais duramente golpeado, mas nenhuma das regi&otilde;es em desenvolvimento se salva. <\/p>\n<p> No plano econ&ocirc;mico, &eacute; de se notar que durante os mesmos anos 90 a d&iacute;vida externa dos pa&iacute;ses pobres aumentou e os pre&ccedil;os das mat&eacute;rias-primas que estes pa&iacute;ses exportam ca&iacute;ram sem parar. Al&eacute;m disso, as na&ccedil;&otilde;es industrializadas reduziram a ajuda ao desenvolvimento, apesar de em 1970 a Assembl&eacute;ia Geral das Na&ccedil;&otilde;es Unidas ter adotado a resolu&ccedil;&atilde;o 2626 que exorta todos os Estados a dedicarem pelo menos 0,7% de seu produto interno bruto &agrave; ajuda p&uacute;blica para o desenvolvimento. &Eacute; um fato que, 30 anos depois, os pa&iacute;ses mais ricos destinam &agrave; ajuda apenas 0,22% do PIB, enquanto a superpot&ecirc;ncia norte-americana chega a apenas 0,1%. <\/p>\n<p> Entre as causas sanit&aacute;rias se destaca a aids, que nas d&eacute;cadas recentes infligiu um terr&iacute;vel rev&eacute;s ao desenvolvimento. Em 1990, contabilizava-se cerca de dez milh&otilde;es de indiv&iacute;duos contagiados, hoje s&atilde;o quase 42 milh&otilde;es. A aids custou 22 milh&otilde;es de mortes e deixou 13 milh&otilde;es de &oacute;rf&atilde;os. Entre as causas sociais pode-se tratar da exclus&atilde;o de certos grupos &eacute;tnicos &#8211; como em Ruanda &#8211; ou do controle de uma parte do territ&oacute;rio nacional por parte de organiza&ccedil;&otilde;es mafiosas, como na Col&ocirc;mbia ou Birm&acirc;nia. <\/p>\n<p> N&atilde;o pretendo propor solu&ccedil;&otilde;es novas para combater essa praga que &eacute; um dos grandes esc&acirc;ndalos do s&eacute;culo que apenas come&ccedil;ou, mas creio que devemos partir de um princ&iacute;pio. &Eacute; necess&aacute;rio compreender que a luta contra a pobreza n&atilde;o consiste em correr atr&aacute;s de um modelo importado ou imposto do exterior e, tamb&eacute;m, que n&atilde;o se alcan&ccedil;a o desenvolvimento renegando a pr&oacute;pria identidade. O objetivo da luta contra a mis&eacute;ria n&atilde;o consiste apenas em alcan&ccedil;ar um m&iacute;nimo de prosperidade, dignidade e liberdade. Tudo isso se deve conseguir preservando e exaltando a hist&oacute;ria, a cultura, o idioma e as tradi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias. <\/p>\n<p> &Eacute; necess&aacute;rio ter em conta a profunda diversidade das situa&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o podem ser encaradas de maneira semelhante a mis&eacute;ria da popula&ccedil;&atilde;o da Monr&oacute;via durante a guerra civil, a dos habitantes de uma favela e a de um grupo de refugiados. Cada uma dessas situa&ccedil;&otilde;es tem aspectos espec&iacute;ficos e requerem um tratamento pr&oacute;prio. Al&eacute;m disso, e sem subestimar a import&acirc;ncia da a&ccedil;&atilde;o preventiva que se procura privilegiar desde o fim da Guerra Fria, afirmo que devem ser evitadas as interven&ccedil;&otilde;es de urg&ecirc;ncia, pois esse tipo de ajuda &eacute; v&aacute;lida somente a curto prazo. Com demasiada freq&uuml;&ecirc;ncia comprovamos que, superada a crise ou restabelecida a paz, a zona conflitiva em quest&atilde;o &eacute; abandonada &agrave; sua pr&oacute;pria sorte e, portanto, voltar&aacute; a cair na mis&eacute;ria. A luta contra a pobreza deve consistir em uma pol&iacute;tica de longo prazo e ser objeto de continuidade e aten&ccedil;&atilde;o constantes. (IPS\/Envolverde) <\/p>\n<p> (*) Boutros Boutros-Ghali foi secret&aacute;rio-geral da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas entre 1992 e 1996. <\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Genebra, 18\/01\/2005 &ndash; Existem novos guetos no mundo. Diferem dos antigos por sua natureza e dimens&otilde;es, e s&atilde;o cada dia mais numerosos. Podem ter a dimens&atilde;o de um sub&uacute;rbio, de um pa&iacute;s, de uma regi&atilde;o ou de um continente. Trata-se, em primeiro lugar, dos chamados Pa&iacute;ses Menos Avan&ccedil;ados (PMA), que s&atilde;o 49 e em sua maior parte se encontram na &Aacute;frica subsaariana. A seguir est&atilde;o os &quot;estados fracassados&quot;, cujo n&uacute;mero flutua de acordo com a evolu&ccedil;&atilde;o de conflitos violentos, interestatais e paraestatais. Por exemplo: Afeganist&atilde;o, Som&aacute;lia, Serra Leoa ou Lib&eacute;ria. Neste mesmo contexto, est&atilde;o os campos de refugiados, algumas popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas e minorias oprimidas. Por &uacute;ltimo, est&atilde;o os bairros pobres das megal&oacute;poles, milhares de bols&otilde;es de mis&eacute;ria que n&atilde;o surgem apenas nos pa&iacute;ses pobres, mas tamb&eacute;m nas na&ccedil;&otilde;es mais opulentas e que alguns chamam de quarto mundo. <br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/microcrdito-os-novos-guetos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1039,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-22","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1039"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}