{"id":220,"date":"2005-01-23T00:00:00","date_gmt":"2005-01-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=220"},"modified":"2005-01-23T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-23T00:00:00","slug":"direitos-humanos-primeiro-julgamento-distncia-por-genocdio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/direitos-humanos-primeiro-julgamento-distncia-por-genocdio\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos: Primeiro julgamento &agrave; dist&acirc;ncia por genoc&iacute;dio"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 23\/01\/2005 &ndash; Em 1995, suas revela&ccedil;&otilde;es sobre a repress&atilde;o durante a ditadura argentina de 1976-1983 sacudiram o mundo. Quase 10 anos depois, o julgamento na Espanha do ex-marinheiro argentino Adolfo Scilingo se antecipa como um novo marco na hist&oacute;ria do direito internacional em mat&eacute;ria de crimes contra a humanidade. Pela primeira vez um repressor argentino ser&aacute; julgado por &quot;genoc&iacute;dio&quot;, uma figura delitiva que n&atilde;o foi utilizada nem mesmo durante os julgamentos em Buenos Aires dos ex-comandantes do regime da Am&eacute;rica do Sul com mais presos desaparecidos. Tamb&eacute;m pela primeira vez um repressor argentino ser&aacute; julgado por um tribunal estrangeiro &quot;presente&quot;, e n&atilde;o &quot;ausente&quot;, como em outros casos, ou seja, sua condena&ccedil;&atilde;o ser&aacute; efetivamente cumprida nesse pa&iacute;s. E pela primeira vez a justi&ccedil;a de dois pa&iacute;ses (Espanha e Argentina) trabalhar&aacute; em conjunto contra um crime de jurisdi&ccedil;&atilde;o universal.<br \/> <!--more--> <br \/> No julgamento de Scilingo haver&aacute; testemunhas na Espanha e outras em Buenos &Aacute;ries, que ir&atilde;o depor atrav&eacute;s de videoconfer&ecirc;ncia a partir de um tribunal argentino. Assim explicou &agrave; IPS o advogado Carlos Slepoy, argentino residente na Espanha e integrante da Acusa&ccedil;&atilde;o Popular, uma das partes queixosas nesse julgamento, que come&ccedil;a nesta sexta-feira em Madri e que pode se prolongar por v&aacute;rios meses at&eacute; a senten&ccedil;a final. O ex-integrante da Marinha de Guerra causou impacto na Argentina e no mundo quando confessou ter participado dos chamados &quot;v&ocirc;os da morte&quot;, uma pr&aacute;tica da ditadura que consistia em jogar no mar desde avi&otilde;es militares prisioneiros clandestinos, para desaparecer com eles. O testemunho ficou registrado no livro &quot;O v&ocirc;o&quot;, do jornalista e ativista pelos direitos humanos argentino, Hor&aacute;cio Verbitsky, que ser&aacute; uma das testemunhas no julgamento.<\/p>\n<p> Naquele momento, as leis argentinas de Ponto Final e Obedi&ecirc;ncia Devida, aprovadas durante o governo de Ra&uacute;l Alfons&iacute;n (1983-1989) depois dos julgamentos de comandantes, impediam mais processos por viola&ccedil;&atilde;o dos direitos humanos durante a ditadura. Mas em 1997, quando Scilingo viajou &agrave; Espanha para depor perante o juiz Baltasar Garz&oacute;n, ficou detido. Desde ent&atilde;o n&atilde;o p&ocirc;de voltar &agrave; Argentina, embora tenha conseguido ficar fora da pris&atilde;o por alguns meses. &Agrave;s v&eacute;speras do julgamento oral, Scilingo iniciou uma greve de fome, que j&aacute; dura um m&ecirc;s, contra a compet&ecirc;ncia do f&oacute;rum espanhol para tratar de seu caso e reclamando sua repatria&ccedil;&atilde;o para a Argentina. Mas o pedido n&atilde;o foi aceito e o marinheiro arrependido dever&aacute; sentar no banco dos r&eacute;us pesando quase 20 quilos a menos.<\/p>\n<p> &quot;Ser&aacute; a primeira vez que se conseguir&aacute; uma condena&ccedil;&atilde;o por genoc&iacute;dio sobre o que ocorreu na Argentina&quot;, destacou Slepoy, referindo-se aos mais de 13 mil desaparecidos que figuram em registros atualizados da Secretaria de Direitos Humanos do pa&iacute;s. Organismos humanit&aacute;rios calculam que o n&uacute;mero chegou a 30 mil. A qualifica&ccedil;&atilde;o de genoc&iacute;dio jamais foi utilizada em julgamentos contra militares repressores da Argentina e a senten&ccedil;a contra Scilingo pode estabelecer um precedente. A acusa&ccedil;&atilde;o espanhola pede para o acusado 6.626 anos de condena&ccedil;&atilde;o por crimes de genoc&iacute;dio, terrorismo e tortura cometidos durante a repress&atilde;o. O ex-marinheiro, que confessou ter participado de dois &quot;v&ocirc;os&quot; nos quais jogou no oceano Atl&acirc;ntico &quot;entre 15 e 20 pessoas vivas&quot; em cada um, &eacute; acusado de 30 assassinatos, 93 les&otilde;es, 225 atos de terrorismo e 286 torturas.<\/p>\n<p> &quot;&Eacute; considerado participante necess&aacute;rio de todos os delitos cometidos na Esma&quot;, afirmou o advogado de acusa&ccedil;&atilde;o se referindo &agrave; Escola de Mec&acirc;nica da Armada, emblem&aacute;tico centro clandestino de deten&ccedil;&atilde;o, tortura e assassinato durante a ditadura. Calcula-se que por ali passaram cerca de cinco mil prisioneiros. Ser&aacute; a primeira vez que um tribunal estrangeiro julgar&aacute; um repressor argentino &quot;presente&quot;. At&eacute; agora, haviam sido realizados julgamentos &agrave; revelia na Fran&ccedil;a e na It&aacute;lia, mas nesses casos a pena n&atilde;o p&ocirc;de ser aplicada, a n&atilde;o ser que o r&eacute;u coloque os p&eacute;s no pa&iacute;s onde foi condenado. Este primeiro caso ser&aacute; seguido por outro ainda este ano, o processo contra o ex-capit&atilde;o Ricardo Miguel Cavallo, detido no M&eacute;xico em 2000 e extraditado para a Espanha, onde permanece preso.<\/p>\n<p> Slepoy tamb&eacute;m destacou &quot;a grande evolu&ccedil;&atilde;o&quot; que houve em uma d&eacute;cada em mat&eacute;ria de colabora&ccedil;&atilde;o judicial. Nos anos 90, os pa&iacute;ses evitavam o trabalho comum para levar a bom termo esses julgamentos, mas, agora, houve &quot;plena colabora&ccedil;&atilde;o&quot; da Justi&ccedil;a e dos governos dos dois pa&iacute;ses, acrescentou. Na Espanha, o avan&ccedil;o foi obtido com o governo do primeiro-ministro socialista, Jos&eacute; Luis Rodr&iacute;guez Zapatero, e na Argentina com o presidente Nestor Kirchner, que avalizou medidas para acabar com a impunidade da repress&atilde;o ditatorial e, inclusive, ordenou que a Marinha desalojasse a Esma e que o edif&iacute;cio se transformasse em um Museu da Mem&oacute;ria sobre o terrorismo de Estado.<\/p>\n<p> A Justi&ccedil;a Federal argentina, com apoio da chancelaria, preparou uma sala de videoconfer&ecirc;ncias para mais de uma centena de testemunhas. Verbitsky se apresentar&aacute; em Madri junto com Adolfo Perez Esquivel, pr&ecirc;mio Nobel da Paz, e Estela de Carlotto, presidente das Av&oacute;s da Pra&ccedil;a de Maio, entre outros. As Av&oacute;s da Pra&ccedil;a de Maio re&uacute;ne parentes de v&iacute;timas da ditadura. Em Buenos Aires espera-se o depoimento de sobreviventes da Esma, com Miriam Lewin e Cec&iacute;lia Vi&ntilde;as, sindicalistas e dirigentes de direitos humanos como Nora Corti&ntilde;as, presidente da M&atilde;es da Pra&ccedil;a de Maio-Linha Fundadora, outro grupo de familiares de v&iacute;timas. &quot;&Eacute; uma causa universal e com este julgamento vai se marcando um caminho transcendente em mat&eacute;ria de direito internacional. Consolida-se a id&eacute;ia de que os genocidas n&atilde;o podem ter tranq&uuml;ilidade porque onde forem ser&atilde;o julgados, e tampouco seu pa&iacute;s pode lhes servir de ref&uacute;gio&quot;, destacou Slepoy.<\/p>\n<p> A IPS lhe perguntou se este julgamento progrediu porque Scilingo n&atilde;o est&aacute; entre os &quot;peixes gordos&quot; da ditadura, e o advogado afirmou que se trata de &quot;um grande avan&ccedil;o&quot; que dever ser analisado com uma perspectiva hist&oacute;rica. &quot;H&aacute; alguns anos, os militares gozavam de total impunidade, agora encontramos um caminho para avan&ccedil;ar&quot;, salientou. Para Slepoy, esse tr&acirc;nsito &quot;n&atilde;o &eacute; linear&quot; porque o momento hist&oacute;rico n&atilde;o permite obter resultados &quot;absolutos&quot; ou &quot;ideais. Como exemplo citou o caso do ex-ditador chileno general Augusto Pinochet (1973-1990), que embora tenha ca&iacute;do nas redes da justi&ccedil;a internacional, conseguiu sair dela e ainda evita senten&ccedil;as em seu pa&iacute;s.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s ser detido na Gr&atilde;-Bretanha a pedido da Espanha, Pinochet regressou ao Chile, onde est&aacute; sendo submetido a processo por crimes cometidos durante a Opera&ccedil;&atilde;o Condor, uma coordena&ccedil;&atilde;o repressiva entre ditaduras sul-americanas, homic&iacute;dio de opositores, assassinato do general Carlos Prats e sua esposa, e por suas milion&aacute;rias contas em um banco dos Estados Unidos. Entretanto, at&eacute; agora nenhum desses processos contra o general de 89 anos desembocou em condena&ccedil;&atilde;o de cumprimento efetivo. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 23\/01\/2005 &ndash; Em 1995, suas revela&ccedil;&otilde;es sobre a repress&atilde;o durante a ditadura argentina de 1976-1983 sacudiram o mundo. Quase 10 anos depois, o julgamento na Espanha do ex-marinheiro argentino Adolfo Scilingo se antecipa como um novo marco na hist&oacute;ria do direito internacional em mat&eacute;ria de crimes contra a humanidade. Pela primeira vez um repressor argentino ser&aacute; julgado por &quot;genoc&iacute;dio&quot;, uma figura delitiva que n&atilde;o foi utilizada nem mesmo durante os julgamentos em Buenos Aires dos ex-comandantes do regime da Am&eacute;rica do Sul com mais presos desaparecidos. Tamb&eacute;m pela primeira vez um repressor argentino ser&aacute; julgado por um tribunal estrangeiro &quot;presente&quot;, e n&atilde;o &quot;ausente&quot;, como em outros casos, ou seja, sua condena&ccedil;&atilde;o ser&aacute; efetivamente cumprida nesse pa&iacute;s. E pela primeira vez a justi&ccedil;a de dois pa&iacute;ses (Espanha e Argentina) trabalhar&aacute; em conjunto contra um crime de jurisdi&ccedil;&atilde;o universal.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/direitos-humanos-primeiro-julgamento-distncia-por-genocdio\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-220","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=220"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/220\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}